segunda-feira, outubro 13, 2014

Deus pouco omnipotente

Ontem, numa mesa de um restaurante, assisti a uma cena que não sei muito bem descrever. Aquilo lembrava um tribunal onde era permitido comer, rir, falar alto, gesticular com os talheres e os punhos em riste. A conversa era audível em todo o restaurante. Pelo menos pareceu-me. Eram quase todos advogados de acusação. Falavam do suposto Deus dos católicos que era uma treta, uma história bem ou mal inventada por um grupinho de gajos de vestido preto até aos pés com interesses económicos. O que me custou mais a engolir não foi “os gajos de preto”. Foi a forma como falavam de Deus. Eu comia um carapau grelhado e a espinha ia-se-me entalando na garganta, o que fez nascer em mim um desejo secreto que já tive outras tantas vezes. Deus havia de intervir. Deus havia de se mostrar a esta gente. Mostrar o seu poder. Mostrar a sua omnipotência para que todos acreditassem. Mas Ele ainda teima em fazer as Suas grandes obras no meio de tanta simplicidade, pequenez e outras vezes até fragilidade. Valha-nos Deus. Porque não dá uma ensaboadela ou uma ensinadela a esta gentinha que usa estes temas para comer um almoço opíparo e divertir-se à custa de assuntos sérios! Já me ocorreu que Deus podia perfeitamente enviar um missilzinho à cabeça de alguns para lhes organizar os miolos. Bem, estou a exagerar, como é óbvio. Não era preciso um míssil. Bastavam uns pozinhos miraculosos. Quer-me parecer que Ele já deve ter usado este remédio e que também não funcionou.
Este Deus não é como os poderosos da terra. Ele, que tudo pode, age com um poder tão pequenino, tão à maneira dos mais pequeninos.
E é assim o Deus da minha fragilidade, da minha pequenez, da minha simplicidade. E se assim não fosse, era apenas o Deus que admiro. O Deus que me faria acreditar. Mas não seria o Deus que amo. Ainda bem que Deus é tão assim.

22 comentários:

Paula disse...

Deus faz-se presente por nós. E agora sempre que ouço dizerem mal de Deus de vaticano tento com calma explicar Deus da forma como o sinto. Não resulta sempre mas vai esclarecendo algumas mentes que veêm a igreja como um negócio rentável.

Anónimo disse...

Boa tarde!
De todas as mensagens que li até agora neste espaço (onde algumas vezes me encontro) esta foi a que menos gostei... deprimiu-me lê-la.
Não sei explicar porquê.

Anónimo disse...


Compreendo as tuas dificuldades em engolir, mas olha que Deus também não é nada fácil de digerir. A mim ainda me dá muitas voltas ao estômago. Admiro as pessoas de fé, mas admiro igualmente os ateus convictos. Os que acham e dizem que Deus é uma treta e que não caiem nessa. Uns e outros estão resolvidos e vivem nessa certeza. Entre uns e outros há pessoas excepcionais e outras que nem por isso. Incomodam-me sim aqueles que têm medo de passar por parvos por terem fé e gozam publicamente daquilo em que acreditam. Deus só é traído por estes.

Anónimo disse...

O título é muito estranho e só isso já dá que pensar...

Ferreira Carvalho disse...

Gostei tanto deste desfecho harmonioso e sentido depois de um desenvolvimento pesado e raivoso! Foi como se de forma literária nos chegasse rajadas de vento e terminasse com uma brisa suave, agradável.
As palavras dos homens do restaurante e do sr. padre (em certa parte)tão rudes, violentas, desarmónicas e o final tão singelo e saboroso.
Parece que, pelo menos neste texto, Deus saiu vitorioso.

Anónimo disse...

O Deus que admiramos é o que Se manifesta mas admiramos também essa sua simplicidade e humanidade como se de nada fosse capaz. Tanto de uma maneira como de outra O amaria porque Ele é só Um o que se manifesta e o que se esconde, o que não se revela e o que se revelará, é Ele mesmo, uma incógnita. Difícil de digerir, mas fácil de distinguir, não é o que queremos nem quando queremos É simplesmente Ele

Confessionário disse...

13 Outubro, 2014 23:39

Muito interessante teu comentário

Anónimo disse...

Essa cena a que assistiu "e que não soube muito bem explicar" deve ter sido mesmo "uma cena"!!!
Mas se calhar esse Deus até interveio, não nesse momento, mas ele é paciente e compreensivo e concerteza esperou para intervir num outro momento que Ele achasse mais adequado.
Eu acho que Ele até em ti interveio, quando estavas a escrever, pois quando se começa a ler, nota-se que estás "zangado",mas conforme vamos continuando a ler tem um fim completamente diferente, diria até sereno.
Então esta frase de (anónimo 13 de Outubro, 2014 - 23,39)
"não é o que queremos nem quando queremos É simplesmente Ele"
é mesmo esclarecedora e brilhante.

Anónimo disse...

Padre, esse tb é o meu Deus. Mas Ele é tão omnipotente!!!

Febe disse...

Passamos Deus pelas grelhas das potências do mundo...mas Ele é o Totalmnte Outro...

Confessionário disse...

Febe, esse conceito teológico é um pouco exagerado. Onde fica a Comunhão?!

gralha disse...

Passo tantas vezes por situações dessas. Estava mesmo a precisar de um post assim, obrigada.

Febe disse...

A comunhão fica nesse Amor que também é Totalmente Outro e que nos espera ardentemente.

Anónimo disse...

Boa tarde Padre.

Se Deus mostrasse uma areia da Sua omnipotência, toda a terra tremia!... Como podemos pedir_Lhe que envie um missilzinho?...
Padre, cuidado!...
Em pouco tempo, passamos ao pó da terra.
Abs.

Confessionário disse...

Febe, e o Totalmente em nós?

Febe disse...

Só o Totalmente Outro ,na Sua Transcendência, se podia tornar uma criancinha de pegar ao colo,para se nos revelar,fazer as "noites transparentes",deixar que a "nossa alma se aconchegasse Nele",morar em todos e em cada um de nós agora e para sempre.

Confessionário disse...

Febe,vamos então à teologia em si. Deves saber que essa teoria é defendida por um teólgo protestante, Karl Barth. Eu já o sabia, mas fui ao Wikipedia, para retirar o que isso significa e aqui vai:

Deus – o Totalmente Outro[editar | editar código-fonte]
Por si mesmo o homem nada pode saber e dizer a respeito de Deus. Só podemos falar verdadeiramente de Deus o que ele mesmo transmitiu. Somente o que Deus revelou de si mesmo pode ser conhecido e comunicado pelo ser humano. A pessoa que pretende falar de Deus a partir de seus sentimentos e de seu raciocínio, está na verdade falando de um ídolo. O verdadeiro Deus é "Totalmente Outro" em relação ao ser humano – em tudo o que a pessoa pensa, sente, deseja, compreende e elabora.

Cquote1.svg "Deus não é um poder ou uma verdade, Deus não é o Ser a ser descoberto pelo próprio ser humano para então lhe outorgar o título de divindade; ao invés, Deus é aquele que se tornou conhecido do ser humano como seu real Senhor, ao ir ao seu encontro agindo, julgando, perdoando, santificando, prometendo, isto é, ao se revelar a ele." Cquote2.svg

Deus é livre para amar. Nessa sua liberdade e em seu amor, ele deu seu Filho para a reconciliação com os homens, mesmo que o preço fosse a humilhação e a morte na cruz. O mistério de Deus é sua liberdade e seu amor ao se revelar em Jesus Cristo - verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Desde toda eternidade, o Deus vivo decidiu ser o Senhor da aliança - para restabelecer a comunhão com o ser humano. Deus é em sua essência - desde toda a eternidade - o Deus do ser humano. Sem deixar de ser Senhor, sem abandonar sua liberdade - mas em amor ele é o Deus humano. Deus fala e a criatura responde com seu amor e obediência. Deus nunca renuncia à aliança estabelecida com a humanidade. Deus não abandona os homens nem mesmo quando eles se afastam dele. Mesmo se desviando de Deus, o ser humano não perde a imagem de Deus. Apesar de vivermos no mundo marcado pelo pecado, este também é o mundo criado por Deus em Jesus Cristo - que é o Senhor sobre um mundo amado, perdoado e chamado à ressurreição. Deus se deu a conhecer unicamente por intermédio de sua Palavra.

Cquote1.svg "No início, antes deste nosso tempo e antes deste nosso espaço, antes da criação e, portanto antes de uma realidade distinta de Deus, e objeto de seu amor, antes que ela pudesse ser o palco das ações de sua liberdade, Deus antecipou em si mesmo (no poder de seu amor e liberdade, seu conhecimento e seu querer), já determinou como o alvo e o sentido de todo o seu agir com o mundo que ainda não existia: em seu Filho ser gracioso ao ser humano, pois ele queria se comprometer com ele. No início era a eleição do Pai, tornar verdade esta aliança com o ser humano, a quem entregou o seu Filho, para ele próprio se tornar um ser humano para a consumação de sua graça. No início era a eleição do Filho, para ser obediente à graça e entregar-se a si mesmo e tornar-se um ser humano, para que aquela aliança tenha sua realidade. No início era a resolução do Espírito Santo, para que a unidade de Deus, a unidade do Pai e do Filho por intermédio dessa aliança com o seres humanos não seja destruída, muito menos rasgada, muito mais seja mais gloriosa, para que a divindade de Deus, a divindade de sua liberdade e seu amor justamente nessa entrega do Filho se deva confirmar e comprovar. Essa aliança era no início. E como sujeito e objeto dessa eleição estava Jesus Cristo no início. Ele não estava no início de Deus: Deus não tem início algum. Mas ele estava no início de todas as coisas, no início de todo agir de Deus com a realidade que lhe é distinta. Jesus Cristo era a eleição de Deus em relação a esta realidade. Ele era a eleição da graça de Deus dispensada ao ser humano. Ele era a eleição da aliança de Deus com o ser humano." (...)

Confessionário disse...

num outro artigo dos "Novos Diálogo tb se lê, para ser mais simples a abordagem:

http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=252

Deus, o “Totalmente Outro”

Para Karl Barth, um dos grandes erros do liberalismo foi nivelar Deus ao conhecimento humano. Para ele, Deus seria o “totalmente outro”, aquele que só pode ser conhecido por sua própria revelação, no caso, Jesus Cristo. Qualquer pretensão humana seja ela baseada no conhecimento natural, científico, filosófico e até mesmo religioso, não passa de mera idolatria humana. Desta forma, repudiou qualquer tipo de teologia natural durante quase toda sua vida. Esta postura foi sendo abrandada no decorrer dos tempos

(...)

Confessionário disse...

num outro artigo dos "Novos Diálogo tb se lê, para ser mais simples a abordagem:

http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=252

Deus, o “Totalmente Outro”

Para Karl Barth, um dos grandes erros do liberalismo foi nivelar Deus ao conhecimento humano. Para ele, Deus seria o “totalmente outro”, aquele que só pode ser conhecido por sua própria revelação, no caso, Jesus Cristo. Qualquer pretensão humana seja ela baseada no conhecimento natural, científico, filosófico e até mesmo religioso, não passa de mera idolatria humana. Desta forma, repudiou qualquer tipo de teologia natural durante quase toda sua vida. Esta postura foi sendo abrandada no decorrer dos tempos

(...)

Confessionário disse...

Agora o que eu penso ou questiono:

Parto do principio que não conheço o suficiente desta teoria, nem o suficiente das respostas que outros teólogos lhe fizeram. Sei que para o protestantismo é considerado o teólgo por execelência desde S Tomás. quase como para nós nos últimos tempos Karl Ranner.

Este "Totalmente Outro,leva-me a questionar:
- o termos sido criados à Sua Imagem e semelhança
- Como é que Deus poderia ser apenas Deus humano pelo Amor, ou melhor, como é que o amor poderia ser apenas uma característica Sua?
- e a comunhão connosco como é referida tantas vezes, sobretudo nas cartaz paulinas e um pouco nos Actos dos apóstolos?
- que tipo de aliança quis Deus fazer connosco? uma aliança extrínseca?
- Como afirmarmos, assim sendo, que Deus queira habitar em nós, ou que nós sejamos convidados a ser Templo do Espírito Santo?

Bom, não sou propriamente um teólogo no sentido da palavra... mas questiono-me de muitas coisas, e esta teoria do "Totalmente outro", embora seja interessante à partida, a mim deixa-me entrever muitas
desconfianças...

Torno a afirmar que não se tratam de posições, mas de questões minhas...

abraço amigo, Febe, e obrigado por me teres ajudado a reflectir

Anónimo disse...

É certo que ainda não li tudo o que aqui foi escrito, mas estou com alguma dificuldade em perceber esse conceito do Totalmente Outro... Assim de repente ao ler “Passamos Deus pelas grelhas das potências do mundo...mas Ele é o Totalmente Outro...” Penso que só consigo ver Deus como “totalmente Outro”, no sentido em que se Ele não se revelasse totalmente em nós, seria totalmente incompreensível por nós. Acontece que Ele se manifesta em nós de forma compreensível, esse totalmente outro, no sentido em que não podemos abarcar a globalidade da Sua Essência para o conhecer como É, baixa-se a nós, tornando-se totalmente compreensível, porque Ele, esse Outro, se revela totalmente, não à nossa maneira ou gosto, mas totalmente Ele à nossa dimensão e essa dimensão é a nossa humanidade. Deus revela-se em nós não (des)coerente com o que Ele É uma vez que se mantém Ele mesmo e por isso o podemos conhecer, não Outro mas Ele, agora é certo que Ele revela-se na medida em que O podemos conhecer e só nesse sentido em que não O podemos abarcar, Ele é esse totalmente Outro. Não por ser diferente, mas por ultrapassar a possibilidade de se dar a conhecer na Sua verdadeira essência. “A comunhão fica nesse Amor que também é Totalmente Outro e que nos espera ardentemente”… Ora para mim, vejo a comunhão nessa relação que Ele mantém connosco e nós mantemos com Ele. Essa Amor não me parece de um totalmente outro, parece-me totalmente Este, Ele não É um outro para se revelar noutra altura e noutro lugar, porque O Amor revela-se aqui e agora e não é uma uma parca imagem do que É, porque Ele é Todo aqui e agora, Ele é sempre em cada momento Todo, nós é que não abarcamos essa totalidade, é-nos impossível. No entanto o que Ele é Hoje e em nós não o considero Outro, É Ele mesmo, inalcançável, mas real, verdadeiro mas incompreensível, Todo quando só compreendemos a parte, não é um Amor adiado para depois, não é O que nos espera para mais tarde Se revelar, não, Ele revela-se a cada instante nessa relação que mantém connosco, apesar de Ele Ser outro na Sua totalidade, mas não Outro na parcialidade em que se apresenta a nós, por isso, nesta parte que se revela a nós, na que nos é acessível, Ele é Totalmente Ele. E nós reconhecemo-lO, tanto que Ele é sempre coerente, tanto que Ele é sempre reconhecido, tanto que Ele É sempre Ele… é por isso que nem Ele nem O Seu Amor nos engana, É Ele, e sabemos que ainda que só possamos ver uma pequena partícula, essa partícula não é Outra no Todo, será sempre a mesma, a nossa leitura dela no todo é que é diferente, logo Deus não É Totalmente Outro é que Deus É sempre O mesmo em tudo o que se revela, Ele não muda. Deus É totalmente o Mesmo sempre e em toda a parte. Logo Deus é Totalmente em nós, É Todo em nós, ainda que não possamos abarcar esse Todo e isto é um imenso mistério… Contudo acho que vou ler melhor para ver se entendo sobre o que estão a reflectir, talvez eu esteja longe do assunto

Febe disse...

Por tudo o que escreveram é maravilhoso sempre constatar que o Totalmente Outro,com essa ou outra designação semelhante,que já "A nuvem do não saber" fazia conhecer no século XIV,com toda a diferença que existe,mantém uma relação tão íntima e contínua connosco, que atravessa as Escrituras e se plenifica na Encarnação e que apesar de todo os desvios, nos considera a Sua glória,como afirmava Santo Ireneu.
Grata pela atenção.