Foi também no café. Conversa com dois casais amigos. Falavam daquilo que eu já tinha lido, e, às tantas perguntaram: O que acha daquilo tudo senhor padre? Contextualizo agora e traduzo nos meus pensamentos, porque os casais falaram de outra forma mais brejeirita.
Ele ou ela… quer-se dizer, nem se sabe se ele se tornou ela ou se ela sempre foi ela e assumiu que não era um ele. Mas também não é importante o pormenor. Basta dizer que era uma pessoa. Um ser humano que Deus criou com todo o amor com que cria todos os seres humanos. Mais um. Mais um para amar. Com uns 40 anos, mais coisa menos coisa, chegara a Portugal há uns 25. Assim para resumir, começou pela prostituição, passou pelas drogas. Rapidamente pelo grupo dos sem-abrigo. Mais rápido ainda, mesmo sem se notar, pelas doenças ditas difíceis, HIV e hepatite. Quem era? Um ser toxicodependente e prostituto. Sem-abrigo. Sem o abrigo normal de uma casa e sem o abrigo de uma mão ou de umas mãos amigas e desinteressadas. Sem-abrigo e altamente doente. Pessoa marginal. A história resumida desta pessoa cruza-se com outra história, a de uns 12 rapazes com idades entre os 10 e os 16 anos, internos numa instituição de caridade católica. Rapaziada com algum cadastro, ou pelo menos com outra história bem marginal. Não se sabe ainda porquê, mas estes jovens decidem espancar até à morte a dita pessoa.
E agora vem a minha resposta, que, reconheço, foi dita de uma forma dura.
Toda a gente tem opinião sobre o assunto (até eu!). Aparecem os espertos que têm solução para tudo, sabem o que fazer à instituição, aos miúdos, ao morto, aos casos iguais… Mas só sabem dizer, porque não aprenderam a fazer! Distribuem-se responsabilidades, avalia-se a situação. Vamos fazer um inquérito para apurar os responsáveis. Isto agora está um descalabro, ouve-se… como se fosse caso único e ninguém conhecesse casos idênticos de ontem e de sempre!
Mais, toda a gente fica indignada com a forma como morreu esta pessoa, mas não devem ter sido muitos os que se preocuparam vendo-a morrer aos poucos durante a sua vida! E os outros que andam nas ruas como ela…Que lhes fazer, depois de todas as opiniões que emitimos?
Mais, ficamos indignados com a falta de respeito pela diferença e pelo diferente, mas alimentamos isso todos os dias em conversas de café, de rua, da Internet, em piadas e anedotas, em olhares de soslaio.
Mais, toda a gente fica perturbada com a frieza dos rapazes, mas nunca ou poucos se preocuparam de facto em prestar auxílio, educar e promover a dignidade dos mesmos!... ou de outros tantos que andam por aí à porta da casa de cada um… Agora opinam contra aqueles que se preocuparam com eles! Grande hipocrisia esta!
Ao fim e ao cabo, todos queremos ser respeitados como somos, mas não aceitamos certas coisas e pronto!... como se nós não tivéssemos fragilidades!
E acrescentei. O que deve mudar, acima de tudo, não são os outros, mas nós, a nossa atitude perante a vida!
Jesus olhava cada um como ele era, amava cada um como ele precisava. E nós?