Há aves que não são pássaros
E vão em bando buscar-se
Há pessoas que são aves sem penas
vestidas a ouro e tinta a óleo
Há penas que voam nas árvores
E constroem armas em campos de flores
Há gente que é uma pena e
são aves,
aves de rapina
sexta-feira, setembro 25, 2015
Primeiras aves [poema 70]
terça-feira, setembro 22, 2015
É possível fazer Igreja sem sacramentos?
Estávamos à mesa de um café vários padres, pouco conhecidos na verdade, mas unidos pelo mesmo ideal, o sacerdócio. As diferentes idades e experiências eram patentes na conversa. Uma deles era missionário. Estivera vários anos na Amazónia, no Brasil, no meio de uma população indígena. Totalmente indígena, referia, no sentido de que estavam afastados do mundo civilizado, nómadas, índios que viviam da terra, da pesca e da caça como já só se vê em filmes. Um outro colega de uma geração mais velha que a minha perguntou-lhe como faziam, que faziam, como evangelizavam. E o padre missionário respondeu que apenas estavam com eles, que os ajudavam a procurar, por exemplo, deixar de se guerrear. O padre mais velho voltou com nova pergunta sobre como eram os baptismos, e o padre missionário informou que não tinham feito nenhum. Que a vida e cultura deles era muito diferente da nossa. E que Deus estava e manifestava-se por lá de outra forma. Que alguns dos índios se questionavam do que faziam lá três homens que se chamavam padres, e chamava-lhes a atenção do que faziam de diferente. Mas em termos daquilo que é a fé que nós conhecemos aqui na Europa, talvez tivessem dado poucos passos.
O padre mais velho, evitando demonstrar o seu escândalo, repetiu a pergunta. Ou melhor, fez a mesma pergunta de outro modo. Mas a resposta foi a mesma.
Eu, pessoalmente, fiquei encantado por perceber como a nossa missão sacerdotal não passa pelo proselitismo, mas pelo mostrar ou manifestar Deus através da nossa vida e acções. Fiquei encantado por perceber que Deus está muito para além do baptismo e qualquer outro sacramento. Muito para além da Igreja e da minha fé. Afinal Deus não pode nunca formatar-se, enformar-se. Ele entra em tudo e em todos de formas tão variadas, tão impensáveis. Mas entra.
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segunda-feira, setembro 21, 2015
O burro [poema 69]
Tinha arbustos debaixo da cama
que era de palha
"Ai Deus me valha"
Mas não se levantava
Não conseguia, não saía
da cama de palha
Para retirar o arbusto
que ali crescia
ali vivia,
ali pernoitava
"Ai Deus me valha"
que a cama é de palha
que era de palha
"Ai Deus me valha"
Mas não se levantava
Não conseguia, não saía
da cama de palha
Para retirar o arbusto
que ali crescia
ali vivia,
ali pernoitava
"Ai Deus me valha"
que a cama é de palha
sábado, setembro 19, 2015
Na tua opinião, devemos acolher os refugiados?
A última sondagem, apesar da temática polémica, trouxe resultados bastante claros.
A grande maioria (67%) é de opinião que os divorciados "recasados" devem poder comungar, e sem qualquer tipo de restrições. Já os que pensam que deveriam haver restrições formaram um total de 14%. Se somarmos estes dois conjuntos de opiniões, obteremos um resultado de 81%.
Claro que esta sondagem, como todas as outras aqui colocadas, valem o que valem, e as nossas opiniões dificilmente vão chegar ao sínodo. Mas pelo menos temos a oportunidade de pensar estes assuntos e de dar a noissa opinião.
Hoje surge nova sondagem, num momento em que o assunto chave são os refugiados que fogem de países como a Síria ou o Sudão. Na verdade, o espírito cristão é de acolher sem medidas, mas o receio, não só de perdermos o nosso espaço, mas também o de recebermos potenciais terroristas, tem dividido a opinião pública. Por isso achei por bem postar esta pergunta: Na tua opinião, devemos acolher os refugiados?
quarta-feira, setembro 16, 2015
A Árvore [poema 68]
As folhas caem da árvore, mortas ou a morrer
Chegou-lhes o Inverno mais cedo que o Outono
Largaram a árvore que as segurava, é a vida
Largaram o alimento que a Primavera largara
Caem devagar, planam, voam um pouco mais
Parecem vivas, mas já não fazem mais que ir
Olham-se com prumo, donas de si e demais,
E agora caem
Não há remédio maior que a Árvore
Chegou-lhes o Inverno mais cedo que o Outono
Largaram a árvore que as segurava, é a vida
Largaram o alimento que a Primavera largara
Caem devagar, planam, voam um pouco mais
Parecem vivas, mas já não fazem mais que ir
Olham-se com prumo, donas de si e demais,
E agora caem
Não há remédio maior que a Árvore
sábado, setembro 12, 2015
Onde está Deus?
Estava à janela de um prédio alto a olhar o mundo quando avistei numa janela longínqua uma mulher a sacudir um pano de pó. E sem querer dei por mim a perguntar como se manifestaria Deus naquela mulher. Ele que está em tudo e em todo o lado, como se manifestaria num simples gesto de sacudir o pó. E depois percorri o mundo a imaginar como Deus se manifesta ou se encontra. Imaginei Deus na Grécia com os problemas com que esta se encontra. Imaginei-o na Síria diante de decapitações e mortes sem sentido. Imaginei-o na China com o seu poderia económico, na potência dos Estados Unidos da América, na Amazónia junto dos índios. Percorri meio mundo com o pensamento à procura de Deus. E procurei-o num hospital, numa morgue, numa biblioteca, numa sala de aulas, num café. Sei, de coração, que Ele estava lá. Mas como fui eu que o tentei meter lá na minha forma de o encaixar, então não o vi. É que Ele não cabe na forma como eu queria, mas num tudo que não entendo.
Obrigada, senhor, por não me deixares encaixar-te ou encaixotar-te.
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quarta-feira, agosto 26, 2015
conversa entre o discípulo e o mestre [poema 67]
O discípulo, envergonhado, disse
Achas que olhavam para mim
Quando pregava tua palavra?
O mestre, sorrindo, disse
Eles não te escutavam a ti
Escutavam a Palavra.
Achas que olhavam para mim
Quando pregava tua palavra?
O mestre, sorrindo, disse
Eles não te escutavam a ti
Escutavam a Palavra.
terça-feira, agosto 18, 2015
mãos da morte [poema 66]
Porque
as mãos do morto teimam em permanecer abertas
E as nossas mãos vivas teimam em fechar-se?
A morte desagarra-nos de nós
A vida que fechámos nas mãos
as mãos do morto teimam em permanecer abertas
E as nossas mãos vivas teimam em fechar-se?
A morte desagarra-nos de nós
A vida que fechámos nas mãos
sexta-feira, agosto 14, 2015
As mordomas das festas
Entregaram-me um papel com seis nomes dias antes da festa para que, por ocasião da mesma, nomeasse as novas mordomas. Pelos nomes não as conhecia. Mas como estas coisas se comentam, alguém me veio contar que não deveria nomear algumas delas. Uma era divorciada. Outra tinha fama de se meter na cama com homem alheio. Pelo menos essas. Que o senhor padre não deveria nomear.
Na verdade, faço questão de que algumas das pessoas que fazem parte de uma mordomia de festa assegurem o sentido de fé nas festas religiosas e que todas as pessoas nomeadas aceitem as normas que nos são propostas para este tipo de festas. Porém, como pároco, sinto o dever de acolher todos, indistintamente da sua estrada de vida. Judeus ou gregos, escravos ou homens livres, pecadores ou que não se sabem pecadores.
A Igreja não é uma comunidade de perfeitos. O papa Francisco tem dito isso imensas vezes. Aliás, não podia ser de outro modo, porque não há gente perfeita. Além disso temos de confiar na mão de Deus.
E respondi a quem me chamou a atenção. Nas minhas paróquias quero que todos se sintam acolhidos. Repare que as mordomas deste ano, por exemplo, depois da proposta que lhes fiz, confessaram-se. E a maior parte delas já não o fazia há dezenas de anos.
Não basta abrir portas às nossas igrejas. É preciso deixar a porta aberta.
sexta-feira, agosto 07, 2015
Igreja dos homens
Dois mil anos de história não mudam porque um padre o deseje, ou um bispo, ou até um papa. Os caminhos de Deus são insondáveis. Mas teimamos em fazer dos caminhos de Deus caminhos dos homens. A paróquia precisa de uma administração. Então fazemos dos padres administradores. A Igreja precisa de cristãos. Então fazemos de forma proselitista um caminho de angariação de pessoas. A Igreja precisa de uma organização, então enchemo-la de estruturas e pastorais estruturadas. A Igreja só precisa de Deus. Mas teimamos em fazer da Igreja um lugar dos homens. Quando a Igreja devia ser um lugar de Deus para os homens. Sinto-me estranhamente cansado de não saber como entender o lugar de Deus nesta Igreja ou nesta missão. Sinto que não sei bem como fazer para fazer a Igreja de Cristo, e por isso continuo a manter a Igreja dos homens. Talvez Deus lá esteja, mesmo que escondido.
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