quinta-feira, maio 26, 2011

O preto pousou sobre eles sem licença

A mãe do Joaquim, que é a esposa do senhor Manuel e a sogra da Rosa, faleceu há coisa de um mês. O preto pousou sobre eles sem licença. O preto amargo que nos cobre e nos fecha a cadeado. Ela era fácil de se amar, e por isso o preto, neste caso, fez-se mais teimoso. Sou amigo da casa e custa-me ver aqueles rostos da cor das roupas. Já por umas seis vezes que falámos no assunto. Eles pedem-me tempo e eu dou. Eu falo que é minha obrigação e eles dizem obrigado. E falamos sempre. O luto faz-se, acontece e, às vezes os sentimentos das pessoas escurecem e escondem o sol ou as suas réstias ou raios de luz. É como se fizéssemos do dia noite. Eu não quero tornar-me incómodo, mas abordo esse sol, que não se pode apagar para não ser sempre de noite, e dou tempo. Eles agradecem por isso. Por lhes lembrar o sol, por lhes dar tempo, e por me lembrar deles. Três coisas que, cuido, devemos atender ao lidar com quem está escuro como o luto.
Há dias soube que o senhor Manuel vai todos os dias, ao final da tarde, até ao cemitério que não fica longe de casa. O Joaquim vai também a maior parte das vezes. A Rosa vai só quando o Joaquim vai a horas que ela pode. Fazem-no porque não sabem o que fazer. Fiz-lhes essa pergunta e não souberam responder. Foi mais ou menos um Não sabemos porque fazemos, mas temos de fazer, padre. Perguntei-lhes, numa só frase, sobre o sentido desse luto e dessa forma de agir. Não me souberam responder. Ao que respondi, questionando, que se algo não tem sentido, porque há-de fazer-se?
Olharam para mim de uma forma aberta e eu pensei. Estão a pensar que o que disse é importante. O Joaquim foi o mais expressivo. Mas as expressões enganam e às vezes uma expressão aberta pode significar só isso. Que ouvimos mas isso não importa ou não é importante. A nossa vida fica aqui, está presa aqui, neste luto e neste escuro e nesta noite. Amanhã será outro dia. Ou não.
As pessoas que estão escuras precisam que alguém lhes faça perceber que é de dia e o sol vai alto.

40 comentários:

Anónimo disse...

Olá
Bom dia,

Todos, cada qual à sua maneira tem que fazer " o luto "...
Será aquele periodo em que temos que tomar plena consciência de que perdemos as pessoas que amamos, interiorizar esse facto aprender a lidar com ele.
As vestes pretas terão a ver com um estado da alma em que esta não encontrando outras formas de chorar, vê no luto o refúgio para a dôr da perda.
Após a morte, e quando as lágrimas já não caem , surge a necessidade de "aliviar" dessa forma, a dôr que se sente.
Essa familia estará a viver o luto da forma que mais se identifica com eles.
Não deixe de lhes dizer que o sol todos os dias está lá para iluminar a vida...
Que a morte é a consequência da vida, no entanto não os faça sentirem-se culpados por essa atitude.
Faz algum tempo que ouvi um padre falar acerca da morte inesperada de uma jovem de 24 anos, vitima de um enfarte do miocardio.
O discurso dele fez-se "... estais tristes é compreensivel, apetece-vos chorar, chorai... cada um de vós faça o seu luto particular, leve o tempo que precisar para se habituar à perda, não vos esquecei em momento algum de quem ela era, da alegria que transmitia, pouco a pouco o sorriso dela voltará aos vossos rostos, e passará a ser lembrada por vós com um carinho especial, ela fará parte de vós, pois agora ela repousa em Deus... " isso fez-me reflectir na morte, e encará-la de outra forma, a minha forma particular...

Tenho a certeza que a seu tempo a côr das roupas ficará mais clara, em relação aos rostos, que essa familia leve também, cada qual o seu tempo, até se aperceberem que a pessoa que eles amam faz parte deles mesmos na figura de Jesus Cristo...
É também com o tempo que a dôr da perda dará outra luminosidade aos rostos tristes.

Até sempre,
Muita força para essa família.

Maria Zete disse...

Olá Padre.
O luto é assim, vem e invade a nossa vda e tira dela o sol. Mas nós, que cremos em Deus, sabemos que há tempo para tudo, tempo para viver o luto(preto), tempo para chorar e tempo para tornar a ver a luz do Sol. Sabe Padre, as vezes precisamos mergulhar no luto, viver o luto, para que, passada essa fase de mergulho no escuro, possamos ressurgir á vida, mais fortalecidos.

JS disse...

Ó Confessionário, agora sou eu que questiono.

A ver se percebi bem: tu perguntaste aos doridos pelo sentido das suas práticas; eles não te souberam responder; então, tu deduziste que tais práticas não fazem sentido; e trataste de o comunicar aos doridos.

Foi assim?...

Filha de Maria disse...

É importante que vivam este luto de forma particular, mas nunca esquecendo que são familia e que também na dor se devem abraçar... isso é sem duvida um beneficio.

Se o Padre, lhes é querido... se é estimado por eles... pois que se faça presente, nem que seja numa palavra de animo, num abraço... uma oração "em familia".

A Paz de Cristo

Confessionário disse...

OLá, JS

Perguntei de facto e eles não responderam porque não conseguiram ou não conseguem dar ou encontrar sentido ao que fazem. O que eles fazem até pode fazer sentido; mas eles têm de saber esse sentido. Na vida temos de fazer opções por coisas que nos façam sentido. E se ela nao tiver um sentido para nós, porque fazê-la?! Percebes? É uma forma de lhes fazer perceber que se ir ao cemitério todos os dias não têm um verdadeiro sentido, então devem deixar de o fazer (pelo menos todos os dias). Isso pode ser tão bom/útil como mórbido.
Entenderás isto...

Os entendidos nestas matérias dizem que esta é uma das perguntas que se pode/deve fazer em ocasiões semelhantes, para ajudar os enlutados a procurar formas de luto que os ajudem melhor a ultrapassar a dor/dificuldade, e não a permanecer nela...

Anónimo disse...

Sr. Padre, O seu sol não ficou mais encoberto depois do falecimento da sua mãe?
O luto é o caminho para ver o sol novamente.
Simone.

Confessionário disse...

OLá, Simone
Há lutos e lutos! (como se costuma dizer) ... e têm de se respeitar. Isso não significa que se deva deixar as pessoas eternamente no luto. Eu conheço, infelizmente, paroquianos meus que passados 20 anos ainda vivem em lutos. Para quê? pergunto eu. DEus não nos criou para viver eternamente em lutos. Por isso Ele ressuscitou!

O que está aqui em causa não é se o luto é bom ou não. Ele existe, e ponto final. Mas o luto é uma etapa e nao uma meta. E existem muitas pessoas para quem ele é só uma meta.

Mais, tenho a certeza de que todos nós precisamos de formas e pessoas que nos ajudem a encontrar o tal sol... no meio do nosso luto. Comigo foi assim. Convosco não?

concha disse...

Vivi um luto complicado,porque a partida foi repentina e porque os meus filhos eram ainda menores.Foi muito importante ter uma colega que tendo passado por uma situação idêntica,me ajudou muito a ultrapassar este luto.Lembro-me ainda hoje e já foi há alguns anos,alguns olhares menos discretos,por não usar roupa preta.Lembro-me ainda daquela frase que nada me dizia..."os meus sentimentos", como se isso me fosse ajudar.
Foi sem dúvida a responsabilidade de que os meus filhos dependiam de mim em tudo para virem a ser adultos bem formados,que me ajudou a ultrapassar os primeiros anos, trabalhando, trabalhando, trabalhando.Hoje reconheço que tudo teria sido ultrapassado de outro modo,se estivesse na igreja.
Bom fim de semana para todos

Avozinha disse...

As pessoas precisam de ter a esperança da ressurreição: "Irmãos, não queremos que andem na ignorância a respeito dos que morrem, para não se mostrarem tristes como os outros que não têm esperança. Pois se nós acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou, também Deus reunirá com Jesus todos os que morrerem em união com ele." (I Tessalonicenses 4: 13-14).
O nosso pastor faleceu subitamente aos 50 anos, há 3 semanas. Foi este o texto que um outro pastor que nos visitou ontem na igreja nos deixou. Até ao dia em que nos reencontraremos todos na Glória.

JS disse...

Que haja formas doentias de viver o luto, de acordo. Que essas formas se traduzam e se revelem em comportamentos obsessivos, certo. Que se interprete como tal a visita regular, mesmo quotidiana, ao cemitério, aí coloco muitas reservas.

Até pode ser assim, no caso de alguém que só saia de casa para ir ao cemitério e logo se volte a refugiar dentro de portas; ou de alguém que recuse participar num passeio ou numa pequena viagem porque iria ficar impedido de fazer a costumada visita; ou de alguém que passe muito tempo no cemitério, e mostre preferir o convívio com os mortos do que com os vivos.

Mas, na maior parte dos casos, vejo a visita ao cemitério como algo salutar e, tendo em conta a nossa religião e cultura, como algo fundamental num processo de luto normal.

Não é por acaso que as pessoas se afligem tanto se não tiverem oportunidade de recuperar o corpo do seu falecido, lhe dar um enterro digno, e poder visitar o seu túmulo sempre que o desejarem.

Aliás, o que a mim me preocupa é precisamente a situação contrária: o recusar-se terminantemente a entrar num cemitério, o defender que as crianças não devem ir ao cemitério, o andar a promover cemitérios semelhantes a campos de golfe, que nada têm que ver com a nossa cultura, o deixar ao abandono a sepultura dos familiares.

JS disse...

Que os familiares do falecido não tenham respondido à questão do sentido, não o vejo como prova do sem-sentido daquela prática, nem mesmo como prova da sua ignorância sobre tal sentido.
Eu partiria do pressuposto de que eles não estariam prontos nem preparados para explicitar esse sentido, para o traduzir em palavras e argumentos.
Normalmente, este tipo de práticas insere-se numa sabedoria colectiva e ancestral: faz-se porque tem de se fazer; faz-se porque todos fazem; faz-se porque sempre se fez.

O mal dos senhores padres é que, como se vêem obrigados diariamente a apresentar as "razões da sua esperança", e, por consequência, a reflectir e meditar sobre elas, pensam que toda a gente devia ser assim, consciente do que faz e porque o faz. E se é verdade que as coisas deviam ser assim, o certo é que nem todos tiveram a sorte de ter a formação que um senhor padre teve, nem de ter a desenvoltura de reflexão e de raciocínio que um padre tem (de ter).

Assim, mais do que perguntar pelo sentido, um padre tem de ter a capacidade de o entrever, quase de o adivinhar, lá no mais profundo e escondido, e de ajudar a que ele venha ao de cima.

JS disse...

Outra dificuldade que os senhores padres podem ter é no compreender o processo de luto tal como é vivido pela normalidade das pessoas.

Por um lado, um padre nunca virá a saber o que é perder o companheiro(a) de uma vida; ou a tragédia de perder um filho. E quando falo de saber, refiro-me ao saber que só tem quem passa por essa experiência, quem o vive na pele.

Por outro lado, mesmo no caso da perda dos pais ou de irmãos, a verdade é que um padre vive essa situação de uma forma algo distinta do comum das pessoas. Porque ser padre implica, de certa maneira, renunciar à sua família de sangue para se colocar ao serviço da família de Deus. Tornar-se padre implica o distanciar-se da sua própria família, uma despedida incoativa, o iniciar de um processo de luto. Por isso, quando advém a morte do pai ou da mãe, calculo que o padre estará mais adiantado, mais preparado, mais consciente do que lhe está a acontecer.

Confessionário disse...

"Por isso, quando advém a morte do pai ou da mãe, calculo que o padre estará mais adiantado, mais preparado, mais consciente do que lhe está a acontecer"

Não, amigo. Nunca ninguém está preparado assim. A diferença poderá estar na certeza da Ressurreição, na fé e na esperança da Vida eterna, na certeza de que Deus nos dá uma missãoe que está se cumpre! Mais nada.
O teu raciocínio hoje "peca" por partir do princípio de que o padre não ama nem tem pessoas para amar como quem está casado ou tem filhos. Estás enganado. Muito enganado, amigo JS.

Anónimo disse...

A visita regular à campa de meu Pai foi a única forma que encontrei para me aliviar a dor da perda. Hoje, passados que são oito anos, vou mais espaçadamente. Rezo, arranjo o espaço com todo o carinho e regresso melhor.

Sabe Padre: JS tem razão no que diz. Os padres são muito desprendidos. Há excepções, mas são excepções.

Peregrina Repetente disse...

Pois eu discordo inteiramente do PRETO no luto. Luto é um estado de espirito é o nos vai na alma e não a cor das nossas roupas.
Quanto aos cemitérios relvados como campos de golfe, e porque não?
JS esqueceu-se dos funerais em que o corpo é cremado, e as cinzas deitadas ao mar, p.ex. aí não há campa para visitar, nem flores e nem por isso há menos carinho e amor ao estar a olhar as ondas numa praia.
Apoio incondicionalmente as cremações por variadadissimos motivos mas o principal prende-se exactamente pelo Não Culto aos cemitérios.

JS disse...

Confessionário, talvez tenha sido demasiado conciso no meu último comentário, e isso tenha dado azo a confusão.

Estava a assinalar uma dificuldade no caso dos padres, mas não estava a pôr em causa os seus amores, ou a sua capacidade de amar. Bem pelo contrário: alguém que queira ser padre tem de ter um coração imenso para amar e ser amado. Mas também é certo que a opção que o padre faz em testemunhar ao mundo o amor universal de Deus implica (pelo menos no catolicismo) a renúncia a certas formas de amor, a certo tipo de relações.

Assim, há algumas experiências vitais que lhe estão vedadas e que permanecerão em última instância um mistério para ele. Mas também é evidente o contrário: o comum das pessoas nunca entenderá bem o que um padre vive e sente, a forma como ama.

Além disso, não é um exclusivo do padre o não-acesso a certas experiências (a perda de uma companheira, a perda de um filho). Eu, que ainda não tenho filhos, não posso dizer com verdade que sei, que compreendo, que imagino o que é perder um filho. Pensava nisso há uns dias, ao ver imagens na televisão sobre um encontro entre a esposa do Presidente da República e algumas mães que perderam seus filhos e se interajudam numa associação chamada "Nossa
Âncora". Ao vê-las a posarem para as câmaras, pressenti nelas algo que, ao mesmo tempo, eu estava impossibilitado de abarcar. E senti-me pequeno perante esse mistério.

Um padre, cumprindo o seu dever pastoral de acompanhar os enlutados, tem de ter essa consciência e humildade de que há situações e relações cujo significado ele não entende totalmente, porque não fazem parte da sua experiência pessoal. Por isso penso ser importante que neste campo se trabalhe em equipa, reunindo pessoas com experiências de vida diferentes que se complementem, possibilitando um acompanhamento mais lúcido e eficaz dos doridos.

JS disse...

Quanto a perder um pai ou uma mãe, desculpa insistir, Confessionário, mas acho que um padre o experimenta de uma forma um bocadinho diferente. O que de maneira nenhuma significa que ame menos que os outros. A significar alguma coisa, diria que significa que ama com mais liberdade os seus familiares.

Um exemplo: conheço uma senhora cuja filha seguiu o caminho da vida consagrada (freira).Ela, quando se refere à filha, diz que a deu a Deus. E fala com um misto de alegria e tristeza, ou seja, como se a tivesse perdido para Deus. E vejo naquelas palavras uma espécie de luto. E calculo que o mesmo se terá passado com a filha, quando professou os votos da congregação.

Tu me dirás se não sentiste algo de semelhante a acontecer enquanto te ias formando e quando foste ordenado. Ou talvez queiras perguntar aos teus familiares se eles não sentiram que estavas de certo modo a afastar-te da família quando fizeste a opção pela vida sacerdotal...

IMaria disse...

é complicado perceber o luto...

Confessionário disse...

Não, JS,
Eu abdiquei da família por uma causa onde está inserida a família. Não a abandonei, assim como julgo que uma pessoa que se casa não a abandona. Aliás, pelo que conheço, afastam-se mais aqueles filhos que se casam do que aqueles que se consagram a Deus. Os que se consagram a Deus podem ter menos disponibilidade para a família, mas quando a têm, têm-na mais completa.

Mas entendo de certa forma a tua ideia de que temos um amor mais livre. Porém, queria salientar mais uma vez que talvez aquilo que nos faça "ver" as coisas de outra forma não seja a questão afectiva mas a questão da fé. Eu acredito plenamente na Ressurreição. Por esse mesmo motivo, custa-me ver que as pessoas, os cristãos sobretudo, fiquem mais presos à morte que à vida.

E torno a dizer que o que está em causa nesta família nem é o ir ao cemitério. O que está em causa´é fazerem "desaparecer" a sua "vida" porque não querem ainda ver o Sol que ela tem. Eu sei que devo dar tempo. Nem sou ninguém para lhes exigir o que quer que seja. Mas tenho obrigação de lhes ir "descobrindo" o Sol, a alegria de viver (que é coisa que não têm neste momento!).
abraço

Anónimo disse...

Agora pegou moda a cremação. Mas tenho constatado que quando os pais perdem um filho raramente fazem essa opção. Queimar nem os bichinhos de estimação...

Padre, acredito naquilo que diz. Ainda hoje constatei no terreno o humanismo e a sensibilidade de um colega seu. Mas muitos padres são rudes e frios

JS disse...

Ó anónimo, não deixas de ter razão no que dizes sobre os padres. Mesmo que generalizar nunca seja recomendável.

Todavia, não sendo eu advogado de padres, sempre te digo: às vezes, é preciso olhar de mais perto, com mais atenção essa dureza e frialdade.

Porque verás que, por exemplo, há padres que vivem há anos em depressão, sem que eles próprios o reconheçam, ou saibam como procurar ajuda; existem outros que vivem presos num sentimento de mágoa e de traição (algo que se passou com determinada comunidade, ou com alguns paroquianos em que se confiava muito, ou com os colegas sacerdotes, ou até com o próprio bispo); há alguns que estão completamente desalentados e desiludidos com a religião falsa e hipócrita que predomina, e decidiram baixar os braços, ou entregar-se ao cinismo; e um ou outro simplesmente perdeu o sentido de Deus na sua vida...

Anónimo disse...

Sobre a perda e o luto, gostava de lembrar e recomendar aquele filme belíssimo do Nanni Moretti, "O Quarto do Filho".

Já agora, também fica o convite a ver a sua última película, "Habemus Papam". Ainda não estreou cá. Mas é delicioso.

Anónimo disse...

Um exemplo de fazer luto através das palavras: do ontem premiado Leonard Cohen, "A Thousand Kisses Deep".

Vale a pena ouvir a música, mas também o poema a ser declamado.

Confessionário disse...

É JS. Por acaso, é muito assim como falas. Preferia dizer que não. Mas és capaz de estar a dizer uma grande verdade...

JS disse...

Em resposta à Peregrina Repetente:

O preto como sinal de luto é uma convenção social. Em outros locais do mundo e outras culturas, usam-se outras cores. Na nossa tradição, optou-se pelo preto.

Usar o preto, vestir de preto, é a forma de assinalares socialmente que algo de terrível te aconteceu, que alguém que te era muito querido te foi tirado, que te roubaram algo de muito precioso. É a maneira de comunicares, para que os outros entendam, o que te vai dentro do coração e da alma. O exterior fala do que vai no interior do enlutado.

Claro que as coisas são diferentes consoante a comunidade em que estejamos inseridos. Se vivemos numa cidade grande, onde quase todos nos são estranhos, em que se cruzam múltiplas culturas, e as tradições se vão erodindo, o mais certo é não nos sentirmos à vontade em vestir de preto, em dizer aos outros que estamos de luto quando os outros não nos conhecem nem conheceram aquele por quem choramos. Por privacidade, preferimos não ostentar o nosso estado de espírito.
Mesmo assim, não vamos aparecer de côr-de-rosa num funeral de uma pessoa amiga. E em certas ocasiões, pode tornar-se significativo assinalar publicamente que estamos de luto. Vi no passado domingo, na televisão, uma atleta portuguesa que competia numa prova internacional de marcha e que levava algumas fitas pretas no equipamento, porque tinha perdido a mãe uma semana antes.

Já se vivemos numa comunidade pequena, onde quase toda a gente se conhece, nem que seja de cara, e onde as tradições ainda mandam, vestir de preto é obrigatório. E permanecer de preto durante um x tempo. Uma pessoa que ignore esta regra só pode significar que, ou foi mal educada ("foi criada na cidade, coitadinha", ou "é do estrangeiro"), ou que está a "festejar" a morte do falecido, à conta de certas guerras terríveis que às vezes se geram nas aldeias.

JS disse...

Ainda para a Peregrina Repetente:

O problema dos cemitérios relvados, para além de serem estranhos à nossa cultura (já os nossos antepassados levantavam monumentos para os mortos, como os dolmens), é que, por detrás duma preferência por este tipo de espaços, se esconde por vezes uma intenção de esconder a morte, de evitar ser-se confrontado com ela de uma forma clara e directa.

São cemitérios que nem parecem cemitérios; uma pessoa quase nem dá conta que estão ali sepulturas com seus mortos. Pode parecer mais fácil, mais suave de lidar com a morte, mas, no fundo, trata-se de uma ilusão, uma forma de negação. Uma sociedade que faz por esconder os seus mortos, que quer disfarçar a todo o custo os sinais da morte, que trata de eliminar o mais rapidamente possível os vestígios dos defuntos, é uma sociedade profundamente doente.

JS disse...

Quanto à cremação, a Igreja católica hoje em dia está aberta a essa opção. Mas continua a manter a preferência pela inumação dos corpos; convida as famílias a um discernimento das razões por detrás da escolha da cremação; e defende que as cinzas deverão sempre encontrar um local definitivo, próprio e público.

Que as cinzas sejam colocadas num jazigo ou num espaço específico (um columbário) garante o seu tratamento com um mínimo de dignidade, o que por vezes não acontece quando são conservadas numa casa privada ou quando são dispersadas. Ainda hoje me continuo a lembrar daquela cena maluca com as cinzas do malogrado Carlos Castro...

Também permite deixar claro que uma pessoa não nasce para si mesmo, nem é propriedade da sua família. Merece estar no meio dos homens, onde viveu, num lugar de memória social, onde permaneça um rasto concreto da sua existência: um nome, uma data de nascimento, uma referência à sua condição: pai, irmão, avô, bombeiro, soldado, padre...

Está ainda comprovado que a dispersão das cinzas dificulta o luto, porque faz desaparecer esse último sinal concreto de alguém real e de uma relação que a morte não conseguiu apagar.

Anónimo disse...

JS
Obrigada por partilhar dessa forma a sua posição perante o luto.

Peregrina Repetente disse...

Resposta ao JS:
Eu é que agradeço os seus comentários.
Gostaria de saber a opinião do "nosso" confessionário quanto á visão da Igreja Católica sobre os fúnerais em que o corpo é cremado, pois segundo sei a igreja não se opõe nem emite juízos acerca do destino dado ás cinzas.
Desculpe mas não concordo consigo quando diz :
"Está ainda comprovado que a dispersão das cinzas dificulta o luto, porque faz desaparecer esse último sinal concreto de alguém real e de uma relação que a morte não conseguiu apagar." olhe que não, passei há pouco tempo pela perda de um familiar próximo e não é assim, pelo menos comigo não!
Continuo a defender que não deve haver o culto da morte e os cemitérios são o lado material desse culto.
Do ponto de vista ecológico haverá funeral mais "limpo" que a cremação?
Fazendo um pouco de humor, eu costumo dizer que sou tão má que nem os bichinhos merecem morrer envenenados comigo...

Confessionário disse...

Olá, Peregrina
Não sei o suficiente sobre o assunto e não tenho, neste momento, muito tempo para investigar. Mas creio que a Igreja não se opõe. Eu já tive funerais com cinzas. O que altera é o modo da celebração.
Por outro lado, e apesar da importância de encararmos e asumirmos a morte como algo natural, parece-me que na nossa cultura ela não é tida como muito natural e as pessoas debruçam-se mais sobre a morte quando a nossa fé se baseia na Vida!

Quando eu morrer, não me incomoda o que quer que façam ao meu corpo!

Anónimo disse...

"Quando eu morrer, não me incomoda o que quer que façam ao meu corpo!"

No seguimento desta tirada, só me resta recomendar o filme que estreou esta semana: Get Low - A Lenda de Felix Bush.

Anónimo disse...

Por cima dos portões de um cemitério:
"Sois o que fomos. Sereis o que somos".

Confessionário disse...

fiquei curioso pelo filme. De que trata, afinal?

Peregrina Repetente disse...

Obrigada Padre pela sua pronta resposta.
Pois a mim também não me incomada, em vida, o que farão com o meu corpo depois da morte. Se me quiserem cremar, e eu poder, agradecerei-lhes.

Anónimo disse...

O filme é baseado numa história real dum sujeito que faz o seu próprio funeral em vida.

JS disse...

Confessionário:

Quanto ao teres tido funerias com cinzas, talvez seja útil lembrar (aos visitantes do blog) que a norma, nos funerais católicos, é que, no caso de cremação, a celebração das exéquias se celebra antes da incineração do cadáver.

Só se as circunstâncias não o possibilitarem é que se poderá providenciar as exéquias perante a urna com as cinzas. Mas tal opção só é permitida sob a forma de indulto e requer a autorização, pelo menos tácita, do bispo para cada caso concreto.

JS disse...

Quanto ao dizeres, Confessionário, que não te incomoda o que quer que façam ao teu corpo depois de morto, parece-me que tais palavras terão sido escritas um pouco de ânimo leve.

Compreendo-as do ponto de vista do assumir que se trata de algo que, ao fim e ao cabo, escapa ao nosso próprio domínio e controlo; e do mostrar um certo despreendimento e humildade de quem não terá especial vontade em fazer exigências nessa questão.

Todavia, se imaginasses, por exemplo, o teu pai a fazer tal afirmação, certamente que ensaiarias um protesto: pode o meu pai não se incomodar, mas incomódo-me eu e o resto da família, e os amigos e vizinhos. E decerto acrescentarias: pode o meu pai ficar descansado que, no que depender de mim, o seu corpo será tratado com toda a dignidade, respeito e carinho que merece, como ser humano e como cristão.

Ou seja: o assunto é mesmo para incomodar. Mesmo que achemos desnecessário incomodarmo-nos no que diz respeito à nossa pessoa.
E até porque no teu caso, Confessionário, tu já tens uma ideia de como será o teu funeral (se as coisas correrem como previsto). E sabes que o teu funeral será a tua última lição de catequese, a tua última homilia, o teu último testemunho sobre a fé que te moveu, a missão a que Deus te chamou, o amor e a amizade que foste semeando e a esperança que animará aqueles que, na saudade, se despedirem de ti. E isso estará patente, não só mas também, naquilo que farão com o teu corpo.

Confessionário disse...

Nunca tinha pensado nisso assim, mas tens razão, JS. Se fosse o meu pai, de facto, pensaria como dizes!

Quanto às cerimónias em presença de cinzas, tb é verdade que o próprio ritual sofre modificações! Mas já o fiz, em caso de excepção, como afirmas tb!

JS disse...

Peregrina:

Não sei se entendo bem a forma como encaras os cemitérios. Lá terás as tuas razões.

Mas pensa, por exemplo, em Compostela (local a que deves atribuir um especial significado, pelo teu nick e foto que o acompanha).
Ao fim e ao cabo, que é Compostela senão um cemitério unipessoal?...
Tudo o que lá existe, o fascínio e a atracção que exerce, se deve ao facto de uma certa pessoa estar lá sepultada.
No entanto, será o culto da morte o que lá se celebra? É por isso que as pessoas lá peregrinam?
E como seria a história daquele lugar se o tal Tiago tivesse sido cremado e suas cinzas espalhadas?

Para um cristão, uma sepultura é lugar de memória e de promessa. É símbolo duma busca de sentido e de um anseio de comunhão. É uma interrogação: que queres fazer da tua vida?

Anónimo disse...

Dos bispos alemães:

O corpo privado de vida tem, ele próprio também, a sua dignidade (...). É o corpo da mãe ou do pai, ao qual os filhos devem a vida; corpo do amigo, cuja proximidade era comunicação de relação e de amor; é o corpo que guarda as marcas do trabalho corporal, ou pelo qual se efectuou o trabalho intelectual; o corpo que na sua vida carregou com os estigmas da doença e dos sofrimentos, da deficiência, da idade e da decadência, chagas que na transfiguração da carne ressuscitada recebem valor eterno. Para os cristãos, o baptismo torna este corpo “Templo do Espírito Santo”. Foi-lhe dada a graça de ser tocado por Cristo nas unções sacramentais do baptismo, da confirmação, da ordem, da unção dos enfermos. Ele foi alimentado com o pão da vida, a santa Eucaristia, o remédio da imortalidade; ele foi santificado no sacramento do matrimónio, a fim de que os humanos, no dom corporal recíproco, se tornem um para o outro sinal da proximidade e do amor de Deus. Pelos órgãos do corpo, os homens se maravilharam com a beleza da criação e nela captaram o rasto de Deus. Pelos órgãos do corpo, eles receberam a Palavra de Deus e a puseram em prática. O corpo humano é o símbolo primeiro do amor de Deus pelo mundo, assim como do amor do homem por Deus e pelos seus semelhantes. Em Jesus de Nazaré, o Verbo eterno de Deus “fez-se carne” da Virgem Maria. Ele teve como nós uma vida corporal na qual amou e sofreu, até ao dom da sua vida na cruz.