sexta-feira, dezembro 05, 2014

O baptizado social da Sara

À saída da igreja estavam dois palhaços, ou melhor, duas pessoas vestidas de palhaços, com um boquet de balões cheios de hélio, um de cada lado da porta. Dentro estavam cerca de sessenta manequins, ou melhor, pessoas bem vestidas e aperaltadas, num entra e sai, num fala e comenta, num cumprimenta e sorri. Tratava-se afinal do baptizado social da Sara. Tinham escolhido o Sábado à tarde para que os convidados regressassem a suas casas sem sobressaltos. De facto, depois das três horas da manhã, com algumas bebidas bebidas, o regresso pode ter sobressaltos. A festa foi muito linda. Foi mesmo. E não quero ajuizar. Retirem as frases em que falo de palhaços e manequins. Fixem-se apenas no sacramento. Sim, para o baptizado que os levara a tamanha celebração com palhaços, balões, comes e bebes até altas horas, animação musical pimba para dançar e arranjar mais apetite para voltar a comer e beber. Fixem-se no sacramento. O baptizado social da Sara faz parte dos sacramentos que hoje a sociedade, através da Igreja, oferece a pessoas bem intencionadas mas com uma ideia errada acerca da fé e dos sacramentos. Que vêem a fé como uma cultura e os sacramentos como um acto social.

19 comentários:

Anónimo disse...

Uma "sátira" bem conseguida até ao ponto em que "...a sociedade, através da Igreja, oferece a pessoas bem intencionadas mas com uma ideia errada acerca da fé e dos sacramentos." não te esqueças que em primeira instância, foi a igreja que se deixou adulterar, adoptando costumes muitas vezes contrários ao cristianismo.
Agora temos o resultado, bem visível, no texto que publicaste.
"...vêem a fé como uma cultura e os sacramentos como um acto social." É uma realidade, agora a igreja tem o dever, a obrigação de nos ensinar / encaminhar a voltar às origens.
A igreja católica terá de se despir da petulância, da ostentação, revelar-se humilde, admitir os pecados para nos reconduzir a Deus.
Segundo os mestres a Ele teremos "de levar a nossa nudez, isto é, a nossa radical verdade, a vida destapada, desoculta e informe."

Joana disse...

Num post aqui há uns tempos comentava-se que um antigo acólito não estava casado pela igreja. Li os comentários contra ou a favor, etc.
A minha opinião é que se a ele não lhe diz nada estar casado pela igreja, então não se case. Conheço duas raparigas super ligadas à igreja, outrora catequistas e membros de grupos de jovens durante anos, que se encontram agora apenas "juntas" com os namorados e os filhos. Por mais que isso me custe, prefiro assim do que aquelas pessoas que casam porque sim, batizam os filhos porque sim, levam-nos à catequese porque sim, mas que nunca põem os pés numa igreja, que no domingo não vão ter tempo de ir à missa porque o circo está na cidade, não sabem rezar uma Avé-Maria com os filhos porque já não se lembram, etc, etc.
Podem dizer-me que é melhor isso do que nada, mas a pergunta que eu faço é "para quê?". Para que serve toda a festa do casamento pela igreja, a festa do batizado, a primeira e única comunhão da vida? Para quê? Seriam mais coerentes se apenas se juntassem como os outros...

Anónimo disse...


Nas bodas de Canã, os convidados já estavam com algumas bebidas bebidas, e, mesmo assim, Maria ficou muito preocupada quando notou que tinha acabado o vinho... Tanto que pôs uma cunha ao filho e o resultado foi o que se sabe. Fixe, senhor padre:Seis talhas de pedra (Não são propriamente um jarrinho.... Parece-me que isto da água dar lugar ao vinho é uma tradição já muito antiga...

Anónimo disse...

"a fé como uma cultura e os sacramentos como um acto social"

na muche

Confessionário disse...

05 Dezembro, 2014 15:18

Eu continuo a falar de sociedade, pois mesmo quando falas da Igreja nesses termos (e com o qual concordo uns 80%) penso que se trata de uma igreja que se deixou levar pela societas...

Confessionário disse...

Joana, quanto à coerência estamos de acordo. Mas isso não pode, repito, demitir-nos de pensar que estar juntos, só por esse motivo, está já bem! Mais recordo que o referido jovem, supostamente, possuia fé. Logo...

Anónimo disse...

Esperemos que o Espírito Santo aja neste novo membro da comunidade cristã. Que a faça uma cristã autêntica e comprometida. Lembremos que as crianças de hoje são os homens e mulheres de amanhã. Esta criança em breve começará a olhar para nós e a observar-nos. Façamos a nossa parte.

Anónimo disse...

Pergunto-me pelo texto do Sr padre se por acaso se não estivessem lá os palhaços e os balões e em vez dos manequins uns maltrapilhos se isso seria menos social e logo mais vivência do sacramento para si. Desde quando a música pimba e os comes e bebes desvalorizam o fundamento que levou ao sacramento. E desde quando pode avaliar pela expansão da alegria desse mesmo acto, a desvalorização do mesmo? Que contra senso. É por estes tipo de pretensiosismo de avaliar o que está certo e errado que conheço muito boa gente não vai à igreja por não suportar tamanhos moralismos afinal hipócritas. Não são eles que estão mal, é vc.

Confessionário disse...

09 dezembro, 2014 01:32
Agradeço imenso o comentário. Não obstante, parece-me que não é esse o motivo pelo qual muita gente não vai à Igreja. É mais pela falta de fé, pois se a tivessem não haveria qualquer tipo de juizos, mesmo os morais, que lhe retirassem o desejo de ir à Igreja (com letra maiúscula).
E continuo a achar que aquilo que faz do baptismo um sacramento não é a tal "alegria" à volta do mesmo. Essa, sendo genuína é optima e recomendável. Mas fazendo do baptismo apenas um acto social ou cultural, desvirtuamo-lo. E é disso que fala o texto.

Silvia Lourenço disse...

Anónimo 07 Dez 21h24

Não poderia estar mais de acordo consigo. Aliás começo a defender que a catequese é tão ou mais necessária para os pais do que para os filhos. Aproveite-se a imensa vontade dos pais verem os filhos a fazer a 1º comunhão para lhes tocar no coração.

Confessionário, não serão vocês padres "cúmplices" destas situações, destes actos sociais?? Eu entendo que muitas vezes se sentem "encurralados" presos por ter cão e por não ter... Se são demasiados exigentes nos requisitos (requisitos aliás que, na minha opinião deveriam ser revistos), diz-se logo que afastam as pessoas da Igreja se facilitam são coniventes com estes actos sociais.. Imagino que quando vos pedem o baptismo ou o casamento, o discernimento que vos caracteriza possibilita de imediato perceberem com que sentimento as pessoas o fazem. Imagino também que para vós, padres com verdadeira vocação, esta seja uma mágoa que vos acompanha... Mas não percas a coragem, porque em cada sacramento que celebras, as tuas palavras, com certeza, tocarão no coração dos não praticantes. Ainda que seja um toque efémero, tocas...

SL

Anónimo disse...

Eu opino que são juízos de valor como o do anónimo "09 dezembro, 2014 01:32" que têm feito da Igreja uma bandalheira. Eu gosto de um sacramento cheio de festa, mas que não seja um festival!

Confessionário disse...

SL, é uma tensão constante entre acolher, mesmo sabendo que poderemos quase acolher em vão, e a verdade das coisas que fazemos. É mesmo doloroso.
Por isso, quando faço uma reunião de preparação de baptismos, por exemplo, procuro não ajuizar os motivos pelos quais pedem o baptismo, mas procuro que se esforcem por fazê-lo na verdade, o mais autêntico possível.
Eu gosto de um baptismo cheio de alegria (e quem me conhece sabe que procuro que aqueles a que presido assim sejam), nem sou contra que as pessoas se vistam como "manequins" pois a ocasião merece-o, nem que haja mais acrescentos que indiquem a importância do Baptismo. O que me doi é que sejam essas coisas o verdadeiro motivo que leva muitos a baptizar seus filhos. Na realidade, hoje em dia acho que a maioria dos baptismos pedem-se para apresentar socialmente a criança e assinalar a sua vida. Se isso é bom? É. Mas o sacramento é muito mais que isso. Cuido que, como disse no texto, o baptismo é usado mais por uma questão cultural que de fé, e isso doi. Tento ser tolerante, mas custa ver que transformamos as coisas de Deus num secularismo exacerbado... E claro que nós padres tb temos muita culpa no cartório. Mas como mudar isso?! Essa é a questão.

Anónimo disse...

Confessionário, gostei muito deste seu último comentário. Imagino que deve doer! Força e coragem. Precisamos padres, como diz na sondagem, autênticos!

Anónimo disse...

Concordo que, para muito boa gente, os sacramentos são apenas atos sociais que servem para oficializar relações ou apresentar as crianças socialmente. Às vezes também servem para ostentar poder económico, quando a festa que se faz tem que ser mais espetacular que a do vizinho do lado, mas isso, para esta discussão, importa pouco. Há, de facto, um vazio dentro da alma das pessoas porque se deixou de acreditar no valor dos sacramentos. Exemplo disso é que as pessoas escolhem para padrinhos pessoas completamente desligadas da igreja. Se assim fazem é porque não devem estar muito preocupadas com o sentido do batismo, querem é alguém para ocupar o lugar e dar umas prendinhas no Natal e na Páscoa. E é isso que vejo fazer à maioria dos padrinhos. Os padrinhos estão completamente omissos da vida espiritual das crianças. Deviam ser chamados mais vezes a intervir e a acompanhar as crianças junto com os pais, pelo menos, nos primeiros anos de Catequese.

JS disse...

Olá, Confessionário!

Deixa-me ser um bocadinho mauzinho. :)

Confessa lá: não chegaste a sentir alguma empatia com aqueles dois trabalhadores do espectáculo no exterior da igreja? Uma espécie de sintonia corporativa, de comunhão profissional, de solidariedade no métier? Não terás tido, mesmo que por uns instantes, a sensação de estarem os três a trabalhar para o mesmo: entreter aquela gente? Não te terá passado pela cabeça que até poderiam estar os três juntos, lado a lado, cada um usando dos seus truques para divertir aquela malta que veio ao circo, em dia de gala de luxo?...

Já por várias vezes pensei que na cerimónia das Ordenações se devia escutar com reverência o Vesti la giubba (https://www.youtube.com/watch?v=v-H-MWJ4f14). Era a forma de não perder tempo a preparar o espírito daqueles jovens escolhidos para a nobre arte de engolir sapos...

JS disse...

Agora um pouco mais a sério:

Parece-me que a coisa é algo mais complicada que "pessoas bem intencionadas mas com uma ideia errada acerca da fé e dos sacramentos". O que há é interesses e expectativas diferentes por parte das famílias e dos representantes da Igreja. Interesses esses que podem ser difíceis de conciliar (e cada vez mais o são). Mas tal não significa necessáriamente que os que existem do lado da família possam ser considerados de errados.

Mais uma vez é preciso lembrar que quando uma religião se torna dominante numa determinada sociedade, ela torna-se o referente máximo da cultura e dos actos sociais. Pelo decorrer próprio do processo, a religião dominante trata de estabelecer e consolidar o seu domínio (passe a redundância) através da eliminação de elementos culturais alternativos, esvaziando de sentido outras práticas rituais concorrenciais ou tratando de as integrar e assimilar à sua própria oferta.

Mesmo que hoje em dia o cristianismo já não tenha a força societária que tinha, continua ainda a ser, entre nós, a grande referência para os ritos de passagem. Assim, uma família que deseje assinalar festivamente um nascimento, que pretenda fazer a apresentação pública e solene do novo membro, que pretenda ver respondidas as necessidades mágico-religiosas de purificação, esconjuro e protecção do recém-nascido, dificilmente passará sem a demanda do baptizado, já que as alternativas são inexistentes ou insatisfatórias. E tal acontecerá mesmo que a família não tenha ligação à comunidade cristã local e seja indiferente ao nível da fé. Essa parte não lhes interessa (nem tem por que lhes interessar).

De certa maneira, há aqui um desfazamento entre oferta e procura: o cliente quer comprar dois parafusos, enquanto que o empregado do estabelecimento quer vender uma cadeira. E o cliente acaba por comprar a cadeira e ali mesmo, pegar numa chave de fendas e desatarrachar dois parafusos, com os quais sai da loja, deixando o resto para trás. No fim, frustração.

Confessionário disse...

JS, andavas fugido!
Gostei muito da comparação:
"o cliente quer comprar dois parafusos, enquanto que o empregado do estabelecimento quer vender uma cadeira. E o cliente acaba por comprar a cadeira e ali mesmo, pegar numa chave de fendas e desatarrachar dois parafusos, com os quais sai da loja, deixando o resto para trás."

JS disse...

Porque é que o Baptismo tem de ser o prato único nos nossos menús pastorais para infantes? Não discuto aqui a excelência do repasto. Mas não poderia haver outras propostas, mais consentâneas com aquilo que as famílias querem e estão preparadas para receber, sem se estar a forçar-lhes as goelas, na base do "ou comem isto ou vão-se embora"? É que não há fé que resista ao faz-de-conta em que se desenrolam tantos baptizados, com os pais e padrinhos a fingir que acreditam no que dizem e o padre a fingir que acredita no que ouve.

O curioso é que essas alternativas até existem; mas como são ignoradas ou não se apresentam com uma roupagem ritual minimamente decente, acabam por ser varridas para debaixo do tapete. Claro que também não interessa andar a vender azeitonas como sendo o prato da casa; ou a fazer passar uma bênção de noivos por um casamento. Também isso seria andarmo-nos a enganar. Mas não se pode encontrar um meio-termo?...

A verdade é que já houve tempo em que o Baptismo não era coisa de crianças. Tal implicava, é certo, desvalorizar o primeiro nascimento em favor do renascimento (o nascimento segundo a carne e o segundo o espírito). Mas tal não significava que o início da vida humana estivesse desprovido de qualquer ritualização religiosa. Não nos chegaram grandes elementos sobre as práticas do cristianismo primitivo que rodeariam o nascimento, mas isso não quer dizer que fossem inexistentes.
Sabemos que Jesus teria sido apresentado no Templo (passo ao lado a sua circuncisão); Maria, segundo a Tradição, também. Claro que depois houve o corte com o judaísmo; e o Templo hoje é mesquita. E, no entanto, o simbolismo conservou-se. Não poderia ser esta a base para uma proposta ritual mais simples (na carga dogmática), menos exigente no compromisso, e que pudesse funcionar como um verdadeiro primeiro passo de uma caminhada que a Igreja espera venha a ser feita por aquela criança?
A não concretizar-se esse caminho, pelo menos não teríamos o resultado catastrófico com que nos deparamos todos os dias, ao ver crescer a multidão dos cristãos (porque baptizados) ateus.

Confessionário disse...

Sim, JS, nós Igreja (toda ela a começar por nós padres) deveríamos pensar estas coisas de maneira diferente... e procurar melhores caminhos. O problema é que nos falta alguma iluminação, alguma disponibilidade para pensarmos, e algum (muito) querer mudar...