A senhora, que é minha paroquiana de uma das sete anexas que estão ao meu cuidado, para além das sete paróquias que fazem actualmente parte da minha missão como pároco, veio ao meu encalço antes de uma das eucaristias que, mais ou menos, duas vezes por mês, celebro nessa comunidade anexa. Passara pouco tempo da época natalícia, e ela demonstrava a sua insatisfação pelo facto de eu não ter lá ido proporcionar-lhes, como ela disse, a possibilidade de “beijar o menino”.
Primeiro respondi-lhe, em tom acolhedor, que me era impossível, por mais que quisesse, aceder a todo esse tipo de pedidos numa ocasião como o Natal. Bem compreendia, e repito que compreendo cada vez mais e melhor como é importante para as pessoas determinadas tradições que acabam por fazer parte da nossa tradição católica. Cada vez sinto mais que devemos esforçar-nos por manter coisas que, no fundo, nos caracterizam. O “beijar o menino”, apesar de ter muito que se lhe diga em termos eclesiais, higiénicos e sociais, parece-me que faz parte desse conjunto de coisas a manter. No entanto, como já não é possível fazer o que se fazia há uns anos, quando um padre tinha a seu cargo poucas comunidades, também não seria possível celebrar mais missas do que as que celebrei pelo Natal. Nem foi possível celebrar eucaristia em todas as paróquias. Claro que poderia ter lá ido posteriormente. Acabou por me ser impossível. Afinal, também lhes tinha proporcionado celebrar festivamente a alegria de um Deus que nos ama no dia 23 de dezembro, um sábado bem perto do Natal.
Mas todas essas explicações não foram suficientes para ela, que começou, numa expressão tipicamente portuguesa, por “desbaratinar”. Eu quase “desbaratinava” também. Mesmo assim, deu-me a oportunidade para, no final da eucaristia, recordar algumas coisas que me pareceram importantes, como por exemplo, que já não é possível fazer o “de sempre” e que, mais cedo do que pensamos, até o que temos vai ser difícil assegurar. Ou que é sempre possível deslocar-se à paróquia mais perto para esses fins. Mas não. Nada disso foi suficiente para a senhora que, assim que saiu da Igreja, começou com impropérios. O que mais custa é que ainda haja quem reduza a sua fé a coisas como “beijar o menino”.