quinta-feira, junho 06, 2019

A vida vestida de branco

Tem seguramente mais de nove décadas de vida. Estava paramentado, com o terço na mão, enquanto esperava o início da Eucaristia. De tudo o que ele era e eu via, o que mais se salientava era o branco. O branco da alva com a estola em cima. O branco dos cabelos. O branco do rosto. Talvez fosse mais pálido que branco. Mas o meu olhar achou que era branco. Branco como o tempo quando está vivo. As suas palavras arrastavam-se. Arrastavam-se como os pés e o tempo. Quando rezávamos em conjunto, ele fazia o eco. A sua voz acabava ecoando no meio das outras. Até o terço que passava era branco. A cabeça pendia para si mesmo. Ou para a oração do terço. Permaneci uns pequenos cinco minutos a olhá-lo. A olhar este padre já reformado e doente. Não foram cinco minutos largos como quando a gente tem pressa de sair, de deixar de estar, de deixar de ouvir. Foram cinco minutos que passaram muito rápidos. Olhei-o com compaixão. Não foi com pena, não senhor. Foi mesmo com a ternura de quem ama. E talvez com o sonho de quem acha que a vida deveria ser sempre branca, mesmo quando tudo se vai tornando escuro. Levantei-me, dirigi-me na sua direcção, abracei-o sem vergonha dos olhares reprovadores ou das murmurações dos colegas que estavam no mesmo local. O abraço demorou mais cinco minutos longos. Quando levantei o olhar, eu ainda estava sentado na mesma cadeira, resignado. Afinal o abraço ficara só na vontade. Não foi a vergonha que me impediu de me levantar e, com verdade, o abraçar. Foi mesmo olhar nele o que me fez olhar a mim. O abraço que lhe queria dar, dei-o a quem estava mais perto. A mim mesmo. Um dia vou vestir a minha vida de branco.

segunda-feira, junho 03, 2019

esta janela [poema 218]

Da minha janela vejo o cemitério da cidade
Os telhados das casas com chaminés
Cruzes e campanários de pedra nas capelas
Ouço cães ao longe e a água da fonte que corre
Também os vejo sem os ver

A minha janela mora longe
Do chão se me debruço nela
De tudo o que vejo por ela

Nela sou os vidros que se revelam
Para além do que ela parece que é,
Casa onde moro quase todos os dias

quarta-feira, maio 29, 2019

Burnout significa literalmente queimar-se

Li há dias que a análise de uma pesquisa realizada em Pádua a 450 padres, dos quais responderam 319, deu conta de várias tipologias relacionadas com a síndrome de burnout. Havia alguns que respondiam indicando que estava tudo bem. Outros para quem tudo estava mal e precisavam de apoio explícito. Havia ainda os insatisfeitos, os cansados, os que conseguem manter a eficiência, mas com sofrimento à mistura, pois vivem o desconforto da situação, os que se defendem por detrás do cumprimento de uma função, como gestores de serviços religiosos. E dizia que os padres em maior risco de burnout eram os que se situavam entre os 25 e os 29 anos, e depois os que estavam acima dos 70. Entre os padres com vinte anos de ministério crescia o número dos que se dedicavam à burocracia, ao burocrático, cada vez mais gestores do religioso. E as causas para a proximidade com o burnout eram o excessivo peso das expectativas, pessoais e dos outros, a desqualificação ou ausência de uma vida espiritual, os encargos demasiado pesados, o medo dos juízos dos outros, o viverem emocionalmente expostos a situações humanas sempre muito duras, quando não extremas, a pouca solidariedade dos padres entre si, a incapacidade de comunicar com os seus pares, e os superiores muito distantes que não sabiam escutar verdadeiramente. Mais não digo, pois não sei o que dizer.

domingo, maio 26, 2019

Morrer no céu [poema 217]

No céu também se morre
A água deixa de ser água para ser fonte
A terra deixa de ser terra para ser húmus
O fogo deixa de ser fogo para ser paixão
O ar deixa de ser ar para ser eternidade
Tudo deixa de ser para se tornar a ser

Não sabemos, aqui nesta casa de pedra,
Amuralhada com flores sem raízes,
O que o céu esconde, por detrás
das nuvens imaginárias nos nossos sonhos.
Mas sabemos que deixamos de ser cada um
para sermos um ou mais que um num só

Afinal,
e sem final,
No céu também se morre.

quinta-feira, maio 23, 2019

Bem-me-quer-mal-me-quer [poema 216]

Enquanto contava as pétalas e as deitava fora
O tempo passava, o sol amainava, tudo desaparecia
Malmequer bemmequer, um dois e três, outra vez
Ali, no meio do tanque do jardim, estátua de pedra
A sonhar com o amor que perdera no meio da guerra.
Contava pétalas como quem desvela padres-nossos
Com os dedos fechados sobre as contas do rosário
avé-maria, avé-maria, rezava, rezava, um dois três,
outra vez

Talvez o bem me queira mais que o mal me quer

sábado, maio 18, 2019

O Miguel e a guerra

O Miguel anda no primeiro ano da catequese. Segundo informações da catequista, tem uma enorme capacidade de fantasiar, contar e recontar o que vê e ouve. É um miúdo muito atento. Tem um coração sensível, capaz de se emocionar com os problemas dos colegas. E um dia, na catequese, veio à baila um apelo relacionado com as crianças pobres de um país em guerra. A catequista ia descrevendo as situações em que estavam essas crianças, e os miúdos, que a escutavam, começaram também a contar coisas que tinham visto na televisão ou ouvido na rádio. Houve até uma miudita que recordou os colegas como, às vezes, se queixavam porque queriam um telemóvel novo e os pais não davam, e estas crianças não tinham nada senão a guerra. A catequista ficou sem palavras. Mas o Miguel é que lhas tirou todas. As palavras e as letras que compõem as palavras. Nem sabia se rir se chorar, se pensar bem se pensar mal. Na verdade, não soube como o interpretar. Depois de todos saírem da sala da catequese, cabisbaixos e pensativos, o Miguel veio ter com a catequista, pôs-se em bicos de pés, levantou os bracitos, colocou-os em cima dos ombros da catequista e, olhando-a nos olhos, disse. Catequista, não tenhas medo, eu quando for grande mato a guerra.

terça-feira, maio 14, 2019

Aos olhos de Deus somos todos iguais

O senhor não diga que é indigno do amor de Deus. Ele até pode ficar triste. Foi assim que a Maria se dirigiu a mim a propósito de umas coisas que dissera sobre o não ser digno de tanto amor de Deus. Deixem-me referir que gosto muito deste nome, Maria, e tenho vontade de o usar muitas vezes, embora não seja o verdadeiro nome desta minha paroquiana amiga. Eu chamo-a de Maria porque nela se realça o lado materno, protector, interessado, atento, próprio das mães. Pelos vistos, tinha ficado um pouco triste por eu dizer essas coisas. Ela mesmo mo referia. Não diga essas coisas, senhor padre. O senhor tem muita sabedoria. Deus tem de gostar muito de si. Eu sou leiga e o senhor é padre. O senhor está acima de mim. Deus ama-o, de certeza, muito mais que a mim. 
E foram as suas últimas frases que me estremeceram por dentro. Não, Maria, eu não estou acima de ninguém. Posso ter mais formação teológica, mas isso não me habilita senão para aprofundar ainda mais Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Deus não me ama mais por eu ser padre. Se Deus me amasse mais por eu ser padre, Ele não amava gratuita, desinteressada e livremente. Seria um elitista. E os elitistas não amam assim. No coração de Deus cada um ocupa, independentemente de quem é ou como é, o lugar mais especial.

sábado, maio 11, 2019

tempus [poema 215]

Ele sentia

Que a vida não voltava
Só ia

Que o presente passava
Era e já não era

Que o futuro esperava
Sentado à espera

De tornar-se passado

terça-feira, maio 07, 2019

cristão, católico, religioso, clérigo, consagrado, leigo, fiel…

Termos como “cristão”, “católico”, “religioso”, “clérigo”, “consagrado”, “leigo”, “fiel” questionam-me. São eles que vêm até mim perguntar da sua existência, e eu careço de resposta para lhes dar. Não os entendo. Ou não entendo completamente o seu porquê e o seu para quê. Designam pessoas no âmbito da fé. Distinguem estados de vida, classes de fé, ou coisa do género. Como distinguem, também distanciam. O termo que entendo melhor na sua definição é “clérigo”. Porque faço parte do grupo. É mais ou menos o sujeito que faz parte da classe eclesiástica. Aquele que alcançou as ordens sacras. O cristão que exerce o sacerdócio. Foi assim que li algures. Mas também o entendo melhor na sua definição que na sua essência. 
Mas não gosto muito destes termos. Ou melhor, da sua utilização, sem mais. Todos eles me parecem palavras que servem a catalogação e gosto pouco da estratificação da fé. Mesmo sabendo que não há nenhum crente igual. Mesmo sabendo que existem funções, dons e carismas diferentes. Faz-me impressão cá dentro e pronto. Católico significa universal ou pessoa que professa o catolicismo. Religioso ou é alguém que tem ou vive intensamente a religião, ou é alguém que se consagrou de forma mais intensa a Deus. Mas acho que os outros também são ou deveriam ser, no mínimo, seres algo religiosos. O consagrado é quele que se consagrou a Deus. Mas não deveríamos todos os que temos fé de nos consagrar a Deus? O fiel é aquele que tem fé e a ela cuida a fidelidade. Digo eu. O leigo é aquele que não tem as ordens sacras, não é padre ou religioso. Mas também designa, ao menos na nossa língua portuguesa, aquele que não tem conhecimento sobre determinado assunto. Que expressa certa ignorância acerca de alguma coisa. Que é desconhecedor. É o termo mais complicado de entender. 
De todos estes termos, o que menor inquietação me causa é o termo “cristão”, porque designa quem segue a Cristo ou ao Cristianismo. Mas os outros parecem-me, de certo modo, o resultado de uma terminologia burocrática e institucional. Tão assim, que a maioria dos cristãos não os entende nem os usa e, quando questionados sobre eles, pouco sabem. 
O que vale é que, diante de Deus, somos quem somos e nada mais. Somos um tu para Deus. Bem personalizado. Pouco categorizado. Amado por quem somos e não pelo que nos designa, mesmo que seja na fé.

domingo, maio 05, 2019

O avental [poema 214]

O avental da minha mãe nasceu noutra geração
Passou da idade, do tempo, de mão em mão
Vezes sem conta foi retalhado e arranjado
Por sua mãe e nossa mãe, a aquela que aí vem

O avental foi alfaiate, foi parteiro, foi faxineiro,
Foi enfermeiro, hospedou-me a mim, fui o romeiro
Trouxe-o, regalo do tempo da minha mãe

quinta-feira, maio 02, 2019

Rezar antes das refeições

Antes de cada refeição é meu costume rezar a pedir a Deus pelos que a proporcionaram e a pedir para que ela retempere as nossas forças. É um hábito que recebi em casa, da mão dos meus pais. Hábito que repito onde quer que esteja, em minha casa, em casa de algum paroquiano, no restaurante. Convido todos, mesmo os que não conheço muito bem ou com quem estou menos à vontade, a acompanhar-me. 
E assim, há dias, na casa de um dos meus paroquianos, numa festa de aniversário de um dos seus filhos mais pequenos, onde estavam mais uns quantos dos seus amiguinhos da mesma idade, formulei o mesmo convite e, antes que me persignasse e desse início à pequena oração, o pequenote que fazia anos disse, um pouco envaidecido, que costumava rezar todos os dias em casa antes de comer. Depois perguntou aos amigos se também rezavam em suas casas antes da comida. Nisto, um dos seus amiguinhos, com a maior das ingenuidades, respondeu que não. Que a sua mãe sabia cozinhar.

terça-feira, abril 30, 2019

Relojoeiro do tempo [poema 213]

Gostava de brincar aos relógios. Coleccionava
horas a rodar sempre para o mesmo lado
O lado que ele não sabia onde começava e terminava
Onde o fim se iniciava, rodava e rodava

Os ponteiros das horas nunca estavam sós. Estavam com o lugar
Onde se perdiam se os buscassse mais cedo ou mais tarde
À noite era mais fácil, porque o medo vem mas adormece
E a rodar continua, como relógio, no sentido dos ponteiros

sábado, abril 27, 2019

Jesus trabalha na farmácia

Depois das férias da Páscoa, uma das nossas catequistas, por sinal religiosa consagrada, regressou aos encontros que, de vez em quando, fazia na creche, com os petizes que tinham entre 4 e 5 anos de idade. Costumava contar-lhe muitas histórias à volta da grande história de Jesus. Como vinha mais que a propósito, começou a falar-lhes sobre os acontecimentos vividos na Páscoa. Sobre a Morte e Ressurreição de Jesus. Alguns deles tinham participado na encenação da via-sacra e, pelo que a catequista percebera, haviam interiorizado grande parte dos momentos encenados. Aproveitou a ocasião para afirmar que Jesus dera a vida, de verdade, porque era muito nosso amigo e que ressuscitara, voltara a viver para nós sermos muito felizes um dia, com Ele, no céu. 
Mas nisto, um dos pequenitos levantou a mão e disse. Olha, Jesus não morreu de verdade. Foi só faz-de-conta, a fingir. A catequista ficou estarrecida. E a criança continuou. Não sei se sabes, mas Jesus é o senhor Fernando e ele está vivo a trabalhar na farmácia. Pois é, reponderam os outros em coro. Sabes, catequista, os maus puseram-lhe uma coisa na cabeça, com picos, bateram-lhe com umas coisas mas não fazia doer, porque outros batiam numa tábua para fazer barulho. Tinha muito sangue, faz de conta, porque era tinta. Ele caiu na rua, mas levantou-se. E quando o pregaram numa cruz, o senhor Fernando disse umas palavras e fez assim. Ao dizer isto, inclinou a cabecita. 
A catequista já não sabia bem o que dizer. Tinha sido, de certo modo, desarmada. Entretanto, pegou nas palavras que acabara de escutar e começou a fazer a destrinça entre Jesus verdadeiro e o senhor Fernando, seu fiel seguidor, que tinha, de facto, encarnado de forma excelente, a figura de Jesus. Dizia-me a catequista que achava que eles haviam percebido a diferença entre Jesus, que deu a vida de verdade, e que ressuscitou, voltou a viver, e o senhor Fernando, que foi só faz de conta, por isso não morreu e continua a trabalhar, na farmácia. Pelo menos ficaram a conhecer melhor como foi que Jesus deu a vida por nós.

quinta-feira, abril 25, 2019

Madalena [poema 212]

Entrou pela porta fechada, em pranto
Ajoelhou diante de mim como um sacrário
Banhou-me os pés, lembrou-me alguém
Ouviam-se vozes por dentro das vozes
O grito vinha de um local que não sei
Abraçava o que sobrava das minhas pernas
Mendigava que não lhe desse nada, de nada
Entrou e saiu, surgiu e partiu, como um fantasma
Nem odor, nem rumor, dela não ficou nada
nada de nada

domingo, abril 21, 2019

Jesus morreu e ressuscitou aqui na minha terra

Foi isto que uma criança disse um dia depois de termos encenado a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Como ela era uma criança pequenina, a mãe deve ter-lhe explicado algumas coisas. E foi assim que ela se acercou de mim e me informou, para o caso de eu não saber, que Jesus tinha morrido e ressuscitado na nossa terra.
Era bom, era. Era bom que Ele morresse e ressuscitasse em cada um de nós, nas nossas terras, nas nossas vidas… 

Aproveito para desejar a todos os meus visitantes e amigos uma Santa Páscoa.
Que Jesus ressuscite nas nossas terras, nas nossas comunidades e nas nossas vidas!

sexta-feira, abril 19, 2019

Iouda Iskariôth [poema 211]

Há um precipício enorme no meu nome
Um fingimento entre o beijo e a emboscada
Um nome que é e não é, nunca sei quem sou
Farsa, perfídia, logro, trapaça ou cilada
De tanto, mas tanto, me transformei em nada.

Vendi meu corpo às pessoas e às árvores
No balanço da vida pendurei quem fui
Poderia ter renascido, todavia me perdi
Entre os pedaços de nomes que possuo
Com um precipício de um tamanho enorme
Sem Ti

terça-feira, abril 16, 2019

Luto [poema 210]

Eu vi o luto por entre a terra
Os juncos ao seu redor a correr como ponteiros
Não era negro. Não era senão dor. Rebento

As carpideiras saltavam de junco em junco
A gosto do tempo. Seduzido como amigo
desconhecido

E apareceste tu, carregado de muita gente
Mundos que o mundo levou com o vento.
As carpideiras passaram, os juncos pararam,
Tudo se silenciou
Num momento

E o luto voou como se tivesse nascido
Para morrer no tempo

sábado, abril 13, 2019

A tradição da procissão de Páscoa

O padre tinha a sua saúde bastante debilitada, A idade avançada também não o auxiliava. Arrastava-se mais que andava. Mas era dia de Páscoa e, como a tradição manda, depois da missa tem de haver procissão. Dizem assim as vozes religiosas que estão habituadas desta maneira. Com as tradições. O padre, no final da missa, que presidiu a um custo notório, fez uma pergunta. Tendo em conta o estado débil em que se encontrava, perguntou a quem o ouvia na assembleia se achavam que devia fazer a procissão ou não. Contou-me quem ficou chocado nesse momento, já lá vão uma série de anos, porque ninguém abriu a boca. Ninguém fora capaz de dizer que, para cuidar da sua saúde, melhor seria não se fazer a procissão. Como ninguém abrira a boca, o padre resignou-se e respondeu por eles. Assim sendo, faz-se a procissão, mesmo que não resista a meio dela. Continuou sem resposta. Fez-se a procissão. O padre, graças a Deus, não caiu. Poucos meses depois o padre faleceu. Não há causa efeito, como é óbvio. Mas há uma Páscoa que não se percebe muito bem se foi Páscoa se foi apenas mais uma tradição.

quarta-feira, abril 10, 2019

A Rosário, apertada pela vida

Só se lhe adivinhavam os olhos, porque brilhavam. De resto, estava tão agasalhada, tão coberta, que nada mais se via. Reparei que trazia um cachecol, um xaile, uma echarpe, umas coisas por cima das outras, a apertar, que o frio aperta. Vinha confessar-se, que o medo também aperta. Senhor prior, queria confessar-me. Não quero morrer em pecado. Quase todas as semanas, ou semana sim semana não, tenho de confessar a Rosário que tem medo de morrer em pecado. Desta vez, e antes de aceder ao seu pedido, quis saber porque fazia aquilo daquela maneira, aflita, apertada pelos andrajos e pela vida. Respondeu de chofre que tinha medo do castigo de Deus. A Rosário deve ser daquelas pessoas que passa o tempo da homilia a rezar e não ouve as minhas pregações que falam do Amor de Deus que não castiga. Ou então é daquelas que o tempo marcou por uma enformação exagerada do pecado, e por mais que ouça falar do Amor de Deus, apenas o sente quando se confessa e se livra de castigos. 
E mesmo antes de o fazer já estava a dizer. Não quero morrer em pecado, senhor prior. E era assim que vinha confessar-se porque a saúde já não é a mesma. Porque não sabe o dia e a hora e tem de estar confessada. Mesmo que o pecado sejam apenas umas pequenas falhas de atenção ou lucidez. A Rosário tem sempre de se confessar. Vive apertada pelos andrajos e pela vida. Vive apertada pelo medo de que Deus não se lembre dela quando, afinal, Deus tem o amor todo para dar a cada um de nós, como se nós fossemos tudo para ele.

sexta-feira, abril 05, 2019

Anjos caídos [poema 209]

Vieram do céu, em magotes, anjos sem véu
gotas de chuva dourada, estrelas candentes
cheias de céu

Vieram renascer, aqui pernoitar, no mundo
Nos seus mil braços, em mil e um pedaços

Chegaram, viveram, moraram
Sofreram, no mundo acordaram
pernoitaram
Na morte adormeceram

Subiram, voaram e para o céu voltaram
Como anjos caídos
do Céu