O vento soprava, não sei de que lado. Soprava forte quando me fizeram a pergunta. Qual é o amor da sua vida? Gelei com a força do vento. Em tempos diria com facilidade que era o Senhor Jesus. Hoje o peso da idade faz-me pensar duas vezes. Três ou quatro. O peso da idade faz-nos pensar muito antes de dizer as coisas. Eu quero que seja o Senhor. Gostava que fosse Ele. Mas olho em redor e vejo tanta gente que me escolhe no amor. Poderia também desculpar-me com a minha mãe. Ou até o meu pai. Ou até a Igreja. Mas sou um simples humano que, como tal, peregrina buscando o amor. Buscando-o na vida e nos outros. São os amigos, respondo. Então o senhor padre não tem em Deus o seu maior amor? E eu respondo convicto, sem pensar mais que meia vez. Esse é o maior amigo. E o vento leva as minhas palavras, não sei para que lado. Mas leva-as. Leva-as na certeza de que a algum lado irão parar. Talvez cheguem a Deus e Ele me compreenda que, com o avançar da idade, a gente deixa os ideais para procurar a realidade, a certeza do que se vive. E que só O consigo encontrar na vida que vivo e com quem a vivo. Só através disso e da felicidade que me advém dessas experiências ou vivências. Chega de ideias abstractas, pensamentos teológicos, morais ou litúrgicos. É na vida que vivo e com quem vivo que encontro o Amor da minha vida.
quinta-feira, novembro 14, 2013
segunda-feira, novembro 11, 2013
O filho da Glória
A Glória tem um filho que a costuma acompanhar à missa, embora ainda esteja longe da idade escolar. Costuma estar sossegado e parece atento. O atento possível naquelas idades. No Domingo passado o refrão do salmo dizia “Senhor, ficarei saciado quando surgir a Vossa Glória” e, como é normal, as pessoas repetiram o refrão as vezes necessárias. No final da leitura do salmo, enquanto, no silêncio próprio da espera, a pessoa que ia ler a segunda leitura se dirigia ao ambão, o habitualmente sossegado do filho da Glória levanta-se, sobe para o banco onde estava sentado, vira-se para as pessoas que agora o viam perfeitamente, e pergunta numa voz fininha, ainda meio indefinida, mas compreensível. Porque é que hoje só dizem o nome da minha mãe e não dizem o nome das mães dos outros meninos? E sentou-se, com o sururu da assembleia a sorrir, e com a mãe a cruzar o dedo com os lábios, para fazer pouco barulho. Em casa a mãe explica, disse. E o senhor padre do altar repetiu. A mãe Glória em casa já explica.
Estou mesmo a ver qualquer dia o filho da Ressurreição a fazer o mesmo. Falamos tanto dela na Missa!
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sexta-feira, novembro 08, 2013
O Pequeno Samuel
O tio, de pouco mais de trinta anos e que deixou esposa e duas filhas em idade de escola, falecera-lhes há dois meses, e a conversa entre o pequeno Samuel, de três anos, e a prima, de oito, aconteceu na simplicidade que é própria das crianças. A prima dizia que o tio tinha morrido e que tinha ido para o céu. O Samuel concordava. No entanto, a prima, como tinham ido ao cemitério ver a sua campa no dia dos finados, achou por bem acrescentar que também estava debaixo da terra, ao que o Samuel respondeu. Não, não. E apontando para o seu coraçãozito, acrescentou. Ele está aqui.
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terça-feira, novembro 05, 2013
Porque este mundo não é meu.
Magico e magico sobre a vida, sobre esta minha forma de viver. Encho os pulmões de ar e fico com uma vontade enorme de mudar o mundo. De mudar sobretudo a Igreja. Porém, à medida que os pulmões vão esvaziando, dou conta que para essa tarefa não basta encher os pulmões, por mais ar que lhes entrem. Invento todas as forças para que os pulmões se esvaziem devagarinho, para ver se consigo reter algum ar que se respire, mas nada. Aos poucos vai-se todo, e escapa à minha vontade de ter os pulmões cheios. Tal como tudo na vida e na Igreja de que sou padre. Resisto-me. Insisto-me. Encho continuamente os pulmões. Mas eles esvaziam logo a seguir. Porque não sou dono deles. Porque o ar não é meu, é de Deus. Porque o mundo e a Igreja são de Deus. Posso. Mas afinal não posso. Hoje dei comigo a magicar sobre a vida e sobre a Igreja, que no fundo se confunde com a minha vida. Queria que tudo fosse de outra forma. Mas a forma de Deus não cabe nesta forma. É muito maior. Rezo a pedir que me dê forças para mudar o mundo, mas nem o meu mundo consigo mudar. Rezo a pedir que me dê forças para mudar a Igreja, mas nem eu consigo ser autentico na minha fé. Rezo a pedir para que consiga mudar os que me rodeiam, mas nem a mim me consigo mudar. Não há pulmões que aguentem. Porque este mundo não é meu. É de Deus. Eu é que me esqueço.
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segunda-feira, outubro 28, 2013
A irmã Graça
A irmã Graça tem o tamanho que tem. É a irmã mais baixa da comunidade religiosa que a minha paróquia tem. Há dias uma outra irmã da comunidade completou mais um aniversário. Teve direito a surpresas quanto baste. Esta não cabia em si de alegria. Porém, ao olhar para a irmã Graça, o seu rosto de alegria parecia ainda maior. Muito maior que o seu tamanho. Se a irmã aniversariante não cabia em si de alegria, a alegria da irmã Graça não cabia no tamanho da irmã aniversariante. Estava feliz com a felicidade da irmã que, na mesma comunidade, fazia anos. Regressei a casa, encantado pelo tamanho da irmã, tão grande. Assim acontecesse na comunidade cristã com a alegria e o sucesso dos outros cristãos. Assim acontecesse entre o clero, com a alegria e o sucesso dos colegas. E fiquei a meditar com o testemunho cristão da irmã Graça, que de pequena, só deve ter o tamanho.
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terça-feira, outubro 22, 2013
Os diáconos
Uns domingos atrás, um colega levou um diácono, homem casado, às três missas que tinha nas três terras em que as tinha marcado. Decidiu apresentar o diácono e explicar às pessoas este ministério. Embora não querendo entrar na cabeça do meu colega e muito menos ajuizar, ocorreu-me que as estava a preparar para Celebrações Dominicais na Ausência do Presbítero presididas pelo diácono. Não sei bem como foi. O colega não se alongou na história. O remate que lhe queria dar é que tinha importância. E contou que no final de uma das missas um senhor os havia esperado para dizer que estava feliz, porque agora já sabia que a Igreja não ia acabar. O meu colega não adiantou mais palavras à conversa, porque não tinha palavras que resumissem os seus pensamentos. Entendi. Entendi que para muita gente os diáconos, que são assim uns quase padres mas não são ainda, poderão ser a solução de uma Igreja que vê diminuir em crescendo o número de padres. Como se o diácono fosse um prolongamento ou um substituto dos padres. Como se um homem casado que pode fazer quase igual aos padres fosse a solução fácil para o celibato dos padres. Não. O padre não disse, mas eu grito que não. Não quero crer, pois o diácono é um ministério que vale por si e não vale pelo sacerdócio. Não quero crer que a nossa Igreja possa confundir o papel dos diáconos. Não quero, pior ainda, acreditar que haja cristãos que ousam pensar que a Igreja pode acabar. Restou-me um pensamento positivo, pois, por mal ou por bem, no meio de tanta gente que nem sabe o que são os diáconos ou não sabe da sua necessidade intrínseca na Igreja, também há quem se deixe regozijar pelos e com os diáconos.
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quinta-feira, outubro 17, 2013
És de opinião que a Catequese da Infância e Adolescência em Portugal tem funcionado bem?
A última sondagem proposta questionava-nos sobre a forma como cada um se relacionava com o seu pároco. Incrivelmente algumas pessoas nem sabiam que figura era essa. Mas, se acaso o número de pessoas que responderam que não conviviam com ele, ou só conviviam quando precisavam, ou não o conheciam, ou nunca falaram com ele, somava uma percentagem de 36%, o número daqueles que o têm como muito próximo ou que é mesmo como se fosse da família somava um total de 42%.
Hoje surge nova sondagem, numa época em que se reinicia a Catequese de Infância e Adolescência, para auscultar se acaso esta catequese tem funcionado ou não. Agradeço que justifiquem as vossas opções para se fazer uma boa reflexão com esta sondagem.
És de opinião que a Catequese da Infância e Adolescência em Portugal tem funcionado bem?
quinta-feira, outubro 10, 2013
Deus quer que a vida nunca pare
Não se entende como o tempo passa e nos acomodamos à vida que nos surge. Nada aqui neste mundo é eterno. Deus fê-lo tão bem feito que hoje aquilo que nos parece sem sentido, ou acaba por fazer sentido ou aceitamo-lo porque não admitimos não aceitar ou aceitamos que a vida é assim. É interessante esta forma de viver. Difícil de entender, mas maravilhosa ao mesmo tempo. Há doze anos caiu tudo por terra e parecia que nada mais havia naquele momento. A minha mãe partira para o Pai. Convencera-me que aquela marca iria tornar escuro o resto dos meus dias. Mas não. Acreditava já, com todas as forças, na Ressurreição. Sabia que a minha mãe terminara a sua missão aqui na terra. Porém, o mundo desabara em mim e pesava. Fui marcado com a graça de Deus nesse dia. No meio das lágrimas havia sorrisos. A minha mãe era a minha mãe. Não há ser mais unido a nós que a nossa mãe. Já lá vão doze anos. Não é como se fosse hoje. Às vezes parece, mas não é. Não fiquei parado no tempo e na vida com a vida dela. Por isso hoje estou tranquilo. Algo dentro de mim me traz melancolia. Não se explica. Sente-se. Mas não vou chorar. Não quero. Não sei se me apetece, ou não sei o que me apetece. Estou apenas tranquilo. Deus quer que a vida nunca pare. Nem quando morremos.
escrito no dia 7 de Outubro de 2013, no 12º aniversário da morte de minha mãe
segunda-feira, outubro 07, 2013
A catequista e o menino
No grupo de catequistas da paróquia há uma catequista que prima pela discrição. Ouve atentamente tudo o que se passa à sua volta. Absorve o que se passa e usa poucas palavras para se fazer ouvir. Acho interessante esta forma de ser. Encontrámo-nos à saída do centro, quase tropeçámos um no outro e ela aproveitou o tropeço para me dizer que Já agora, estava capaz de lhe dizer uma coisa. Que no ano passado quase desistira de dar catequese. A vida familiar era-lhe exigente. Não era muito compreendida pelo marido. As crianças da catequese eram muito desordeiras. Estava cansada. Mas numa das últimas catequeses do ano, no dia exacto em que tomara por definitiva a decisão de não voltar a dar catequese, o Senhor a fizera de novo pensar. Há um menino no seu grupo, o mais miudinho deles todos, que está sempre a sorrir. Um sorriso que contagia. Já não era a primeira vez que, quando a semana estava a ser dura, o menino lhe enviava um sorriso que a fazia pensar no sorriso de Deus. Ora, no tal dia definitivo, os meninos do seu grupo, quase garantindo que fizera a decisão mais acertada, estavam por demais irrequietos, desordeiros, barulhentos. E enquanto tentava acalmá-los, uma pequenita mão acariciara o seu rosto. Quando abriu os olhos que se tinham fechado pela irritação, deu conta que era o tal menino do sorriso contagiante. No mesmo instante, viu-se a olhar para o menino Jesus a acariciar a sua mãe no meio da sua labuta diária, cansativa e penosa. O miúdo esticara-se para lhe dar um beijo, dizendo que gostava muito da catequista. Padre, naquele momento senti que o Senhor me trocara as voltas e me estava a dizer que ainda não chegara o momento para a decisão que programara. E aqui me tem, padre. Também me estiquei, embora menos que o menino, para lhe dar um beijo e não dizer mais nada que não tivesse sido já dito. O Senhor troca-nos muitas vezes as voltas.
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quarta-feira, outubro 02, 2013
Casamento não tem custo
Noivo comum, jovem e mais ou menos despachado. Vive há uns dois anos com a futura esposa. Lugar-comum. Vai casar para lhe fazer a vontade. Trataram dos papéis, dos processos civil e religioso. Na hora das contas, revelou um jeito desconfiado. Há uma licença para pagar, informo. Ele responde que um amigo casou há pouco tempo e não pagou nada. Acho estranho e pergunto se ele casou realmente pela Igreja, pois não era possível casar sem a licença. Alguém lha deve ter pago, acrescento. Que era o correspondente ao processo civil que custou uns 150 euros e que esta licença religiosa era apenas uns 20 euros. Comparação feita, e ainda não estava desfeita a má ou pouca vontade do noivo. Expliquei que paguei do meu bolso por adiantado, evitando que tivessem de fazer uma deslocação a fim de tratarem do assunto na Curia, o equivalente à Conservatória do Civil. Repare-se que nem abordámos os possíveis, ou plausíveis, ou adequados, ou desejáveis pagamentos do trabalho da cerimónia. Ele achava que não devia pagar nada. E até certo ponto tinha razão, pois as coisas de Deus não deviam ter custos. Ou melhor, não têm custos. Porém, ninguém vive do ar. Pode viver da generosidade, mas não do ar. Além disso, uma coisa é presidir a um casamento de graça, e outra ter de pagar para o presidir. E às tantas acabei por lhe insinuar, com alguma maldade, reconheço, que iria fazer uma pergunta, mas que era melhor não me atrever a fazer, mas que acabei por fazer, perguntando sobre custos com flores, grupos corais a propósito ou despropósito, fotógrafos, boda e similares. É que às vezes parece que a cerimónia do casamento, que é o centro da festa, é apenas o irmão menor da mesma.
O jovem noivo acabou por perceber e pagou. Penso eu. De facto pagou. Mas para ser sincero, eu gostava de não ter tido aquele tipo de conversa. Não gostei de lhe pedir dinheiro. Não gostei de sentir a tal má vontade, que me pareceu desajustada. Não gostei de ter feito a insinuação que fiz. Gostava que o mundo, a Igreja e as pessoas fossem diferentes, e que estas coisas não fossem sequer assunto.
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