quarta-feira, novembro 28, 2007

O que eu espero de um padre

Tudo isto vem a propósito de um indivíduo que veio ter comigo, a casa, a desoras, para me pedir um favor. Queria que lhe desse um jeito. Um baptizado àquelas horas naquele dia. Já tinha tudo marcado. Imagino que tenha vindo o marido e não a esposa porque os maridos são mais incisivos quando querem alguma coisa. Não berram nem gritam, mas insinuam os ombros e a altura ou largura. Primeiro dediquei-me a explicar-lhe algumas normas. Ó padre, não tenho muito tempo. Queria que passasse à frente. Esperava a minha resposta e não os meus ensinamentos. Como a maioria dos cristãos. Quando lhe respondi que não podia aceder ao seu pedido, levantam-se os ombros, alarga-se a cintura, estica-se a altura. Não foram muitas as palavras, porque eu estiquei o sorriso e quando este se estica o outro fica desarmado. Era assim que Jesus fazia. Já imaginava, padre. Vou procurar outro, disse. Eu esperava que o senhor dissesse sim, que é para isso que os padres servem. Um bom padre não diz Não. Essa também me fez lembrar Jesus, disse-lhe já ele virava costas.
Entrei em casa, sentei-me e a propósito perguntei-me. E se fosse eu? O que eu esperaria de um padre?
Que ele me anunciasse a palavra de Deus e não a sua própria palavra. Que fosse modesto e vivesse com simplicidade. Que soubesse calar-se quando outros falam e soubesse falar quando os outros ficam mudos. Que rezasse, fosse profundo e me fizesse participar dessa profundidade para fugir ao perigo da superficialidade. Que tivesse tempo, como eu sinto que devia ter, agora e amanhã, sem datas marcadas no calendário. Fosse a garantia do tempo que Deus tem para mim. Que se fizesse perguntas e tivesse dúvidas. Os que não têm dúvidas ou questões também não têm respostas e não as podem conceder aos outros. Decidi ficar por aqui com os pensamentos pelo medo de descobrir muitas mais coisas que fossem demais para as minhas costas. Estas já pesam.
Eu esperaria muito do sacerdote.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Sapatinho de cinderela

Bateram à porta quase a meia noite. Sapatinho da cinderela. E dizia há dias um entendido na televisão que nós, os padres, devíamos estar sempre disponíveis. Mas para quê e para quem? E o bom senso? E a nossa vida? Eu sei que o tempo de Deus não é o nosso tempo e que o tempo dos padres devia ser mais parecido com o Seu tempo. Porém, também o tempo das pessoas devia ser como o de Deus quando precisam do padre.
Queriam que lhes resolvesse um assunto que elas não queriam resolver junto de quem podiam porque não se davam bem. Não se falavam. Nem lembravam o nome do seu pároco, mas criticavam-no e à sua igreja. Que não era delas a igreja. Também não era eu o seu pároco, mas doeu-me como se de mim se tratasse. A filha deixara de ir à Catequese porque a tinham reprovado por faltas. Com a Catequista que tinha, também que ia lá fazer, diziam. Eu estive quase sempre calado nos meus pensamentos. Com a mãe que tem também que ia lá fazer! Toca a desbobinar coisas e palavreado contra as pessoas. Foi uma chuvada valente e eu sem o guarda-chuva à mão. Não foi preciso muito para deixarem a minha porta. Bastou que lhes falasse que deviam falar com as pessoas devidas, que deviam dialogar, esclarecer os mal-entendidos, que deviam perdoar. A esta palavra começaram a descer a escada. Nunca, padre. Nunca. Desculpe lá o incómodo. Vamos bater a outra porta.
E se Jesus lhes batesse também à porta

quinta-feira, novembro 15, 2007

A pequena grande Sara

Veja o que me aconteceu, padre. Os seus olhos estavam vermelhos. Notava-se que tinha estado a chorar. Vinha da Capela do Santíssimo. Tenho de contar-lhe, padre. Sentámo-nos. Tentei esconder a minha preocupação. Trata-se de uma mulher sofrida. Viúva. Nova. Trabalhadora. Imaginei o pior. Com este estado do país bem poderia ter perdido o emprego. Ontem a Sara fez anos, padre. A Sara tem oito anitos. Ainda conheceu o pai, mas já não se lembra das suas feições porque ele partiu há mais de cinco. O que terá feito desta vez a Sara, perguntei-me. Era minha acólita. Apesar de irrequieta, está sempre atenta na missa. Não é propriamente uma garota desvairada.
A história que a mãe contou começou há uns meses. À noite a Sara costuma ajoelhar-se à beira da cama para falar com Jesus. Aprendeu na missa que rezar é falar com o Jesus que se ama. Eu costumo dizer que rezar é um diálogo de amor entre dois namorados, nós e Deus. Uma conversa que pode ser com palavras feitas, com frases comuns e com olhares. Ela optava por simplesmente falar. Contava a mãe que a Sara queria uma bicicleta. Como ela não podia comprar-lha, decidira pedir a quem fosse mais poderoso que a mãe, isto é, Jesus. A mãe tinha-a apanhado a pedir a Jesus que lhe oferecesse uma bicicleta no dia de anos. E contava-me que lhe tinha faltado a coragem para a demover do pedido. Depois notou que a conversa era quase sempre a mesma todas as noites e começou a ficar preocupada. E ontem, padre, ontem não houve bicicleta. Eu bem tentei poupar. Mas não houve. E à noite lá estava ela de bruços sobre a cama. Eu pensei que ela chorava. Abeirei-me, afaguei-lhe a cabeça e perguntei: Estás zangada com Jesus por Ele não te ter respondido, minha filha? E sabe que respondeu ela? Disse-me que não e que Ele lhe tinha respondido. Que lhe tinha dito que não. Que não podia dar-lhe a bicicleta. Fiquei perdida, padre. Já agradeci a Deus. Não agradeci a bicicleta que ela queria, mas a filha que me deu. Tinha de contar-lhe isto, porque tinha de o contar a alguém e a alguém que me percebesse, que percebesse a minha alegria. Afinal o padre está sempre a dizer que é bom pedir na oração, mas que esta não deve ser um negócio com Deus. De facto é bom pedir, porque significa reconhecer as nossas limitações, os nossos limites e confiar n’Aquele a quem pedimos. Mas não podem ser fórmulas mágicas de compra e negócio com Deus. E eu que pensava vir por aí mais um problema para resolver, recebi uma alegria para me encher de Deus. Depois que a mãe me deixou e logo que tive oportunidade, dei um beijo enorme e repenicado à Sarita, que estava por ali perto a tratar da sua alva.