terça-feira, novembro 09, 2010

A estatura do verdadeiro amor

O senhor Emanuel anda na casa dos sessenta. Mas nos últimos tempos o rosto tem traçado anos atrás de anos, como se cada minuto fosse uma semana de vida e cada segundo lhe desenhasse uma ruga. Quem olha para aquele homem de pequena estatura, sem querer concentra-se apenas no rosto. Um rosto que anda na casa dos setenta.
A esposa tem estado fora, lá para os lados da capital, numa clínica. A saúde dela exige cuidados que o senhor Emanuel já não possui para dar. Aguentou enquanto as forças físicas o permitiram. Hoje restam-lhe as forças anímicas ou afectivas. A doença de Alzheimer faz destas coisas. Tira muita coisa a quem padece dela. Mas tira outras tantas a quem está próximo dela. Eu sei que o senhor Emanuel tornou-se incapaz de fazer mais do que sentir. E andava mais triste ainda porque ela estava longe.
Há dias encontrámo-nos no meio do acaso da rua e no meio da sorte de Deus. Correu para me contar. Padre, ela já está aqui no lar da paróquia vizinha. O sorriso era grande, e contrastava com o rosto que lhe conheço dos últimos tempos. Por isso lhe perguntei porque estava feliz. O sorriso alargou-se e respondeu que agora podia ir todos os dias vê-la. Fiquei contente pelo sorriso. Mas, como sabia que ela estava num já quase estado de inconsciência, a curiosidade levou-me a perguntar se ela ainda o reconhecia. O senhor Emanuel baixou a cabeça e abanou-a, respondendo que não. As rugas voltaram. A minha curiosidade aumentou e, por isso, insisti. Então se ela já não sabe bem quem é o seu marido, porque está tão feliz, senhor Emanuel? Não acha que, com tanta visita, ainda sofre mais? Ao que ele respondeu, levantando de novo a cabeça e o sorriso. Ela pode já não saber quem eu sou. Mas eu sei quem ela é.
Abraçámo-nos com verdade e eu fiquei a saber que o senhor Emanuel é um homem que, de pequeno, só tem a estatura.

19 comentários:

Anónimo disse...

O verdadeiro amor engrandece quem o sente.

Abraço
Zu

Anónimo disse...

Aqui há dias aconteceu-me uma situação parecida. Também encontrei um senhor que tinha a mulher internada num lar, mas que estava tão longe que ele quase nunca a podia ir visitar. E via-se na sua atitude que se sentia mal com isso. Tentava desculpar-se, como se sentisse culpado ou em falta... Fez-me pena sobretudo o estado de abandono que pressenti. Olhei para o senhor e pensei que não é fácil ser-se velho. Não é fácil ser-se pobre. Não é fácil ter que contar só consigo mesmo. Ter que enfrentar a solidão. Não ter ninguém que se certifique de que ainda estamos vivos no dia seguinte...

Depois de uma certa idade, quando os familiares e amigos começam a morrer, pensamos mais na vida. No que fizemos e não fizemos, no que devíamos ter feito, no que ainda temos...O senhor Emanuel ainda tem a sua esposa. Mesmo doente. E ir visita-la todos os dias, pode ser um bom motivo para continuar a viver...
Acredito que muitos idosos morrem simplesmente porque deixam de encontrar razões para quererem continuar a viver.
Abraço
Zu

JS disse...

Sugiro o vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=1FUR0Ic_wcI

Luisinha disse...

Ai que lindo!! Nem tenho palavras... E as que já disse não dizem tudo lol
As pessoas vivem as suas vidas atribuladas, os seus problemas pessoais, e sem querer estão a dar uma lição de vida a tantas outras!!

Taísa Vicente disse...

É esse o amor que o Senhor tem por nós! E louvado seja Deus porque esse homem mosta que sentirmos esse amor, mesmo com nossa humanidade tão limitada, é possível!

Anónimo disse...

Tão bonito esse sentimento que é afinal amar... A simplicidade de alguns ensina a importância a outros...

(Voltei às visitas, porque me fazia falta)


Impressãodigital

Anónimo disse...

Padre
Que verdade linda esta história encerra.
A doença também me roubou a minha mãe.
Um dia destes a minha irmã dizia-me que um dia quando estiver em presença de Deus, tem muitas questões que lhe quer colocar.
Essa doença que nos apaga da memória dos doentes daqueles que amamos.
A verdade a que eu me referia, é a verdade do AMOR.
Eles podem não nos reconhecer, mas nós sabemos muito bem quem eles são e amamo-los ainda mais.
Paulina

Anónimo disse...

Lindo, por essas e outras preciso e gosto tanto de vir ao confessionario.

Anónimo disse...

Ola Confessionario: Numa sociedade de casamentos "light" sabe bem ler testemunhos destes.Ainda ha amores bonitos.Sou da opiniao que as grandes e dispendiosas festas de casamento deviam ser feitas,nao no dia do enlaçe,mas aguardar,pelo menos,pelas bodas de prata.Aì,sim ja ha lugar para comemorar.E confesse Sr Padre nao lhe da mais prazer celebrar bodas de prata ou ouro do que propriamente casamentos? Parece que estou a fugir um pouco ao tema do texto,mas so ao fim de uma vida a dois se pode dar uma resposta como a que foi dada.

Anónimo disse...

Amigo Confessionario sou visita assidua ha ja alguns meses mas so agora comecei a deixar alguns comentarios.Sou Ministra Extraordinaria da Comunhão e o que mais me deixa triste é ver a solidao de alguns dos doentes a quem levo a Sagrada Comunhão.Custa-me ouvir "ai os dias sao tao grandes e as noites interminaveis". Pode-se morrer de amor mas tambem se morre de solidão.E por vezes os filhos ali tão perto.Voltam depois para reclamar a herança.Tristes os tempos que correm...

Anónimo disse...

Gostei do post, porque é bom saber que ainda há amores que sobrevivem por cima de todos os problemas e complicações da vida.
Saí há pouco de uma relação e o que me tem custado mais é ter vontade de voltar a acreditar. Olho à minha volta e sinto assim uma decepção misturada com desânimo. Como se não valesse a pena, como se andassemos para aqui todos equivocados com a vida, desenhando projectos, fazendo acrobacias para, ao fim ao cabo,podermos fingir que somos pessoas felizes...

Durante muito tempo eu também fui como o senhor Emanuel. Não interessava se a outra pessoa não me reconhecia. Interessava que eu a amava....

Mas quanto tempo pode sobreviver uma relação só com o amor de uma pessoa?

Abraço

Canela disse...

Pe. amigo... hoje deixo só um beijinho fraterno.

A partilha é tão bonita... se acescento mais uma virgula... estrago-a!

Eu disse...

=')
E mesmo de imprecionar porque historias destas já nao ha muitas infelizmente...

Ela ainda existe..e el pode ve-la e toca-la...sentir o seu xeiro e presença....

O amor ainda existe...mesmo raro...e um alivio por existir!

<3

Anónimo disse...

Apesar da doença da esposa, o senhor Emanuel tem lá as suas razões para estar feliz com a sua proximidade. Estar com ela todos os dias dá-lhe satisfação, alegria e um sentido para a vida.
Pena que muitos idosos e doentes, por força das circunstâncias, da doença ou da falta de meios, continuem a ser integrados em instituições longe dos seus familiares, ou que os próprios familiares os "esqueçam" estando (por vezes) tão perto...
Devíamos todos pensar um bocadinho mais nos velhinhos. Lá dentro daqueles corpitos envelhecidos e cheios de "reumático" existe uma alma que não envelhece e que apesar de tudo, continua a precisar do carinho e da atenção dos outros, de amor, de dedicação...

Eu acredito que o amor é uma ligação da nossa alma e por isso, dentro do nosso coração, o amor não ganha rugas nem Alzeimer. Talvez o senhor Emanuel, continue a olhar para a sua esposa com os "olhos do coração"...

Abraço

Simone. disse...

Não sou crente Sr Padre, e vim ao confessionário apenas porque a curiosidade aqui me trouxe depois de ler uma certa revista. O Sr Emanuel arrancou-me uma lágrima, espero um dia morrer antes do meu marido.

O Toninho disse...

Olá,
Bonita historia, como diz o primeiro comentário "O verdadeiro amor engrandece quem o sente", valor que infelizmente se vai perdendo cada vez mais.

Bunny disse...

E o Sr Emanuel tem muita razao!!!
Isso é Amor!

maria disse...

"Mas quanto tempo pode sobreviver uma relação só com o amor de uma pessoa?"


neste comentadores de "amores verdadeiros" ninguém teve uma palavra de acolhimento para alguém que confessa o fracasso de um amor. (È que nos amores idealizados dos contos de fadas não existem fracassos)mas nos amores das pessoas existem.

Abraço

Anónimo disse...

Olá Maria
Só quem sente o verdadeiro amor o reconhece.
Não se trata de comentadores de amores verdadeiros... no meu caso trata-se da minha mãe.
A minha mãe não é um conto de fadas nem nada que se pareça.
O desânimo por vezes vem, mas nunca a falta de Amor.