segunda-feira, janeiro 25, 2016

A Igreja Titanic

Quem já viu o famoso filme da tragédia ocorrida em 1912 que deixou afogar e morrer mais de 1.000 pessoas, deve ter presente como poucas vidas foram salvas. Diz a história que eram poucos barcos salva-vidas, mas que havia neles lugar para mais 470 pessoas além das que foram salvas. Só que, para não se incomodarem os mais doutos, ricos e prestigiados ocupantes do barco, os barcos salva-vidas não foram inteiramente ocupados. Quando o barco enfim se afundou, duas dessas pequenas embarcações regressaram para salvar os sobreviventes, mas a maioria já estavam mortos por afogamento ou hipotermia. Conseguiram ainda salvar 9 resistentes. Conta-se que mesmo assim, de entre as pessoas dentro dos barcos, ainda houve quem resmungasse pela atitude dos que quiseram procurar sobreviventes. 
Toda esta situação vem a propósito de uma leitura que fiz há dias e que falava da Igreja como um Titanic. Uma Igreja autorreferencial, voltada para os seus, que tenta a todo o custo salvar-se. Uma Igreja que deixa muitos a afundar porque tem medo de molhar o barco, de o estragar, de correr riscos, de afundar também. Uma Igreja que pode pintar os barcos das melhores cores e apetrechá-los com as melhores máquinas a vapor, mas que esquece a sua missão. Uma Igreja que sabe que deve ir, mas que lhe custa ir e que, por isso, resmunga quando alguém vai. E se vai, muitas vezes já vai tarde. Uma Igreja que tenta aguentar o barco, mas não chega ao cais. Dá que pensar!

16 comentários:

Anónimo disse...

Bom dia,
e é mesmo um bom dia, pois hoje já tive o prazer de me deliciar a ler este novo texto, que "por acaso" vem mesmo a jeito nos dias que correm.
Como sempre, atento aos problemas do dia a dia. É uma verdade muito actual, mas temos que continuar a lutar para chegar a esse cais...
Obrigada pela seu regresso.
Uma boa maneira de começar a semana.
Bjs

Paulina Ramos disse...

Bom dia!
Voltaste com nivel!
Bravo.

Anónimo disse...

Parabéns pelos dez anos de vida.
E já agora, venham mais textos destes...
Um grande abraço!

LPS

Paula Ferrinho disse...

Gostei muito deste seu post e desta analogia que faz com o Titanic.
Subscrevo, claro.
Apesar de tudo, há ventos de mudança, pequeninos, quase brisas só, mas há. É o que vale!
Um abraço e parabéns pelo blog!!

Anónimo disse...

Tambem pensava que nunca mais acbava o festejo dos 10 anos vinha todos os dias espreitar pra ver as novidades ate que enfim apareceram e com umas comparaçoes que nos fazem pensar ,continue que vai no bom caminho ,

Anónimo disse...

Sr. Padre, esqueceu-se do mais novo da família??? Estamos quase na Páscoa e causa-me aflição estar sempre a ver o aniversariante ali pendurado sem a fralda mudada e ainda por cima sem jantar!!!

Servir com Alegria disse...

Li e com muito gosto, atualidade de hoje, porque somos poucos, e queremos salvar mas não nos deixam, ou seja ficamos afogados, sem ajuda. Estamos prontos para trabalhar e colaborar, mas os senhores que estão bem confortados nos seus postos de autoridade não deixam, e afastam, porque a Igreja é só deles, a têm que mandar em tudo e ninguém pode ser ajuda na diferença. Jesus Cristo como nos dias de hoje se sente o Amargo do Anuncio, mesmo com os teus discípulos, assim o Sentiste Tu Jesus. Ajuda-nos e ilumina-nos dando-nos a força de não morrermos afogados, deixando tudo e todos, e depois dizem que A Messe é Grande e os Trabalhadores são poucos!!!!.
Grata sou Sr. Padre pelo artigo que deixou e nos provoca este confronto.

JS disse...

Ó Confessionário, diz-me lá: quantos a barca de Jesus pescou em Nazaré?

Havia muitos náufragos no tempo do profeta Elias...

Bernardo Saraiva disse...

Lindo texto. Cabe nos a nós, não deixar este barco afundar. Gosto muito dos seus textos.

Confessionário disse...

JS, e?

JS disse...

E, Confessionário, convém não perder de vista que o problema não está só no barco.

"Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti".

Confessionário disse...

JS, o problema está sobretudo nos que vão no barco

JS disse...

Confessionário, isso quer-me parecer apenas uma outra forma de nos perdermos na auto-referência e no umbiguismo. Já não por comodismos, medos ou instintos de preservação, mas por uma auto-culpabilização mórbida e depressiva. De que só nos libertaríamos se abríssemos mão das próprias convicções, ideais e exigências para nos rendermos à ideologia da "tolerância" e do "acolhimento universal". Uma deriva que ultrapassa a própria Igreja e está a fazer perigar a própria civilização ocidental.

Confessionário disse...

Interessante o teu raciocínio, JS. De facto concordo que em radicalidade, podemos cair nessa forma de auto-culpabilização. Mas também não ponhamos de lado que deveríamos assumir em nós essa fragilidade como ponte para alcançar o outro. Explico-me?!
O Papa Francisco tem alertado muito para essa autorreferencia e diz que prefere uma Igreja enlameada que uma Igreja doente. Eu tb prefiro pensar que corremos riscos em nos autoculpabilizarmos do que em deixarmos os outros morrer. Mas concordo muito contigo. Se estivermos sempre a bater no peito, nao teremos a percebepção da realidade nem nos deixaremos levar ao outro.

Por outro lado, também tenho alguma dificuldade em aceitar, sem mais, a ideologia da "tolerância" como uma ideologia apenas. A tolerância autentica obriga-nos e fazer correcção fraterna com caridade. Assim o "acolhimento universal" agrada-me mais. Nós não somos donos de Deus ou de nós mesmos.

JS disse...

O que eu pretendo sublinhar, Confessionário, é que esse mecanismo de auto-culpabilização é muitas vezes uma maneira de evitarmos confrontar-nos com a verdade, dolorosa e terrível, que advém do acreditarmos a sério na liberdade humana.

E a verdade é que há quem diga não a Deus, quem rejeite o projecto de Cristo, quem seja insensível às moções do Espírito, quem se recuse a entrar na barca de Pedro. Teremos as nossas culpas no cartório (e não são poucas) pelo facto de muitos se afastarem e outros mais ficarem abandonados à sua sorte. Mas há um limite a partir do qual temos de ser realistas: a decisão é deles, a responsabilidade é deles. É isso o que significa a liberdade: escolher e viver as consequências da opção tomada. E as pessoas podem, de verdade, escolher viver sem Deus.

No limite, esta tendência de auto-culpabilização permanente no seio da Igreja leva a imaginar um Cristo que, depois do episódio do domingo passado (a reacção na sinagoga de Nazaré), se senta numa pedra e se põe a reflectir: "Alguma coisa fiz de mal para eles se comportarem assim. Se calhar, devia ter falado doutro modo. Podia ter sido mais compreensivo com aquelas exigências. Talvez me falte capacidade de acolhimento. De certeza que a culpa foi minha, porque eles até são boa gente e andam apenas um pouco confusos. Vou regressar e pedir desculpa por não lhes ter dito o que eles queriam ouvir. Tenho de conseguir mostrar-lhes que Deus é bom e gosta muito deles! Não posso deixá-los!"
Ridículo? Aparentemente, para muitos, não.

Confessionário disse...

JS, não me confundo com proselitismo. Essa salvação de que falo é mais o estender a mão ao outro. Por isso não tem propriamente a ver com a liberdade da fé. No caso do Titanic, de certeza que ninguém escolheu afogar-se por ser livre. E a Igreja de que falo é aquela Igreja que prefere auto-salvar-se em vez de sujar as mãos porque as dá a quem precisa.