Quando medrar quero morrer numa praia
Com o sol baixo, pequenino, espelhado no mar,
Crescendo por entre o brilho da água ao entardecer
Quando for grande quero morrer sob o luar.
Entre o sol e a lua, entre o ir e ficar, entre o ser e não ser,
entre o ir e não voltar, entre o ser e o voltar a ser
Quero morrer com asas, para poder voar,
Para não parar e mais que o mundo voltar a ver.
Quero ser um coração com asas sem poder falar
para dizer adeus
a quem não deixarei de sentir
de ver, de contemplar, de percorrer e de amar...
Quando morrer, tenho a certeza, vou continuar
Entre o tudo e o nada, a esvoaçar
sábado, janeiro 19, 2019
quarta-feira, janeiro 16, 2019
Deus resolve-nos a vida
Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de fazer por elas. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser.
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida interiormente. Basta tão só que deixemos que habite em nós. Que lá de dentro dá sentido a todo o exterior.
Que a nossa vida seja uma vida resolvida em Deus.
domingo, janeiro 13, 2019
Deus não nos resolve a vida
Padre, eu bem peço a Deus e Ele não me ouve. Padre, eu bem procuro, mas não consigo encontrar. Padre, onde está Deus, que eu não o vejo? Como posso ver Deus no meu cancro? Onde é que posso ver Deus no abandono do meu marido? Onde é que posso ver Deus na minha vizinha que está sempre a criticar-me nas costas sem que lhe tenha feito mal? Onde está Deus naquela criança que faleceu ontem, como disse a televisão, porque caiu não sei de que andar do apartamento onde vivia? Deus deve andar muito distraído, padre.
A senhora chorava. Chorava compulsivamente. As palavras saiam da sua boca tão depressa e tão intensas como as lágrimas saíam dos seus olhos. Ela pretendia que Deus lhe resolvesse a vida, lhe resolvesse os problemas, lhe resolvesse o que não entendia, o que lhe escapava, o que não queria, o que a fazia sofrer. Mas Deus não nos resolve assim a vida. Ele dá-nos as ferramentas para nós a resolvermos. Quem tem de incorporar e reaprender a dor, a doença, o sofrimento, as relações, enfim, a vida, somos nós… com a Sua ajuda, com a Sua preciosa presença, com a Sua tão grande força.
Assim começou nossa conversa. Tinha vontade de dizer que foi assim que terminou. Mas não. Foi assim que começou…
quarta-feira, janeiro 09, 2019
As freiras missionárias
Numa comunidade missionária ad gentes, havia umas irmãs, freiras, que cuidavam daqueles que eram abandonados pela dor e pela doença. O padre ia à comunidade mais ou menos uma vez por mês. Nessa circunstância celebrava a missa e baptizava quem lho pedisse. Quem me contou a história, referiu que o padre tinha sempre baptismos para realizar. E um desses dias, o padre perguntou a uma senhora que se queria baptizar qual era o motivo para esse pedido. Perguntou mesmo se ela queria abraçar a fé. E a senhora, que estava acamada, com uma doença quase terminal, respondeu que não sabia propriamente o que era essa coisa da fé. O que ela queria era ter a mesma religião daquelas freiras. A senhora acamada não sabia muito bem o que era a fé, mas queria o que aquelas mulheres consagradas tinham de especial. Fora o testemunho daquelas mulheres, a sua entrega, a sua vida que chamara a atenção, cativara e, de certo modo, convertera aquela senhora. Não há melhor evangelização que o testemunho.
segunda-feira, janeiro 07, 2019
ser o mar [poema 200]
Apetecia-me abraçar as ondas
Com as minhas penas
de pássaro sem asas,
Penas carregadas,
molhadas,
sem mar
Apetecia-me mergulhar
nas ondas, e voltar
à praia, com elas regressar
Ao fundo do mar
Como elas, ser
o mar
Com as minhas penas
de pássaro sem asas,
Penas carregadas,
molhadas,
sem mar
Apetecia-me mergulhar
nas ondas, e voltar
à praia, com elas regressar
Ao fundo do mar
Como elas, ser
o mar
sábado, janeiro 05, 2019
Em termos cristãos qual destes foi, para ti, o maior acontecimento no ano 2018?
A 11 do mês de Dezembro passado, postei uma sondagem com o título "O que melhoravas na Catequese da Infância e Adolescência em Portugal?". Curiosamente, as votações penderam apenas para cinco das dez opções possíveis, garantindo que se está a tornar necessário ou imprescindível uma maior formação de catequistas, uma atenção maior aos pais, uma catequese menos doutrinal e escolar, uma catequese mais kerigmática, assim como rever os catecismos tal como estão actualmente.
Hoje, a propósito do ano que passou, propomos uma nova sondagem para pensar nalguns dos acontecimentos mais importantes ou relevantes de 2018: Em termos cristãos qual destes foi, para ti, o maior acontecimento no ano 2018?
quarta-feira, janeiro 02, 2019
Pesquisar Jesus na Internet
Num dos encontros de catequese dos mais pequenitos, diante de um powerpoint que a catequista apresentava, esta foi confrontada por um deles, uma menina de olhos bem azuis, vivos e irrequietos. Ó catequista, tu pesquisas Jesus na internet? A catequista não foi tão rápida como um colega seu, outro petiz esperto. Olha que Jesus não se pesquisa na internet. E um outro, cheio de simplicidade, acrescentou. Jesus pesquisa-se no coração. É aí que o podemos encontrar.
A catequista estava atónita. Não tivera sequer tempo de elaborar uma resposta tão sábia. Contou-me, com os olhos embaciados, que esta conversa a marcara. As crianças tinham-na deixado profundamente emocionada pelo modo como vão acolhendo a Palavra e como Jesus se faz sentir no fundo dos seus pequenitos corações. No fim das contas, tão pequenos quanto grandes, tão simples como sábios, tão ingénuos como autênticos.
sábado, dezembro 29, 2018
a folha [poema 199]
A folha caíra no pedaço de terra batida
e no empedrado do granito cinza da vida
Chegara ao seu outono, nunca mais volvida
a pintar de esperança o autor, o castanheiro
Soltara-se de súbito, sozinha e desfalecida
Perdera a sorte de morrer num canteiro
Mas o vento soprou sobre ela e ela veio a mim
Peguei-lhe ao colo como uma criança a nascer
Embalei-a nos braços, embrulhei-a em cetim
No livro de uma vida que há-de renascer...
no fim
e no empedrado do granito cinza da vida
Chegara ao seu outono, nunca mais volvida
a pintar de esperança o autor, o castanheiro
Soltara-se de súbito, sozinha e desfalecida
Perdera a sorte de morrer num canteiro
Mas o vento soprou sobre ela e ela veio a mim
Peguei-lhe ao colo como uma criança a nascer
Embalei-a nos braços, embrulhei-a em cetim
No livro de uma vida que há-de renascer...
no fim
terça-feira, dezembro 25, 2018
O Pai Natal dos meus sonhos
Encontrei uma carta no correio. Toda encarnada. Toda enfeitada. Parecia o embrulho de uma prenda. Era uma carta com remetente sem morada. Descobri, depois de aberta, que era uma carta de um pai natal. Apercebi-me disso porque tinha uma caligrafia muito bonita, também encarnada, estava cheia de emojis coloridos e, no final, era assinada por um pai natal. Curiosamente, vinha assinada em minúsculas. A leitura era fácil, dado que o texto não era longo e as letras tinham um tamanho acima da média. Não sei traduzir tal e qual o que li. Não me sinto verdadeiramente autorizado a fazer copi past, nem me dou ao desplante de fazer minhas as palavras que li e que me fizeram chorar. Afinal, tratava-se de uma oração de um qualquer pai natal, dos muitos pais natais que nesta época pululam nas nossas cidades e nos nossos centros comerciais a apregoar felicidade. A oração era dirigida a Jesus. Ao Menino Deus.
Era a carta de um Pai Natal que se ajoelhava diante do verdadeiro Natal. Dizia palavras como: eu só trago brinquedos e tu trazes amor; eu faço rir as crianças, mas tu ama-las de verdade; eu deixo uma alegria passageira, mas tu deixas o teu coração para sempre; eu tenho bochechas rosadas e uma barba branca e farta, a maioria das vezes postiças, mas tu tens umas cicatrizes nas mãos e no peito que são a maior verdade; podes encontrar vários como eu nas cidades e centros comerciais, mas só tu és o único omnipotente, vivo e verdadeiro; eu alimento a economia e o mercado de consumo, mas tu dás sentido à vida das pessoas; eu brinco às cartas e mensagens de pedidos, mas tu levas a sério cada um de nós… Era tão linda e tão autêntica a carta!
No final, antes da assinatura, dizia ainda algo do género: diante de ti me dobro no teu aniversário. E depois assinava. Era o Pai Natal dos meus sonhos.
Aproveito para agradecer a Deus estes 13 anos de vida do "Confessionário dum Padre" e os 1022 textos que nele foram publicados
sábado, dezembro 22, 2018
Onde há-de nascer Jesus este ano?
Quando Jesus estava para nascer, Maria e José, como todos sabemos, encontravam-se em Belém, para se recensear. E quando chegou o momento de Maria dar à luz, pelos vistos, não havia lugar para eles nas hospedarias. Deus decidira habitar no meio da humanidade e esta não arranja um lugarzinho para Ele nascer! Não era preciso um hospital xpto ou um hotel de luxo. Tão só precisava de um lugar acolhedor com as mínimas condições para que Maria pudesse dar à luz e oferecer a Luz à humanidade. Mas não. Não havia. Os homens não tinham lugar para Ele. Ora se não havia lugar entre os homens para Deus encarnar e assumir a nossa humanidade, então que sejam os animais, num estábulo, a acolhê-l’O. Se não havia uma lareira para O aquecer, então que se encarreguem os rebanhos e as palhas de O aquecer.
Foi assim há mais de dois mil anos. Mas hoje as diferenças não são muitas. Também hoje Deus terá dificuldade em nascer de novo. No meio de tanta azáfama, correrias, ruídos, comidas, talheres, prendas e stresses, terá Ele lugar para nascer? Quando andamos tão ocupados com tantas coisas que nos distraem do essencial, não estaremos de novo a fazer com que Ele procure outro lugar para nascer?
Ele quer nascer em cada um de nós e hospedar-se no nosso lar. Ele quer habitar no lugar mais especial que temos, o nosso coração. O que nos vale é que Ele não desiste de nós, não desiste de ser a nossa Luz, nem desiste de nos habitar. Assim encontre um lugar, mesmo que seja mais pobre e humilde, para continuar a nascer!
Que Jesus nasça em nossos corações neste Natal
quinta-feira, dezembro 20, 2018
O Francisco que Deus nos deu
Francisco, que foi eleito Papa em 13 de março de 2013, é o 266º Papa da Igreja Católica. É o primeiro papa nascido no Novo Mundo, o primeiro latino-americano, o primeiro pontífice do hemisfério sul, o primeiro papa a utilizar o nome de Francisco e o primeiro pontífice não europeu em mais de 1.200 anos. Claro que não é perfeito, porque se o fosse, seria Deus. Como ser humano pode cometer erros e ser frágil. Mas é o Papa que Deus nos quis dar no momento actual do mundo e da Igreja. Estou convencido disso.
Tem muitos seguidores, como gosta de referir a comunicação social, mas também tem alguns críticos acérrimos. Sobretudo dentro da própria Instituição da Igreja. São aqueles que gostam de o tratar por “Sumo Pontífice”, e criticá-lo porque, segundo dizem, veio por em causa a doutrina da Igreja. Como se esta tivesse estagnado no século IV, ou os sucessivos papas não tivessem reinterpretado o que havia a reinterpretar.
De facto, há uma corrente na Igreja chamada de restauracionista e conservadora, para não dizer caduca, que deseja uma Igreja de outros tempos, como se a fé, para ser real, não tivesse de acontecer na cultura real.
Após várias leituras de todos os seus documentos magisteriais, não consigo encontrar assim tantas alterações à doutrina. Aliás, cita imenso os seus antecessores. O que se verifica é um novo modo de apresentar, que de tão simples e próximo ao comum dos mortais, parece algo novo. O que se verifica é um olhar mais compreensivo, mais aberto, mais pastoral, mais humano.
Bem-haja, Papa Francisco, pelo serviço que tem prestado à Igreja e ao mundo. Bem-haja, meu Deus, pelo dom que nos concedestes com o Papa Francisco.
Após várias leituras de todos os seus documentos magisteriais, não consigo encontrar assim tantas alterações à doutrina. Aliás, cita imenso os seus antecessores. O que se verifica é um novo modo de apresentar, que de tão simples e próximo ao comum dos mortais, parece algo novo. O que se verifica é um olhar mais compreensivo, mais aberto, mais pastoral, mais humano.
Bem-haja, Papa Francisco, pelo serviço que tem prestado à Igreja e ao mundo. Bem-haja, meu Deus, pelo dom que nos concedestes com o Papa Francisco.
Grato a Deus pelo seu 82º aniversário no passado dia 17 de Dezembro.
segunda-feira, dezembro 17, 2018
papel [poema 198]
Pareciam passos, mas eram folhas de àrvore
a cair à beira da minha janela de papel
Mergulhei nelas como pude, de roupas vestido,
Tapando a cabeça do frio que mendigava na rua
Nadei, por dentro delas, até me sufocar
Eram demasiado envelhecidas, caídas e amarelas
Passara o tempo verde, mas continuavam a ser elas
Mais uma vez voei sem me levantar do chão.
A árvore estava viva e os passos que eram folhas
Vinham até mim, de mansinho, e eras tu
no papel
a cair à beira da minha janela de papel
Mergulhei nelas como pude, de roupas vestido,
Tapando a cabeça do frio que mendigava na rua
Nadei, por dentro delas, até me sufocar
Eram demasiado envelhecidas, caídas e amarelas
Passara o tempo verde, mas continuavam a ser elas
Mais uma vez voei sem me levantar do chão.
A árvore estava viva e os passos que eram folhas
Vinham até mim, de mansinho, e eras tu
no papel
sexta-feira, dezembro 14, 2018
O Cristo escondido
Possui em sua casa duas mesas cheias de santinhos, como gosta de referir. Depois faz a visita guiada ao santuário. Uso a palavra possui, porque é mesmo esse o sentido verbal da coisa. Ela tem posse daqueles santos todos. Reza a todos. Olhe este Santo António tão lindo. E é mesmo. Distingue-se das outras miudezas que por ali abundam. Digo miudezas no sentido em que são pequenos e, no meio de tantos, acabam por se tornar ainda mais pequenos. Porém, eu não desgosto disto. Nem da atitude da senhora Alcinda, nem da sua piedade. Muito menos da forma autêntica como acho que reza. Aliás, eu próprio tenho duas mesas cheias de cruzes. Como uma coleção ou quase coleção. Gosto de juntar as cruzes das minhas peregrinações, dos amigos que mas oferecem, daquelas cruzes que me prendem o olhar e tenho de as fazer minhas.
Contudo, na visita guiada da senhora Alcinda, não consegui encontrar Cristo algum. É certo que também não sou pródigo na visão. É certo que era quase como descobrir uma pessoa no meio de muitas pessoas. Mas nem ajeitando os óculos mais aos olhos. A custo lá encontrei um Cristo muito pequenino. Por sinal também numa cruz muito pequenina, por detrás de um Santo que lhe não sei o nome, mas que lhe fazia muita sombra. Era como um anão vigiado por guarda-costas, aqueles homens acima do tamanho normal. Era, afinal, um Cristo escondido. Era aquele tipo de Cristo que se esconde nas nossas muitas piedades, nas nossas muitas jaculatórias aprendidas desde criança, nos rituais a que nos habituámos, nas missas a correr, nas tradições populares, nos muitos afazeres da vida e da religião. O Cristo que se vai escondendo no meio de tanta coisa que lhe faz sombra.
terça-feira, dezembro 11, 2018
O que melhoravas na Catequese da Infância e Adolescência em Portugal?
A 30 de Junho colocámos online uma sondagem que perguntava sobre questões ético-morais. Depois, a 19 de Setembro, e porque foram sugeridas outras questões ético-morais preocupantes, fizémos nova sondagem. Esta apurou os seguintes resultados:
Hoje surge nova sondagem, com um assunto que tem preocupado alguns dos principais agentes de pastoral em Portugal, a Catequese. Embora não querendo reduzir a reflexão a estas opções, achamos oportuna a questão, e achamos que pode gerar um debate interessante. Já sabem que podem/devem indicar a justificação das vossas opções.
O que melhoravas na Catequese da
Infância e Adolescência em Portugal?
domingo, dezembro 09, 2018
Uma simples toalha que cai e que se levanta
Coloquei a toalha de rosto no local onde me pareceu que ficava mais segura. Era o local, para o efeito, mais óbvio que o quarto de banho possuía. Estava atrás da porta. Ali a pendurei porque também me pareceu óbvio. Entretanto, cada vez que entrava no quarto de banho, a toalha caía. Cada vez que havia um movimento da porta, ela caía. E eu fazia o óbvio. Baixava-me, para a apanhar e a devolver ao cabide. Caía e eu levantava-a. Numa dessas ocasiões, apeteceu-me desistir, como quem atira a toalha ao chão. Apeteceu-me deixá-la no soalho, mesmo que fosse pisada e não mais lhe fosse fácil cumprir a missão de limpar o meu rosto. Apanhei-a, apesar da pouca vontade. Pendurei-a de outro modo, mais segura. Mas a um novo movimento da porta, tornou a cair.
É assim a nossa vida. Por mais que nos levantemos, tornamos a cair. Os movimentos da vida, oportunos e inoportunos, desejados e indesejados, naturais ou forçados, como uma necessidade, como uma urgência ou como a única saída, são movimentos que nos fazem cair. E que fazer perante tanta queda? Levantar. Erguer de novo a nossa vida. Pendurá-la de novo e procurar o local mais seguro. Talvez, mesmo assim, tornemos a cair.
Talvez o melhor fosse pendura-la única e exclusivamente em Deus. Mas até nessa localização, o mais natural é cair de novo. Tal como a toalha possui um peso, por si só, que faz com que caia, mesmo sem querer, assim a nossa vida, por mais sustentada em Deus que esteja, tem um peso, por si só, que a poderá fazer cair.
Não basta desculpar-nos que somos humanos. O melhor é assumir que somos vasos de barro, e que não há vaso de barro que não necessite de ser moldado, usado, gasto, remendado. Dizia Tolentino Mendonça, no “Elogio da sede”, que o caminho espiritual não nos impermeabiliza da vulnerabilidade. Transportamos o nosso tesouro em vasos de barro. As tentações sempre vão existir. O que a nossa intensidade espiritual pode fazer é ensinar-nos a olhá-las numa outra perspectiva. É a sabedoria de as interpretar. É a sabedoria de as incorporar. O melhor caminho da plenitude, em Deus, é o que fazemos com o que somos, melhor ou pior, mais querido ou mais preterido, mais amado ou mais odiado.
quarta-feira, dezembro 05, 2018
A catequese serve para fazer pessoas boas?
É uma boa catequista. É interessada. Não se conforma com uma catequese doutrinal, escolar, com base no ensino e aprovação de conhecimentos e verdades. Mas há dias, no meio de uma reunião de catequistas, deu a entender que o objectivo da catequese, pelo menos como ela a via, era formar pessoas boas. A discussão que se gerou deu-me azo a clarificar que não basta formar pessoas boas na catequese. É necessário formar pessoas boas por causa de Cristo, ou melhor, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Crescer na fé não é apenas crescer na bondade. Esse pode ser um dos efeitos da fé. Mas a fé é mais que isso. Basta recordar que um muçulmano pode ser uma pessoa bondosa. Um ateu pode ser uma pessoa bondosa. O que a catequese deve fazer é iniciar, formar e ajudar as pessoas a chegar á maturidade da fé, por Cristo, com Cristo e em Cristo.
domingo, dezembro 02, 2018
O cristianismo virá de Cristiano Ronaldo?
A filha da senhora Alcina creio que não tem mais que uns quatro aninhos. É franzina, mas um poço de vida, como se costuma dizer. Está numa fase de perguntas e porquês. Está numa fase em que quer saber tudo o que não sabe. E a mãe, a senhora Alcina, sabe muitas coisas, mesmo em termos religiosos. É uma daquelas pessoas que teve uma boa formação cristã, e que não tem receio de falar da sua fé, da sua catolicidade, do seu cristianismo. Pelos vistos, a filha ouve com atenção as suas palavras sábias. E por isso, um dia destes, interrompeu a mãe no diálogo que esta fazia com uma amiga, para lhe perguntar se o cristianismo vinha do Cristiano Ronaldo. De certo que ele é bem capaz de, nos dias de hoje, ser mais conhecido que o próprio Cristo. Não há sequer uma criança, pelo menos em Portugal, que não conheça este ídolo das nossas gerações. Considerações sérias aparte, com esta história lembrei a piada que em tempos li, na língua castelhana, sobre os argentinos que, numa época conturbada e mais frágil do seu patriota, futebolista e mediático Messi, pediam ao Papa Francisco, argentino de gema, que “bautice a Messi para que se convierta en Cristiano”. Tradução quase literal de “baptize Messi para que se converta em cristão”.
quinta-feira, novembro 29, 2018
O beijo do Pai [poema 197]
Fechei os olhos para guardar o seu beijo
Fechei os olhos para vir a noite
E adormecer naquele enfático beijo
tatuado na minha pele, pelo lado de dentro
Como sombra enrolada no meu coração
Hoje sou o beijo que recolhi.
Fechei os olhos para vir a noite
E adormecer naquele enfático beijo
tatuado na minha pele, pelo lado de dentro
Como sombra enrolada no meu coração
Hoje sou o beijo que recolhi.
terça-feira, novembro 27, 2018
Acabar o dia entre quatro paredes
O que fazem os padres quando chegam ao final do dia, a casa, e ficam sozinhos? Foi esta a pergunta curiosa da Sofia que surgiu no imaginário do meu pensamento. Pelos vistos, a Sofia andava a questionar-se, tal como eu, sobre a vocação consagrada, em particular a dos sacerdotes, sobre o que era viverem sós, entre quatro paredes. Como seria? E eu gostava de pintar o filme de outra cor, menos sépia, menos branco e negro, menos cinzento. Gostava de dizer que, ao chegarmos a casa, o mais natural é ajoelhar aos pés do Senhor e agradecer-lhe o dom desse dia, pedir-lhe compreensão pelas nossas faltas, falhas e cansaços. Gostava de lhe dizer que era a oportunidade para nos sentarmos ao seu colo e esperarmos o calor do seu amor. Mas não sei se é essa a realidade. Algumas vezes será. Mas outras, acabamos o dia fechados em quatro paredes, geralmente sozinhos. Mas o pior é que nos fechamos, não apenas nas paredes da casa onde moramos, mas em nós próprios. Ficamos sozinhos, com oportunidade para nos abrirmos ao mestre da vida, para sentirmos que na nossa solidão há uma cadeira à nossa mesa, à beira da nossa cama, que é ocupada por Ele. Mas geralmente ficamos fechados na nossa solidão, voltados sobre nós mesmos. Não há pior solidão que aquela em que nos fechamos sobre nós mesmos. Como uma casa que se encerra convencida que assim evita os assaltos dos ladrões. Faz lembrar um filme que vi em tempos. Um casal fechara-se, barricara-se em casa com medo dos ladrões. O que aquele homem e aquela mulher não sabiam era que o ladrão já lá estava em casa e tinham acabado de se fechar com ele dentro.
sexta-feira, novembro 23, 2018
Os coitados
O território da paróquia tem poucos habitantes. A paróquia tem ainda menos. A maior parte tem debandado em busca de novas oportunidades. As poucas crianças e os jovens aparecem muito pouco. O pouco é sempre o que mais habita aquela terra e aquela paróquia. Mas naquele dia a Igreja estava quase cheia, e na frente destacavam-se dois adolescentes. Um no início da sua adolescência e outro no final dela. O primeiro era um rapaz, e o segundo uma rapariga. Por sinal sua prima. A meio da homilia, que vinha a propósito das vocações e que se adaptava perfeitamente à Semana dos Seminários, pois a missa ocorria nesse período, dirigi-me ao primeiro adolescente. Dirigi-lhe também as minhas palavras. Tu. E apontei para ele, que estranhando a direcção do meu dedo e das minhas palavras, se mexeu no banco. Tu é que podias ir para o Seminário. Tu é que podias ser padre. Na verdade, fui aprendendo com a vida que o convite tu a tu é o mais oportuno. No entanto, a prima agarrou-o com força, e disse. Coitado. Porque fora audível, sorrimos todos. A população em geral. Os que estavam mais ao fundo da Igreja e os que estavam mais junto do altar. O rapaz. Ela própria. E eu.
E foi assim que percebi que os padres são tidos, afinal, como coitados. Fazemos parte daquele grupo de pessoas que é olhado com pena. Como se o destino tivesse destruído os seus sonhos. Tivesse destruído a possibilidade da felicidade.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

