sábado, julho 11, 2009

O telefone e os colegas

Ligou-me para falar. O colega X vinha de umas confissões, e foi dizendo que era bom quando éramos úteis para alguém, quando conseguíamos levar a paz a alguém. Vinha cheio de Deus e o seu entusiasmo transbordava do outro lado da linha. Eram umas doze horas da manhã.
Não passaram muitas horas quando me liga o colega Y para desabafar. Faz isso muitas vezes. Não aguenta mais. Não consegue celebrar com gosto. Parece que toda a gente o persegue. Não aguenta o celibato. Sente-se só.
Por volta das vinte horas, depois de uma das minhas missas, ligo ao colega Z porque precisava pedir-lhe um favor, combinar com ele umas coisas. Não atende. Ligo segunda e terceira vez. Acaba por ligar ele, cerca das vinte e uma horas. Estava ocupadíssimo. Pediu desculpas. Não sabia se ia dar. Não sabia para onde se virar. E ainda tinha uma reunião às vinte e uma e trinta.
Acabada a nossa conversa e, para cúmulo do dia, liga-me o colega V. Digamos que o telefone, hoje em dia, pode ser o nosso ponto de encontro, o nosso instrumento da fraternidade. Atendo. Que fazes? Pergunta. Eu trabalhava. Sou mais como o Z. Não queres ir dar um passeio amanhã? Insiste. Eu bem queria. Mas amanhã também tinha o dia cheio. O colega V dedica muito tempo ao passeio. Sabe que é saudável ter tempo para isso. Faz lembrar aquelas pessoas que dizem que os padres apenas trabalham aos domingos. Não condeno nem julgo.
Não quero mesmo fazer isso. Mas penso, e aproveito para pensar alto como somos sacerdotes e todos diferentes. Penso igualmente a quem me gostava de assemelhar mais. Penso no modelo ideal do sacerdote. Penso no Bom Pastor. Penso que haveria muita coisa para reflectirmos em conjunto, os bispos, os padres, a Igreja, os cristãos.
Ontem foi um dia de pensar no meu sacerdócio a partir dos colegas.

17 comentários:

Anónimo disse...

Era tão bom que não fossem só apoio para alguém, mas que podessem também eles serem apoiados na sua diferença, ou pelo menos respeitados na sua liberdade de escolha.

Maria O.

Anónimo disse...

Acabei de encontrar esta oração:Jesus, Tu não curaste todos os cegos,todos os leprosos, todos aqueles que estavam paralisados no seu corpo ou no seu coração...Atraz de Ti deixaste mudos, surdos,...as portas da morte permaneceram abertas. Que fazias Tu Jesus quando Tu colocavas a Tua mão forte e serena sobre os doentes e mutilados?Quando a tua Palavra ordenava à morte: "Menina,levanta-te" "Rapaz,desperta" Jesus Tu começaste para que, depois de Ti, um número infinito de homens,mulheres e crianças continuem, como Tu, a aproximar com a Força do Teu Amor que dá Vida aqueles que o mal encerra em si mesmos para que sejam livres Jesus faz-nos capazes de curar faz-nos criadores dum mundo novo Espero que ajude

Anónimo disse...

acredito tanto que o maior problema dos párocos é a falta de fraternidade entre "vocês" que me apetecia ser infantil e viciar a sondagem... como é possível ter tão poucos votos...claro que posso estar enganado, mas quanto mais tenho amigos e conhecidos padres, mais acredito nisto... falta tanta fraternidade, falta tanta unidade na Igreja Una Santa Católica Apostólica Romana... e para quem tenta caminhar como verdadeiro Cristão, este é um peso enorme. O Santo Padre não podia ter escolhido melhor "tema" para este novo ano sacerdotal...

Luisinha disse...

Acho que Deus criou os amigos um pouco para isso, para podermos olhar para nós a partir deles, porque às vezes é difícil olharmos e admitirmos algo em nós, mesmo quando nos olhamos ao espelho. Mas Deus deu-nos um "espelho" ao qual não podemos fugir, o nosso próximo, que nos faz pensar "eu também sou um pouco assim...", só depende de nós pegar nisso reflectir e melhorar. Por isso é que todos somos valiosos para Deus, mesmo aqueles que julgamos "imperfeitos"! ;)

Luisinha

Taísa Vicente disse...

OI Padre.

Sempre penso nisso sabe.

Ultimamente lembro dos padres com uma dor no coração e tento lembrar sempre de rezar por eles.

Eu sou solteira, mas tenho o sonho (e graças a Deus, a vocação) de me casar. Mas enquanto ainda não acontece, me sinto só ás vezes. E penso no padre da minha paróquia, que celebra a missa, ri, brinca, mas no final todo mundo vai pra casa, pra suas famílias e ele se fica sozinho. E agora ele está com câncer. Não quer ficar no hospital. Quer ficar na Igreja.
Que Deus abençoe a todos vocês que tem a vocação ao sacerdócio. Porque eu reclamo da vida, mas vejo que Deus me abençoa de muitas formas. E a vocês também.

Na enquete, até votei na solidão como uma grande barreira aos padres. Sempre tive vontade de perguntar ao meu padre se ele se sente só.

Amemos mais nossos padres, porque eles são abençoados. Obrigado pela sua doação de vida padre.
Bjs

idalina disse...

Se calhar o padre ideal é aquele que tem um pouco dos padres V, X, Y e Z. Afinal são humanos sujeitos às mesmas alegrias e frustações. Acabamos de entrar no ano dedicado ao sacerdócio. Que se aproveite para pensar e apoiar os nossos padres e sobretudo que não se exija deles mais do que conseguem fazer: é impressionante ver como um só padre tem a seu cargo várias paróquias! Como conseguem? O "meu" tem "só" duas e dá para ver como é para que tudo corra bem. Em determinadas alturas do ano é uma correria entre celebrações, reuniões e afins. Se não tiverem por perto quem ajude, ou pelo menos quem não complique, é compreensível que desanimem e pensem desistir.

catequesenase disse...

A solidão é um mal que não é exclusiva dos padres. Existem casais que vivem numa profunda solidão, fecham-se na sua própria concha, ou porque são introvertidos ou, porque não dizer, são pessoas que não sabem conviver. Com os sacerdotes acontece precisamente a mesma coisa. Tenho a felecidade de conhecer um padre que, provavelmente é o melhor amigo que eu e o meu marido temos. É extremamente bem disposto. Não vive fechado na sua concha. Todos gostam dele na paróquia ( fez 42 anos de sacerdócio no dia 7 deste mês). Em sintese, a solidão é muitas vezes a "compensação" daquilo que representamos para os outros, ou seja, se eu for uma pessoa distante recebo distanciamento, se for uma pessoa afável, agradável, recebo a próximidade do outro.

Maria disse...

Operários para a messe,pedido sem graduação, nem espécie...sacerdócio comum...sacerdócio escolhido...ainda falta muito caminho a andar para que o corpo (nós) se harmonize com a cabeça (ELE)...

Mas só se faz caminho caminhando...e Ele sempre amando-nos até ao fim...

PC disse...

Esta semana recebi um email que foi iniciado por Dom Murilo S.R. Krieger, scj (Arcebispo de Florianópolis, Brasil) cujo assunto dizia: Adopte um Padre. Ele começava por dizer: “A vida dos sacerdotes sempre foi exigente. E nem poderia ser diferente, já que são chamados a continuar a missão de Cristo, o Bom Pastor. Em nossos tempos, porém, os desafios se multiplicam e exigem respostas sábias, decisões imediatas e constantes posicionamentos sobre os mais diversos temas. (…)”

A sugestão dele: “ADOPTE UM PADRE! Dentre os sacerdotes que você conhece ou que actuam na Igreja, escolha um deles, e passe a rezar diariamente por sua santificação. Ofereça sacrifícios para que ele exerça bem seu ministério. De preferência, nunca lhe fale sobre isso, nem faça comentários a esse respeito com outras pessoas. Os detalhes dessa “adopção” sejam conhecidos somente por você e pelo Bom Pastor. (…) Fazendo isso, você estará respondendo a um apelo da Igreja, que constantemente nos recorda: ‘Todo o Povo de Deus deve incansavelmente rezar e trabalhar pelas vocações sacerdotais’. Sua resposta ao apelo de adoptar um padre determinado terá uma particularidade: você não estará rezando somente pelo clero em geral, mas por um padre com um nome e um rosto, o que, certamente, motivará ainda mais suas orações, jejuns e sacrifícios. (…)”

Já adoptaste o teu padre? Então adopta um.

Estamos no Ano Sacerdotal. Parece-me que isto faz ainda mais sentido.

Anónimo disse...

Ano sacerdotal.

Neste ano dedicado ao sacerdócio também é de celebrar o sacerdócio comum escondido em tantas e tantas igrejas domésticas , que servem como Cristo.

Maria J.

S2 Jü S2 disse...

"Muitos são os convidados, mas poucos os escolhidos."

Feliz daquele que tem amigos, com quem podemos contar.

E você é esse amigo escolhido por Deus!

Paz e Bem.

Teodora disse...

O dom Krieger sabe muito. Tem visão noturna... eu adorei a ideia, além de causar-me um frisson a cena de adoptar em segredo.

I love secrets - adoro as lojas Victoria's secret. Dou tudo por um segredo!

Só acho que nesta coligação (como dizia a outra!) ele exige-me muito e dá-me muito pouco! (cf. ele tem cama, mesa e roupa lavada e nem cumpre!- gritava ela em frente ao portão.)

Agora imaginem estas adopções feitas às claras, de forma explícita? hummmm até já as vejo a arrancar olhos! Uma krieg!

Anónimo disse...

o Excesso de trabalho é um grande problema. Parecemos muitas vezes funcion´rios publicos, temos muitas vezes de tratar de tudo porque ainda ha paroquias pouco autonomas que dependem do padre para tudo. Seria muito mais facil com o empenho de todos e a divisão de tarefas. Era bom que eu pudesse dedicar-me na minha missão apenas á parte espiritual dos fieis

Pedro

disse...

“Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco” (Mc.6,31)

Ainda querem mais, Srs Padres? Que trabalhadores terão o privilégio de ouvir tais palavras vindas dos seus superiores?

BOAS FÉRIAS!

teresaguimaraes2005 disse...

as vezes quando estou com o meu paraco , penso nisso deve ser muito complicado chegar a casa e nao ter ninguem com quem desabafar , contar o dia a dia ,estar sempre a tabalhar para os outros e por vezes so receber indiferença , nem imagino mas desejo-lhe muita força a si e aos seus colegas , pois vosses tem a maior fonte de inspiraçao do mundo que e deus , muita força e dem apoio uns aos outros ,,

ana disse...

Eu admiro muito os sasardotes ,pelo seu trabalho a disponibelidade de ajudar alguem,só nâo etendo prque nâo podem amar e ser amados, se Deus é amor porque nâo podem amar sâo sres humanos isso é uma violencia para com eles ,já estava na hora de mudar essa lei, e acho que deviam ser mais respeitados...
Bem haja para todos e força bem presisam

Teodora disse...

Uiui aiai teresa guimarães como a compreendo!! eu, tal como a teresa, quando estou a falar com o meu padre também penso em muitas coisas. tantas tantas que nem consigo perceber bem o que penso, porque são tantas as ideias e as imagens, que fico extasiada com o processamento dum ror de informação.

as sinapses neuromusculares não me dão tréguas.

ufa!!!