quinta-feira, abril 26, 2012

A senhora de gancho

O gancho no cabelo salientava-se, como se quisesse apanhar alguma coisa ou alguém. Acabara de chegar para celebrar a Eucaristia quando ela veio ao meu encalço. Precisava falar comigo. Não tinha muito tempo, a não ser cinco minutos. Disse-me de chofre que era para me agradecer ter levado Jesus à casa da mãe acamada no dia de Páscoa. A ironia fez-me recordar que um dia antes da Páscoa, portanto no Sábado Santo, pelas vinte e três horas, uma outra filha ou nora da senhora acamada viera pedir-me para levar a Cruz de Jesus à mãe no dia de Páscoa. Recordo na altura ter-lhe respondido que iria com todo o gosto visitá-la, confessá-la, providenciar que recebesse a comunhão em casa, mas que no Domingo de Páscoa era-me impossível. Recordo ainda que nesse dia comecei as minhas cerimónias antes das nove horas e terminei, com uma pausa de cerca de uma hora para almoço, pelas dezanove horas. Além de estar estafadíssimo, era-me de todo humanamente impossível aceder ao pedido. Mas que iria num outro dia. Ao que me respondeu que não. Que teria de ser nesse dia. Ainda rebusquei no meio da agenda uma hipótese, por pequena que fosse, dado que a senhora estava acamada e era dia de Páscoa. Mas ela só queria que eu lhe levasse a cruz como era costume na sua terra. Afinal o que a senhora queria, porque trazia este hábito da terra de onde vinha, era a visita pascal, ou como alguns lhe chamam, as Boas Festas, o Folar, os acompanhamentos. E além de não ter a disponibilidade que a senhora particularmente queria, também não o ia nem podia fazer na paróquia. Não era hábito nem oportuno. Mas a senhora insistiu. Eu vou lá então visitá-la. Não, senhor padre. Tem de levar a Cruz. Só faltava ter de levar também quem a carregasse, quem levasse a caldeirinha de água benta, quem levasse a carteira para levantar o folar, e ainda a alva e a estola vestidas. Expliquei que não podia aceder ao pedido mas que iria, com todo o gosto, um dia visitá-la. Virou costas porque não era isso que queria. Nem queria confessar-se ou comungar. Queria a visita da Cruz porque é hábito na sua terra. Queria o hábito da sua terra. Queria da Igreja o hábito a que estava habituada todas as páscoas. A senhora do gancho, ironicamente agradecida, depois das mesmas explicações que fiz à sua irmã ou cunhada, dispondo-me a visitá-la, disse que não, perguntando se era assim que os padres queriam mais fiéis nas igrejas. Informou-me, resolutamente, para que eu soubesse, que era católica. E virou costas. Eu fui para a Igreja celebrar a Eucaristia e ela voltou para o lugar de onde veio. A rua ou a sua casa, não sei. Na igreja é que não entrou. E são assim os nossos católicos de hoje. Querem tudo menos o que deviam querer. Querem hábitos mas não querem a fé.

21 comentários:

Filha de Maria disse...

Ai!!!!!!!!

Vou ali e já volto (mas volto mesmo)!

Peregrina Repetente disse...

Amigo Confessionário, cada vez mais as pessoas se auto-rotulam, que são isto e mais aquilo, mas na prática não seguem os "preceitos" de nada.São católicas porque os seus pais as baptizaram quando eram crianças, fizeram 1ª comunhão pela cerimónia, casaram católicamente porque é mais bonito...enfim vive-se só de aparências.
Quanto à "urgência" da Srª do gancho está na moda. TUDO tem que ser na hora, no minuto no segundo. O telemóvel toca durante a missa (vamos admitir que ficou ligado por distração) atende-se em voz sussurrada e diz-se " Agora não posso falar estou na missa", então porque se atende??????
às vezes apetecia-me ser "ditadora" e fazer com que em todas as Igrejas os Tm. ficassem sem rede.

Joana disse...

´Porque o Senhor corrige quem Ele ama, assim como um pai corrige o filho a quem ele quer bem.´ Proverbios 3:12

Esta senhora, ainda não descobriu, nem entendeu a fé.
Mas mais tarde compreenderá, não fique triste padre, tudo nesta vida tem um momento certo.
O tempo de Deus não é o nosso, aos nossos olhos a justiça tarda, é justa ou injusta, mas Ele sabe o que faz.

A si só lhe resta ser paciente, esperançoso e crente, para dar o exemplo!!
Não julgue, apenas ore e ame, sem deixar de acreditar que ela e outros católicos descrentes, um dia descubram o que realmente importa.
Todos nós temos um caminho a percorrer. Cada um no seu próprio ritmo, mas no final todos chegaremos ao destino na hora e momento certos.

Bjs Joana :)

Filha de Maria disse...

Católicos de Supermercado! Conhecem?

Só tira da "prateleira" o que lhe convém!

E qual a fé da senhora acamada? Essa sim é que me preocupa, não quererá ela os sacramentos? As filhas podem entender a fé pelas "costumeiras", mas a senhora acamada, pode entendê-la de outra forma... preocupa-me que pela falta de fé de quem toma conta dos doentes, fiquem estes sem os sacramentos!

Rosa disse...

Concordo um pouco com o comentário da Joana,"Não entendeu a fé".
Eu própria à algum tempo constatei isso,eu vi que a as pessoas levavam a cruz a casa por mero hábito, nada mais,a fé,a entrega a Jesus e pelo próximo nada,apenas para andarem de casa em casa a falarem e muitas vezes criticarem,eu simplesmente não conhecia esse ritual,mas disse como podem fazer isto e tratarem-se tão mal uns aos outros.
Há sempre um dia que somos tocados de verdade e tudo aquilo que era,deixa de o ser para receber Jesus e O amar com todo o coração,e começam a ver Jesus nos irmão, e como a Eucaristia é essencial para a comunhão com Deus.

Maria de Fátima disse...

Lembrei-me daquela pergunta de Jesus Cristo depois de alguns, a quem não agradava a Sua Palavra, terem virado as costas: " E vós também quereis ir embora? "
Faça semprre como Ele fez Senhor Padre.
Os que se vão embora, olhe vão ...
Não se preocupe muito com isso.

Maria J disse...

Baptizados à molhada por decreto real depois que o cristianismo passou a religião oficial do Império falta-nos o catecumenato preparatório da Igreja dos Actos.

Peregrino disse...

Aproveitando o tema deste Domingo sobre o “Bom Pastor”, seria bom para algumas dessas “ovelhinhas do Pai” fazerem novamente a “experiência do mergulho” na Graça.. ao estilo das verdadeiras ovelhas quando sujas e cheias de parasitas… precisam de mergulhar naqueles tanques com creolina e água em abundancia….

Nem imaginam depois do “banhinho”… saem dali a saltitar todas felizes e contentes pela limpeza e libertação…

Que me perdoem esta linguagem mas andam por aí certas ovelhinhas que… bom.. cala a boca Peregrino… e ora mais por essa gente que como tu precisa muito da Misericórdia do Pai…

Anónimo disse...

Anónimo
A misericórdia de Deus é infnita.Coitada da senhora acamada!Ela precisa mesmo da sua visita, Vá levar-lhe a alegria de viver,Faça como o Bom Pastor vá ao encontro dessa ovelhinha que faz parte do seu rebanho. Não fique chocado com a ignorãncia dos familiares,ela é que está em causa e precisa mesmo da graça sacramental da reconciliação, para receber Jesus vivo e não morto naquela cruz como desejam os familiares.Tenha coragem não desanime é a sua missão e é bem grande!Se o Senhor o colocou aí no meio dessa gente simples e ignorante á cerca da fé é porque tem designios grandes sobre si.abra-se á Sua graça e fará maravilhas.Que jesus o Bom Pastor o ajude a ser á sua semelhança no meio dessa gente tão carenciada de si.Continue alegre e pasciente.

Anónimo disse...

Estou totalmente de acordo com o Anónimo de 27-04 21:53. Imite o Bom Pastor. É muito mais fácil chegar a Deus quando as pessoas se sentem acolhidas. Amar os amigos ou aqueles que fazem tudo à nossa maneira é tão fácil. A senhora provavelmente mais tarde ou mais cedo reconhecerá.

Confessionário disse...

Pois, mas eu desconfio que ela não vai reconhecer...
Pois se não faz caminhada de fé, como poderá entender?!

Eu poderia ir visitar, sim, a senhora, se elas me tivessem indicado a morada e o dia e a hora que pretendiam. Mas pelos vistos, só pretendiam aquele dia e mais nada.

Claro que a senhora acamada não tem culpa de nada nem tem culpa de não ter mais formação cristã (ou se calhar até tem)... e nós devemos estar atentos às "ovelhas perdidas ou feridas". Mas esta situação em si faz-me lembrar aquela ovelha que quer que o Pastor lhe vá dar um rebuçado porque gosta de rebuçados, mas teima em não querir ir para as pastagens. E o que é que o pastor deve fazer? Deve dar-lhe o rebuçado?

Peregrino disse...

No fundo, quem fica faminto é sempre o mais fragilizado… quem saberá o que vai no coração daquela alma acamada…! Irmão Padre, tenta descobrir a sua morada… vá, vai lá em busca dessa ovelhinha que te foi entregue…

Sobre aquelas “ovelhinhas” que saltaram a “cerca” do espaço da tua vida, bom…eu entendo-te… demasiado… nem imaginas… oro pelo teu caminho nada fácil… abraços em Cristo.

Joana disse...

Pe., defina caminhada de fé.

Será que fé, é ir à igreja, às procissões, às peregrinações, à missa, à catequese, às reuniões biblicas, etc?
Ou será que estes rituais são um pouco, como o levar a cruz à senhora no domingo de Páscoa? Um hábito sem sentido, sem crença?

Até hoje nunca encontrei nenhum pe., santidade ou o Papa mesmo que me explicasse e descrevesse a fé.

Afinal o que é a fé pe?
Quero perceber e entender, não a sua fé de forma subjectiva que apreendeu da igreja. Mas a fé universal.

Os crentes não católicos (jeovás, judeus, islâmicos, budistas, hindus, etc.) não têem fé?

A sério alguém que me explique a fé.
Ter fé em Deus é melhor que ter fé em Alá?
Ter fé em Jesus é melhor que ter fé em Dalai Lama?

Afinal qual é a melhor fé, qual a melhor religião?
Ainda não me deu uma explicação do REIKI, por exemplo, muitos católicos praticantes da igreja católica praticam REIKI e sentem-se bem com Deus e com a igreja.

Será que estas pessoas não teem fé!!
Agora fiquei confusa.
Pois por aquilo que depreendo para os padres católicos fé=igreja.
E pensar que foram os Sumos Sacerdotes que entregaram Jesus e o acusaram de blasfémia.

Quem é que entende a fé, afinal?! A fé é loucura aos olhos dos homens.
Não se explica, apenas se sente.

Bjs Joana :)

Anónimo disse...

Por fim encontro alguém com as mesmas duvidas e desejos de explicação das mesmas que eu. Obrigada Joana pelas questões colocadas. Padre Confessionário, com todo o respeito, queira dar uma resposta. Ou estas questões são TABU ? Será que a resposta é daquelas que a igreja/padres não querem que se saiba
Obrigada Joana!

Anónimo disse...

Resposta para Joana;

eu descobri a minha fé através deste Pe brasileiro, não sei se conhece, mas deixo aqui um texto, que nos explica de maneira simples, o que é a fé.
Espero que ajude... abraço. Luis.

"Os girassóis e nós."(Pe Fábio de Melo)
Eles são submissos. Mas não há sofrimento nesta submissão. A sabedoria vegetal os conduz a uma forma de seguimento surpreendente. Fidelidade incondicional que os determina no mundo, mas sem escravizá-los.

A lógica é simples. Não há conflito naquele que está no lugar certo, fazendo o que deveria. É regra da vida que não passa pela força do argumento, nem tampouco no aprendizado dos livros. É força natural que conduz o caule, ordenando e determinando que a rosa realize o giro, toda vez que mudar a direção do Regente.

Estão mergulhados numa forma de saber milenar, regra que a criação fez questão de deixar na memória da espécie. Eles não podem sobreviver sem a força que os ilumina. Por isso, estão entregues aos intermitentes e místicos movimentos de procura. Eles giram e querem o sol. Eles são girassóis.

Deles me aproximo. Penso no meu destino de ser humano. Penso no quanto eu também sou necessitado de voltar-me para uma força regente, absoluta, determinante. Preciso de Deus. Se para Ele não me volto corro o risco de me desprender de minha possibilidade de ser feliz. É Nele que meu sentido está todo contido. Ele resguarda o infinito de tudo o que ainda posso ser. Descubro maravilhado. Mas no finito que me envolve posso descobrir o desafio de antecipar no tempo, o que Nele já está realizado.

Então intuo. Deus me dá aos poucos, em partes, dia a dia, em fragmentos.

Eu Dele me recebo, assim como o girassol se recebe do sol, porque não pode sobreviver sem sua luz. A flor condensa, ainda que de forma limitada, porque é criatura, o todo de sua natureza que o sol potencializa.

O mesmo é comigo. O mesmo é com você. Deus é nosso sol, e nós não poderíamos chegar a ser quem somos, em essência, se Nele não colocarmos a direção dos nossos olhos.

Cada vez que o nosso olhar se desvia de sua regência, incorremos no risco de fazer ser o nosso sol, o que na verdade não passa de luz artificial.

Substituição desastrosa que chamamos de idolatria. Uma força humana colocada no lugar de Deus.

A vida é o lugar da Revelação divina. É na força da história que descobrimos os rastros do Sagrado. Não há nenhum problema em descobrir nas realidades humanas algumas escadarias que possam nos ajudar a chegar ao céu. Mas não podemos pensar que a escadaria é o lugar definitivo de nossa busca. Parar os nossos olhos no humano que nos fala sobre Deus é o mesmo que distribuir fragmentos de pólvora pelos cômodos de nossa morada. Um risco que não podemos correr.

Tudo o que é humano é frágil, temporário, limitado. Não é ele que pode nos salvar. Ele é apenas um condutor. É depois dele que podemos encontrar o que verdadeiramente importa. Ele, o fundamento de tudo o que nos faz ser o que somos. Ele, o Criador de toda realidade. Deus trino, onipotente, fonte de toda luz.

Sejamos como os girassóis...

Uma coisa é certa. Nós estamos todos num mesmo campo. Há em cada um de nós uma essência que nos orienta para o verdadeiro lugar que precisamos chegar, mas nem sempre realizamos o movimento da procura pela luz.

Sejamos afeitos a este movimento místico, natural. Não prenda os seus olhos no oposto de sua felicidade. Não queira o engano dos artifícios que insistem em distrair a nossa percepção. Não podemos substituir o essencial pelo acidental. É a nossa realização que está em jogo.

Girassol só pode ser feliz se para o Sol estiver orientado. É por isso que eles não perdem tempo com as sombras.

Eles já sabem, mas nós precisamos aprender.

JS disse...

Olé, Confessionario.

Em primeiro lugar, gostaria de lamentar a atitude para contigo. Depois de dias extenuantes ao serviço das pessoas, em que certamente fizeste quanto podias (talvez até mais do que seria razoável pedir-te), deve ser bem doloroso ouvir alguém que te toma por preguiçoso ou incapaz de boa-vontade para atender "santos" pedidos. Calculo que deve deixar um gosto azedo de ingratidão no céu da boca e quase uma lágrima no canto do olho. E não é justo.

Mas interrogo-me se haveria alguma hipótese de solução da coisa a contento de todos. É que no Norte, onde a visita pascal tem ainda um grande significado, ela pode ser feita fora do dia de Páscoa. Esse é o dia mais desejado, mas há comunidades onde o compasso anda no dia a seguir (Segunda de Pascoela) ou mesmo no domingo seguinte (Domingo de Pascoela). Por outro lado, mais de metade das comitivas já é presidida por leigos (os padres não chegam para tudo). Se isto fosse lembrado à senhora encamada e seus familiares, talvez se pudesse ter chegado a uma saída para a situação. Mas, se calhar, também foste apanhado um pouco desprevenido com o pedido, Confessionário. E uma pessoa não pode pensar em tudo...

Quanto ao sentido da visita pascal, ela enquadra-se no rito da bênção anual das casas e famílias. Não é um sacramento, mas é um sacramental. Além disso, há todo o simbolismo de receber a visita de Cristo ressuscitado, através da cruz florida e dos representantes da comunidade que vão saúdar as pessoas nos seus lares.
Claro que há muito de foclore e muita feira de vaidades; e por vezes dá azo à chacota e à irrisão do sagrado; mas acho que tal costume, onde se mantém, continua a ter um grande valor.

Confessionário disse...

à Joana e aos que pedem uma resposta sobre o que é a fé:

Já varias vezes abordei esse asunto da fé aqui no blogue. Se calhar não tal e qual como a Joana pede. Não quer dizer que não o possa voltar a fazer; mas tb não esperem que tenha tempo a toda a hora para o fazer... please. Não tenho tido tempo para quase nada!
Desculpem-me. Um dia voltarei a contar algo mais sobre a Fé. Aliás, a forma como a costumo explicar aos meus é bem simples e inteligível... Mas hoje ou tão depressa não consigo. Ando mesmo extenuadito!

Confessionário disse...

Quanto ao ir à casa da senhora acamada, as filhas não me disseram sequer a morada. Propus ir noutro dia e disseram-me claramente que não queriam isso!!! Vá-se lá entender...

Filha de Maria disse...

Pe. Confessionário;

Uma sugestão para próxima vez (de certeza que haverá mais assim).

1º Peça a morada, o nome, etc.

2º Depois converse e se não poder explique, mas entretanto já terá em seu poder, a morada!

É a caminhar que se aprende!

Filha de Maria disse...

Á Joana e a quem deseja saber o que é a fé!

A Fé não se estuda, não se explica... não se explica Deus...

Sou mãe e não consigo explicar-lhe, o que é ser mãe, só experimentando. Com a fé é igual. Antes de ser mãe, desejei-o com todas as minhas forças, com a fé é igual...

Pode acontecer que se encontrem pais, que o são por "acidente", o crente não... quem consegue encher uma garrafa vazia que tem a rolha bem fechada?

Caminhada de fé... é o desejo de ir beber á fonte, é o sentir-se cada vez mais sequiosa desta água que É JESUS!

Certamente não ajudei... mas, no fundo é escancarar o coração a JESUS!

Quanto ao Reiki, fale com o seu Pároco, leia bons livros cristãos e não embarque em modas!

1º Mandamento) Amar a Deus sobre todas as coisas!

Anónimo disse...

Há padres que mantêm estas coisas porque lhes dá mt dinheiro...