quarta-feira, abril 18, 2007

Cinquenta anos

Faziam cinquenta anos de casamento. Bateu-me à porta apenas ela e uma amiga. Que ele não entrava nestas coisas. Queriam marcar uma festa de aniversário com missa. Aqui há uns anos evitava-as, por causa dos transtornos. Simplificava as coisas com uma cerimónia simples. Até na casa dos interessados. Hoje reconheço que é mais meritório um aniversário que o próprio casamento. Não é que seja mais válido, mas certifica o amor verdadeiro. O casamento deixa sempre, hoje, uma dúvida. E este certificava cinquenta anos. Insisti na ideia da Eucaristia dominical. Comunidade presente para celebrar o amor. Foram pensar, mas a resposta foi não. E assim foi no passado sábado.
Dezassete pessoas, comigo dezoito. Missa bastante silenciosa. Incomodava apenas o tlink e o tlonk de cada máquina, pois haviam-se esquecido de as colocar no modo de silêncio. Cerca de dez flashes, entre câmaras de filmar e câmaras de fotografar. Não deu tempo para refilar com palavras. Fiz um ou dois trejeitos, mas também não eram óbvios. Respondiam pouco. Era mais um diálogo entre mim e mim. Pelo menos eu não ouvia, e, pelo hábito, eu até tremia com receio de mandar duas ao lado. Mas se não respondiam, como foram comungar? Sim, porque pelo menos metade comungou. Estranho. Mais tarde imaginei que eles estavam como eu, respondendo baixinho com receio de mandar duas ao lado.
Ele confessou-se antes da missa, para comungar nessa missa. A última foi há 25 anos. Imagino que aos 75 se vai confessar de novo. Festejassem cada ano e era todos os anos.
Bonito foi o rosto dos noivos. Estavam bonitos e frescos. Aparentavam menos uns 25. Ainda lhes exigi um “Eu amo-te” cara a cara e olhos quase nos olhos, porque foi rápido e a fugir, com o decoro da pureza e da vida nestas idades. Insisti que eram palavras bonitas e a utilizar toda a vida. Festa do amor. Mas fiquei com uma sensação de que não se festejou propriamente o matrimónio religioso. Isso só Deus sabe. A minha certeza induz-me apenas à festa do amor de dois cônjuges após cinquenta anos. Já não é mal, pois Deus devia estar agradado. E tlink. E tlonk.

22 comentários:

Dulce disse...

tlonk.

(lol - fui eu a tirar tb uma fotografia)

PDivulg disse...

O amor é belo...

Luis Carlos disse...

Olá,

Cinquenta anos de casados, é uma obra monumental, para um homem e para uma mulher, em especial para uma mulher, esse ser humano complementar do homem, sendo o inverso também verdadeiro.

Cinquenta anos de casados dão muito muito bom senso ao casal, por isso eles escolheram uma missa particular em vez de ser um show para uma multidão calada sem direito a responder e interpelar o senhor ministro. E mesmo assim não houve diálogo.

As máquinas fotográficas e de filmar fazem parte da festa. Pois, a missa sempre foi assim, com um diálogo entre o senhor ministro e o próprio senhor ministro, nunca há espaço e tempo para a pergunta e para reflexão do fiel, por isso não vejo o porquê do teu espanto de as pessoas não responderem, como pode haver alegria quando todo o diálogo está montado como uma peça de teatro, como quer que a Energia/Alegria/Espírito-Santo se faça sentir numa peça de teatro destas?

Estranhou as pessoas terem ido comungar depois de não seguir o guião da peça de teatro? Não vejo porquê, pois elas vieram para comer e se alimentar, pois é algo que decidem fazer e que não está no tal guião, é um pequeno espaço de liberdade que as pessoas aproveitam.

Um abraço fraterno,
Luís Carlos

Anónimo disse...

Os meus pais viveram 54 anos, até que a morte os separou. Também a celebração dos cinquenta anos foi simples.No final da Eucaristia uma senhora amiga dos meus pais trazia uma linda rosa na mão, depois de os felicitar continuava com ela na mão, até que se dirigiu a mim e ma ofereceu. Perante a minha admiração a senhora achava que a felicidade dos meus pais se devia muito ao meu carinho e à forma como cuidava deles, e como tal eu merecia a rosa.Só partilho para reflexão.Os filhos também são "responsaveis" pelo bom ou mau casamento dos pais...
Bjs

Pescador disse...

Caro Luís,

eu também não percebo bem, como é que se não participa da Eucaristia, participando apenas com a presença, e depois se quer comungar. Não estou a dizer que sou contra essas pessoas comungarem. Mas não deixa de ser curioso. Não percebi bem a questão do "teatro montado". A Santa Missa não é nenhum teatro. E o padre não tem a obrigação de animar toda a missa, em todos os aspectos. Os leigos têm responsabilidade nisso mesmo. E já que quiseram ter uma celebração a título particular, então deveriam ter-se encarregado dessa mesma festa. Para que não fosse apenas o padre a falar para ele próprio.

É sempre bom ver um casal que dura há 50 anos. Fico muito feliz por eles, e peço ao Senhor que os mantenha sempre unidos no amor.

Abraços!

Cee Jay disse...

Há vários temas que é muito fácil qualquer conceber-se como especialista. Um deles é precisamente a questão religiosa e particularmente a católica.
Falar sem o mínimo conhecimento sobre o que se está a falar é o que normalmente acontece.

Aconselho vivamente ao Luis Carlos a leitura atenta e estudo da 'tão criticada' (cá está) Exortação Apostólica "Sacramento da caridade", de Bento XVI, sobre a Eucaristía.

Depois releia o seu comentário.

Luis Carlos disse...

Olá a todos os que falarem no meu nome.

Já agora convém esclarecer. Eu sei do que estou a falar, fui católico praticante (como se houvesse não-praticante), neste momento não sou, sou amigo/irmão de Jesus, o de Nazaré da Galileia, não o vejo como filho único e mais amado de Deus e aquele que faz parte da chamada santíssima trindade. Eu vejo-o e sinto-o como um ser humano como eu, que apenas usou toda a sua capacidade espiritual e mentalidade para criar os chamados "milagres" ou "prodígios", aos quais nós somos chamados a realizar.

Desde que me reconheço até à idade de 34 anos, ía regularmente à missa, e lembro-me do meu mau-estar que era ouvir o padre a fazer a sua homília e dentro da minha cabeça saltar-me questões e dúvidas, e depois aquela vontade enorme de parar a homília e fazer duas ou três perguntas ao senhor padre ou mesmo dizer o que estava a pensar/senti naquele momento. Pois é, não havia tempo e continua a não haver espaço para a intervenção do leigo/fiel. Afinal qual é o momento da missa católica onde leigo/fiel pode com a sua espontâneadade dizer/cantar/esclarecer coisas que não venha no roteiro da missa?

Ah pois, o missal. Ai do padre que não seguir o missal. Se isto não é uma peça de teatro, não sei o que é. E depois, de três em três anos volta a mesma estória, estórias essas, devidamente seleccionadas, claro. Talvez vós possais me dizer onde está a originalidade da missa católica? Onde é que o espírito santo entra? E já agora, como se sentem durante a missa?

Quanto à «Exortação Apostólica "Sacramento da caridade", de Bento XVI, sobre a Eucaristía», já li parte do texto, por que não consegui ler mais, pois é um texto sem espírito, frio, calculista, morto, que cheira a mofo, não há esperança nele. Esta exortação é um passo atrás, mas como se diz "dá-se dois passos para a frente e um para trás", o concílio Vaticano II foi dois passos para a frente, agora é um passo para trás.

Eu amo-vos,
Luís Carlos

Hepta disse...

As pessoas não foram à Missa, foram à festa.
E em qualquer festa há sempre comes-e-bebes.

A confissão do tal senhor - o noivo -, podia ter sido sincera e ter sido válida para Deus; porém, eu arrisco a dizer (apenas a título de reflexão) que, se o fez só por mera necessidade da ocasião, de nada valeu, porque não foi feita exclusivamente por arrependimento e remissão dos seus pecados.
E para o padre, que lhe deu a absolvição, a confissão foi sincera?
Suponhamos que não: logo, a Comunhão foi sacrílega.

Quanto a conceder-lhes uma Missa particular, penso que esteve em contradição com as regras por que se tem pautado, noutros casos, em que não cede à vontade caprichosa das pessoas.

Esses senhores devem ser muito importantes lá na terra - conseguiram dar-lhe a volta.

Ver para crer disse...

Celebrar o Amor de Deus no amor daquele casal é de facto uma festa. E grande!

Ver para crer disse...

Celebrar o Amor de Deus no amor daquele casal é de facto uma festa. E grande!

sónia disse...

50 anos é um aniversario muito especial, fica sempre a sensação que a cerimónia podia ter sido melhor pois o tempo de casados vale isso...:)

beijinho e um bom fim de semana

Confessionário disse...

Hepta, a minha confissão foi sincera. Mesmo que as suas intenções não fossem correctas, o sacramento da confissão tem poder por si e não pelo ministro.

Quanto à minha postura das missas particulares... tens alguma razão. Sou um pouco avesso a elas. Não as acho boas por si, a não ser por Deus e epelo acto da Eucaristia. Mas, como expliquei, justifica-se mais nesta ocasião (de 50 anos de amor) que, se calhar, em casamentos, pois também são particulares. Eu fiz porque achei que era uma festa que merecia. Quanto a eles, não sei. Também pensei que fosse maior a comunidade dos que iam estar presentes, mas enganei-me.

Pescador disse...

Caro Luís,

Jesus Cristo é realmente humano. Mas acima de tudo é o nosso Deus. Por isso não devemos ver a penas o Seu lado humano. Jesus é o Filho amado do Pai. É o nosso Salvador. É nosso Deus e Irmão.

Quanto ao resto que disse sobre a missa, bem, existem realmente padres que não incentivam muito as pessoas na missa. Por isso, lá está, a tão necessária catequese. Porque um dos sinais de que algo não está bem a nível de catequese, é precisamente o abandono dos jovens depois de fazerem o Crisma. E quem diz jovens diz adultos também.

Compreendo que não se sinta integrado na doutrina católica. Só lhe peço cuidado ao falar da mesma e não mandar "granadas" assim à toa.

No que toca à exortação apostólica do Papa Bento XVI, comecei a ler e aquilo tem muito que se lhe diga, e não dá para se ler como lemos uma história do Tio Patinhas. Demora tempo. Tempo para ler, reflectir, assimilar, etc.

Abraços.

Dad disse...

Vai ao Momentos de Luar. Tens lá uma surpresa.

Beijinhos,

Anónimo disse...

pois...casamento...cinquenta anos... "eu amo-te"...achas??? achas mesmo???
Eu diria antes..."que seca" cinquenta anos!
Desculpa, mas sou contra o casamento, o casamento não faz sentido em nenhuma vertente, salvo no factor filhos...
1 beijo
luisa oliveira

mafalda disse...

Parece-me que já nos afastámos um pouco do que diz o nosso Confessionário…
Queremos motivo para maior alegria do que um casamento que se mantém ao longo de 50 anos? Vejo pelo grupo de amigos dos meus pais, onde há poucos divorciados, e que estão todos nos quarenta e tal anos de casados, que isso é motivo de grandes gargalhadas e bom sentido de humor, do género «Ó filha isto já não se usa. Ter o mesmo homem / mulher há 44 anos?». Sendo uma opção de vida, acho realmente fantástico, pelo que significa para ambos e pelo que significa para os que os rodeiam. Se neste caso, se festejou o matrimónio religioso, só Deus o saberá e só a Ele e aos noivos interessa.
Quanto às questões colocadas pelo Luís Carlos, enfim…só para dizer que eu me sinto muito bem durante a missa. As questões e dúvidas que nos podem assolar durante a missa podem ser conversadas em muitos outros lugares. A missa é a instituição da Eucaristia. É o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É o Mistério Pascal. É a comunhão com Ele. Não se trata de ter que seguir um missal. Trata-se de litúrgia.
E para nos ajudar, hoje em dia, a Igreja Católica tem centenas de acções de formação, divulgação, seminários. A sério. Coisas muito bem pensadas, padres muito bem preparados. Bem, Luís Carlos, um abraço amigo.
Padre, para si também.
Mafalda

deprofundis disse...

Casei há cinquenta anos pela Igreja Católica. E não me esqueço da fórmula da cerimónia na qual se dizia que a noiva deveria obedecer ao marido...
Pois é. Nesse tempo, o casamento ainda pressupunha a subordinação da mulher ao homem. E era esse "pequeno" pormenor que garantia a estabilidade de muitas famílas.
Mas, para o bem ou para o mal, a mulher libertou-se e essa premissa deixou de ser válida. Quanto a mim, fez-se justiça.
Estamos assim a atravessar uma fase de transição e teremos que marchar fatalmente para outras fórmulas, para garantir a procriação responsável, bem como a educação/formação das nossas crianças.

Anónimo disse...

Penso que muitas deste tipo de cerimónias religiosas são pedidas sem uma verdadeira vontade de celebração com Cristo e com os irmãos. Surgem para dar alguma solenidade à festa, nada mais. Depois, quer-se tudo em privado, nem a alegria, nem a felicidade se quer partilhar. O espírito de comunhão alargada está ausente. Percebo-o bem, Padre, quando diz que é avesso a estas missas particulares. Na minha paróquia os baptizados fazem-se após a Eucaristia. Nunca entendi porquê.

Tal como a Joana, também eu me sinto muito bem na missa. E concordo que tudo tem o seu espaço e o seu tempo. As questões e dúvidas devem ser tratadas noutros momentos. Não tenho é a sorte de poder contar com as iniciativas de que nos fala. Se calhar, Joana, não seria má ideia divulgá-las por aqui... Por vezes é isso que falta, divulgação.
Para todos um abraço amigo

deprofundis disse...

Erro!!!

Os meus dotes matemáticos estão a ficar de rastos. Não foi há cinquenta anos que me casei. Foi há quarenta.
Peço desculpa.

mafalda disse...

Deprofundis

Esse lapso teve imensa graça.A sua mulher leu-o?
Está desculpado.Um abraço
mafalda

Goldmundo disse...

Gostei muito do que disse o Luis Carlos, embora não concorde nada com ele (tal como às vezes concordo com alguns, não gostando nada do que dizem...)

Se a Missa fosse aquilo que lhe pareceu (parece) ser, só admiro a persistência dele ("desde que me conhço até aos 34 anos" !!!). Se fosse um sítio para nos sentirmos "bem", "alegres" e "coloridos", sempre perdeia para uma tarde junto ao mar ou uma noite de estrelas. Se fosse um sítio para rezar, não se distinguiria de qualquer outro sítio. Se fosse um teatro, os actores eram medíocres, a peça má e, infelizmente, o cenário de mau gosto.

No entanto, poucas vezes ouvimos dizer que seja uma outra coisa. E "assistimos" a ela, ou somos induzidos a assistir, como assistimos a uma festa com fotografias. Lembrando-nos (se nos lembrarmos) que Jesus comeu peixes com multidões, esquecemos que o Vinho e o Pão pertencem a um lugar que só admite sacerdotes, não "espectadores" nem sequer "amigos".

Quando se esconde o Mistério, surge o Mistério do Vazio. Ah, mas é tão fora-de-moda dizer isto!

Abraços.

deprofundis disse...

Para a Mafalda

Se a minha mulher fosse viva, iria decerto achar piada. E talvez fizesse troça durante alguns dias!