quinta-feira, março 23, 2023

Visão de Fé

No domingo passado, a mãe não teve possibilidade de ir à missa, mas o filho de sete anos acompanhou o pai, e ficaram no terceiro ou quarto banco da igreja, como é costume. O Mateus tem um modo de se dar com Deus que encanta quem ouve as histórias que a mãe conta. A missa era uma missa normal e a homilia era uma homilia normal que actualizava o relato da cura do cego de nascença nas nossas vidas. Chegado a casa, a mãe, para ver se ele estivera atento, perguntou-lhe de que tratava o evangelho. O Mateus, com as mãos na cabeça, respondeu prontamente: "nem vais acreditar. Jesus deu visão a um senhor cego, mas não foi só visão de ver. Foi também visão de Fé". 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Chama-se Jesus"

terça-feira, março 21, 2023

comprimido [poema 362]

vou-te dizer o que senti ontem quando me apertaste o corpo 
e hoje, quando amanhã se voltar a repetir esse aperto

sinto que nunca serei pequeno o suficiente
para te encontrar
 
dia Mundial da Poesia 2023

sexta-feira, março 17, 2023

os problemas

O João tinha um problema e estava obcecado com ele. Deitava-se e levantava-se como se deitava, com esse problema. Que ele dormia pouco, porque o problema não dormia nele. Em conclusão, vivia pouco mais que esse problema. De facto, quando um problema nos preocupa, parece que a nossa vida é só esse problema. O problema acaba tomando conta de nós e pode anular-nos. Até esquecemos que muitos problemas já passaram nas nossas vidas e deixaram de ser problemas ou, pelo menos, deixaram de ser o problema. Assim como esquecemos os problemas que os outros têm, muitas vezes, bem maiores e mais dolorosos. João, olha que Deus não nos criou para vivermos os problemas, mas para vivermos com eles. Eles fazem parte da nossa condição humana, mas não nos impedem de estar vivos. E Deus não dorme. Mesmo que pareça não nos resolver o problema, dá-nos a mão e ajuda-nos a subir um degrau de cada vez, pois só assim se sobem as escadas. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A palavra difícil"

segunda-feira, março 13, 2023

A senhora de papelão

Caminhavam numa rua de uma cidade grande, mãe e filha de cinco anos, quando tiveram de passar junto a uma senhora deitada no passeio, embrulhada por uns papelões de um bege sujo pelo uso, mal-vestida, mal-arranjada, a chorar. Estava frio. A mãe e a menina iam com pressa, porque tinham uma consulta marcada no médico e não podiam atrasar-se, mas a filha não retirava os olhos da senhora dos papelões. Uns bons metros depois, largou a mão da mãe, pôs-se em frente dela, obrigando-a a parar, e perguntou porque é que a senhora estava a chorar. A mãe tentou explicar-lhe que ela deveria estar a chorar por causa da dificuldade da vida, porque não deveria ter casa para se abrigar do frio, cama onde dormir e prato onde comer. Como as crianças destas idades nunca se contentam com uma pergunta, a pequena disparou de imediato: Então porque é que tu não a ajudaste? A mãe ficou desarmada por fora e sobretudo por dentro, deixando que as lágrimas da senhora de papelão chegassem ao seu rosto. Com a maior honestidade possível, baixou-se e explicou à filha que tinha errado muito ao não ajudá-la. A pequena limpou-lhe algumas lágrimas e abraçou-a. Abraçaram-se. E aquela mãe, ainda hoje, quando conta esta pequena história, chora como a senhora de papelão. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O Carlos que é meu sacristão"

sábado, março 11, 2023

o nevoeiro que ri [poema 361]

e o nevoeiro ri-se
na vontade cinzenta de escurecer,
 
ri-se do mundo que vai fazer...
desaparecer
 
ri-se de tudo o que escurece
e desaparece,
para que apenas ele se veja, 
por entre as réstias de um sol escondido,
de uma giesta que outrora era uma árvore,
de uma levada que deixou de ser um rio
e um punhado de terra que fora um caminho,
de uma parede que um dia foi uma casa
ou uma cruz que já foi uma grande catedral
 
ri-se como nevoeiro que quer ser...
eternamente nevoeiro 

terça-feira, março 07, 2023

A nota sem dono

Era seu costume levar sempre qualquer coisa ao mendigo que estava sentado no seu posto de abrigo, ao sair da faculdade. Uma peça de fruto, um chocolate, uma moeda, uma notita. Chegou a levar-lhe um maço de cigarros, porque ele fumava. Ao princípio achou estranho que um mendigo fumasse quando tinha necessidade de tantas outras coisas. Mas depois foi percebendo que era assim que ele gastava a vida, porque não tinha outro modo de a gastar. E aceitou-o como ele era. Foi a descoberta mais bonita que fez da mendicidade. Não julgar quem é mendigo. Tornaram-se amigos, ao ponto do mendigo dizer bom dia e boa tarde sempre que se viam, e ao ponto deste meu colega padre o chamar do meu amigo mendigo. Estas coisas não se contam e ele só mas contou porque, há dias, quando se aproximava do transporte para casa, encontrou uma nota de dez euros no chão. Pegou nela, percebeu que não era possível encontrar-lhe o dono. E no outro dia, de manhã cedo, antes de entrar na faculdade, depois do bom dia habitual e de um trocar de pequenas palavras, arranjou um novo dono para a nota, o seu amigo mendigo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quem olha para dentro, desespera"

sexta-feira, março 03, 2023

o obrigado

Passara um ano desde que, como me recordou, estivera a desabafar comigo por causa de um grande problema que, na altura, estava a viver. Na ocasião, entrara na sacristia, acompanhada das lágrimas, para uma palavra que se transformou em muitas palavras. Entrara com o peso da dor e precisava dividi-lo com alguém. Hoje regressara, porque viera a uma missa pela intenção especial de uma amiga que falecera, entretanto. Vinha de braço dado com a filha, a dor que ela precisara desabafar há um ano. Cruzámo-nos no final da missa e, já na rua, veio ao meu encalço para perguntar se me recordava de há um ano a ter acolhido na dor. Naturalmente que eu já não lembrava pormenores, mas ela lembrava cada atenção, cada olhar, cada palavra, cada segundo que eu investira nela. E por isso, dizia, venho agradecer-lhe. Ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. E insistia. Padre, tenho tanto que lhe agradecer. A filha interrompeu-a, para concordar com ela. Respondi que eu era somente um instrumento de Deus. Que lhe agradecesse a Ele. Porque era Ele que fazia tudo. É Ele que faz tudo. Nós somos apenas seus instrumentos. Apesar de até concordarem comigo, ambas referiram que então eu era um bom instrumento de Deus. E repetiram. Obrigada. Foi bom ouvi-lo nestes tempos constrangedores e confrangedores. Obrigado. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padre com fé"

terça-feira, fevereiro 28, 2023

Beijos na mão

Pegou na minha mão sem eu quase dar conta. Sem mais nem meio mais, levou-a aos lábios e começou a beijá-la. Assim, do nada. Fechou os olhos entretanto, voltado para o seu mundo interior, mas sem parar de dar beijos pequeninos na minha mão. Muito pequenos, mas de um tamanho indizível. Beijos murmurados que, para mim, foram gritos. Foi como se sentisse que eu precisava de sossegar o meu coração. Sussurrei-lhe ao ouvido que o amava muito e ele dava mais força à expressão dos beijos. Foi assim durante um largo tempo. E quando chegou a hora de o deixar, de terminar a visita, o meu querido pai olhou fixamente para mim como se me quisesse dizer que ele olhava por mim. Foi bonito, foi intenso, mas também foi de lágrimas, limpas com as mesmas mãos que tinham sido acabadas de beijar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A oração do meu pai"

sábado, fevereiro 25, 2023

o cego [poema 360]

via as pessoas como árvores a andar

mesmo depois da saliva do mestre lhe ter tocado

no olhar 

 

via pessoas como criaturas sem bondade

a correr no meio da floresta, sem as olhar

 

via o mundo como o lugar das árvores a andar

para um lugar onde não chegava o seu

olhar

Mc 8,22-26

quinta-feira, fevereiro 23, 2023

Precisas de mim, Senhor?

Deus troca-nos as voltas diante das inúmeras ocasiões em que menosprezamos a nossa vocação e missão sacerdotal, porque não vemos os frutos que desejávamos ou porque sofremos embates dolorosos com que não contávamos ou porque, simplesmente, parece que não fazemos nada de especial. E então a vocação questiona-se e periga-se. Por isso, não raras vezes nos questionamos sobre a necessidade da nossa missão. Porquê isto? Por que continuar? O que é que tu queres, Senhor? Mas precisas mesmo de mim e da minha vocação? E depois, sem que se esperasse, em menos de vinte e quatro horas, ou mais coisa menos coisa, és solicitado por um casal que confia na tua missão e precisa que medeies as dificuldades que estão a passar; liga-te uma pessoa que precisa da tua ajuda por causa de alguém que se tentou suicidar e precisa de ajuda de um padre que, como disse, saiba ouvir, dar espaço ao sofrimento e ajudar a encontrar sentidos e luzes ao fundo do túnel; e ainda te contacta uma família que precisa que vás estar com uma familiar em fase terminal, pois precisam tranquilizar-se, tanto esse familiar como a restante família, e sabem que tu, o padre, podes fazer a diferença. Depois da pergunta que um padre faz a Deus da necessidade do seu ministério, obtém estas respostas, e tem de se calar, porque Deus troca-nos as voltas e responde-nos de uma forma meio estranha, mas tão concreta...


A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Chama-se Jesus"