domingo, Dezembro 12, 2010

Os padres também erram

Estou sentado, mas já remexi a cadeira umas poucas de vezes. Parece que não consigo estar nesta posição. Levantei-me três vezes e fui à janela. Fui procurar uma resposta para a minha atitude. Fui procurar a senhora no meio daquela nuvem escura que avisto daqui. Eu tinha o portão aberto. Estava com umas pessoas debaixo do telheiro, na entrada da porta que dá para o quintal. O quintal da casa paroquial é grande e rodeado por um muro alto. A altura que possa trazer alguma discrição ao padre. Não tenho nada semeado. Não tenho tempo nem jeito. A conversa estava interessante e, repito, o portão do quintal estava aberto. Seriam umas dezoito horas, as suficientes para que o escuro impedisse a boa visibilidade, mas permitisse que nos apercebêssemos do vulto que entrou pelo quintal adentro e estagnou diante das paredes do muro que ficavam no sentido inverso ao portão. Ninguém percebeu o que se passava, nem de quem se tratava. A conversa parou. Uma das pessoas ainda falou em receio ou medo. Não me lembro que termos utilizou e para quê. Recordo que pensei. Deve ter receio do que podem querer ali àquela hora. Mas agora penso que poderia querer referir-se a outra coisa. Ao receio do que podia acontecer ao vulto estranho do muro do quintal. Levantei a voz para que o vulto me ouvisse e nada. Não reagiu. Tive de aproximar-me. Era uma senhora de cabelo branco. Não consegui ver melhor e não a reconheci. Lembrei que podia ser do lar e estar perdida. Só podia. Lembro que me mostrou umas coisas e que disse que andava às flores. Àquela hora! Ela não estava boa. Agora é que penso nisso. Perguntei se estava no lar e disse que sim. Foi a única coisa que fez sentido na conversa. Por isso encaminhei-a para o portão e indiquei-lhe a direcção do lar que fica a uns vinte metros à direita. Tinha missa dali a instantes e tinha alguma pressa. Convenci-me que ela tomaria a direita. Nem confirmei a direcção. Fui à minha vida. Mas passada uma hora e meia soube que tinham encontrado uma senhora no cimo de vila, na estrada, perdida. Se porventura não a tivessem reconduzido ao lar, não se sabe o que teria sucedido. Pedi que me explicassem melhor a história e como era a senhora. E expliquei o que sucedera comigo. Bati no peito e contei repetidamente. Contei para as senhoras que estavam na sacristia. Mas acho que era sobretudo para eu me ouvir. Bati no peito. Ainda agora bato. Eu devia não penas tê-la conduzido ao portão, mas ao lar. Devia certificar-me de que ela lá chegava. Eu devia muitas coisas, mas não o fiz. E agora estou para aqui à procura da senhora e de mim. Os padres também erram. Se erram.

14 comentários:

Moçambicano disse...

Caro Amigo P.e "Confessionário":

Quero apenas dizer-lhe que me tocou a sua "confissão pública".
Não tinha necessidade de a fazer. Mas o fazê-la, fez-nos sentir a Tod@s mais próximos, mais "iguais".

Um grande abraço.

Moçambicano

Anónimo disse...

REALMENTE AO LER ESTE SEU BEM CONSEGUIDO POST,DEVO DIZER QUE PERDEU UMA BELISSIMA OPORTUNIDADE,DE TER PRATICADO UM BELO ACTO DE SOLIDERIEDADE,OU SEJA:UMA BOA ACCAO.NO ENTANTO SR,CONFESSIONARIO,HA MUITOS QUE DEVERIAM DAR O EXEMPLO,MAS FAZEM MUITO PIOR.DE QUALQUER FORMA E DE LOUVAR A SUA ATITUDE,RECONHECENDO O ERRO PRATICADO.E QUEM DEVE TER ESTRANHADO ESSE ACTO MAL PENSADO DEVE TER SIDO A VELHINHA.

Anónimo disse...

Erram, como todos, pena que muitos não tem a sua coragem de admitir. às vezes no momento fazemos algo que parece o mais acertado, o normal no momento, só depois percebemos qe pderia ter sido de outro jeito, mas é proprio da natureza humana. Parece que alguma coisa no cerebro não liga uma coisa na outra e fazemos o mais simples, sem maldade, sem preguiça, simplesmente por ter sido a primeira coisa que passou na nossa cabeça..
Teresa

Anónimo disse...

Mas infelizmente há também padres que não descobrem que erram!

Por isso se tornam azedos e não são compreensivos para com quem erra.

Anónimo disse...

"E QUEM DEVE TER ESTRANHADO ESSE ACTO MAL PENSADO DEVE TER SIDO A VELHINHA."

dahhh, atão o confess não disse que "Ela não estava boa"!
se ela não sabia o que andava a fazer, também não deve ter percxebido ou estranhado nada.

Anónimo disse...

Bom dia,
Olá Padre
Errar toda a gente erra, apenas poucos têm a coragem de o admitir.
Não se condene.
Bem sei que é mais fácil falar para quem está de fora, mas o facto de admitir o erro é um alerta para situações futuras.
A esse processo chama-se crescer.
Força.
PR

Anónimo disse...

Este texto também me faz pensar no sacerdócio dos tempos modernos, pois os padres gastam-se em funções (missas, sacramentos, funerais, festas...) e depois não têm tempo para serem padres! Correm para as funções e isso rouba-lhes tempo para outras atenções.

Fernando Gonçalves disse...

Só alguém notóriamente conhecido afirmou à uns anos atrás: "Não erro e raramente tenho dúvidas".

Moçambicano disse...

Boa Tarde a Tod@s.

Já agora uma pergunta:
- E será que todos os Bispos se preocupam de saber se pelo menos alguns dos seus Padres - os habituais "burros de carga" (como em todo o lado) -, têm tempo para ser PADRES (do latim "Pai")?

Um abraço, e Bom Advento para Tod@s.

Moçambicano

Anónimo disse...

Padre, toda a gente erra. Andamos tão atarefados com a vida que às vezes nem temos tempo para pensar bem nas nossas atitudes e nas consequências que podem ter. Não nos apercebemos até que ponto podemos ser determinantes na vida das outras pessoas...
Situações como a que relata, são a forma que Deus encontra para nos chamar "à razão". São uma forma de pensamos que quando não agimos da forma que devíamos, estamos a agir erradamente.
A sua atitude é compreensivel e até desculpável, mas se porventura o desfecho tivesse sido outro, provavelmente sentir-se-ia muito culpado.
Confessou o seu erro e tenho a certeza que lhe servirá para estar mais atento no futuro.
O mal estar com o que fizemos vem um bocadinho do facto de acharmos que as nossas acções não estão em conformidade com aquilo que pensamos ser correcto. Mas é preciso ter alguma sensibilidade moral para conseguirmos reconhecer com honestidade as nossas limitações e os nossos erros...
Eu vivo muitas vezes essa sensação de me sentir "em falta" comigo própria em muitas coisas. Por exemplo, quando sou preguiçosa, quando deixo as coisas pela "rama", quando não invisto a sério os meus "talentos", quando não me ligo aos outros da forma que devia...São pequenas coisas no meu dia-a-dia que me vão minando por dentro; quando ouço uma coisa qualquer e faço um juízo maldoso ou precipitado; quando podendo ajudar, não dou um passo em frente, quando me julgo melhor ou mais digna, ou simplesmente quando me vejo a fazer coisas que acho intoleráveis nos outros...
De todas as coisas que faço mal (ou deixo por fazer) a que me incomoda mais é a incoerência. Sentir que a pessoa que sou, a pessoa que pareço ser e a pessoa que gostava de ser, não estão em concordância: "Prego" uma coisa e faço outra. Todos os dias me confronto com as minhas limitações. Vivo revoltada e zangada com Deus porque Deus não me ouviu quando eu achava que merecia. Vivo zangada comigo própria porque sei que tenho uma vida maravilhosa, e os meus sentimentos não estão em conformidade. Vivo cheia de mágoa por uma coisa que perdi (mesmo ainda conservando tantas!)como uma menina caprichosa que faz uma "birra" quando não lhe dão aquilo que quer...
Vivo entre um sentimento de revolta e um sentimento de culpa permanente... Por vezes sinto-me tão zangada que é como se a minha revolta legitimasse os meus erros e dou comigo a perspectivar situações que colocariam outros em circunstâncias iguais àquelas em que não gostei de estar.
Tem sido uma luta muito dificil entre o que me apetecia fazer e o que acho que é correcto fazer. E por vezes ainda aparecem as perguntas: "mas será que vale mesmo a pena preocupar-me com isto? Será que este esforço será compensado? Haverá realmente Alguém que se preocupe com estas inquietações parvas? Que diferença é que isto pode fazer no total?"...
Espero que eu, como a senhora que se perdeu, possa também encontrar o caminho certo para o lugar onde devia estar...
Abraço.

joaquim disse...

Oh Padre amigo

Mas tu já te encontraste quando percebeste que te tinhas "distraído" um pouco!

Agora como penitência, vais ter a senhora e mostrar-lhe o teu sorriso e a tua alegre e simpática maneira de seres Padre.

E o Senhor lá no Céu ri-se e pensa: afinal foi tão fácil chamar-lhe a atenção!

E olha que sorrio quando escrevo este comentário!!!

Um grande e saudoso abraço

Anónimo disse...

Olá Conf.

Começo a ficar preocupada contigo! Não estas bem!!!!
Mas...
Mas imagina que tu até a tinhas reconduzido até ao lar.
Seria interessante ver a velhinha fugir todos os dias para a tua casa, para depois ter o prazer de ter a tua companhia de regresso ao lar...

Um abraçito!

Alexandra

Maria Zete disse...

Meu caro Padre.

Atribua esse pequeno "deslize" ao seu humano e as tantas atribuições que você tem. Muitos padres recebem tantas incubências que algumas vezes (espero que poucas) acham-se sem tempo para acudir as outras pessoas como gostariam. Não se culpe, apenas fique atento. Tantas pessoas erram, mas não tem a humildade de reconhecer que erraram, sua atitude de reconhecer esse pequeno erro, demonstra humildade e isso nos faz crescer.Grande abraço.

Bunny disse...

Ainda bem que fez este desabafo. a mim fes me cair na realidade de algumas coisas. Como muitos já aqui disseram, não há tempo para ser «padre»: sao as muitas paróquias, logo os muitos erviços, mais os centros sociais, mais outros afazeres diocesanos....que por vezes se deixam outras coisas para trás. O Pe fez aquilo porque era o que podia ter feito na altura. Qualquer leigo o poderia fazer. Como imaginar que ela não se orientava??
Não se martirize....espero que esteja tudo bem com a dita senhora.
Um beijinho mt grande* É uma pessoa fnatástica