Entendo-te
Como se estivesse a ver-te por fora e por dentro
Como se os sulcos da vida fossem antepassados,
Pelos meus pés vestidos de lama, endurecidos,
Trilhados pela idade, cansados
Conheço-te
Nas palavras que ficam por dizer
Nos pensamentos que são sentimentos
A querer
Sei-te
Porque me sei
E não sei viver
sexta-feira, setembro 13, 2019
terça-feira, setembro 10, 2019
Igreja menos clerical
Há uns dias, depois de umas obras numa das minhas paróquias, foi necessário limpar a Igreja, e o povo juntou-se para o fazer. Depois convidaram-me para almoçarmos juntos. Foi bonito. Muito bonito. Mas às tantas, uma das senhoras, que é muito atrevida e tem sempre um olhar desconfiado para com todos, perguntou porque é que eu não participara da limpeza da igreja. Ela até tinha razão. Eu também poderia ter participado. Só me faria bem estar ao lado deste meu povo. Respondi, em tom de brincadeira, que os padres deviam, de facto, ser limpa-igrejas. Que, aliás, eles deviam fazer tudo na comunidade cristã.
Disse-o em tom de brincadeira. Mas depois o pensamento levou-me a pensar em muitas outras coisas que, nas comunidades cristãs, esperamos que o padre faça. Como se fosse omnipresente. Como se a Igreja fosse o padre. Como se uma comunidade cristã tenha de ser obrigatoriamente clerical. Estava mesmo a recordar-me daqueles colegas que, quando chegam a uma paróquia para celebrar missa, têm de preparar os vasos sagrados para a mesma, acender as velas e tocar o sino para que as pessoas venham. Estava também a imaginar como seria se os padres tivessem de varrer a Igreja, assear e adornar os altares, tratar das flores, lavar as alfaias, ler todas as leituras na Liturgia da Palavra, começar o canto da animação musical das cerimónias, e por aí fora. É óbvio que raramente as coisas acontecem assim. Mas isso não me impede de pensar que ainda há muita acção apostólica, litúrgica e formativa demasiado centrada na figura do padre, como se uma comunidade cristã dependesse totalmente deste. Ainda há comunidades cristãs que não conseguem fazer nada sem o padre, sem a sua presença e consentimento. Ainda há muitas comunidades cristãs centradas no padre, quando o centro da comunidade deve ser o próprio Cristo. Ainda há muitas comunidades cristãs que não são verdadeiras comunidades ou verdadeira Igreja.
quinta-feira, setembro 05, 2019
Cidade [poema 227]
Há uma cidade no futuro, em frente
Que cresce de repente,
aberto o muro
Dentro de nós
Há uma cidade no futuro,
Adornada com milhares de flores
Pintada com imensas cores
Uma habitação desabitada
Em rumores
Calada
Ouço cá dentro a sua voz
Há sempre
Uma cidade em frente
Que cresce de repente,
aberto o muro
Dentro de nós
Há uma cidade no futuro,
Adornada com milhares de flores
Pintada com imensas cores
Uma habitação desabitada
Em rumores
Calada
Ouço cá dentro a sua voz
Há sempre
Uma cidade em frente
segunda-feira, setembro 02, 2019
lugar [poema 226]
Conheço pessoas que vivem como um lugar,
Vivem no cimo da plateia, a bradar
este é o chão onde vivo para ser alguém
Ou um lugar
Tanta, mas tanta gente sem nome, a gritar
E depois chegas tu, vens sem se notar,
Ouve-se por todo o lado
Aqui não tens lugar
Mas tu vens como casa a habitar
no presépio e no calvário, sem lugar
E em ti encontrei a minha casa, o meu lar,
O verdadeiro lugar
Vivem no cimo da plateia, a bradar
este é o chão onde vivo para ser alguém
Ou um lugar
Tanta, mas tanta gente sem nome, a gritar
E depois chegas tu, vens sem se notar,
Ouve-se por todo o lado
Aqui não tens lugar
Mas tu vens como casa a habitar
no presépio e no calvário, sem lugar
E em ti encontrei a minha casa, o meu lar,
O verdadeiro lugar
sexta-feira, agosto 30, 2019
Na tua opinião, hoje a sociedade em geral é favorável à Igreja em particular?
Por alturas da Quaresma deste ano, já lá vão cinco meses, colocámos online uma sondagem que perguntava: "Preocupas-te em cumprir ou viver o que é aconselhado na Quaresma?"
Os resultados das vossas respostas estão neste gráfico.
Hoje postamos nova sondagem, a mesma que em 31 de Julho de 2013 fizémos neste blogue, aqui.
Os resultados, na época, também estão aqui.
Como a sociedade muda constante e rapidamente, e passados seis anos, achámos interessante efectuar de novo a pergunta: Na tua opinião, hoje a sociedade em geral é favorável à Igreja em particular?
Convido a explicarem as vossas opções aqui nos comentários.
Como a sociedade muda constante e rapidamente, e passados seis anos, achámos interessante efectuar de novo a pergunta: Na tua opinião, hoje a sociedade em geral é favorável à Igreja em particular?
quarta-feira, agosto 28, 2019
aparências [poema 225]
Ó coisa que não tens nome
E pareces a sombra das coisas
Talvez um dia sejas o que aparentas
Ou o que aparentes seja o que tu és
Esse nada que parece tanto,
Esse tanto que afinal é
O tanto que quiseres que aparente
Mais que aparentemente
E pareces a sombra das coisas
Talvez um dia sejas o que aparentas
Ou o que aparentes seja o que tu és
Esse nada que parece tanto,
Esse tanto que afinal é
O tanto que quiseres que aparente
Mais que aparentemente
sexta-feira, agosto 23, 2019
Catequese na piscina
Uma das minhas catequistas tirou uns dias de descanso e decidiu ir para a piscina, como me disse, a torrar ao sol. Curiosamente, encontrou lá todos os seus catequisandos, que ficaram imensamente contentes com a sua companhia e não a largavam. Ela também gosta muito deles. Diziam-lhe que até parecia que a catequese ainda não tinha terminado este ano. E repetiam. Ó catequista, podíamos ter catequese aqui na piscina. E então a catequista lembrou-se de comprar uma bola de praia às cores e, com ela, fazer um jogo de perguntas sobre a catequese.
Na verdade, um catequista é sempre catequista. Todos os lugares e espaços são bons para promover o encontro com Cristo. Para isso não há férias. Para a verdadeira catequese, não há férias. Fiquei muito satisfeito com o que esta catequista partilhou comigo. Bem haja.
quarta-feira, agosto 14, 2019
O padre retrógrado
Um colega padre que não conheço e que mora distante, porque eu pedira aos pais que desejavam baptizar seu filho que pedissem uns documentos e que fizessem uma preparação específica para esse efeito, mesmo que fosse na paróquia onde residem, afirmou que eu deveria ser um padre retrógrado. Disse-o com displicência, segundo me pareceu, quando os pais fizeram essa alusão. Dissera-o, pelos vistos, para manifestar que hoje já não é preciso nada para baptizar. Soube mais tarde que, para este padre, bastava os pais marcarem a data e a hora. Nada mais era necessário. E na hora preenchiam os registos do baptismo no livro de registos paroquial.
Ora se, por não ser facilitista, sou retrógado, então prefiro ser retrógrado.
Assim vamos nesta instituição demasiado ou excessivamente sacramentalizadora, sem mais. Desculpem a quase redundância, que é de propósito. Vou agora pedir perdão a Deus pelos pensamentos impróprios que alimentei na ocasião.
quinta-feira, agosto 08, 2019
A falta que fazem os padres
Ó senhor padre, fazem-nos tanta falta os padres, dizia. Tenho andado a rezar para que haja muitos. E então para a experimentar, perguntei porque motivos é que os padres fazem tanta falta. Para nos celebrarem as missinhas. Não dá mesmo jeito quando temos celebração. E depois vinha fazer as festas todas e as procissões. Era tão bom tê-lo aqui à mão! É esta a falta que fazem os padres!
E depois dizia há dias um colega mais velho que não se lembra de, nos últimos anos, algum dos seus paroquianos se ter abeirado dele para um conselho espiritual, para um desabafo, para uma dúvida ou questão de fé. Só se abeiravam dele por causa de marcações de coisas.
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quinta-feira, agosto 01, 2019
Os padres santos e pecadores
Há padres santos, há. Se calhar são poucos. Há padres que se entregam diariamente à missão, há. Mas talvez não sejam muitos. Há padres que fraquejam, há. Pelos vistos são muitos. Ou todos. Todos fracassam, mesmo os mais entregues ou os mais santos. Porém, o que conta é Cristo. Não são os padres. Ele não escolhe os perfeitos. Escolhe quem quer. E é com esses que conta construir a Igreja santa e pecadora. A Igreja que caminha para a santidade e a Igreja que aceita a sua humanidade frágil. Isto não justifica as falhas dos padres, mas justifica que falhem. Isto não justifica os pecados dos padres, mas justifica que também pequem. Isto não justifica que tudo é possível ou passível, mas que é bem possível que tudo passe. Só Cristo não passa.
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