quinta-feira, dezembro 16, 2010

A terapia dos pobres

Numa hora estive com uma dezena de pessoas, mulheres de cabelo branco ou tapado com o escuro de véu à antiga. Gente cheia de problemas. Os problemas da idade e da vida que não teve oportunidade de ter mais oportunidades. Na sua maioria viveram toda uma vida na mesma terra, na mesma casa, com os mesmos vizinhos e familiares, com o mesmo quintal. Nem a televisão deixou passar outras vidas ou outras formas de vida. Mas precisam falar. Precisam mais falar que confessar-se. E falaram. Falaram. Tanta história cruzada com nomes que eu nunca iria fixar. A sua história numa conversa. Os seus conflitos interiores e exteriores. Os pequenos ou grandes problemas. As suas depressões, se é que sabem o que são ou que as têm. E depois de uma dezena de pessoas que só precisavam falar e sentir que tinham alguém que as escutasse, eu pensei para comigo. Será este o consultório de Deus, a terapia clínica dos pobres?

13 comentários:

Anónimo disse...

Olá Confessionario: Uma frase que me prendeu logo a atenção deste belissimo texto foi"precisam mais de falar do que de se confessar".Acho que é uma afirmação muito pertinente uma vez que,e falo por mim, muitas vezes sinto mais falta de direccão espiritual do que propriamente de confissão.Não quero com isto dizer que a confissão não seja importantissima,mas quantas vezes uma conversa franca com o padre não bastaria para nos orientar em momentos de duvida. A questão é onde se encontra hoje em dia um sacerdote disponivel para nos acolher,assoberbados como estão de mil afazeres? Não deveria a Igreja repensar qual é o papel do padre nos tempos que correm? Não andarão os pastores ocupados demais com outras coisas e a descorar as ovelhas? Beijos Maria Ana.

Confessionário disse...

Olá, amiga

Pois eu acho mesmo que a Igreja devia repensar muito a vocação sacerdotal. É que é mesmo verdade que nos gastamos com aquilo que nao nos é nada específico e depois nao temos forças para o essencial.

Agora anda ai o doc "Repensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal". Conheces? Conhecem? se for preciso coloco aqui na net.
mas nao sei se vai dar nalguma coisa...

Anónimo disse...

Muitas vezes é mesmo uma terapia. Tive a sorte de ter um sacerdote muito santo na minha paroquia por 10 anos, incansavel ao ouvir confisões, ouvir falar apenas, escutar, nunca julgando, sempre atencioso, amigo, presente, orando junto, chorando junto, mesmo de Deus, horas a fio sem parar para nem sequer lanchar, algumas vezes até quase meia noite, domingos de tarde... pena que foi transferido para longe, não podiamos tê-lo para sempre, mas não sai da nossa lembrança, do bem que fez a muitos, muitos.
Teresa

Anónimo disse...

Olá Sr.Padre:Concordo em absoluto com o seu ponto de vista.Pertenço á diocese de Viseu e fui á abertura do sínodo que começou em Outubro e vim de lá desencantada,com a sensação de que nada vai mudar.Será que muitas das tarefas borucráticas feitas pelos padres não poderiam ser desempenhadas por leigos preparados para o efeito? De modo a deixar os mesmos livres para outras tarefas mais necessarias? Penso que o que leva ao aumento de muitas seitas que proliferam por aí,talvez seja a disponibilidade que muitos encontram lá. E sem darmos conta vamos ficando com igrejas cada vez mais vazias só preenchidas aqui e ali por pessoas idosas.Dessas que fala o texto e que por vezes só não vão tambem atráz porque as pernas já não ajudam. Sabe do sinto realmente falta? É de uma boa e eficaz catequese de adultos.Fazia toda a diferença.Beijos Maria Ana.

Moçambicano disse...

Olá, Caro Amigo P.e "Confessionário".
Olá a Tod@s que por aqui passam.

Quando se tem a sorte de ter um Padre disponível na Paróquia, o confessionário (sobretudo), a sacristia, o adro da igreja, ..., podem ser efectivamente os "consultórios dos Pobres".

E tenho a certeza de que por vezes pode ser extenuante uma "maratona" destas.
Mas também estou convicto de que nesses momentos de Acolhimento o Padre é tão "Alter Christus" como no momento da Consagração.

Muita força, Amigo "Confessionário"!

Um forte abraço

Moçambicano

Anónimo disse...

Padre, boa noite.

Nao estive, pessoalmente, na fila de dezenas de mulheres a lhe falar ou confessar hj... Mas, talvez tenha feito eu o mesmo que elas lhe escrevendo, agora...
Sem duvida, podemos chamar sim de um consultorio terapeutico, sendo o padre, nao um "medico, doutor", mas um paciente e carinhoso, representante de Deus!
Mesmo tendo condicoes, para visitar um terapeuta, nunca trocaria a oportunidade, de poder falar/escrever, com um padre... Oportunidade nova e que estou tendo, nesse momento, através de seu blog!
A diferenca entre um medico/terapeuta e o amigo/padre, eh uma soh, qual seja, a CONFIANCA!
Só, se abre, só se fala, só se confessa, a quem se confia...
Entao, padre, tome isso como elogio, nao só meu, mas de todas essas dezenas de mulheres, que lhe falam, lhe confiam... Elas desabafam, expressam seus sentimentos, e o senhor, as conforta... Nao seria assim, como Jesus faria? Consolar os aflitos? Levar a eles um pouco de alivio e conforto...

"Um padre eh feito para a alegria, eh alguem que se mantem sempre fiel. Deus chama alguem do meio do povo, para o povo.
Um padre deve ser ao mesmo tempo, pequeno e grande, de espirito nobre, como de sangue real e simples.
Um padre deve ser discipulo de seu senhor, chefe do seu rebanho, um mendigo de maos largamente abertas, um portador de inumeraveis dons, um homem no campo de batalha, uma mae para confortar os doentes, com sabedoria da idade e a confianca de um menino, voltado para o alto, com os pes na terra.
Um padre deve ser experimentado no sofrimento, imune a toda inveja, que fala com franqueza e eh inimigo da preguica. Todo cristao eh chamado para servir.
No entanto, para que o povo de Deus possa cumprir sua missao, Ele suscita em seu meio algumas vocacoes especificas, a do sacerdocio eh uma delas".

Bem, padre, pelo post de hj, imagino que tenha tido um dia bem ocupado e talvez cansativo... Nao quero eu cansa-lo mais ainda, com meus escritos...

Boa noite e ate a proxima.
Bjk

Anónimo disse...

E qual será a terapia dos ricos?

Anónimo disse...

sr. padre eu graças a deus tenho um grande amigo que tal e qual como diz no seu apontamento esta sempre desponivel quando preciso , e so tenho que agradecer a Deus e a ele ter aparecido na minha vida , pois nada acontece por acaso , e a tantos momentos em que uma palavra vinda de uma pessoa assim faz toda a difença , gosto muito do seu blog.

Anónimo disse...

Felizes aqueles que têem alguem por perto, como o sr. padre os OUVE.

Sinais no Mundo... disse...

Um Santo e Feliz Natal pedindo ao Deus Menino Amor, Paz,Saúde e Pão para Todos os seus filhos Queridos...

Que o Ano de 2011 vos traga as maiores Bênçãos e Graças para O anunciarmos a todos aqueles que de nós precisam....

Anónimo disse...

POis é certo... Força na paciência

Anónimo disse...

Boa noite Confessionário.
Felicito-o pelo seu blog, lamentando apenas ter tomado conhecimento dele só há muito pouco tempo.
Gostei muito desta sua franca observação sobre "A terapia dos pobres". E respondendo à sua pergunta final, «Será este o consultório de Deus, a terapia clínica dos pobres?»: sim é este o caminho. Ter tempo e paciência para saber escutar (não apenas escutar, mas saber escutar) e, se for caso disso, saber dar uma palavra amiga.
Concordo com o comentário da Maria Ana e com o do Sr. Padre quando ambos referem que a Igreja deveria repensar a vocação sacerdotal, porque a grande maioria dos sacerdotes de hoje não têm tempo para o seu rebanho. Uns porque atarefados com o que está a mais, falta-lhes tempo; outros, mais voltados para si próprios e para a sua ascensão na carreira eclesiástica, esquecem-se da vocação que escolheram. A estes últimos é de perguntar se a opção de vida que fizeram pelo sacerdócio foi-o como se de uma profissão se tratasse, com direito a competição na subida de carreira, como se vai constatando. Por estes últimos deveria a Igreja repensar a vocação sacerdotal.
Termino com a questão colocada pela Maria Ana «Não andarão os pastores ocupados demais com outras coisas e a descurar as ovelhas?»?

Abraço
Pedro

Anónimo disse...

Parece-me que a maioria das pessoas (donde não me excluo), desejam muito que alguém tenha tempo para elas. Desejam ser ouvidas, ser cuidadas, ser aconselhadas, desejam um apoio, um suporte, no entanto, independentemente de qualquer repensar da vocação sacerdotal, é preciso não atribuir ao padre papeis que não lhes competem directamente. Uma terapia não cabe ao sacerdote. Uma confissão, não é uma terapia, nem mesmo dos pobres porque não cumpre os critérios para se denominar como tal. A confissão não tem por objectivos restabelecer o equilíbrio psicológico, reforçar as defesas, melhorar a adaptação, não tem por objectivos a melhoria sintomática, a autonomia, a integração, uma auto-imagem estável … etc. Os padres pela minha experiência pessoal, que não é generalizável, sabem até muito pouco de técnicas psicológicas de abordagens às pessoas. Alguns padres conseguem mesmo deixar as pessoas sair dos confessionários sentindo-se mal confessadas, quanto mais apoiadas. Agora que seria interessante grupos de ajuda em paróquias e supervisionados por padres no seu âmbito espiritual, seria. Se um padre acumula formação na área de saúde, excelente. Não é pela inexistência de dinheiro para ir ao psicólogo, ou por terem medo de serem estereotipadas, que o padre se torna um técnico de saúde. Aliás, raros são os que possuem a sabedoria e acima de tudo a generosidade para o fazer. Digo-o porque já ouvi muitos comentários de padres amigos. Uma grande percentagem de padres não suportam ir além das suas funções, não possuem essa generosidade. A confissão não é a terapia dos pobres… seria mais uma pobre terapia.