quinta-feira, fevereiro 23, 2006

O que está dentro não chega para o que está fora

Hoje é um daqueles dias em que o que está dentro não chega para o que está fora. Por muito cheio que se esteja por dentro, está-se cheio por fora também. Cheio do problema do outro, da chatice do outro, da palavra do outro, do gesto do outro, do pedido do outro, da exigência do outro. Cheio do outro. Dia em que apetece cerrar as portas e imaginar que só existe o nosso interior. Que só existimos nós e quem nos conhece por dentro. É tão mais fácil imaginar que só existimos nós e o Deus que nos ama! Ainda não bati porta alguma. Apetecia. Continuo sentado. Porque não apetece sequer erguer-me. Os olhos vidrados em palavras e em pensamentos. Olhar apenas para a frente. Não mover as pupilas. Os dentes semi-cerrados. Porque não vou cerrar a porta, cerro o que é mais fácil. Podem bater à porta do confessionário a qualquer momento, que eu vou fingir que estou ocupado… comigo e com Deus. Com perguntas a Deus. Pode ser que ao insistirem, se insistirem mais que doze vezes, eu abra a mesma com o interior mais cheio que o que está fora. Cheio com as respostas de Deus.

26 comentários:

1gota disse...

Para sorrir aos outros, precisamos de estar a sorrir para nós primeiro.
Quando isso não acontece, fecha-se a porta e procura-se sorrir.
E aí abre-se a porta com muito mais para dar.

bjs
:*

del mare disse...

...Cheio com as respostas de Deus.
Isso é Fé?
E quem apenas espera as suas próprias respostas, aquelas que parecem nem existir?
Permita-me que lhe chame esperança mas... até quando?

mi disse...

temos que saber ser generosos com nós próprios, mimarmo-nos, tratarmo-nos bem, deixarmo-nos descansar... a condescendência começa interiormente...
e amanhã é um NOVO DIA! :-)

JOINCANTO disse...

Penso que todos temos dias assim. Dias, que não apetece aturar ninguém e muito menos tentar resolver os problemas que cada um tem que enfrentar por si próprio.
Mas então Deus lembra-nos o quanto nos ama. São pequenas frases escritas no céu, nas folhas, nas plantas, nas palmas das nossas mãos. No nosso coração.

Então, levantamo-nos. Molhamos a ponta dos pés e começamos a caminhar. Pequenos passos de obediência. Pelo meio do Mar. Vamos ao encontro de das pessoas e encontramos Deus.
E de repente reparamos que já não estamos mais sentados. Sorrimos.

Pdivulg disse...

Pois há dias assim, mas a verdadeira felicidade existe na entrega total aos outros, com alegria e dedicação, não como frete... Não é fácil? Pois não a vida não é fácil...

Carla Isabel disse...

Amigo...quando tenho dias assim (como hoje)apetece-me voar até á minha ilha deserta e andar á beira mar ouvindo o silêncio!

Bjs

Carla

Gambozina disse...

Há dias assim. Não há ninguém qeu não os tenha. Por vezes apetece bater com a porta (real ou do coração).
Mas amanhã tudo será diferente!

cr disse...

ha que ter calma... respirar bem fundo e olhar tudo com outros olhos.. a vida é tão fácil... nós é que temos a mania de a complicar.

Vítor Mácula disse...

Caro confessionário.

E eu que vinha tão só para desejar-te, e aos restantes que a tal aderem, um bom carnaval, e um voluntarioso início de quaresma... desejo que evidentemente reitero.

E, batendo treze vezes à porta, quedo-me em silêncio contigo.

Um fortíssimo abraço.

Sonhador Acordado disse...

Acho que todos precisamos de tempos de paragem, para "recarregar baterias", para depois podermos dar o nosso tempo aos outros com mais qualidade. Senão, corremos o risco de chegar a não ter mais paciência, para eles ou para nós. São os nossos pequenos "retiros" interiores.

Vilma disse...

Para mim o pior é estar cheia de mim mesma... e quando me volto para o outro esqueço de mim e é como se me voltasse para o próprio Deus.

Confessionário disse...

Caros amigos, como alguém dizia, hoje é outro dia. Sei que vai voltar este desejo de não querer nada, mas hoje estou com vontade... Não sei como definir esta vontade, mas é uma vontade.

Isto só demonstra que todos somos iguais aos olhos de Deus, todos temos momentos de fraqueza. Os padres tb têm momentos de fraqueza. Oh se têm, tantos!

Del Mare, a fé é responder ao amor de Deus (estou a resumir, obviamente)~. Não é fazer de conta que est´+a sempre tudo bem. Recordo um santo que discutia muito com Deus...mas amava-O.

guevara disse...

:D

em tantos momentos que tive assim, tentei sempre lembrar-me da 'perfeita alegria'.

conhece esse texto/historia de S. Francisco, não conhece?

Ataquem-me, condenem-me, magoem-me, expulsem-me, piquem-me, gozem... esmoreço, fraquejo, choro, desatino... a Perfeita Alegria estará sempre presente!

Luz Dourada disse...

Então os padres não haveriam de ser como as outras pessoas, com direito a sentir que às vezes é preciso fechar a porta física e ficar em silêncio e não ouvir nada nem ninguém? Se me dissessem o contrário é que acharia anti-natural!
E isso não tem nada a ver com falta de amor aos outros. Todos nós precisamos de espaço e às vezes encontramos gente que, pura e
simplesmente se intromete no nosso espaço, "roubando-o" de nós. É bom que não se esteja tão acessível de vez em quando...mesmo os padres...
que têm uma missão mas são gente como nós!
Tens todo o direito de ter "os teus dias"...
A seguir estarás melhor contigo e com os outros...
Acho que é preciso desmistificar essa de que os padres têm que ser "pau para toda a obra" e estar sempre disponíveis para todos e para tudo.
A pacìência, às vezes, tem limites...
Beijinho,
Até já estava a sentir-me padre...
puxa vida!

Anónimo disse...

Lembro-me de uma historinha de uma senhora que vai ter com um padre pedindo-lhe que a atenda urgentemente. Ao fim de uma hora de confissão, diz a mulher:
- Obrigado, senhor padre. Quando aqui cheguei vinha com uma enorme dor de cabeça, mas agora sinto-me muito mais aliviada.
Depois da senhora sair, diz o padre:
- Pudera! Agora quem tem a dor de cabeça sou eu...

Anónimo disse...

Isto, para dizer que às vezes é duro levar com o peso dos outros. Até Jesus derreou...
Mas também me permito dizer que, contrariamente à generalidade dos comentários, a verdade é que as pessoas dificilmente mostram compreensão por um padre que se mostre algo saturado ou impaciente. Pelo contrário: sentem-se desconsideradas e manifestam-se ofendidas...

Confessionário disse...

Nem mais, anónimo. Agora acertaste na muxe, como se costuma dizer. É isso: a maior parte das pessoas não vê o padre como humano; vê-o como o funcionário de Deus que, divinamente, deve estar sempre ao dispor e sempre bem...
ai ai

Dulce disse...

Mas não fomentarão os padres essa ideia de que são mais do que humanos? Ou os padres ou a Igreja, não sei...
Não é na condição de "funcionários de Deus" que justificam a necessidade da confissão?
...Pergunto eu...

Confessionário disse...

Acho que todos, sem querer, fomentamos essa ideia.
A que tu chamas de Igreja (poque a Igreja sosmos todos os cristãos) fomentava mais antigamente que hoje. Penso que hoje há já muitos padres que gostam de deixar esta ideia bem clara: a de que são como os outros que têm fé... mas com missões diferentes.
Para os outros (para aqueles que querem manter essa ideia antiga) sabes, Dulce, é muito mais fácil pois evitam o contacto e o constrangimento!
Parece um paradoxo, mas não é: uns sublinham a parte humana, outros desejam a parte divina.

Quanto ao resto que dizes, não. Definitivamente, não somos funcionários de Deus. Somos servos de Deus e da vida de cada homem. Entregamo-nos por Ele de uma forma consagrada.
A Confissão serve a pessoa para estar bem com Deus, com os outros, e consigo. O padre ajuda, é ministro, desta acção.
Será que me fiz entender, Dulce?! Se não, diz qualquer coisa. brigada pela tua opinião.

Ver para crer disse...

O Padre tem (penso eu) de carregar com o peso da dor dos outros, concerteza.
E o marido, esposa, pai, mãe, etc., também por vezes têm de carregar com pesos pesados.
«Quem me quiser seguir pegue na sua cruz ....

Dulce disse...

Caro padre,
ainda bem que me respondeu. E já agora aproveito e faço algumas perguntas que me inquietam. Quanto à confissão, por exemplo: acho-a ou monótona ou constrangedora (dependendo). Na maior parte das vezes, inútil. Porque Deus - concordará comigo - não vive apenas no coração dos padres. Vive no coração de todos os que lá o recebem. Se eu estiver arrependida dos meus pecados e Lhe pedir perdão, eu sei que fui perdoada. Deus conhece-me, e nada do que eu possa fazer O choca, nada é imperdoável. Aos Seus olhos eu sou hoje (tanto caminho percorrido, tanta poeira acumulada) o mesmo ser lindo que era no momento em que nasci. Eu e todos nós, claro. Para quê a confissão por intermédio de um padre? Até poderia concordar se fosse uma ajuda, disponível, mas não obrigatória.
Ok, é um ritual, podemos dizê-lo. Mas é um ritual que mexe demais connosco, com coisas que são apenas nossas e de Deus. E o padre pode ser ministro de Deus, mas não é Deus. Entenda, por favor: não tenho nada contra a confissão. Tenho contra a obrigatoriedade da confissão.
E há um outro ritual que, ao contrário, me faz todo o sentido, e me é agradabilíssimo. A comunhão. Pedir a Deus que fique comigo, levá-lo para fora da igreja (edifício)... Claro que Deus vai e está comigo. Mas a comunhão era-me agradável. Depois vieram dizer-me que era um tremendo pecado comungar sem me confessar pelo menos uma vez por ano a um sacerdote. Ok, não comungo mais. Nos rituais da Igreja manda a Igreja (de que de alguma forma me excluo, apesar de amar a Deus e de querer amá-Lo mais). Mas pergunto: porquê uma vez por ano?
Porque não há-de valer um arrependimento sincero na solidão do meu quarto o mesmo que uma exposição que me violenta?
Por favor, padre, não pergunte o que já ouvi tantas vezes: "Se queres confessar-te espiritualmente, se te bastas a ti própria para a confissão, porque não fazes da mesma maneira com a comunhão?"
Não pergunte, porque É O QUE FAÇO.

Obrigada por me ler. Obrigada por responder

Anónimo disse...

Cara Dulce
Correndo o risco de meter foice em seara alheia, atrevo-me a deixar algumas sugestões.
Talvez uma das dificuldades esteja em ver-se no padre confessor um juiz, alguém que nos vai avaliar e certamente condenar. Se calhar, seria mais fácil perceber o papel do padre se ele estivesse ajoelhado ao teu lado, olhando ambos para frente, para uma mesma imagem, por exemplo. Aí sentirias que o padre é tão humano como tu e que só está ali como teu ajudante, teu companheiro de fé, teu advogado. Alguém que te apoia, que te conforta, que acolhe os teus desabafos e que, por fim, te comunica a mais bela noticia: Deus perdoa-te e nunca deixará de amar-te!
Sentir que algo de tão especial é uma penosa obrigação a cumprir, mostra como as coisas são vistas às avessas. Para que percebas melhor, basta usar o exemplo da comunhão: segundo o que descrevias, a comunhão eucarística é uma experiência maravilhosa para ti; ora também aqui há uma lei que obriga os cristãos a comungar uma vez por ano. Se calhar, também tu estranharás: por que razão é preciso obrigar as pessoas a fazer algo de tão bonito? Como é que alguém se pode sentir obrigado a comungar uma vez por ano, quando tu és capaz de comungar todas as semanas com imensa alegria e prazer? A nossa religião tem coisas muito estranhas...

Confessionário disse...

Dulce, já te tinha lido e, como não tenho muito tempo hoje, estava a adiar a resposta, mas depois da ajuda que o anónimo fez, não resisto a acerscentar algumas coisas. Sim, porque o anónimo deu uma grande ajuda. E, caro amigo anónimo, não meteste a foice em seara alheia. Esta seara é de todos, assim como a Igreja somos todos! E que grandes achegas deste! Muito boas mesmo!

Quanto ao que dizias, em primeiro lugar, entendo a tua observação e desgosto. Mas, de facto, o sacerdote não é aquele que vai saber das tuas fragilidades. Não. Ele é apenas um intermediário entre ti e Deus e é-o para facilitar as coisas, para que se sinta o feed-back. Mais, a Confissão é um sacramento (não é um ritual!), e os sacramentos dão sinais visíveis da presença de Deus no meio de nós. É portanto da Sua presença que se trata. Devemos aproveitá-la.
Se ela é constrangedora, ainda bem, porque é sinal de que a pessoa está arrependida. se fosse apenas como o descarregar dos fardos é que era mau sinal.Claro que é Deus quem perdoa. Mas... imagina, seria demasiado fácil assumir os nossos pecados apenas assim, sem que o afirmássemos perante alguém. A confissão exige tb esse assumir perante o tal advogado que falava o anónimo e que serve como nosso amigo, para nos ajudar. Pois que a confissão pode igualmente servir como ajuda para enfrentar esses problemas, dado que uma palavra amiga, uma sugestão, pode indicar-nos uma luz para a vida.
Outra questão, a da confissão obrigatória uma vez por ano... É menos verdade. A ver se me faço entender. Tornou-se algo obrigatório para que, ao menos uma vez por ano, os cristãos estivessem na graça de Deus e comungassem na mesma graça. Mas o que de facto mandam as normas é que a pessoa se confesse cada vez que se sente necessitada, cada vez que não se encontra em paz consigo, com Deus ou com os outros. Tb não gosto daquilo a que se chama habitualmente de "desobriga". Mas não podemos confundir isto com o sacaremtno da Confissão que é maravilhoso. Eu não sei como foram as tuas experiências em confissão, mas te posso garantir que, quer como padre quer como pecador, tenho tido experiências belíssimas na confissão.
Ahh, ia esquecendo, os pecados que impedem a comunhão são os chamados pecados graves. Os leves não nos devem impedir de receber a partilha de Deus na Comunhão.
Boa caminhada, amiga. Obrigado, anónimo...

simnão disse...

Caro Confessionário.
Não é de todo preciso estar-se dentro do confessionário para ver que há muita gente que precisa de nós (sejamos nós quem sejamos...)
Se em post's anteriores fui negativamente crítico, neste concordo com tudo o que disse. Dentro ou fora da nossa esfera ideológica, temos como obrigação para connosco mesmos de ajudar todos aqueles que necessitem duma palavra amiga, de um ombro amigo, de um gesto amigo...Aliviar a nossa consciencia com a "descarga" de consciencia do outro...
Acho justo. Evidentemente, como diz, há dias em que nos apetece simplesmente "fechar ou bater a porta", mas quando isso acontece, teremos provávelmente de "recorrer" a um amigo, para "descarregarmos" a nossa consciencia...
Torna-se um ciclo.
Mas temos de ser "uns para os outros".


Um Abraço.

s.p. disse...

Ó colega experimenta subir à montanha...ás vezes resulta...mas não te percas na montanha...
abraço...



p.s- depois da tempestade costuma aparecer sempre um dia de sol espéctacular

Joana ;) disse...

Percebe porque não quero incomodar mais??
Através deste texto, compreendo que voce tbém sofre com os problemas alheios.

Bjs e tudo de bom...