sábado, novembro 08, 2014

comprometidos apenas pelo filho

Lia o jornal do dia, num bar da minha terra, no intervalo dos goles de café matinal, quando um jovem se aproximou cumprimentando-me e indicando que talvez já não me lembrasse dele. De facto a cara tinha algo de familiar, mas a minha memória é muito pequenina. Com cara de envergonhado, disse-lhe que tinha uma ideia, mas que era só isso, uma ideia. Lá me respondeu que era um antigo acólito da paróquia, um daqueles que estivera na minha Missa Solene, aquela que chamamos de primeira. Lembrei-me dele de facto. Tinha traços dessa meninice. Conversa puxa conversa. Onde está agora? Estou em tal sítio. E tu que fazes? Estudas? Não, já estou a trabalhar ali naquela empresa. É pá, como o tempo passa e a gente cresce ou se torna velho. Riamos disso. Eu do crescimento dele e ele, supostamente, da minha velhice. Olhe que até já tenho um filho. Isso é que é bonito, dizia eu, quando me ocorreu, desconfiado, perguntar-lhe se casara. Respondeu que não. Insisti sem complexos nem repreensões, que não gosto dessas coisas mas também não tenho que achar-me dono das certezas. É pá, e então não pensas nunca fazê-lo, isto é, casar-te? Oh, não sei, logo se vê. E foi o Logo se vê que me arrastou para uma série de pensamentos. Esta coisa das uniões de facto está a tornar-se tão banal e tão natural ou comum, que até dói. E o problema não está nelas em si. As pessoas juntam-se porque é menos comprometedor juntarem-se que casarem. Hoje é muito difícil as pessoas comprometerem-se seja com o que for. Neste caso em concreto, eles esquecem que até já têm um compromisso comum, o próprio filho.

31 comentários:

Fm disse...

Nao sou casada no papel. Vou ser mãe muito em breve. Mas antes ainda de pensar ser mãe, já era "casada".

Isto porque nao preciso de um papel, uma promessa perante Deus e a Igreja, amigos e familiares. O maior compromisso é entre mim e o meu marido/companheiro/unido de facto/homem da minha vida. E quando alguém consegue assumir esse compromisso interno e com o outro, é mesmo mais importante do que mostrar para fora.

Agora, a escassos dias de ser mãe, nao me arrependo da decisão. Sei que estamos ca, casados à nossa maneira, mas mais comprometidos que nunca.

E sim, infelizmente acho que a maioria dos casos nao é assim. O medo do compromisso é tão grande que as pessoas fogem. Mas assumem uma vida em comum, como educar uma criança, que é, talvez, o maior compromisso. Como nem se apercebem disso torna-se um ciclo que nao acaba mais...

Paula disse...

parece haver um medo de compromisso e uma sede de liberdade ainda que a liberdade que teêm sejam muitas vezes apenas ilusão, nada mais. para além de que se conhecessem verdadeiramente o matrimónio e vissem, como vejo, pessoas que se sentem mais livres casadas do que solteiras por tudo o que o matrimónio traz...provavelmente repensariam a ideia de casar.

Anónimo disse...


Muitos destes pombinhos fazem o ninho com o dinheiro do banco, aceitam ficar amarrados quarenta anos a um empréstimo, não se coíbem de pôr um ovo ou dois, mas… casar?! Logo se vê!
Se calhar a proliferação das uniões de facto não se deve só à dificuldade das pessoas se comprometerem umas com as outras mas também ao facto de "casar" ter perdido o significado para grande parte delas.


Anónimo disse...

Padre,

hoje nas reacções, se fosse opção, teria clickado fiquei triste... triste com a forma com que aqui se julga os unidos de facto. Pena não ter dados estatísticos sobre a taxa de divórcios vs o fim das relações unidos de facto ao fim de determinados anos de vida em casal. Algo me faz intuir que número de divórcios é superior...
Há algumas semanas ouvia uma homilia que falava nos nãos que se transformavam em sim e dos sims que se transformavam em não...

Quanto ao anónimo 08 nov. 14:32 ""por um ovo ou dois..." está a falar de que pata? que falta de respeito pelos outros...

SL

Anónimo disse...


Querida SL

Não estou a falar em ovos de pata, mas de pombinha!Acha ofensiva a imagem?!
Se lesse com um pouco mais de atenção o meu comentário talvez o percebesse e não ficasse tão melindrada. E, depois, quem está a julgar os unidos de facto? (ou os casados...).
Ai, ai o que vai nessa cabecinha :)!

Eu mim disse...

Nunca é tarde para casar!!
E o casamento é muito mais que assinaturas num papel.
Há tempos toquei num casamento, em que o casal ja tinha 3 filhos e nesse mesmo dia, baptizou a filha mais nova.
Mais recentemente, toquei também um casamento, em que ambos já tinham mais de 50 anos, e resolveram casar. Resolveram unir-se, como casal, fielmente e eternamente a Deus, e tudo da sua vida entregar nas mãos Dele. Hoje em dia, todos têm medo do compromisso. Seja de que tipo fôr! Não compreendem o sacramento do Matrimónio. E como não compreendem, banalizam.

Anónimo disse...

08 Novembro, 2014 09:59

Dizes que é um compromisso só entre ti o teu marido? Pois por isso é que não te casas, pois deveria ser tb um compromisso com Deus

L

Anónimo disse...

08 Novembro, 2014 14:32

Concordo que casar tb perdeu sentido para a maioria das pessoas!

L

Anónimo disse...

SL

Só porque o número de divórcios pode ser maior entre casados que entre Uniões de Facto, já devemos dizer que elas são um casamento?! = teoria do relativismo...

L

Ana Melo disse...

Muito bom assunto. (as farturas dão nestas coisas)

É desanimador! mas ! desanimar não é caminho. Acolher! Acolher! Acolher!

Eu acredito que, Deus também não se queira meter, em casamentos sem caminho. (Deixemos ficar isso para o estado e para as leis dos homens).

Deus é caminho. Mostra-nos o caminho que nos leva a ele, todos os dias na natureza, e na criação (quase não era preciso Bíblia).

As relações de hoje, estão muito longe desse caminho (só um exemplozito; as relações hoje nascem em contextos, “festas/convivios felicidade”, em que não se sabe quem é pai/mãe, filho/filha, em que até os avós são pessoas cheias de vícios, portanto os exageros são o referencial).

Eu acredito que nestes contextos, Deus retira-se, muitas vezes, põe-se mesmo de quarentena.

Esteja preparado, para casamentos, a luz de Deus, mais tardios, se calhar já depois duas ou três espécies de casamentos, quase sempre já com filhos, se calhar já com dois ou três sustos na vida. Sustos estes, porque não nos trouxeram a morte do corpo, nos farão procurar o sentido da vida, nos farão renascer, e farão residualmente, com que os que estão á volta se perguntem porquê.

Quem sabe nos esperem sementeiras de milagres/frutos ao jeito da gravidez tardia, e cheia de graça, de Isabel.

Não desanimemos, não deixemos que se montem bancas de agiotas dento das paredes da igreja. Não deixemos , mesmo no dia da festa, de lembrar que o lixo, papelinhos e os papelotes mais o arroz, devem ser limpos por quem sujou.

Anónimo disse...


Não sei se os casais de hoje têm mais dificuldade em comprometerem-se entre si do que os de antigamente, mas sei que têm maior resistência a casar-se e menor em divorciar-se. O casamento deixou de ser preciso. Não é preciso casar para ter relações sexuais, para viver maritalmente, para licenciar gravidezes, para que os filhos não sejam ostracizados, para ter uma vida independente, para sair de casa dos pais, para amar o companheiro.
Não é preciso manter o casamento, suportando cônjuges bêbados, violentos, mentirosos, perdulários, traidores, ou que se deixou de amar, porque já é possível criar os filhos e subsistir sem eles: existe maior independência financeira, igualdade entre géneros, autonomia de papéis, protecção e aceitação social. Se não é preciso, casar para quê? Para muita gente por uma questão patrimonial e/ou religiosa. Quanto à questão religiosa, acredito que para muitos casais seja importante assumir um compromisso perante Deus, mas não acredito que o matrimónio religioso seja o barómetro do compromisso de amor assumido entre os membros de um casal. Como o amor costuma chegar antes do casamento, também não precisam de Deus para isso.

Anónimo disse...

"Comprometidos apenas pelo filho"

Eis uma questão e tanto.
Toca-me de perto, queima a minha pele que começa a ficar enrugada devido à passagem do tempo.
Casei no civil, quando nasceu o meu filho dirigi-me ao padre da paróquia onde moro e expliquei-lhe que não tinha casado na igreja mas que gostaria de batisar o meu filho na igreja católica.
Sem grandes rodeios perguntou-me porque não aproveitava e recebia também a benção de Deus no meu casamento.
Pensei durante algum tempo até me decidir pela aceitação.
Hoje, à distância de alguns anos, vejo que não teria sido possível suportar estes anos sem essa ideia de que além da fidelidade ao compromisso assumido no papel era devida uma fidelidade a determinados "princípios" que apesar de tudo ainda honrava.
Sei por viver na primeira pessoa que o Amor de que falamos, e que tanto se verbaliza e banaliza, além da vertente "eros" tem também a vertente "Ágape".
Sei que, se a relação entre duas pessoas não tiver por base um compromisso sólido depressa se desmorona.
Conheço uma vertente do "Amor" aquela em que somos apenas meros veículos de transmissão... se isto vem de Deus ou apenas dos valores morais que me norteiam não sei bem, sei que algo mudou com a minha mudança de atitude.
Sei sem sombras de dúvidas que o compromisso mais importante é connosco e não com os outros pois comprometi-me comigo a ajudar o meu marido a "combater" o mal que o habita.
Se renunciei a muita coisa? sim renunciei... renunciei a muitos dos meus "quereres" que após satisfeitos gerariam outros quereres...
Percebi a riqueza que me habita nos valores que professo, sinto um "orgulho" inexplicável.
Teria tanto a dizer acerca deste assunto mas de momento não me sinto confortável para o fazer, ainda não consigo estar muito à vontade para o fazer porque temo.

Confessionário disse...

anónima de 11 Novembro, 2014 12:25

Não tens que temer... além disso, aqui quem te vai apontar dedo?!

Tenho gostado muito de muitas coisas que têm escrito neste post em concreto. Parece-me que poderíamos ir muito mais longe.

Gostei muito da análise que fez 10 Novembro, 2014 21:54...

O que deveríamos pensar é o que é o matrimónio (como sacramento) para nós! Se calhar perdeu-se esse sentido. Ficou-se no tal amor eros de que a 11 Novembro, 2014 12:25 falava...

Que será do matrimónio dentro de poucos anos?

Anónimo disse...

Sem casamento, a família perde-se na sua essência logo à partida...

Anónimo disse...

Existe uma campanha demolidora contra o casamento. Tirando honrosas excepções, para uma grande parte da população, o casamento deixou de ter relevância social e passou a constituir um impedimento para a felicidade individual. Porque as pessoas acham que o casamento as priva de um certo tipo de liberdade que teriam se não estivessem “acorrentadas” a outra pessoa. Algumas até acham que viver em união de facto é que é bom e constitui a garantia do sucesso, porque “cada um só dá o que quer e a mais não é obrigado”… Tudo muito bonito e a condizer com as máximas proclamadas pelas novelas do horário nobre, mas pensando bem, estarão as pessoas realmente interessadas num compromisso a sério e a longo prazo, ou interessadas em preservar uma liberdade que lhes garanta uma saída “limpa” se as circunstâncias mudarem? (e a verdade é que as circunstâncias mudam cada vez mais rápido!...)

Augusta

PR disse...

"Não tens que temer... além disso, aqui quem te vai apontar dedo?!"
Não temo que me apontem o dedo pois ninguém terá nada que me apontar... quando muito podem apelidar-me de tola por continuar a insistir num compromisso no qual deixei de acreditar como relação.
Temo-me a mim... e acho que não é insegurança, mas revolta o que vai ganhando forma dentro de mim.
Raiva misturada com dor.
Tenho "sacrificado" todos os meus quereres em nome de um Amor maior que apenas flui através de mim, na esperança de chegar ao coração do outro... mas não chega.
Estou prestes a bater com a porta e se bem me conheço o dia em que o fizer não haverá mais volta a dar.
Creio que o maior compromisso é de facto o meu filho, tudo o resto não vale a pena, nem a pena nem o papel.

Lucy disse...

sacramento é sinal, não é? Ora duas pessoas que se amam, se respeitam, se ajudem, façam nascer vida ao seu redor, mesmo que não sejam casadas oficialmente, são sinal do amor de Deus (sacramento).

Confessionário disse...

Lucy, cuidado que o sacramento não é apenas um sinal. Isso não é justificação suficiente. E aqui não se trata de um casamento oficial, mas de um sacramento que se chama casamento e acontece no seio de Deus!

Anónimo disse...

http://www.aleteia.org/pt/religiao/conteudo-agregado/papa-francisco-casamento-nao-e-um-desfile-de-moda-5886288087482368

SL

Confessionário disse...

Ó SL; la tas tu. Isso não justifique que o juntar-se seja melhor. Um mal não tira o mal de outro!

Repara, embora eu ache que se tenha de ter muita compreensão nestes caso, não significa que deva dizer que estes casos são o que deveria ser!

Anónimo disse...

Padre,

eu disse alguma coisa?? o link é só uma achega à conversa.

SL

Confessionário disse...

Sim, Sl, foi só uma achega. Entendo. Mas eu praticamente tb so fiz uma achega ao artigo... lol
Beijito

Anónimo disse...


Padre,

Por acaso eu disse que era a favor da uniao de facto em detrimento do casamento?? So nao percebo esta dureza de alguns comentários qdo toca a julgar a uniões de facto. Sobretudo quando sabemos que uma grande percentagem dos casamentos sao celebrados pela igreja catolica pq é bonito... ora se alguem opta por nao casar pq nao vai à igreja, nao comunga, enfim nao pratica a mim isso parece me coerência e não falta de vontade de assumir um compromisso.

Parece me que me enquadro cada vez menos neste blog. Desisto

Sl

Confessionário disse...

SL, não é nenhuma dureza. Tenho imensos amigos e pessoas próximas, mesmo com alguma fé, que optaram por juntar-se. Lido com isso, mas não com leveza. E questionoi-me. Foi o que fiz. Neste texto não falo do que penso desse tipo de casamentos, mas já o disse algumas vezes. É de facto incoerente e concordo contigo. Porém, dizer que se está a ser coerente e ficar-se nisso não basta para dizer-se que seria a situação melhor. E o problema está aí. E então volto à carga, se não é falta de compromisso, que será? Mais, porque as pessoas mudam tanto de parceiros? Porque as pessoas t~em dificuldades em assumir responsabilidades, em aceitar coisas que tenham de ser duradouras?
Eu convivo muito com jovens e diariamente, apesar da sua boa vontade, verifico como têm dificuldade em assumir o mais simples compromisso.
´
De qualquer forma, agora estava a meter-me um pouco contigo. Não pensei que ias levar tão a sério. De facto o assunto é sério, mas o lo era para descomprimires. Afinal eu não estou assim com dureza...

Anónimo disse...

Bjinho para ti tb padre. Deixo de comentar mas nao deixo de ler.

Confessionário disse...

vá lá, Sl, um abraço grande

Confessionário disse...

não deixes de dizer o que pensas só porque alguem possa pensar diferente, mesmo sendo eu. Olha que eu nem tinha lido esse artigo e fizeste-me `lê-lo...

Anónimo disse...

Tenho que comentar é mais forte do que eu... lol

Esta birra que eu tenho com a visão da igreja catolica sobre as uniões de facto não vem de agora...
Em agosto fui madrinha. Qdo preenchi o formulario li uma nota nao pode ser padrinho quem for amancebado...que termo tão perjurativo... ora se eu não sou, conforme descrição da igreja católica, amancebada neste momento tu conheces a razao. Ora diz me tu se sou hoje enqjuanto solteira mais digna do que era há dois anos atrás... isto é completamente descabido

Sl

Confessionário disse...

Mas aí é que está, SL. Tu pões o acento numa visão de um caso particular (e podes até encontrar mais), mas devemos por o acento no geral. Eu posso entender os caso dos "juntos" (essa palavra que tu disseste tb é meio esquisita aos meus ouvidos) dependendo de cada caso. Já casei com autêntico sacramento alguns. Há para ai um texto atrás que fala disso. Não recordo o título.
Mas incomoda-me isso de ser uma coisa já tão banal, ou quase tão normal. E depois quando procuro as razões, esta do "compromisso" é das que me ocorre primeiro.

Paula Ferrinho disse...

Sim, e o tal "arriscar no definitivo", como diz o Papa Francisco, vai caindo por terra, desvirtuando o verdadeiro e maravilhoso sentido que o matrimónio deve ter...
Enfim...

Anónimo disse...

Quando se fala em matrimônio, isso é realmente muito sério, pois é um sacramento de tamanha responsabilidade. E fica meio tortuoso as pessoas ir diante do altar e assumirem até mesmo sem a certeza do que estão a cometer, mas é de tamanha coragem. Que gastam fortunas para mal viverem máximo um ano.
Hoje agradeço a Deus que não cheguei a esse ponto em mentir perante os homens e diante de Dele. Sei das minhas desordens mas somente um de facto. Até tento atender todas as responsabilidades, vou arriscando até onde o meu Deus permitir. Mas é hoje um sonho. Um casamento na minha vida. Mas pode ser em outra passagem ainda tenho esperança. Olha que já pensei em até que se caso me cassa-se eu seria propriedade. Mas nunca é tarde quando encontra a outra metade. Que é raro, por tantas promessas em acreditar em alguém. O sentido de um casamento é quando o amor é verdadeiro e sem regras. Ch M.