quinta-feira, maio 12, 2011

Não olha senão para mim

Hoje estou aqui sentado. O banco tem lugar para mais cinco se não forem gordos. Mas estou só. A Igreja está escura. Junto ao altar, por entre a janela, percebe-se um tom amarelo da rua. Um amarelecido do tempo. Não quis acender as luzes. Gasta muito. E gasta-me os olhos. Assim descanso-os e posso poisá-los na luz mais forte da Igreja, a luz do sacrário. Trouxe comigo algumas coisas. No banco, do meu lado direito, coloquei as minhas fraquezas. São muitas. Ocupam muito espaço. A seguir coloquei os meus falhanços. As fraquezas ficaram mais perto porque as vejo sempre muito perto. Do lado esquerdo coloquei as cobardias, os medos e as tentações que mais frequentam o meu coração. Se fossem volumes de livros, seriam uma biblioteca. Na ponta do banco, do lado direito estão os pecados. Amontoados. Desorganizados. Não os queria trazer. Mas eles vieram colados à minha sombra. Tal como a sombra não nos abandona, quer com muito sol, quer com iluminação fraca, assim eles se colocam atrás de mim. Costumam colocar-se estrategicamente atrás e não à frente. Tenho a certeza que se eles estivessem na minha frente, eu procuraria todas as horas voltar-me para o Sol. Não consigo avaliar melhor localização. Se de forma que os não veja e sinta. Se de forma que os veja para procurar o Sol.
Recordo que a Igreja está escura. Ainda bem. Pressinto que não estou sozinho no banco. Mas sinto que o sacrário é mais forte, mais luminoso. Prende-me mais a atenção. Apetecia-me passar horas aqui sentado a sentir o que estou a sentir. É como se Ele não tivesse querido olhar as minhas fraquezas, fracassos, cobardias, medos e tentações, e se fixasse apenas no amor que me tem. Também Ele dirige o olhar para o meu banco e não olha senão para mim. E confia. Apesar do banco estar pesado, Ele confia em mim e quase parece fazer-me deslocar levemente, como uma pena, ao Seu encalço. Quer-me assim. Ama-me assim. Não está interessado senão em amar-me.
Levanto-me e parece, de facto, que estou mais leve.

34 comentários:

Maria Zete disse...

Olá Confessionário.
Há dias não comento, mais hoje não o pude evitar. Ah Padre! há dias que me sinto exatamente assim. Pesam-me os pecados, as covardias, as fraquezas e o desanimo. Mas, ao pensar neste Deus Maravilhoso e em seu imenso e incondicional amor, sinto que apesar dos meus pecados ele me ama, não me vira as costas como o fazem as pessoas, muitas vezes aquelas a quem mais amamos. Esse olhar cheio de amor que o Pai tem por cada um de nós é que nos levanta e nos dá a força necessária para continuarmos vivendo.

Peregrina Repetente disse...

Parabéns Padre!Uma partilha linda cheia de todos aqueles pensamentos que Todos temos mas não conseguimos deitar para fora...
Ele, Ama-nos tal e qual somos, com os defeitos, tentações, cobardias, pecados, tal como um Pai ama Incondicionalmente os seus filhos, mesmo quando eles se portam mal.
Por isso Ele só olhava para si e não queria ver os outros "ocupantes" do banco e quando se levantou eles ficaram lá todos. A Luz do Espirito Santo (sacrário) fez com que se volatizassem.
Um Abraço

Anónimo disse...

"levanto-me e parece de facto que estou mais leve"

5.30h da tarde. O reboliço na rua adjacente á igreja era enorme. não me importei. Precisava de algo. A igreja estava vazia. Lá dentro o silencio era intenso.Deixei de ouvir. Hoje o meu queixo bateu no peito quando me inclinei diante Dele.Demorei alguns segundos a levantar o olhar.Tinha medo,vergonha, de O olhar directamente. Hoje sentia-me assim, sem razão aparente. Precisava de um incentivo. Algo do genero: esquece, vai em frente.
Sabes... quando passados alguns minutos saí a porta da igreja, já não era a mesma miuda que tinha subido aqueles degraus... sentia-me leve. Tão leve!

Um abraço!
Alexandra

Anónimo disse...

Filha de Maria sem/ login;

Hoje, particularmente hoje... quis entrar numa igreja, mas... trabalho e o horário é incompativel.

Parece anedota... horário incompativel para se estar com Deus! Mas é assim mesmo... e queria falar-lhe o quanto magoa a indiferença, o desprezo... é algo que nos seca por dentro.

Vindo do mundo, é... mundano. Mas... vindo de dentro da Igreja é... nem me atrevo a dizer.

Gostava de ser assim... conseguir desprezar, pelo menos os que me desprezam... mas isso para mim, é contra a minha natureza!

Vale a pena padre?

Moçambicano disse...

Olá, Caro Amigo P.e Confessionário.
Olá a Tod@s quant@s por aqui passam.

Que Bom que seria se se falasse assim a Tod@s do Amor que Jesus nos tem!
Porventura teríamos as Igrejas menos vazias...

Porque não consigo dizer melhor, cito um "Post" do Blogue Amigo "Na Paz a Verdade":

"A PORTA

Jesus aparece-nos como a porta que abre.

Ele chega ao coração para congregar os que se sentem distantes.

Não há anátemas nem extorsões.

A afabilidade de Jesus é de uma vastidão total.

Ninguém fica fora do convite.

Todos são convidados a entrar."

Um grande Abraço para Tod@s.

Moçambicano

Moçambicano disse...

Olá de novo.

Embora seja um pouco "lateral" a este Tema, parece-me interessante citar outro "Post", de 13 de Maio, do Blogue "Na Paz a Verdade":

"A COMUNHÃO A MUGABE

O que sempre marcou Jesus com os outros foi a largueza de horizontes.

O que sempre demarcou Jesus em ralação a outros foi a misericórdia, a tolerância, a compaixão.

Ele não condenou quem pecava, franqueou as portas do paraíso a um ladrão e deu a comunhão a quem O entregou.

Severo foi apenas (mas de modo muito contundente) para com a hipocrisia, a duplicidade.

Não me repugna que se dê a comunhão a Robert Mugabe, que tem perseguido e eliminado muitos dos seus concidadãos.

Afinal, todos precisam de um reencontro com a verdade da existência e de um estímulo para que se tornem outros.

Mas penso em tantos a quem a comunhão é negada porque (tantas vezes, no meio de dramas de consciência) tomaram determinadas opções na sua vida pessoal.

Apesar disso, são incapazes de fazer mal seja a quem for. E esmeram-se na prática do bem, na promoção da justiça e na vivência do amor pela partilha com os mais desfavorecidos.

Jeus foi assertivo na Sua mensagem. Mas nunca estigmatizou ninguém. O Seu coração rasgava-Se para todos.

É importante que a largueza se manifeste diante de ditadores como Mugabe. Andrés Torres Queiruga, para escândalo de alguns, disse há dias que Deus não condena ninguém. Nem Hitler.

É fundamental que o coração da Igreja de Jesus seja magnânimo como foi o coração de Jesus.

E se oferece o corpo de Jesus a quem, publicamente, semeia a morte, como negá-lo a quem melhor quer crescer na vida?"

Faço apenas uma ressalva: Mugabe esteve oficialmente, enquanto Chefe de Estado, na Praça de S. Pedro, na Beatificação de João Paulo II. E foi aí que, à vista de todas as televisões, recebeu a Comunhão. Que se saiba, também não lhe é negada no Zimbabwé.
Meditemos naquilo que Jesus nos (Igreja) legou autoridade para fazer - e naquilo que em nome d' Ele (ou da Lei?)decidimos fazer...

Um grande abraço para Tod@s.
(E desculpem-me, mas há coisas que ultrapassam o nosso entendimento...)

Moçambicano

Maria disse...

Meu querido amigo,
Mais uma lição de humildade, como muitas que já nos passou...tenho a certeza que Ele foi consigo, pisando levemente, caminhando ao seu lado, para se fôr preciso ser também o seu Cirineu.
Beijinho
Maria

Anónimo disse...

Querido padre:
Que lindo texto! Tocou-me muito e ajudou-me muito também.
Obrigada.

Filha de Maria disse...

Fiz-lhe a pergunta se valia a pena, ali mesmo em cima...

Hoje venho trazer-lhe a resposta Pe. amigo:

http://filhademarianossamae.blogspot.com/2011/05/as-criancas-sao-puras.html

Anónimo disse...

Olá Confessionario:
Só pode ser um dom de Deus, o saber exprimir assim por palavras, aquilo que lhe vai no coração.
Mais uma vez deixou-me deliciada com este texto.
Sabe que este blogue,deu-me outra imagem de Deus?
Quantos , por vezes,ainda mantêm Dele a ideia de um juiz tenebroso que nada mais faz,que não seja ficar de olho nas nossas fraquezas e pecados para um dia nos cobrar tudo isso?
Também jà fui assim!
Hoje acontece-me uma coisa curiosa: nos momentos em que estou com ELe, abre-se sempre nos meus lábios um sorriso. Muitas vezes sem que faça nada para isso. E mesmo ao longo do dia , por breves segundos isso me acontece, sempre que Ele me vem ao pensamento.
Acontece-lhe o mesmo? Ou a algum dos amigos que habitualmente aqui passam?
Deixo a pergunta.
Beijinhos Maria Ana.

Vilma disse...

Sem palavras. Disse tudo! :)

DTA

Anónimo disse...

Tb fikei sem palavras!

JS disse...

Sem desprimor para a intensa experiência espiritual relatada (e para a bela forma com é relatada), não deixo de pensar que os nossos irmãos protestantes, se aplaudiam com energia o teor do post anterior, sentem agora, perante este, alguma perplexidade.

De facto, como entender a contemplação da caixa/cofre que guarda as sobras do pão eucarístico? É curioso lembrar que durante mil anos, a Igreja não atribuiu particular importância à reserva eucarística, nem entreviu especial interesse na devoção ao Santíssimo Sacramento. O pão era para comer, ponto. Até que se deixou de o comer...

JS disse...

Uma pergunta inocente: como é que Jesus se arranjava para rezar diante dum sacrário?...

Confessionário disse...

JS, não percebi a tua pergunta inocente!

JS disse...

Confessionário, a pergunta é semelhante àqueloutra: como é que Nossa Senhora se arranjava para rezar o terço?...

JS disse...

As devoções são uma bênção para a Igreja. Mas são também um veneno.

Quanta desgraça não adveio à Igreja e ao mundo desde que alguém descobriu que se podia fechar Deus dentro duma caixinha!...

Confessionário disse...

Js, isso é quase como perguntar como é que Deus se criou... ou criou o nosso amor por Ele.

Confessionário disse...

amigo, acho que estás a exagerar. Tb concordo que as devoções às vezes submetem a fé.
Mas não é mal (muito pelo contrário) ter "formas" especiais de vivenciar a fé.
Por exemplo, quando olho para o Sacrário revejo a partilha de Deus por nosso amor na cruz, que se dá, que se entrega, que se partilha. Isso é fantástico. Parece-me que Ele não é fechado no sacrário, mas guardado.

Anónimo disse...

Fechado no sacrário é onde muitas O querem! Sou mais activa que contemplativa embora participe semanalmente na Eucarístia. Alimenta-me, fortalece-me mas depois vou para o terreno. Penso que Deus quer fazer missão através de nós. Deu-nos os dons para que os usemos. Há muita "fé" que nada tem de cristão.

JS disse...

Todos precisamos de mediações para fazer experiência de um Deus presente. E, para os católicos, nenhuma é mais especial que a do Santíssimo Sacramento.

Todavia, não deixa de haver algo problemático neste culto, e concretamente no que se refere à reserva eucarística.

Às vezes, fica-me a impressão que as pessoas, depois da comunhão, ficam a prestar mais atenção ao sacrário da igreja que ao facto deles próprios se terem acabado de tornar sacrários vivos. E quando saem pela porta da igreja fora, até parece que Deus ficou lá dentro, bem fechado e guardado, e não voltará a incomodar tão cedo...

Confessionário disse...

Tens razão, JS
E de facto eu costumo dizer aos meus que depois de comungar devem contemplar Cristo dentro deles!
Mas continuo a dizer que não podemos generalizar.

Maria Zete disse...

Padre o que houve com o meu comentário? não foi publicado. fiquei triste

Confessionário disse...

Olá, Maria Zete

Não fui eu. Foi a blogger, num dia que houve crash. O blogue ficou inclusive sem o último post, bem como o que eu tinha mudado naquele dia 11 de Maio (anedota e sondagem).

Eu lembro bem o teu comentário, que gostei imenso, mas nao sei as palavras exactas. Podes tornar a dizê-las, please.

beijinhos

JS disse...

Eu, quando olho para o sacrário, só me apetece cantar aquela canção dos Delfins: "Soltem os prisioneiros..."

Já agora, é também por aqui que vejo que o Papa faça tanta questão em pôr um crucifixo em cima do altar: é para ele, e todos os cristãos, não ficarem demasiado fixados na presença de Deus no pão consagrado. Ou então, para melhor entenderem quem se faz presente ali e porquê.
Seja como for, para o Papa, olhar para a hóstia não lhe chega. E nisso, eu estou com ele.

Anónimo disse...

Aqui numa terra dos arredores, faz algum tempo, parece que um padre se suicidou...muita gente deve ter dado à língua com tal acontecimento...mas ninguém deve ter pensado no banco em que estava sentado, parecido ao do Confessionário mas sem a confiança e o amor de Deus.
Simone.

Confessionário disse...

OLá, Maria Zete

Afinal hoje apreceu-me o teu coment de novo... E ainda bem

Carla Isabel disse...

...pois...percebo...Ele tem mesmo que ser maravilhoso para nos amar incondicionalmente!

Bjs

Maria Zete disse...

Olá Padre.
Fiquei feliz em ver meu coment.
Abraço em Cristo.

Joana disse...

Pe. tenho uma pergunta para si.
Se Deus não olha senão para nós, porque nos envergonhamos e nos culpamos tanto das nossas falhas, ou pecados, como queira chamar.

Porque é que por vezes mesmo depois do sacramento da confissão com o sacerdote, continuamos confusos e muitas vezes até mais perdidos ainda?

Ensine-me ou explique-me como posso sentir Esse Amor, que voce e tantos católicos sentem. Eu não consigo sentir Deus em mim pe., por mais que tente não consigo sentir-me amada por Ele.

Não sei o que se está a passar comigo pe. até há uns dias atrás tinha tantas certezas e agora neste momento só tenho dúvidas.
E em vez de sentir-me "mais leve", pelo contrário, após a confissão, vim "mais pesada".
Não me senti perdoada, nem amada, apenas humilhada.

Que se passa comigo pe?
Sinto que estou louca, confusa, ou doente?
Não sei o que me atormenta, mas não sou eu.
Bjs

Confessionário disse...

Joana

Só deixarás de te sentir culpada, quando assumires a tua culpa e perceberes que isso é apenas algo na tua vida, mas não é a tua vida;
mais, ultrapassarás isso quando perceberes quem é realmente Deus que é Amor...

Joana disse...

É tão fácil dizer Deus ama-te.
Mas o meu coração não O sente verdadeiramente.

Bjs

Confessionário disse...

Olá, Joana
Gostava que entrasses em contacto comigo por mail: ta no cimo do blogue... mas deixo aqui: eupadre@gmail.com

Joana disse...

Voce é mesmo pe?
E se for, como pode me ajudar?