terça-feira, junho 30, 2015

um assunto a que não quero dar título

Há padres que se suicidam, e a notícia propaga-se, morbidamente, pelos corredores escuros dos claustros da vida. Nisto a comunicação social não se tem metido, não sei se por respeito aos falecidos ou seus familiares, se por ser uma realidade desconhecida, se porque na verdade o número é exíguo em comparação com aqueles que morrem de morte dita natural.
Mas a gente vai sabendo e, mais do que angustiar-se com a angústia, faz-se pergunta em nós da pergunta mais difícil que há. É a pergunta dos porquês? Fica-se assim a perguntar Porquê, ou porque é que a Fé não faz evitar estas coisas. Sim porque um padre deveria ser um exímio ser de Fé, e ela, que se saiba, responde como ninguém às questões da vida e da morte. Porém, o que nós esquecemos é que antes da fé a pessoa tem de ter resolvida igualmente a sua humanidade. Ninguém conseguirá um dia distanciar a sua fé da sua humanidade, ou usar apenas a fé. Nem os santos.
Outra pergunta que se faz, ou que é apenas minha e agora, é Porque é que ninguém se apercebeu ou fez alguma coisa, ou esteve ali presente para segurar o braço de quem se queria lançar no abismo. E também a resposta me veio sofrida, mas escorreita. Ninguém consegue viver nem sentir autenticamente Deus se não souber amar e viver essa maravilha do amor. Isso pode acontecer e expressar-se de muitas formas, mas tem de existir. Disso tenho a firme certeza. Pois é ou são esses amores que sustentam a nossa vontade de viver! Pois é ou são esses amores que estão ao nosso lado e nos podem segurar quando já não temos mão para agarrar ou não temos mão em nós.

13 comentários:

Mariana disse...

Realmente é muito fácil para os leigos esquecerem-se que os padres são, antes de mais, pessoas. Irei rezar por todos vós e por nós, para que não caiamos nesse esquecimento tão injusto.

Anónimo disse...

Porquê?

Nos momentos de maior angústia e tribulação, quando toda a esperança nos abandona e fica só o vazio,porque é que o grito "onde estás Senhor" fica quase sempre sem resposta?

Anónimo disse...

Lamento Pe. que existam casos de suicídio na vossa classe... de facto a comunicação social, e muito bem, não da conta desses casos, embora dê imenso relevo aos que, num acto de coragem e coerência, abandonam.

Quantos de vós viverão uma vida de felicidade aparente?? tal como quantos de nós o farão? Será isto que Cristo espera de vós e de nós? Esta falta de coerência, esta felicidade para "inglês ver" porque é o que a sociedade, a família e as vossas hierarquias esperam.

felizes daqueles que têm coragem e de forma conscienciosa seguem novos rumos acreditando que o caminho que trilham é-lhes mostrado pelo Senhor. São com certeza os de maior fé porque perdem o medo e confiam Nele.

Anónimo disse...

"Porque é que ninguém se apercebeu ou fez alguma coisa, ou esteve ali presente para segurar o braço de quem se queria lançar no abismo"
Pois é!! Mas como é que quem está ao lado pode segurar esse braço, se "esses" na maneira de se expressarem, apesar das muitas formas existentes para o fazerem, não são suficientemente claros, ou fortes, para se sustentarem nesse amor, e fazer sentir a quem está ao seu lado, que esse abismo está tão perto?...
Ou então quem está ao seu lado, também pode pressentir alguma falta de firmeza, e ter esse amor que pode ajudar, mas falta a coragem para se "intrometer"?
"O Amor é uma luz que não deixa escurecer a vida"...por isso continuamos com os Porquês???
Bjs
(este texto faz-nos mesmo pensar)

Anónimo disse...

Cada vez me incomoda mais que se entenda que vocação sacerdotal e vocação para o celibato são sinónimos. Sabemos as motivações que levaram à lei do celibato. Parece-me que é uma lei (estou à procura duma palavra não muito dura mas não encontro) criminosa. Por quanto tempo ainda vamos ver isto?
CG

Ana Melo disse...

Não NOS convencemos da nossa insignificância. Não nos convencemos que somos fruto, na melhor das hipóteses, de cinco minutos de brincadeira, porque a verdade é que a maior parte de nós, é fruto de cinco minutos de obrigação! e quantos!? quantos! de nós não somos fruto de cinco minutos de violência consentida!!!

Não nos convencemos que os pobres somos nós, não nos convencemos que quem tem de receber somos nós, não nos convencemos que os hóspedes somos nós. A criação diz-nos que os sins e os nãos – BOM USO, dos dons que nos foram doados – são para ser usados com PACIENCIA/SABEDORIA, na quinta do Senhor.

Ao criador tudo é possível pelos seculos dos seculos…. Deus é Pai. Ele é o ÚNICO, que nos diz/mostra sempre, que nós somos NECESSÁRIOS. Criou um paraíso/quinta, para nós usufruirmos/cuidarmos, e deixar os outros usufruir/cuidar. “O segredo” é aceitar/agradecer o facto nos ter sido dado, entre gritos e apertos, a oportunidade de fazer, mais brevemente!!! ou mais naturalmente, parte deste mundo.

Anónimo disse...

Há padres que se suicidam assim como há leigos que se suicidam.
:(
Como é que ninguém se apercebe?
Talvez porque ninguém esteja preparado para lidar e reconhecer a ultima gota, aquela que faz transbordar o copo.

Há cerca de três anos atrás uma amiga e que era também a minha chefe de trabalho entrou na minha sala em desespero, chorava, antes de me ter tempo para me dizer porquê perdeu os sentidos.
A última gota tinha sido a obrigatoriedade de que a empresa a havia incumbido para fazer algo que estava fiscal moral e humanamente incorrecto.
Penso que este factor desencadeou a tendência suicida que se seguiu.
A vida tinha deixado de fazer sentido para ela.
Era crente e tinha uma fé activa.
Foi submetida a um tratamento rigoroso e que requereu um internamento prolongado.
No quarto do lado estava um padre que havia sido submetido ao mesmo tratamento.
Tivemos oportunidade de conversar, ao porquê surgiu uma resposta pausada, demorada também pela dificuldade inerente ao tratamento em se expressar.
Porque estava sozinho, porque não tive ninguém ao longo da vida que me fosse ajudando a superar as minha limitações, porque nunca estive com uma mulher nem nunca tive um filho, porque tendo já escrito o livro nunca vivi o romance.
Senti-me incompleto, tinha a fé mas faltou-me a mão humana.
Às vezes penso neste homem de fé padre de profissão e de coração que desistiu por falta de apoio.
Como tu dizes a fé responde às questões de vida ou morte, mas não responde às necessidades humanas de carinho do toque da delicadeza.
Sem esse toque humano o corpo adoece a mente não funciona devidamente e a morte é o que se apresenta como a melhor alternativa ao sofrimento.
E quem se suicida normalmente não avisa com antecedência, emite sinais de alerta que só quem passa ou já passou por uma situação semelhante consegue apreender.
À questão porque é que ninguém se apercebe, uma das resposta será porque estamos demasiado habituados a ser ouvidos sem ouvir realmente o sofrimento do outro, porque na realidade não nos importamos grandemente com o outro.

" Ninguém consegue viver nem sentir autenticamente Deus se não souber amar e viver essa maravilha do amor. Isso pode acontecer e expressar-se de muitas formas, mas tem de existir."
" Pois é ou são esses amores que estão ao nosso lado e nos podem segurar quando já não temos mão para agarrar ou não temos mão em nós."

"se não souber amar e viver essa maravilha do amor."
Nesta tua magnifica expressão permite-me substituir o termo "souber" por "puder".

"Ninguém conseguirá um dia distanciar a sua fé da sua humanidade, ou usar apenas a fé."
Afirmo, ninguém consegue, é nesse momento que entra o suicídio.


Danielle Flavia disse...

É... as pessoas não se acostumaram com o lado humano e frágil do sacerdote...
A solidão, as vezes, torna-se um fardo pesado demais...
:(

sou casada com um ex-padre, e posso dizer, que os sacerdotes são homens sensíveis e vivem em alta intensidade tudo que lhes é proposto...afinal, conseguem tocar o céu! assim, um sentimento de tristeza pode tornar-se bastante profundo, mais do que para um "homem comum".

Danielle Flavia.
arosaeosagrado.blogspot.com.br

Febe disse...

Porque é que o celibato no sacerdócio está à distância das coordenadas geográficas?

Anónimo disse...

Alguns comentadores estão a por o acento no celibato. Mas há tanto suicídio no meio do casamento! Será o celibato a culpa do suicídio ou da solidão dos padres?!

Anónimo disse...

Fiquei triste ao ler este post. Penso na solidão a que são sujeitos os sacerdotes e não falo da solidão imposta pelo celibato. Mas falo da solidão imposta por uma sociedade que critica de forma tão intensa um sacerdote sai da sacristia e vai até ao café ou fala na rua é efusivo num cumprimento de um amigo de infância. Parece estranho? Acham não ser possível? Infelizmente é!
Sacerdotes a quem é feita uma oposição a qualquer atitude que tomem. Ameaças mais ou menos veladas porque não se faz na hora aquilo que pretendem. Então se se nega a fazer aquilo que não está de acordo com a sua consciência?
Foi me difícil aceitar continuar a ser católica quando comecei a ver quantas coisas se passam numa igreja. Pessoas dizerem-se católicas, serem praticantes terem atitudes...
Mais difícil foi voluntariamente aceitar ser eu alvo deste tipo de atitudes. Apenas uma consciência tranquila, a vontade de remar contra a maré e de lutar por aquilo que acredito e a fé de um pároco que nos orienta tal como a amizade e a confiança mutua entre o nosso grupo permite que nenhum de nós desista.
sei que numa outra fase da minha vida, teria desistido, mas este pároco que numa paróquia com aspeto tão perfeito encontra tantas dificuldades fez-me desistir da ideia do suicídio mesmo que à conta de assumir que já tinha pensado nisso, mas mostrando-me, mais pelo exemplo que por palavras que há um jesus de amor e de misericórdia.
E por esse exemplo que a cada situação desagradável coloco nas mãos de cristo, elevo o rosto e sigo em frente, mas todos os dias rezo por este sacerdote para que tenha a coragem de ir em frente.

Anónimo disse...

Este assunto é terrível, seja quem for. Mas um padre, que deveria ser um homem de fé, de facto é mais difícil de entender...
Eu não sei se nao perderia a fé caso o meu padre se suicidasse!

Anónimo disse...

"Nos momentos de maior angústia e tribulação, quando toda a esperança nos abandona e fica só o vazio,porque é que o grito "onde estás Senhor" fica quase sempre sem resposta?"

Fica sem resposta.

Hoje pergunto eu, Porquê???