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quarta-feira, setembro 12, 2007

A Rosária

É o que se chama um ponto no sentido mais cortês que lhe conheço. Basta-me olhá-la, o seu rosto desmazelado mas honesto, e a vontade de sorrir surge espontânea. A última aconteceu antes da missa da semana. Estava apressado pelo relógio da pontualidade. Mas insistia na oração que me queria ensinar. Ensina orações a toda a gente. Percorre a vila de lés a lés com orações ou jaculatórias nos lábios, contam-me. Para cada ocasião tem uma. Na sua ingenuidade e simplicidade, aquela forma de dizer orações é a forma de se encontrar com Deus. Não me repugna, porque é genuína. Porque é verdadeira nesta forma de ser cristã. Custa-me aceitar, mas a Deus não deve custar. É uma forma engraçada de O amar. Não é hipócrita. Só é genuína. Noutra pessoa acharia uma hipocrisia tamanhas peregrinações de orações ditas para serem ditas ou ouvidas. E tem de ser, senhor padre. Está bem, diga lá. E vai uma enxurrada de palavras lindas dirigidas à virgem Maria. Gostei. Já não é a primeira vez que lhe peço para as escrever para a posteridade. Mas o castiço foi quando no meio da referida oração surge a palavra “penhores”. Ups, pensei. E ups perguntei: Sabe o significado dessa palavra? Não, senhor padre. Ensine-me. É que foi rir. Ela também riu. Então nem sabe o que está a dizer!? Mas é tão linda, senhor padre. Lá está a beleza das suas orações. São lindas porque são para serem ditas de forma linda. Um vaso também não se torna bonito porque as flores são bonitas, perfumadas ou coloridas. Depende de quem e do como se faz o arranjo das flores e de quem e do como se olha o vaso.
Não avançámos mais na conversa, que estava na hora da missa e o pessoal estava à espera. Mas enquanto me paramentava ia rindo à brava por debaixo da casula. Um dos acólitos ainda me perguntou se não encontrava o buraco da casula. Eu não conseguia era esquecer o rosto da Rosaria. E mais me lembrei daquela ocasião em que, aqui na paróquia andaram a fazer umas filmagens para um filme. Um dos actores vestia a pele de padre e uma batina. A Rosaria não perdeu tempo. Irrompeu no meio das filmagens para pedir um favorzinho ao senhor. Olhe, já que aqui está, não me podia confessar?

quinta-feira, dezembro 13, 2012

É assim o braço de Deus

A senhora tem problemas de bronquite. Arfa ao falar. Veio ter comigo porque quer ir para o céu. A história da sua vida não tem sequer muitos erros ou pecados. Mas vive ensombrada pela ideia de não ir para o céu. Vive, como a bronquite, aos soluços. Tenho medo de não ir para o céu, senhor padre. A questão é recorrente, nela e em muitos mais com boa intenção de viver ou de morrer. Lembrei-me logo da Rosária, que nas minhas antigas paróquias, vivia abafada pelo medo de não ir para o céu. Ocorreu-me perguntar se ela sabia que Deus era amor. E se confiava no seu amor. Ela respondeu-me que sim, claro que sim. Então confie que o Amor Dele há-de ser maior que o seu medo. Há-de ser muito maior que as suas faltas. Perguntei-lhe se confiava no seu marido, e ela respondeu prontamente que sim, embora, às vezes, fosse muito rabugento. Acrescentei mais uma série de perguntas. Se o marido a visse caída no chão, que lhe faria? Deixava-a lá caída? Virava-lhe as costas? A cada pergunta ela respondia prontamente que o seu marido nunca faria uma coisa dessas porque a amava muito. Ora se o seu marido, porque a ama muito, não a deixaria caída no chão, imagine o que faz Deus cada vez que nos vê no chão! Se confia em Deus, confie também que sempre que a vir caída, Ele a ajudará a levantar-se. Quando se confia em alguém que nos ama, sabemos que por maior que seja a nossa queda, essa pessoa vai lá estar para nos dar o braço e levantar-nos. É assim o braço do Deus que nos ama infinitamente.

quinta-feira, maio 21, 2009

O Zé, marido da Rosária

Vim agora da rua. Estava no meu balcão quando avistei ao longe o Zé, marido da Rosaria, que não sei se recordam.
O Zé tem a idade que Deus lhe permite ter e é muita. Mas ainda calcorreia os paralelos da vila. Vinha distraído e eu não quis distrai-lo da sua distracção. Mas como gosto de apreciar, fiquei preso a ele com o olhar, cogitando a fé desta gente. Nisto passa em frente da porta da Igreja, que é logo aqui ao lado. Não entra. Porém, para meu espanto, retira o chapéu da cabeça enquanto passa e coloca-o ao peito. Na hora exacta em que se encontra com a porta, faz aquilo que me pareceu uma genuflexão. Não tocou com o joelho no chão. Mas percebeu-se a intenção. Não deu conta da minha presença. Não precisava. Deve ser um gesto habitual, normal nele. Não entra na Igreja e segue viagem. Vai apressado. Entro em casa a sorrir. Permaneço em frente à minha porta, do lado de dentro, e penso a sorrir. Olha eu que imagino e tudo faço por uma igreja em permanente “Nova Evangelização”, agora recebo este ensinamento de alguém que ainda está preso a um hábito antigo, digo eu. Habituado ao grande respeito pela casa de Deus, pela porta para Deus, pelo próprio Deus. Ainda que de forma algo distante. Ainda que tenha ficado à porta. Ainda que possa ser apenas um hábito. Ainda que, de ensinamento, tenha sido apenas uma proposta à reflexão. Não sei se disse alguma oração. Mas o seu gesto foi para mim uma oração.
Obrigado, Zé