Hoje, no meio das desventuras das minhas meditações, onde sempre encontro alguma lenha para me queimar, veio a mim a pergunta Porque é que Deus precisa dos padres? Já sabia que a Igreja precisa de padres. Só que mais não seja para ela se fazer instituição. Só que mais não seja como mediadores entre Deus e os homens, sobretudo nos sacramentos que Deus nos deixou. Mas porque cargas de água há-de Deus querer os padres? Para já Ele não precisa deles, pois Deus não precisa coisa alguma. Nós é que O precisamos. Por isso estou convencido que Deus não precisa dos padres. A prova está que há muitos lugares do mundo que não têm padres, ou têm muito poucos. Então porque haveremos de existir? Pela pura razão de que os homens podem precisar de guias sumamente espirituais ou pastores? E como não estava satisfeito com as minhas respostas e, por sinal, de novo inquieto, achei que alguém me poderia consolar com a resposta. Estando em ou de Retiro com outros colegas padres, andei de um a um, ou procurando-os em vários ocasiões propícias, com a mesma questão que me surgira. Os mais doutos usaram palavras que me escaparam ainda antes de as ouvir. Os mais próximos tentaram sossegar-me com palavras de incentivo ou com as mesmas respostas óbvias da circunstância, do tipo, Deus não precisa de nós, mas somos mediadores. Ele precisa de discípulos e nós somo-lo por excelência da consagração inteira. Ele não precisa de nós, mas quer-nos como instrumentos Seus. Uma coisa eles concordaram na globalidade comigo: Deus não precisa dos padres. Mas se Deus não precisa dos padres, porque os quer, porque os chama, porque os envia? Houve um colega, daqueles que têm amizade suficiente para o fazer, que me disse Acho que precisas de ir ao Sacrário fazer-Lhe essa pergunta. E então, quando a noite já trouxera o silêncio à casa onde nos encontramos, fui à Capela, de mansinho, visitar o Senhor no Sacrário. Estava apenas alumiado. Mal se via, mas sentia-se. Fiz a pergunta umas três vezes sem resposta. Não estava com paciência para esperar e por isso fui mais directo ao assunto. Porque precisaste de mim, Senhor? Esperei. Esperei mais um bocado. Um bom bocado. Acho que procurei a resposta em mim, porque não ouvi nada de especial. Voltei ao meu quarto. Sentei-me a escrever, e aqui estou eu a desenhar letras e palavras, a ver se elas se escrevem por si e não por mim. Às vezes começo a escrever sem saber bem onde o texto me vai levar e leva-me sempre a algum lado. Por isso já disse que era a escrever que eu meditava e mais me encontrava com o Senhor. Mas hoje estou para aqui a escrever e a inventar mais coisas para escrever, e fico com a sensação que só o tempo me dará a resposta. O tempo de Deus, é claro. E hoje termino com reticências. Pode ser que elas não se fechem como, se calhar, eu estou fechado em mim…