sábado, janeiro 12, 2013

Os funerais fazem-me dor de estômago

Fico sempre com o coração aos pulos quando vem um funeral. Desarranja-me a vida e às vezes os intestinos. E não há funeral em que o meu coração não pule repetidamente, em tic-tac, e em acelerando. Porque é estranho ver as pessoas de luto, de escuro. Ver as pessoas com lágrimas nos olhos. Muitas vezes aos gritos ou gemidos. Fazermos o trajecto do cemitério. Darmos conta que alguns dos presentes só fazem acompanhamento, mais nada. Antes do funeral olho para baixo, para o trajecto que faço, para ver se me concentro em fazer o que tem de ser feito, dando algum ânimo às pessoas e muita esperança que vem da fé. Tremo quando penso que vem aí um funeral. Basta ver no ecran do telemóvel o número de uma funerária e já estou assim. Só tenho algum alívio quando deixo as pessoas no cemitério e corro para não estar mais lá. Dizem que os médicos, com o tempo, lidam com a doença e as pessoas doentes como se fossem apenas mais uma ou algo que manejam como o agricultor maneja a enxada. Mas eu não sinto que as centenas de funerais que já fiz deixem de pesar e deixem de me fazer sentir aflito. Ainda por cimo acredito na Ressurreição. Às vezes até me parece que acredito mais na Ressurreição que no próprio Deus. Podia dizer a mim próprio que é uma boa ocasião para pregar a Vida Eterna. Mas quer-me parecer que andarei aqui a vida eternamente com dor de estômago cada vez que tenho de fazer um funeral.

10 comentários:

Febe disse...

Isso quer dizer que a rotina não lhe embotou a sensibilidade...Jesus também foi assim!

Avozinha disse...

O meu filho Tiago Cavaco, pastor baptista, fez há dias o seu 2º funeral. Aqui está escrito por ele:

http://vozdodeserto.tumblr.com/post/40088046470/no-funeral-da-irma-manuela-marques

Catarina H disse...

Sempre pode lembrar-se que um funeral, por ser uma situação em que procuramos respostas que mais ninguém nos pode dar, pode despertar a presença de Deus no íntimo daqueles que estão a ouvi-lo. Apesar do sofrimento da perda de alguém muito próximo, as suas palavras foram para mim foi um grande conforto e momento de conversão que mudou a minha vida.
Aconteceu comigo e pode sempre acontecer com outros...
Um grande beijinho cheio de saudades!

Confessionário disse...

Olá, Catarina...
Pois é... que bem me recordares disso!
bj

Moçambicano disse...

Olá, Caro Amigo P.e Confessionário.
Olá a Tod@s que por aqui passam.
Espero que estejam a ter Um Bom Início de Ano Novo!
E para @s que procuram Acreditar, Continuação de Bom Ano da Fé!

Em primeiro lugar, quero felicitar o nosso Amigo P.e Confessionário por seu um Padre que acredita na Ressurreição e na Vida Eterna. Nunca nos procurou explicar "como será" - porque não podia -, mas sempre nos tem dado esse Testemunho de Esperança.
E Testemunhos como Este, num tempo em que até na Igreja às vezes parece que se dá mais importância ao Livro do Qohelet - ou Eclesiastes -, do que ao Novo Testamento, são fundamentais.

Em segundo lugar, é óbvio que, se as Pessoas significam algo para nós - e acredito que seja o caso d@s Paroquian@s para o P.e Confessionário -, há sempre a Dor da Perda, que obviamente partilhamos.
"Chorar com quem chora"...
Sobretudo perante aquelas "Mortes Injustas", parece-me muito acertada a resposta do Cardeal Martini, à Esposa de Alguém que tinha morrido de acidente - e que o questionava porque é que "Deus não tinha adiantado ou atrasado 5 minutos a passagem do Marido naquele local":
“Não sei responder a sua pergunta, disse-lhe, mas apesar
do que aconteceu CONFIO em Deus e estou aqui a seu lado, compartilhando
a sua dor”.
Por isso, Caro Amigo P.e Confessionário, não tenha medo de "acreditar mais na Ressurreição do que em Deus"... Acredita sim - e ainda bem! -, que Deus é "só" Amor Omnipotente, Infinito e Eterno. E não "outra coisa qualquer" - mesmo que possa estar escrita no "melhor tratado de teologia".

Um forte abraço para Si e para Tod@s que por aqui passam.

Moçambicano

Anónimo disse...

Boa tarde!
"...acredito na Ressurreição..."
Talvez por acreditar na Ressureição é que o coração dispara num ritmo alucinante... Quero fazer tanta coisa, Deus permite-me fazer mais alguma coisa para te glorificar com esta vida, pois eu sei que " Tudo quanto te vier à mão para fazer , faze-o conforme as tuas forças, porque, na sepultura para onde vais , não há obra nem industria, nem ciência nem sabedoria alguma."
E foi neste "absurdo da morte" que encontrei o sentido da vida.
Muito me apetecia contar a minha situação particular na lide com a morte, mas não virá a propósito.
Temos que nos re-educar para lidar com a morte.
"Quando saí do centro de reeducação, trazia a crinça nos braços. Cruzei-me com uma velha senhora numa cadeira de rodas. O seu olhar iluminou-se ao ver o bébe. Inclinei-me para lho apresentar. Os dois fitaram-se um instante - o que ainda não pertencia completamente ao mundo, e a que já não lhe pertencia completamente. A mulher tinha uma cara maravilhosamente enrugada, semelhante à casca de uma àrvore secular. Perante a perfeição destas duas presenças , eu não conseguia compreender porque quer esta sociedade a todo o preçoque permaneçamos jovens, afastados das luzes do nascimentoe da velhice, cravados no meio delas"
Obrigada!
Obrigada por existir desta forma.
Obrigada por permanecer no espaço virtual.
Obrigada também pela vida.
E, se me permite, tente experimentar um chá para acalmar o estomago, de tília ou de camomila, eu gosto muito do de flor de laranjeira.
Um bom Ano para si!

Ana Melo disse...

Há historias de morte! que provocam funerais complicados! penso que ninguém de nós tem duvidas disso, nem os enlutados. Mas a palavra “luto” só por si não adivinha facilidades.

Temos todos algumas limitações!!!! Nem tudo nos veste bem. (não é o meu caso qualquer farrapo me fica bem!). Nesses dias assuma as suas fraquezas, e PEÇA A DEUS, que não o largue um minuto!! zangue-se com Ele, se necessário!! as vezes fazemo-nos tão fortes! não Lhe damos conta dos nossos medos! então! Ele “distrai-se” com outras coisas e ficamos demasiado a deriva! Acho que as palavras, descansa em paz, diversas vezes, e bem proferidas, no tom certo, e um olhar disponível para alguém que o procure, basta para aliviar a tenção do momento. Descontraia-se.

Ruth Bassi disse...

Um funeral, Padre, e sempre um momento complicado quer para aqueles que perdem o ente querido, quer para os que os acompanham por solidariedade ou para cumprir um dever social.
O ambiente e de mais ou menos dor consoante os intervenientes mas, num funeral religioso, podera haver palavras de consolo e de esperanca e cabe ao sacerdote fazer um esforco, ainda que dorido, para que se instale um clima de paz e esperanca Nele e, quem sabe, talvez um encontro com Deus para alem da dor e uma opor
tunidade para uma nova caminhada.
Quanto ao incomodo que te causa provavelmente so podera ser atenuado com algum cha calmante.
Beijinho
Ruth

Anónimo disse...

quem vive as situações de verdade não consegue deixar de sentir os Outros como Seres Individuais. É assim que concebo Jesus que nos ama a todos individualmente. Se não, como podia partilhar a minha dor e achar que sou atendida, pelo menos confortada? Noutro dia, pensava que só quando de verdade passamos por uma situação de igual sofrimento é que conseguimos deixar de ser empáticos com a situação dos outros, para passar a perceber e alguma forma partilhar essa dor.
Maria Oliveira

Anónimo disse...

“PEÇA A DEUS, que não o largue um minuto!! zangue-se com Ele, se necessário!! as vezes fazemo-nos tão fortes! não Lhe damos conta dos nossos medos! então! Ele “distrai-se” com outras coisas e ficamos demasiado a deriva!” - GRANDE VERDADE!