segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Se a desligam, vai

Mais ou menos onze horas da noite. Umas horas tardias, mas as adequadas para quem precisa de falar. Bateram três vezes, descompassadamente, com pouca força, como que a pedir com licença, peço desculpa. A sala estava fria. A conversa também não demorou. Quer dizer, não dei conta que demorasse. Que hei-de dizer àquela família, padre? Venho agora do hospital. E foi contando a história clínica da amiga. Quarenta anos. Tumor nos ossos. Fase Terminal. Estou a tentar resumir, que ela também tentou. Uma família bem cristã, se é possível chamar-lhe assim. Ela está, estava consciente do seu estado. Pedira ao marido para morrer em casa. Queria muito morrer no seu aconchego, no da casa e no dos seus. Tinha piorado rapidamente. Levaram-na para o hospital. A família não media meios. Tudo tentar para lhe salvar a vida. Tudo tentar para a ter o maior tempo possível aqui. Quem não faria o mesmo?!, perguntava-me. Ela era tão boa, padre! Depois que chegou ao hospital não demorou mais que uma hora a entrar em coma. Está ligada às máquinas. Se a desligam, vai. Os pulmões não funcionam. Não tem consciência. Não reage. O tumor atingiu proporções elevadas. Pulmões, como já disse, fígado e não sei que mais. O médico disse que se a desligassem das máquinas morria em questão de segundos. Que para o fazerem a família tinha de assinar um termo de responsabilidade. Não conseguiram, pelo menos ainda. Estão a sofrer há duas semanas. Sofrem por vê-la assim. Sofrem por não saber que fazer. Sofrem porque queriam que ela estivesse em casa a morrer, mas querem fazer tudo o que estiver ao alcance. Sofrem porque são cristãos e não sabem que ética ter. Julgo que neste caso quem menos sofre é ela. E perguntaram-me, como amiga da casa e como cristã, o que haviam de fazer, padre. E eu não sei que lhes hei-de dizer. Ajude-me.
Tudo isto, em poucos segundos, me fez lembrar a minha mãe, o que ela sofrera, os últimos dias, os momentos em que desejei que ela partisse rápido, os momentos em que chorei de saudades com ela ainda viva. Mas enchi os pulmões de ar e de coragem. Ela já está em fase vegetativa? Não percebia e expliquei. Ela respondeu que sim mais ou menos. Falei então da distanásia. Que era prolongar a todo o custo, com todos os meios possíveis, a vida a uma pessoa que está já em fase vegetativa, atrasar o mais possível uma morte eminente ou inevitável. A Igreja diz que não devemos abusar do meios extraordinários para estes casos. É necessário distinguir entre meios ordinários ou extraordinários. Melhor se calhar, entre meios proporcionados e meios desproporcionados. E Terminei dizendo: se a deixarem partir em paz não creio que haja eutanásia. Devem sossegar a consciência e a fé. Devem estar a sofrer muito, e quanto mais tempo, mais vão sofrer. São sofrimentos diferentes, mas um é mais sossegado que outro.
Ela saiu. Beijou-me e pediu forças. Reze por nós, padre, e para que eu saiba dizer o que for melhor.
Ao deitar-me rezei por eles, por ela e por mim, que fiquei assustado!

36 comentários:

zebeirão disse...

Compreendo-te.
Imaginas que todos os dias sou (somos) confrontados com problemas desses. Não há respostas feitas, não há "receitas" estandardizadas. Há cada caso, cada pessoa, cada família... Não há doenças, há doentes.
Comungo da tua preocupação, e também da tua oração. Da preocupação dessa família e da de tantas famílias em situação idêntica.
E que Deus nos vá ajudando a fazer o melhor para cada caso!
Abraço

Carla Isabel disse...

Olá amigo

Compreendo perfeitamente toda essa angustia...
Também me sentiria perdida!
Há momentos na nossa vida que temos que rezar e esperar por uma inspiração divina para saber que decisão tomar!

Carla

Anónimo disse...

Amar uma pessoa também é deixá-la partir quando chega o momento...

cr disse...

Ja vivi de perto essa angústia e as dúvidas que se geram... desligar ou não.. e todos os "ses" que daí surgem... é desesperante... é matar a esperança com aquela assinatura...

CA disse...

Há alguns anos acompanhei a situação da minha avó. Não havia "máquinas" envolvidas, mas depois de tudo ter acabado fiquei com a sensação que os esforços terapêuticos das últimas semanas só serviram para prolongar um sofrimento. Talvez tenhamos que encarar a morte com mais naturalidade.

margarida disse...

Pela minha profissão quase diariamente convivo com situações dessas. Ainda agora, muitoa anos de profissão passados, não sei o que é melhor. E às vezes como saber o que é melhor à luz dos ensinamentos católicos... São decisões muitíssimo complicadas.
Vim ao "confessionário" hoje pela primeira vez e estou certa de que vou voltar...

erva-cidreira disse...

Eu sei que, nesses momentos, custa muito e por vezes assaltam-nos dúvidas, mas não há morte, apenas uma passagem, lembra-se padre? Eu até acho uma certa benção a pessoa poder despedir-se da família, deixar tudo em ordem, perdoar aqueles a quem ofendeu, partir sem rancor de ninguém. Fico muito mais triste quando morre alguém num acidente, sabendo que essa pessoa partiu, deixando inimizades neste mundo.

Sonhadora disse...

Lembro-me da minha angústia quando o meu avô sofreu muito antes da sua morte. E estava consciente da sua dor. Nos últimos dias só queria que ele fosse em paz e que não sofresse mais.
Quando já não há esperanças, não vale a pena prolongar o sofrimento de quem está doente e dos que o amam.
Se Deus a quer ao pé de si, faça-se a Sua vontade.

BLUESMILE disse...
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Confessionário disse...

... é que moralmente falando, não só podem, como devem deixá-la ir... Mas é tão difícil tomar esta decisão! E ainda por cima pode-se confundir isto com a eutanásia...

BLUESMILE disse...

Como o padre explicou, Eutanásia não é Distanásia.

E actualmente, o grande risco que as pessoas gravemente doentes correm não é de serem alvo de eutanásia , mas de serem alvo de obstinação terapêutica.

A vida ( e o sofrimento humano) é muitas vezes prolongado de forma inaceitável,mesmo quando não há qualquer hipótese de recuperação.


Como escreveu um menino doente em fase terminal "morrer não custa, o que custa é ir morrendo.."


Sim, é muito violento para a família ( não para o doente que já morreu ou está em fase crítica irrecuperável) desligar a máquina, o ventilador mecãnico, ver o coração parar.

è violentíssimo para as famílias.

Mas não é só a vida que é um direito.

Todos temos o direito a morrer com dignidade e sem sofrimento.

Prolongar inutilmente o sofrimento, com terapêuticas agressivas, quando a morte é inevitável parece-me brutal. E vai contra a doutrina da Igreja.

E permitir a morte digna aos que amamos é uma prova de amor

da_ue disse...

Será que Deus permitiu ao Homem descobrir os meios para prolongar a vida a alguém nessas condições ou será que o Homem os descobriu numa luta contra a vontade de Deus... será que Deus permite acesso às ferramentas para as usarmos ou serão elas uma armadilha que apenas serve para prolongar a angústia...?

Será a vontade de Deus ou a vontade do Homem que prolongam a vida? Será ainda a vontade de Deus atravéz da mão do Homem?
Eu que não conheço ninguém na mesma situação e que tenho a mania que sou esperto concordo que a vontade de Deus não requer o auxílio de máquinas e que é mais digno deixá-la ir... mas não faço a menor ideia do fardo que é ter que tomar uma decisão dessas.

Pdivulg disse...

Pois, eutanásia ou apenas deixar tudo nas mãos de Deus e não das máquinas, é muito complicado...

Confessionário disse...

Bluesmile, fui ao teu "Muralidades" e não consegui deixar comentário porque só podem deixar os team-members. Se por acaso, vieres outra vez, eu quis deixar isto escrito naquela dos ex-votos:

"um Portugal a preto e branco dos anos cinquenta e sessenta"... Sim, por acaso o que escreveste tem tudo a ver com esse mistério que os portugueses viveram obrigatoriamente com Deus, um negócio para salvar as almas dos familiares e amigos. Aliás, gostei imenso da descrição. Só tenho pena que hoje, passadas várias dezenas de anos, as pessoas ainda não tenhma ultrapassado essa fase e continuem a viver o mistério com Deus como se Ele fosse apenas o ser que está do outro lado do balcão. Tu descreveste um pouco o que ainda existe de uma Igreja portuguesa... que não é, de todo, a Igreja que eu gostava de ser!!


...e concordo contigo neste teu comentário!

Henrique Santos disse...

Que boa lição recebi, Padre.
Obrigada, também eu tive problema análogo, e na altura não tive quem me ajudasse, mas agora estou elucidado. Obrigado.
Um abraço, Ricky

mi disse...

PRESENTE SENHOR PADRE! hoje já não tenho falta! ;-)

bom, passando ao post...

penso que a morte dos outros nos assusta muito, não é? talvez mais que a nossa própria morte...

"talvez tenhamos que encarar a morte com mais naturalidade"

porque é que o Padre ficou assustado?

"julgo que neste caso quem menos sofre é ela"

também eu!

e também tenho tanto medo da morte dos meus "presentes"...

palavras de ânimo:
CONFIANÇA em Deus
INTELIGÊNCIA para discernir
AMOR para consolar...

...

é duro!

Lua disse...

opa. obrigada.
mas... como achou?
padre mesmo, messssssssssmo?

Confessionário disse...

ahahah, Luz. Estava brincar. Mas sou padre mesmo, messsssmo...

Gambozina disse...

Curioso como as pessoas enfrentem estas situações.
Acabei de vir de um funeral. O marido de uma senhora que trabalha comigo. Amorosa. Não conhecia o senhor, mas sabia que estava doente, muito doente e há muito tempo. Cancro, a doença de que tanto se fala. Estava numa fase terminal, apenas a morfina, não havia mais nada a fazer por ele a não ser minimizar-lhe as dores. Quando uma colega me avisou do seu falecimento eu disse o que sempre se diz: foi melhor assim, estavam todos a sofre há muito tempo. Mas não o disse porque é cliché, mas sim porque o sinto assim. A outra pessoa não concordou comigo.
Mas não era isto que eu ia contar, perdi-me.
As pessoas são diferentes. A minha Mãe no hospital. Sem consciência, vegetativa, depois de uns anos de cancro de mama que a venceu. Foi só um dia. Quando faleceu, ao final da tarde, eu serenei. Sabia que era melhor assim. Doeu (dói) muito, mas sabia que a ela não lhe doía mais. Não questionei, não quis saber detalhes. O meu irmão não. Teve a preocupação de saber se alguém tinha desligado a máquina que a prendia à vida, se alguém interrompera a vida dela, a impedira de viver. Somos tão pareceidos, e nessa altura fomos tão diferentes. Quem estava mais certo, eu ou ele? Isso para mim não conta. Conta o amor que nos unia. E une.
E viva o amor! Abaixo o dia dos namorados, viva o(s) dia(s) do amor(es)!

1gota disse...

Deixar ir não é matar...
Ajudar a ir mais depressa é outra coisa bem diferente.
:*

Confessionário disse...

1gota, exacto.

Confessionário disse...

Gambozina, tens de sossegar o teu mano, dizendo-lhe que a máquina não a prendia à vida. a Máquina não substitui a pessoa... e essa fica... no coração de quem a ama! Foi assim tb com a minha mãe. A diferença foi que, depois de saber que estava em fase terminal, preferimos todos, os da família, levá-la para casa e dar-lhe todos os mimos e conversas possíveis e imaginárias. Foi muito bom poder mostrar-lhe todo o amor que pudemos mostrar!

Coisas da Tony disse...

Não tenho nada contra a medicina ou contra a evolução da ciência, mas se pensarmos seriamente na sua evolução, na forma como perpetuamos a espécie, na forma como o seu equilíbrio se mantêm, na forma como a própria natureza selecciona as espécies,…- e custa tanto ver como estes processos se manifestam – pergunto-me sempre, qual é vontade de Deus?, que mistérios encerra a sua vontade?. A eutanásia e a permanência da vida pela ligação às máquinas não são uma e a mesma coisa. É nestes momentos em que temos de procurar bem fundo no nosso coração, abrindo-o aos segredos do Senhor, ouvir a sua voz e agir em paz e com serenidade.

Abraço fraterno

Coisas da Tony disse...

Não tenho nada contra a medicina ou contra a evolução da ciência, mas se pensarmos seriamente na sua evolução, na forma como perpetuamos a espécie, na forma como o seu equilíbrio se mantêm, na forma como a própria natureza selecciona as espécies,…- e custa tanto ver como estes processos se manifestam – pergunto-me sempre, qual é vontade de Deus?, que mistérios encerra a sua vontade?. A eutanásia e a permanência da vida pela ligação às máquinas não são uma e a mesma coisa. É nestes momentos em que temos de procurar bem fundo no nosso coração, abrindo-o aos segredos do Senhor, ouvir a sua voz e agir em paz e com serenidade.

Abraço fraterno

Coisas da Tony disse...

Não tenho nada contra a medicina ou contra a evolução da ciência, mas se pensarmos seriamente na sua evolução, na forma como perpetuamos a espécie, na forma como o seu equilíbrio se mantêm, na forma como a própria natureza selecciona as espécies,…- e custa tanto ver como estes processos se manifestam – pergunto-me sempre, qual é vontade de Deus?, que mistérios encerra a sua vontade?. A eutanásia e a permanência da vida pela ligação às máquinas não são uma e a mesma coisa. É nestes momentos em que temos de procurar bem fundo no nosso coração, abrindo-o aos segredos do Senhor, ouvir a sua voz e agir em paz e com serenidade.

Abraço fraterno

marco disse...

AMÉN......

Dad disse...

Eu vivi uma situação dessas com a filha de uma amiga - 15 anos, saudável, alegre e que subitamente é levada ao hospital porque teve um acidente cerebral grave, aneurisma. e ficou em coma dois meses. A mãe teve que começar tratamento psiquiátrico, a família ficou toda doente porque foram postos perante esse dilema de desligar as máquinas. Procurámos reforçar-lhes a fé que seria uma bálsamo para aquela dor, mas a mãe que era crente, até começou a desacreditar em Deus,revoltada, a seguir a ela, a família mais próxima também. Foi o caos. O drama durou tempo demais. Foi horrível! O padre visitou-os a pedido dos amigos e não sei o que lhes disse, mas não pôs as palavras certas na boca, no momento que lhes falou. Afastaram-se definitivamente. Fomos nós os amigos que conseguimos aos poucos fazer-lhes compreender que a alma dela já não estava agarrada ali e que por amor à filha tinham que mandar desligar a máquina e deixá-la partir em paz e continuar a pensar na sua vida espiritual. A máquina foi desligada; a menina morreu. O sofrimento ainda hoje continua mas já pensam nela como um anjo que Deus chamou para si.
Enfim, foi uma experiência vivida e muito dura. Até hoje me pergunto, se é lícito pôr na mão dos pais esta decisão. Os médicos devem saber melhor do que nós leigos, quando o corpo ainda responde aos impulsos vitais. Colocar esta decisão nas mãos da família é desumano. Caramba, eu tenho um filho e peço a Deus que nunca me ponha numa situação dessas. E espero ser ouvida!

Vítor Mácula disse...

Caro Confessionário.

Se continuas assim não consigo fazer outra coisa senão agradecer-te e prostrar-me em oração perante o mistério mudo da vida e da morte e dos seus sentidos e não sentidos...;

Portanto, fale-se doutra coisa periférica (digo eu a mim): no séc. XIX, nalguns estados dos EUA o suícidio era um crime punido com a pena de morte (eh eh eh, é genial!)... Evidentemente que só se a aplicava quando o desgraçado ou a desgraçada falhava o acto... Mas o princípio de legitimação jurídica lá estava contente ostracizando tais desgraças.

A eutanásia põe, entre outras coisas, a questão da autonomia responsável do sujeito, e sua absoluta ou limitada liberdade de dispor da sua própria vida, ou não?...

Abraço.

nani disse...

Quando amamos alguém importa, sobretudo, que a façamos sentir amada, nem que seja por breves minutos. Bem haja!

LM disse...

Eu disso não sei nada... Mas se estiveste com a pessoa, a acolheste, ouviste activamente e deixaste que ela descobrisse a sua verdade a partir da fé, considero que fizeste o teu trabalho. E, olha, nestes casos, como noutros, nós também precisamos de ser curas. A vida dói, magoa e faz sofrer; há que se deixar curar pelo Médico eterno.
Abraço.

LM disse...

Eu disso não sei nada... Mas se estiveste com a pessoa, a acolheste, ouviste activamente e deixaste que ela descobrisse a sua verdade a partir da fé, considero que fizeste o teu trabalho. E, olha, nestes casos, como noutros, nós também precisamos de ser curas. A vida dói, magoa e faz sofrer; há que se deixar curar pelo Médico eterno.
Abraço.

guga disse...

Passei exactamente por essa situação há 1 semana atrás e era tão insustentável que quase implorávamos para que a morte viesse depressa para lhe evitar mais sofrimento a ela e a nós, mas é sempre difícil decidir. O destino é sempre mais forte.

Sandra

Gambozina disse...

Penso que já passou, que ele nunca mais voltou a pensar nisso. Nunca mais o referiu, foi naquele momento, a dor misturada com a revolta de perder uma Mãe tão cedo. Já lá vão 5 anos.
A nossa Mãe também esteve sempre em casa até ao dia em que faleceu (embora nesse dia tenha entrado de manhã no hospital de urgência), sempre lúcida e a sair para passear por alguns intantes. Força tinha ela. Mais que nós, suspeito. Obrigada pelas suas palavras

Dad disse...

Confessionário dei a resposta à tua pergunta no Momentos de Luar. Achei mais adequado do que aqui...
Bjitos,

Lilith disse...

O meu pai faleceu há 2 anos. E eu sei que ele está no céu, na luz.
:)

del mare disse...

Penso que não aceitamos a morte dos outros porque ela nos confronta com a nossa própria morte . Assim, sentimo-nos inábeis para tomar decisões nesta matéria incorrendo por vezes no prolongamento de um sofrimentos inaceitável.