Esta noite preciso escrever no teu corpo,
Tatuá-lo, mais uma vez, com a palavra,
Esboçar em ti o que vejo nos espelhos,
Marcar-te com o sinal da minha ânsia,
Sussurrar-te ao coração com este peito
Rasgado por não mais saber onde é a dor,
Desfazer-me num grito a dizer quem sou:
Uma cruz que carrega o teu amor.
domingo, outubro 06, 2019
quinta-feira, outubro 03, 2019
esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá?
Já estávamos levantados e a despedir-nos. Não tem propriamente fé. Tem qualquer coisa de inquietação que gostava de poder chamar fé. Mas não tem. E não é só por não ir à missa. É porque, mesmo não questionando a existência de Deus, que pouco lhe interessa, acha que estas coisas não são necessárias. Ele tenta que a sua vida tenha sentido. Lê muito. Lê muitas coisas de Deus e da filosofia destas coisas. Gosta de saber. Penso que gostaria de saber de Deus. Por isso procura-me para conversarmos. E faz perguntas. Não sei se para me experimentar, se para aprender, se para se encontrar. Tal como esta que fez da última vez que nos reunimos para uma refeição. Ó padre, esta coisa da ressurreição da carne está mal explicada, não tá?
Lembrei imediatamente uns textos que li em tempos e que realçavam que a ressurreição de Jesus não tinha sido propriamente corpórea. Não, pelo menos, como o corpo que Jesus possuía enquanto Deus encarnado. Por isso é que os seus apóstolos não o reconheciam. Era uma outra forma de corpo. Difícil de explicar. Muito difícil. Mas também não era um fantasma. Não, não era. Era só uma forma visível de se ser que não se conseguia definir. Contei-lhe isto. E depois disse-lhe que a Igreja, na sua doutrina, nos quer ajudar a entender que havemos de ressuscitar como um todo. Como o ser que somos. Como a pessoa que somos. E que nós somos, segundo a Igreja, tal como aprendi na teologia, um conjunto de corpo e alma. Aquilo que nos faz ser não é só o corpo comandado pelo cérebro. Há algo, a que chamamos alma, que nos faz ir mais longe, para além das nossas capacidades. É a diferença com os animais irracionais. E o que ressuscita é esse todo. Não é só a alma. Na ressurreição existiremos de modo diferente daqui da terra. Ressuscitará o corpo? Ressuscita o que somos e nos constitui. Mas não será como aqui. Até porque aqui somos corruptíveis e na vida eterna seremos incorruptíveis. É por aí que deve procurar, senhor José. Sem todas as certezas. Porque certo, certo, só saberemos quando a nossa vida se atravessar para lá. Eu também não tenho certezas. Tenho entendimentos.
domingo, setembro 29, 2019
Societas perfecta [poema 230]
No teu quarto antigo vejo tudo
Vejo relíquias vestidas de mobílias restauradas
Os lampadários apagados pelo uso
As paredes de granito gasto e traça
Uma porta de madeira esquecida
Está escuro, demasiado escuro
Vejo as janelas
Mas não vejo por elas
Vejo relíquias vestidas de mobílias restauradas
Os lampadários apagados pelo uso
As paredes de granito gasto e traça
Uma porta de madeira esquecida
Está escuro, demasiado escuro
Vejo as janelas
Mas não vejo por elas
quinta-feira, setembro 26, 2019
Cumprir a fé
Há gente que, na Igreja, vive uma relação com Deus como empregado. Vivem, como antigamente os escribas e fariseus, para cumprir coisas, numa relação interesseira do deve e haver. Nunca se assumem como filhos. Nunca agem por amor, mas só por obrigação. Nunca se sentem amados, mas premiados e ou castigados. É por isso que têm dificuldade em amar e perceber Deus nas suas vidas. Porque Deus é amor. E o amor não se pode merecer. Ou é gratuito ou não existe.
sábado, setembro 21, 2019
ave sem nome [poema 229]
As aves não têm albergue, têm ninhos
Que voam, por entre as asas,
No meio de ervas daninhas
Bebericam das águas salobres
E continuam a construir
Outros ninhos
Que voam, por entre as asas,
No meio de ervas daninhas
Bebericam das águas salobres
E continuam a construir
Outros ninhos
quarta-feira, setembro 18, 2019
E se Deus fosse um de nós?
E se Deus fosse um de nós? Sim, um daqueles com quem nos cruzamos diária e distraidamente. Um daqueles mendigos, mal vestidos, a pedir a nossa atenção. Uma criança que chora porque precisa de um colo ou que passa a correr para a escola. Um jovem estudante que anseia ser alguém um dia. Um pai de família que sai de casa cedo e regressa tarde do emprego. Uma mãe que, além do emprego, cuida da casa, da roupa e da comida. Um amigo que convida para um copo e dois dedos de conversa. Uma vizinha que passa todos os dias na porta onde saio e entro, também todos os dias. Uma viúva que baixa a cabeça quando passa por mim, para esconder as lágrimas. Um senhor de idade que parece contorcer-se com as dores da vida. São tantas as oportunidades ou possibilidades de Deus ser um deles, na simplicidade e banalidade do dia-a-dia, que quase me envergonho do modo como esqueço de tratar todos os que comigo se cruzam.
sexta-feira, setembro 13, 2019
um de nós [poema 228]
Entendo-te
Como se estivesse a ver-te por fora e por dentro
Como se os sulcos da vida fossem antepassados,
Pelos meus pés vestidos de lama, endurecidos,
Trilhados pela idade, cansados
Conheço-te
Nas palavras que ficam por dizer
Nos pensamentos que são sentimentos
A querer
Sei-te
Porque me sei
E não sei viver
Como se estivesse a ver-te por fora e por dentro
Como se os sulcos da vida fossem antepassados,
Pelos meus pés vestidos de lama, endurecidos,
Trilhados pela idade, cansados
Conheço-te
Nas palavras que ficam por dizer
Nos pensamentos que são sentimentos
A querer
Sei-te
Porque me sei
E não sei viver
terça-feira, setembro 10, 2019
Igreja menos clerical
Há uns dias, depois de umas obras numa das minhas paróquias, foi necessário limpar a Igreja, e o povo juntou-se para o fazer. Depois convidaram-me para almoçarmos juntos. Foi bonito. Muito bonito. Mas às tantas, uma das senhoras, que é muito atrevida e tem sempre um olhar desconfiado para com todos, perguntou porque é que eu não participara da limpeza da igreja. Ela até tinha razão. Eu também poderia ter participado. Só me faria bem estar ao lado deste meu povo. Respondi, em tom de brincadeira, que os padres deviam, de facto, ser limpa-igrejas. Que, aliás, eles deviam fazer tudo na comunidade cristã.
Disse-o em tom de brincadeira. Mas depois o pensamento levou-me a pensar em muitas outras coisas que, nas comunidades cristãs, esperamos que o padre faça. Como se fosse omnipresente. Como se a Igreja fosse o padre. Como se uma comunidade cristã tenha de ser obrigatoriamente clerical. Estava mesmo a recordar-me daqueles colegas que, quando chegam a uma paróquia para celebrar missa, têm de preparar os vasos sagrados para a mesma, acender as velas e tocar o sino para que as pessoas venham. Estava também a imaginar como seria se os padres tivessem de varrer a Igreja, assear e adornar os altares, tratar das flores, lavar as alfaias, ler todas as leituras na Liturgia da Palavra, começar o canto da animação musical das cerimónias, e por aí fora. É óbvio que raramente as coisas acontecem assim. Mas isso não me impede de pensar que ainda há muita acção apostólica, litúrgica e formativa demasiado centrada na figura do padre, como se uma comunidade cristã dependesse totalmente deste. Ainda há comunidades cristãs que não conseguem fazer nada sem o padre, sem a sua presença e consentimento. Ainda há muitas comunidades cristãs centradas no padre, quando o centro da comunidade deve ser o próprio Cristo. Ainda há muitas comunidades cristãs que não são verdadeiras comunidades ou verdadeira Igreja.
quinta-feira, setembro 05, 2019
Cidade [poema 227]
Há uma cidade no futuro, em frente
Que cresce de repente,
aberto o muro
Dentro de nós
Há uma cidade no futuro,
Adornada com milhares de flores
Pintada com imensas cores
Uma habitação desabitada
Em rumores
Calada
Ouço cá dentro a sua voz
Há sempre
Uma cidade em frente
Que cresce de repente,
aberto o muro
Dentro de nós
Há uma cidade no futuro,
Adornada com milhares de flores
Pintada com imensas cores
Uma habitação desabitada
Em rumores
Calada
Ouço cá dentro a sua voz
Há sempre
Uma cidade em frente
segunda-feira, setembro 02, 2019
lugar [poema 226]
Conheço pessoas que vivem como um lugar,
Vivem no cimo da plateia, a bradar
este é o chão onde vivo para ser alguém
Ou um lugar
Tanta, mas tanta gente sem nome, a gritar
E depois chegas tu, vens sem se notar,
Ouve-se por todo o lado
Aqui não tens lugar
Mas tu vens como casa a habitar
no presépio e no calvário, sem lugar
E em ti encontrei a minha casa, o meu lar,
O verdadeiro lugar
Vivem no cimo da plateia, a bradar
este é o chão onde vivo para ser alguém
Ou um lugar
Tanta, mas tanta gente sem nome, a gritar
E depois chegas tu, vens sem se notar,
Ouve-se por todo o lado
Aqui não tens lugar
Mas tu vens como casa a habitar
no presépio e no calvário, sem lugar
E em ti encontrei a minha casa, o meu lar,
O verdadeiro lugar
Subscrever:
Mensagens (Atom)