Se o homem não tem consciência de caminhar, porque vamos apresentar-lhe um caminho? Se ele não está inquieto, porque havemos de lançar-lhe uma proposta? Se ele não quer escutar-nos, porque havemos de falar-lhe? Estamos a pregar no deserto.
Vivemos numa sociedade e numa época sem Deus, onde este, quase nem para os que frequentam a missa é de facto o centro das suas vidas. E porque haveria de ser? perguntou a Carolina. Respondi-lhe, como faço não raras vezes, com outra. E qual é o centro da tua vida? Ela encolheu os ombros e não soube responder. Enderecei-lhe nova pergunta. Qual é o sentido da tua vida, afinal? Baixou os ombros, mas não baixou as armas. Disse. Coisas de padres. Como se as coisas de Deus fossem coisas do imaginário dos padres. Se ao menos os padres fossem o rosto de Deus!
domingo, março 08, 2015
quinta-feira, março 05, 2015
A Galinha [poema 44]
Bate as asas, galinha, bate as asas
Que as asas são asas para voar
Gritas que não, que as tuas não são asas
Mas toda a asa é asa porque é asa
Gritas que não, que estas não são de águia
Tu és galinha, não tens de ser águia
Só tens que voar, porque as asas voam
Mesmo que não sobrevoem o mar.
Que as asas são asas para voar
Gritas que não, que as tuas não são asas
Mas toda a asa é asa porque é asa
Gritas que não, que estas não são de águia
Tu és galinha, não tens de ser águia
Só tens que voar, porque as asas voam
Mesmo que não sobrevoem o mar.
terça-feira, março 03, 2015
a força dos mártires
Os cristãos mártires incomodam. Incomodam o nosso egoísmo. Questionam a nossa forma de viver uma fé que foge da dor. Inquietam a compreensão das coisas da vida e de Deus. Os cristãos mártires, mesmo mortos, fazem perguntas. Sobre a vida, sobre a morte, sobre Deus, sobre a fé, sobre a força, sobre a dor, sobre eles e sobre nós.
Um dia destes, a propósito do que se tem passado para os lados da Síria e do Iraque, no meio destas questões, veio a pergunta sobre o porquê ou sobre o como são capazes, ou sobre o que está por detrás de tal força da fé.
Um dia destes, a propósito do que se tem passado para os lados da Síria e do Iraque, no meio destas questões, veio a pergunta sobre o porquê ou sobre o como são capazes, ou sobre o que está por detrás de tal força da fé.
Na mesma ocasião ou por diferença de poucas horas, li uma entrevista de uma freira contemplativa a quem um jovem lhe havia feito a pergunta cliché Como é que conseguiam estar fechadas num convento? A irmã explicou-lhe que nunca se sentira fechada, que sempre se sentira livre. Que nem dava conta das grades do locutório. E dizia na entrevista que a determinada altura, lá para o final da conversa, o jovem concluía que ela no convento, fechada, era mais livre que ele, no mundo livre. Ela não disse muito mais acerca do assunto. Não precisava. E assim, depois de ler a entrevista e de associar pensamentos, descobri que os mártires são mártires porque são livres, porque usam a verdadeira e autêntica liberdade interior. Eles não têm qualquer tipo de prisão ou cadeia na vida. Nem sequer a morte.
quinta-feira, fevereiro 26, 2015
Perseguição [poema 43]
Aqui viajo e aqui me acho
Entre o mundo que me persegue
E o mundo que persigo
Entre o Deus que me persegue
E os deuses que persigo
Aqui viajo e aqui me acho
perseguido
Entre o mundo que me persegue
E o mundo que persigo
Entre o Deus que me persegue
E os deuses que persigo
Aqui viajo e aqui me acho
perseguido
terça-feira, fevereiro 24, 2015
Na tua opinião, a Pastoral da Igreja está desperta para a diversificação dos ministérios e para a responsabilização dos leigos?
Fica aqui o resultado da última sondagem que apurou os três melhores textos de 2014, a saber: Como te amo, Senhor?, Entrego-te e O baptizado social da Sara.
Hoje surge nova sondagem para responder a uma inquietação que trago comigo, que ressoa do concílio Vaticano II, e que tem a ver com o conceito de Igreja que aí se propõe na Lumen Gentium, Igreja como Povo de Deus. Nesta perspectiva me parece que a Igreja deveria incluir mais espaço aos leigos e aos ministérios laicais. Mas há muitas resistências, quer da parte dos padres quer da parte dos próprios leigos. Não quero manipular nenhuma das vossas opções, mas auscultar o que pensais e como o vedes. As próximas sondagens andarão à volta deste assunto, e hoje proponho que me digais a vossa opinião sobre a diversificação dos ministérios e a responsabilização dos leigos. Podem e devem justificar as vossas opções.
sexta-feira, fevereiro 20, 2015
uma mãe a falar da fé
Foi-me dito por uma mãe de uma idade próxima aos quarenta, após um encontro com os pais daqueles que vão fazer a festa da vida e durante o qual se falou abertamente sobre questões de vida e de fé. Reproduzo-o porque me deslumbrou o que me contou. Não vou conseguir usar tão bem das palavras que ela usou. Mas foi mais ou menos assim. Senhor padre, eu queria tanto, mas tanto, que os meus filhos percebessem em mim a importância de ter fé, que às vezes até exagero. Procuro testemunhá-lo com a vida, mas ainda assim eles não conseguem perceber-me, e fico triste. Porém não desisto. Compreendo que não lhes posso impor nada e que eles estão numa fase complicada. O mais velho tem quinze anos. Vem de uma hora de catequese e diz que não aprendeu nada ou que não se lembra. Que não entende porque tem de ir à catequese. E há uns dias tiveram um grande diálogo em casa sobre estes assuntos. E que lhe disse: meu filho, enquanto tu tiveres tudo para te sentires satisfeito e preenchido, é óptimo. Mas quando deixares de o ter, também podes continuar a sentir-te satisfeito e preenchido. É isso que a fé faz. Por isso ela é tão importante.
Fiquei de boca à banda com o que ela falou ao filho. É mesmo isso que faz a fé. E para atestá-lo estão milhares de homens e mulheres que, embora ficando sem nada, envelhecendo, perdendo as capacidades e as forças da vida, continuam com uma vida cheia, preenchida e satisfeita, porque a fé lhes dá o que as outras coisas já não conseguem dar. Claro que a fé não é supletiva. Ela não substitui. Preenche. Preenche a vida.
quarta-feira, fevereiro 18, 2015
quaresma [poema 42]
Quero
Arrancar as grades da minha janela
E tocar as flores,
Limpar cada pedaço de vidro
Não me cortar,
Nesta janela que me faz olhar para além
Ver que há além,
Que as flores lindas do Paraíso estão além
E eu vejo daqui,
Não toco nem as flores nem o além,
Afinal estou aqui e elas além
E entre nós há uma imensa janela
Com grades e vidros.
Arrancar as grades da minha janela
E tocar as flores,
Limpar cada pedaço de vidro
Não me cortar,
Nesta janela que me faz olhar para além
Ver que há além,
Que as flores lindas do Paraíso estão além
E eu vejo daqui,
Não toco nem as flores nem o além,
Afinal estou aqui e elas além
E entre nós há uma imensa janela
Com grades e vidros.
Desejo a todos Quaresma com esperança!
sábado, fevereiro 14, 2015
Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo
Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo. Aqueles que não incomodam, que não criticam, que não se queixam, que não pedem coisas sem sentido ou que sejam difíceis de conceder, que sabem rezar e rezam, que conhecem bem a Deus, que possuem uma grande fé.
Gostava de ter os melhores paroquianos do mundo. Quase como se fossem de outro mundo! Sim, porque ao procura-los, não os encontro neste mundo. E se os houvesse assim, porque precisariam de mim? E que dizer do meu desejo de que os outros fossem os melhores quando eu não o consigo ser?
Ainda bem que os meus paroquianos não são os melhores do mundo, porque também não têm o melhor pároco do mundo. Ainda bem que eles precisam de mim, assim. Como eu preciso deles, assim. Ainda bem que podemos caminhar juntos.
sexta-feira, fevereiro 06, 2015
Que faço aqui? parte dois
Que faço aqui? Não sei que faço. Que faço aqui? Sei que algo faço. Ninguém está ou vive sem fazer algo. Mesmo quem se encontra numa cama do hospital com parte dos órgãos sem funcionar. Ou aquela pessoa que tem trissomia vinte e um. Ou aquela que deixou de poder andar. Ou que já não vê ou nunca viu. Ou que mora do outro lado do mundo e não sabe senão que tem de caçar para comer. Ou a criança que tenta dar os primeiros passos. Ou aquele idoso que dá os últimos.
Que faço aqui? Sei que a cada dia será um dia menos para o que faço aqui. Sei que em cada dia cresço para o céu. Cada dia é mais um dia que aproxima o céu. Sei que em cada dia consigo algo mais e por isso cresço, na idade e na vida. Mas não consigo ainda dar a reposta que gostava de merecer à pergunta que tantas vezes faço. Que faço aqui?
E hoje faço outra pergunta. E tu, que fazes ai? Talvez na tua resposta eu encontre a minha. Ou a nossa.
terça-feira, fevereiro 03, 2015
barco à vela [poema 41]
Fazem ruído as velas,
Mas não são elas.
É o vento
A movê-las
Numa dança de advento.
Falam as velas
Mas não falam delas
Falam do vento.
Mas não são elas.
É o vento
A movê-las
Numa dança de advento.
Falam as velas
Mas não falam delas
Falam do vento.
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