quinta-feira, dezembro 21, 2006

Hoje sinto uma vontade enorme de amar

Reconheço que a educação que tive no Seminário era um tanto ou quanto redutora no que se refere ao amor. Mesmo que os meus superiores não o exprimissem de uma forma clara, demonstravam-no. Aproveitavam-se encontros, reuniões abertas, conversas de café, aulas, para falar no assunto. Nós, padres, temos de amar a todos. É esta a nossa forma de amar. A que Deus quer. Tratava-se, numa linguagem teológica, de um amor divergente. Parte de um ponto, nós, e alarga-se para os outros, todos os que nos forem confiados.
Sempre desconfiei desta teoria. E com alguma irreverência ia expondo a minha. Que também não é nova. Não é original. Mas é minha. Foi sempre minha desde o momento em que a pensei, e achei que era minha. Nós temos de amar de uma forma directa. Numa linguagem teológica, de uma forma convergente. Parte-se de um ponto, nós, e converge-se para outro ponto, o outro. Aliás, penso que esta é a única forma possível de amar. Ama-se em concreto e não no abstracto, Eu amo-te. A ti. E a ti. E a ti também. E não eu amo-vos. O “eu amo-vos” torna tudo pouco explícito, pouco claro. Eu diria mais. Um pouco hipócrita.
Sinto que nós, padres, devemos amar cada pessoa. Muitas. Mas cada uma. Só assim experimentaremos o que é amar. O resto – aquilo do divergente – é apenas dar-se. O que também é bom. Mas não chega.
Eu tento amar assim. Amo a Maria, o Manuel, o Tó, a Ana, o Zé e outros mais complicados, como a Di, a Gui, o Mi, o Pi, a Jacinta, a Marilim, o Tonito, o Tozito, a Aniki, a… São tantos, mas também são cada um. Se não fosse assim, acho que não conseguia continuar fiel ao meu sacerdócio.
É a minha teoria. É o meu dogma.

30 comentários:

Anónimo disse...

A primeira impressão que provocou em mim, quando comecei a lê-lo, reforçou-se hoje uma vez mais.
Você está inserido verdadeiramente neste mundo, e, por isso, também deve ser muito amado pelos seus paroquianos.

Leonor

MC disse...

Bela confissão de fé, no Amor!

Como é que poderia ser de outra maneira?

Devias gostar de ler o livro que um amigo comum me emprestou. Estou a deliciar-me.

Um beijo

joaquim disse...

Concordo inteiramente contigo.
Muitas vezes a "generalização" de coisas tão importantes e imprescindiveis como o amor, torna-as banalizadas, sem expressão.
Deus ama-nos! É verdade sem dúvida, mas dito assim dilui-se numa imensidão em que me perco, em que nos perdemos.
Deus ama-te! É directo, verdadeiro e mexe com o teu coração.
Costumo pensar e dizer que o Coração de Jesus é "feito" de todos os nossos corações, os que existiram, os que existem, os que hão-de existir, (até mesmo na barriga de suas mães), mas não como um todo, mas sim individualmente.
Quando pensamos, ou dizemos que Jesus Se entregou pela humanidade, parece que a nossa "responsabilidade" se atenua, mas quando vivemos que Jesus Se entregou por mim, por ti, por cada um de nós individualmente, esse acto de amor infinito tem outra dimensão.
«Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei», mas como Ele amou e ama a cada um, com todas as virtudes e defeitos de cada um.
Penso que percebo o que nos quiseste transmitir.
Abraço em Cristo

Anónimo disse...

Pois, costumo dizer, quem gosta de tudo não gosta de nada.

Estou a pensar naquelas pessoas que passam a vida a dizer eu por ti dava a minha camisola. Já a prometeram a tanta gente que já nem se lembram a quem e já nem sobra nada dela.

teodora

baby Just disse...

Acho que todas as pessoas, padres ou nao, deveriam pensar assim, deveriamos todos amar.... Obrigado como sempre pelas palavras inspiradoras.

Patricia

Someone disse...

Pois...
Amar na generalidade ou na singularidade..
e o que é amar??? Como amar???
Dizer "amo-te" ao namorado que conhecemos ha 1 mes???
Dizer que ama os pobres e não contribui sequer para uma recolha de alimentaçao??
Dizer que ama a Deus e a Cristo e nao abdicar de si para se dar aos outros???
Penso que qualquer uma das teorias tem o mais alto valor quando nao se diz que se ama mas quando se mostra esse amor... sem, muitas vezes ser necessario utilizar a palavra k ja está tao banalizada..
O mais importante nao é amar mas sim dar eese amor...
Penso eu...
Bjinho*

elsa nyny disse...

Amigo!!
Adorei este post! Por várias razões:
- primeiro, porque me identifiquei contigo(calma!!!!), ao dizeres que criaste a tua propria teoria...sabes, eu fazia sempre isso...com os filósofos (ai! se eles soubessesm!!), eram assim umas teorias paralelas, ou seja aquelas aulas eram uma animação, que saudades!

- Quanto ao Amor, acho que sim, tem que se individualizar, cada pessoa tem que o sentir para si, embora possa ser para muitos! E não é só amar ou demostrar! Não! È preciso dizê-lo, mesmo, e as palavras - eu gosto de ti - ou - eu amo-te - são palavras que muita vez bastam para que um dia fique cheio de Luz, de carinho e isso é lindo!!

Adorei a teoria, do teu Amor!
E ama...ama...ama! Continua que vais muito bem!

Para finalizar, deixo-te uma mensagem que recebi outro dia, de alguém parecido contigo (ahah!!)
"Viver é sempre dizer aos outros que eles são importantes, que nós os amamos!"

Beijinhos!!!
:))

Sandra Dantas disse...

Lindo Dogma!!!
Concordo plenamente com ele e aceito-o sem restrições!
O Amor é mesmo concreto, não posso amar o que não conheço mas o que conheço!!!

Um abraço amigo!

Pensamentos Felizes disse...

Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal.
Cristina

Confessionário disse...

Leonor, não sei se serei muito amado pelos meus paroquianos, mas pelo menos tento amá-los e demonstrar-lhes isso, sem rodeios, com atitudes a carinhos. Só me custa que, às vezes, não seja entendido quando não consigo dar ou "estar" mais.

Confessionário disse...

MC, qual é o livro?

Confessionário disse...

Obrigado, amigos, pelo contributo que me dais para amar...

Dulce disse...

É assim que Deus ama, também.
Ou não é?

Confessionário disse...

É, Dulce, tenho a certeza que é.

mi disse...

Deus reconhece-nos individualmente, a cada um de nós, no meio da multidão, e ama cada um por si só, não é?

só me resta dizer:
eu amo o confessionário!

feliz natal!

MC disse...

Vaticano 2035!!!! ;)

Flôr disse...

Sr. Padre, passo rapidinho para lhe desejar UM SANTO E FELIZ NATAL.
Que a Luz de Cristo, brilhe SEMPRE nas nossas vidas!

Tudo de bom para si :D

Da amiga Flor :D

melinha disse...

ja la dizia uma amiga minha q n se ama ninguem sem se conhecer a pessoa e é nisso q te inspiras. tou de acordo. devemos amar as pessoas por akilo k sao, pelas suas virtudes e pelos seus actos.
Feliz natal!

Anónimo disse...

Temos sempre a tendência de exigir demais áqueles que amamos.

Um Santo Natal e Feliz Ano Novo

Leonor

mafaoli disse...

Amor é paciência, amor é bondade, amor é generosidade,...
Ao ler este post senti necessidade de reler um livro que me ofereceram no Natal de 2000(Dom Supremo).Porquê? porque esse amor que dá aos outros é a melhor maneira de viver.

Feliz Natal e continue a sentir vontade de amar.

Sonhadora disse...

Cada um de nós é especial e por isso merece uma atenção especial, um Amor especial, individual. Porque somos diferentes e se calhar não se pode amar da mesma maneira duas pessoas diferentes, digo eu...

Tenho um prenda de Natal para o Confessionário: a bolinha de Natal que o S.P. me enviou! Passe lá no meu cantito para "levantar a encomenda"!
Boas Festas!!!

Confessionário disse...

ui, sonhadora. Tou com pouquito tempo. Essa vingança é lixada... Vou tentar... mais logo à noite, quando ja nada estiver no meu pensamento...

Pe. Mário disse...

Meu bom amigo:

Não podia concordar mais contigo!
Agradeço e agradeço-Lhe – (ao que começa a choramingar) as tuas reflexões... que vou acompanhando.

Um abraço que se não diz por se não ser capaz...

E porque é preciso defender o Natal… o Verdadeiro Natal. O do Amor - o do AMAR… Desejo-te um fim-de-semana cheio de Natal.

Obrigado.

Pe. Mário
(Diocese de Aveiro)

Confessionário disse...

Ó grande amigo Pe Mário. Que bom ler-te e sentir-te. Um grande abraço e o desejo de um Verdadeiro Natal...

Pitux disse...

Eu acho que não são só os padres mas todos nós que devemos amar todos os outros. Já Jesus Cristo dizia para nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou. E tem toda a lógica. Eu esforço-me por isso e, provavelmente, será essa a razão por que sou extremamente tolerante com tudo e todos. (obviamente que estou longe da perfeição)

J disse...

Já cá tinha estado várias vezes, mas nunca tinha comentado, desta vez decidi parar e deliciar-me com o Seu texto, que reflete o Amor de Cristo, obrigado pela sua partilha.

Um grande beijinho

Sandra Dantas disse...

Amigo confessionário,
só passei para desejar um Santo e Feliz Natal!!!

Um abraço amigo!

SaltaPocinhas disse...

FELIZ NATAL e um 2007 FABULOSO!

Fatima disse...

Linda mensagem amigo Padre... Eu nem o conheço pessoalmente, mas conheço-o ! Conheço-o pelo que escreves, como te expressas, conheço-te um pouco a alma...
Não sei se estou sendo clara, mas enfim, o AMOR é o ensinamento maior de Jesus: " Amaivos uns aos outros, assim como eu vos amei..."
Sempre que passo por aqui eu vou conhecendo mais o senhor um pouquinho, por isso posso dizer que te respeito, te admiro e te amo também! Já me ajudaste tanto, mas tanto! Num momento muito delicado da minha vida, sabes do que se trata, embora esse assunto não esteja esquecido ou resolvido dentro de mim, não tens idéia do quanto me ajudaste, me amparaste, me levantaste!!!! Amo-te muito amigo Padre !!!! Desejo que 2007 seja um ano repleto de surpresas boas para o senhor, como dizemos aqui no Brasil um 2007 muito "show" para ti e para todos nós!
Beijos para todos.
Fátima (RJ)

Anónimo disse...

Estava sentada numa esplanada, sozinha, quando o Luizinho pediu licença para se sentar. Disse-lhe que sim, claro. A idade cronológica do Luizinho ronda os cinquenta e muitos, a idade mental não ultrapassa os sete. Todos o conhecem. A mãe, velha, franzina, vergada, trá-lo sempre limpo e asseado. Ele caminha com um olhar inexpressivo, sorumbático, a cabeça enterrada nos ombros, os braços pendurados, as palmas das mãos viradas para fora, as pernas indolentes. Quando se cruza com alguém da terra, franze os olhitos e dispara um estridente: “Oláááááaaa, ‘tás boaaaaaa?” ou “Oláááááaaa, ‘tás bommmmm?!”, consoante o género do interlocutor, arreganhando a boca e mostrando uns dentes pequeninos e amarelos. É muito doce. Sentou-se. Queria falar-me da sua vida, disse. Fora de parto. Recebia uma boa reforma de invalidez. Fazia uns recados, o que lhe dava ainda mais uns trocos. Tinha uma boa bicicleta, só sua. Nascera em Angola. De súbito fez uma pausa. A sua cara de menino transfigura-se, adquire um arzito malandro. Sem que eu tivesse dado mostras de qualquer dúvida quanto à sua naturalidade, vira-se para mim e pergunta: “Queres ver?” Tira o bilhete de identidade do bolso, põe-no à minha frente e aponta com o dedinho muito esticado. Onde indica, leio: “Sol.”. Olha-me fixamente nos olhos, ansioso. Percebi que queria aquecer o sol que traz dentro dele. Disse-lhe que ia pensar. Ainda estou a pensar. Na enorme necessidade que também ele tem de amar.