quinta-feira, maio 21, 2009

O Zé, marido da Rosária

Vim agora da rua. Estava no meu balcão quando avistei ao longe o Zé, marido da Rosaria, que não sei se recordam.
O Zé tem a idade que Deus lhe permite ter e é muita. Mas ainda calcorreia os paralelos da vila. Vinha distraído e eu não quis distrai-lo da sua distracção. Mas como gosto de apreciar, fiquei preso a ele com o olhar, cogitando a fé desta gente. Nisto passa em frente da porta da Igreja, que é logo aqui ao lado. Não entra. Porém, para meu espanto, retira o chapéu da cabeça enquanto passa e coloca-o ao peito. Na hora exacta em que se encontra com a porta, faz aquilo que me pareceu uma genuflexão. Não tocou com o joelho no chão. Mas percebeu-se a intenção. Não deu conta da minha presença. Não precisava. Deve ser um gesto habitual, normal nele. Não entra na Igreja e segue viagem. Vai apressado. Entro em casa a sorrir. Permaneço em frente à minha porta, do lado de dentro, e penso a sorrir. Olha eu que imagino e tudo faço por uma igreja em permanente “Nova Evangelização”, agora recebo este ensinamento de alguém que ainda está preso a um hábito antigo, digo eu. Habituado ao grande respeito pela casa de Deus, pela porta para Deus, pelo próprio Deus. Ainda que de forma algo distante. Ainda que tenha ficado à porta. Ainda que possa ser apenas um hábito. Ainda que, de ensinamento, tenha sido apenas uma proposta à reflexão. Não sei se disse alguma oração. Mas o seu gesto foi para mim uma oração.
Obrigado, Zé

17 comentários:

Anónimo disse...

«Mas o seu gesto foi para mim uma oração.»

Para mim é um lamentável gesto de subserviência e humilhação. Equem permite que outros se ajoelhem perante si, jamais será um ser superior.
E não me digam que só ajoelha quem quer. Os cristão-novos que o digam.

maria de fatima disse...

Eu tenho o privilégio de trabalhar numa sala de onde avisto a " minha " Igreja e olho para ela durante longos minutos, muitas vezes, enquanto " penso ". Algumas vezes vou lá por meia hora e gosto, entre outras coisas, de ouvir o " Seu " silêncio. E ajoelho e assim permaneço enquanto posso. Não me sinto em nada diminuída por isso. É o que posso dizer.

Anónimo disse...

Olá Conf.

Este post fez-me rir.
Lembrei-me do tio Manel lá da terra, homenzinho com muitos anos em cima.
Quando vem do campo e passa á frente da igreja montado na sua burrita, faz uma paraguem obrigatória.
Até a burrita já sabe que ali tem de se parar, depois de tantas paragens.
Antigamente o tio Manel ainda descia da carroça, agora as pernas já não ajudam e apenas tira a boina e a encosta ao peito.
Na minha aldeia ainda existem esse tipo de pessoas, pessoas com muita fé.

Um abraço

Alexandra

P.S. Pois claro que os miudos quando lá passam de bicicleta nem sequer olham para a porta da igreja. Outros tempos, outros ensinamentos....

Isabel Mota disse...

Obrigada Padre, pela ternura e pelo relato desta oração, que me transmite simplicidade e beleza. Isabel Mota

Anónimo disse...

Olá primeiro anónimo de hoje

Viu o filme “A turma” o ano passado? Eu vi e confesso que fiquei surpreendida: Miúdos do 8º ano, numa escola pública, a porem-se de pé quando os professores entram na sala? O Director da escola explicava, mais ou menos assim: Não é um forma de humilhação, é uma convenção sobre como saudar um adulto.

Os meus alunos não se põem de pé. Mas não me chamam “stora” porque “isso é no secundário”, na universidade diz-se “pssora”. Ou seja, é normal cada instituição ter convenções próprias, mais ou menos obrigatórias. Felizmente, tirar o chapéu ou ajoelhar para saudar Deus não é obrigatório.

Para dizer a verdade, eu respeito quem o faz, mas acho um bocado esquisito. É raro ajoelhar, e chapéu não uso...

No entanto, gosto de dizer olá a Deus. De manhã, no stress de chegar a horas às aulas, inevitavelmente todos os sinais de trânsito estão vermelhos. O último é mesmo em frente a uma igreja e eu aproveito para dizer olá. Às vezes faço o sinal da cruz. Não é um hábito, uns dias acontece outros não. O engraçado é que descobri que esse simples gesto pode ajudar. Quando (geralmente pouco depois) me apetece mesmo torcer o pescoço a algum dos meus pestinhas, a memória de ter feito esse gesto activa-se. E eu ganho mais uns minutos de paciência ...

Ou seja, comecei por querer dizer que as convenções não são humilhações. E acabei a pensar se não haverá um fundamento para elas que não atingimos à primeira vista...

Du

concha disse...

Para mim também foi uma oração.
Afinal preocupamo-nos nós com o saber estar nas mais diversas situações na igreja e quantas vezes estamos a milhas de Deus nessas alturas!Suponho que para Deus chega a intenção de coração com que nos aproximamos d'Ele e não tudo aquilo que toda a igreja, a começar por aqueles que se sentem católicos de primeira, porque cumprem ao pormenor tudo aquilo que supostamente faz deles uns católicos exemplares,pensa e se acha no direito de criticar.
É com os simples, que gosto de aprender Deus.
Um abraço confessionário

Anónimo disse...

Seria bem melhor que uma oração se, pelo menos os católicos que se prezam, já não digo "amar o próximo" mas tão tão respeitar o próximo nas suas ideias e atitudes.

A igreja do povo de Deus é muito maior do que a Igreja de pedra !

Aprendamos com o gesto de respeito para aquela igreja de pedra também para as pessoas com que nos cruzamos na rua, no cruzamento, na escola, no trabalho, em casa, etc..

Seria fantástico e o mundo talvez mais humano !

Fernando Gonçalves

Anónimo disse...

Quem me dera ter a coragem do zé,parar junto á porta de Deus não importa quem olhe e quem murmura...
Dizer olá Senhor Deus obrigado pela vida e pelo amor que me tens.
Obrigado zé...

Confessionário disse...

Merci, Pitux. Grande lapso. hehehe.

obidence disse...

e isso mesmo para deus o que importa e o que se sente com a humildade e com o coracao , e o que sai de forma espontania.e Deus esta para alem de todas as convencoes. um abraco

Luisa disse...

No fundo eu admiro mais a tua capacidade de ver e sentir isso nas pessoas, nas poucas que ainda vão mantendo as tradições. Poucos sabem ver isso!!

Um abraço!
Luisinha

Teodora disse...

a propósito de genuflexões e outras reverências, lembro-me agora que algumas pessoas ficam sem saber para que lado devem demonstrar veneração a Cristo quando entram aqui na igreja da minha aldeia.

é que depois de passarmos a porta principal, e entrando-se pelo lado direito, deparamo-nos com uma cruz com Cristo na frente, mas se rodarmos à esquerda temos o sacrário lá no fundo numa das naves laterais.

por isso, já reparei que, alguns menos assíduos, quando entram ajoelham-se para a cruz em frente e, de imediato e meio perdidos, rodam ainda de pernas fletidas em direcção ao sacrário. já vi gente quase em desiquilibrio. com a sensação de ter cometido uma gaffe.

qualquer dia vai ser notícia no nós por cá. sabe-se lá... alguém que tombe ...

eu acho (só acho) que talvez a cruz no altar central estava melhor. afinal tem espaço e não baralhava o pessoal.

também seria certo que não veria gente a dar-lhes beijos nos pés via mão.

mas quem sabe é o meu padre, pois tá claro! manhã de sol... eu passei ... e ele... no alto do seu púlpito... (todo em tom pérola! aiai) um sorriso lindo, disse-me adeus.

eu fui trabalhar com um sorriso de orelha a orelha!

estou a pensar rebaptizar-me, fazer o crisma, qualquer coisa... cantar o aleluia.. sei lá!

Canela disse...

Teodoraaaa;

e que tal, pensares no sacramento do matrimónio?

Pensa bem.... o "teu padre", abençoar-vos-ia com muita, mas muita alegria! :)

Alma peregrina disse...

Os anónimos que por aqui passam, mesmo que venham apenas para descarregar o seu azedume anti-religioso e anticlerical, por vezes fornecem boas oportunidades de reflexão.

É o caso do anónimo de 21 de Maio 09:28, que me pôs a pensar por que motivo um Ser Superior haveria de desejar que se ajoelhassem diante d'Ele. Eu sei que o nosso Deus é bom e humilde (que outra forma de explicar o Seu nascimento e morte?)... portanto isto pareceria em completa dissonância com a Sua personalidade e com as Suas acções. Então, porquê?

Veio-me então à cabeça que um dos títulos de Deus é o Abba: "Pai".

Um bom pai ensina o seu filho a ser respeitoso para com ele próprio e para com os adultos. Talvez, do ponto de vista da criança, isto pareça uma posição injusta tomada à base da Lei do Mais Forte. Porém, qualquer pai sabe que não é assim. O pai ensina o respeito ao filho, porque tal é a única maneira de o filho poder crescer. Se o filho não respeitar os mais velhos, então nunca irá poder ser educado apropriadamente e, como tal, jamais atingirá a maturidade. Um pai que ama é um pai que ensina humildade.

As modernas pseudo-pedagogias negam isto. Os resultados estão à vista, para quem tem os olhos livres de dogmas ideológicos anti-autoritários.




Se partirmos do pressuposto que somos um átomo minúsculo do cosmos... de que aquilo que conhecemos do mundo é apenas uma fracção infinitesimal da realidade... então podemos concluir que somos meras crianças universais, ansiosas por explorar toda esta vasta realidade que nos cerca.

O problema é que uma criança não começa logo a caminhar. Primeiro tem de gatinhar. Primeiro tem de se ajoelhar.




Quando uma pessoa está no chão, muito raramente consegue erguer-se sem se ajoelhar.

Ajoelhar é um parte fulcral do erguer-se do solo.

Quem se ajoelhar está em melhores condições de ir mais longe. Pelo menos já tomou o primeiro passo para sair do lodo da sua autocomplacência.

Quem se recusa ajoelhar, apenas pode fingir que estar caído no chão é o mesmo que estar de pé. Mas fingir não é real. É uma ilusão.

Por isso é que Deus dizia... "abençoado sois vós, Meu Pai, porque ocultaste estas coisas aos sábios e as mostraste aos pequeninos". Por tudo o que eu disse, o Zé está muito mais preparado para a caminhada da sua vida do que muitos que se auto-intitulam sábios. Pelo menos, o Zé já deu o primeiro passo. Os sábios ainda estão iludindo-se a si mesmos.





Em última análise, é natural que um Ser Superior ensine humildade aqueles que lhe são inferiores. Isso poderá fazê-lo parecer um déspota, mas temos que encará-lo no seu devido contexto. Deus não é um déspota. Um déspota jamais se teria deixado crucificar pelo seu povo. Um déspota, perante a desobediência generalizada, teria usado da violência bruta e exterminado toda a resistência.

Portanto, não pode ser por despotismo que Deus nos ensina a humildade.

Pelo contrário, Deus não pode exaltar quem se exalta. Não faz sentido! Quem se exalta, quem recusa ajoelhar-se, já se colocou a si próprio numa posição gloriosa. O risco que essa pessoa corre é de se ter exaltado a uma posição excessivamente elevada. Essa pessoa terá, obrigatoriamente, de ser humilhada.

Um Ser Superior com a bondade de Deus pede que nos ajoelhemos. Caso contrário, como poderá Ele exaltar-nos? Caso contrário, como poderemos nós ser erguidos por Ele? Caso contrário, como poderá Ele elevar-nos acima da nossa inferioridade (porque nós somos inferiores a Ele) e colocar-nos aos seus ombros?

Para sermos elevados, temos de estar numa posição baixa. Deus não faltará à Sua promessa de nos exaltar, porque Ele já demonstrou que é isso que Ele deseja!





Afinal de contas, o que queremos de Deus: um Pai ou um bajulador?




Portanto, desejo agradecer ao anónimo pela magnífica oportunidade de reflexão que me proporcionou! E por me ter ajudado a fortalecer ainda mais a minha fé! E por ter dado o mote para que eu pudesse partilhar com tantas pessoas aqui presentes mais esta verdade da nossa fé!

Pax Christi

Teodora disse...

o sacrifício do matrimónio é algo para o qual não estou disponível.:)

disse...

Este ano tem sido fértil em despedidas. No trabalho, colegas de uma vida, saem trucidados por um sistema cego; na vida, vários amigos/as de sempre partem nessa viagem sem retorno…
Hoje acompanhei uma amiga. O barulho que se fazia sentir desafiava a minha paciência particularmente debilitada. Num momento em que me sentia quase vencida pelo desconforto da situação, reparo num grupo de cantoneiros que, à passagem do cortejo fúnebre, interrompem as suas lides, tiram os bonés e inclinam-se ligeiramente. Gestos nobres. Lições de vida da gente simples.

Anónimo disse...

Aqueles que não ajoelham diante de Deus ajoelham diante dos homens!
Como pode alguém sentir-se humilhado por ajoelhar perante Deus?
Quantas vezes, sem nos darmos conta ajoelhamos perante o orgulho, o dinheiro, a ambição e tantas outras miúdezas?...
Deus não nos coloca abaixo Dele, simplesmente esse é o nosso lugar por muito que andemos para aí armados ao pingarelho!
Aprecio a forma como os "ti Maneis" cumprimentam o Senhor e não acredito que se sintam humilhados ou inferiorizados nos seus gestos. Porque o que fazem não é sacificio mas respeito, e o respeito é um sentimento nobre e digno.
O que o meu coração me diz é que seria bom se a única coisa que nos fizesse curvar fosse Deus... Porque Deus nos diria de certeza:
-levanta-te, anda cá e dá-me um abraço!
bjs
C.Augusta