No grupo de catequistas da paróquia há uma catequista que prima pela discrição. Ouve atentamente tudo o que se passa à sua volta. Absorve o que se passa e usa poucas palavras para se fazer ouvir. Acho interessante esta forma de ser. Encontrámo-nos à saída do centro, quase tropeçámos um no outro e ela aproveitou o tropeço para me dizer que Já agora, estava capaz de lhe dizer uma coisa. Que no ano passado quase desistira de dar catequese. A vida familiar era-lhe exigente. Não era muito compreendida pelo marido. As crianças da catequese eram muito desordeiras. Estava cansada. Mas numa das últimas catequeses do ano, no dia exacto em que tomara por definitiva a decisão de não voltar a dar catequese, o Senhor a fizera de novo pensar. Há um menino no seu grupo, o mais miudinho deles todos, que está sempre a sorrir. Um sorriso que contagia. Já não era a primeira vez que, quando a semana estava a ser dura, o menino lhe enviava um sorriso que a fazia pensar no sorriso de Deus. Ora, no tal dia definitivo, os meninos do seu grupo, quase garantindo que fizera a decisão mais acertada, estavam por demais irrequietos, desordeiros, barulhentos. E enquanto tentava acalmá-los, uma pequenita mão acariciara o seu rosto. Quando abriu os olhos que se tinham fechado pela irritação, deu conta que era o tal menino do sorriso contagiante. No mesmo instante, viu-se a olhar para o menino Jesus a acariciar a sua mãe no meio da sua labuta diária, cansativa e penosa. O miúdo esticara-se para lhe dar um beijo, dizendo que gostava muito da catequista. Padre, naquele momento senti que o Senhor me trocara as voltas e me estava a dizer que ainda não chegara o momento para a decisão que programara. E aqui me tem, padre. Também me estiquei, embora menos que o menino, para lhe dar um beijo e não dizer mais nada que não tivesse sido já dito. O Senhor troca-nos muitas vezes as voltas.
segunda-feira, outubro 07, 2013
quarta-feira, outubro 02, 2013
Casamento não tem custo
Noivo comum, jovem e mais ou menos despachado. Vive há uns dois anos com a futura esposa. Lugar-comum. Vai casar para lhe fazer a vontade. Trataram dos papéis, dos processos civil e religioso. Na hora das contas, revelou um jeito desconfiado. Há uma licença para pagar, informo. Ele responde que um amigo casou há pouco tempo e não pagou nada. Acho estranho e pergunto se ele casou realmente pela Igreja, pois não era possível casar sem a licença. Alguém lha deve ter pago, acrescento. Que era o correspondente ao processo civil que custou uns 150 euros e que esta licença religiosa era apenas uns 20 euros. Comparação feita, e ainda não estava desfeita a má ou pouca vontade do noivo. Expliquei que paguei do meu bolso por adiantado, evitando que tivessem de fazer uma deslocação a fim de tratarem do assunto na Curia, o equivalente à Conservatória do Civil. Repare-se que nem abordámos os possíveis, ou plausíveis, ou adequados, ou desejáveis pagamentos do trabalho da cerimónia. Ele achava que não devia pagar nada. E até certo ponto tinha razão, pois as coisas de Deus não deviam ter custos. Ou melhor, não têm custos. Porém, ninguém vive do ar. Pode viver da generosidade, mas não do ar. Além disso, uma coisa é presidir a um casamento de graça, e outra ter de pagar para o presidir. E às tantas acabei por lhe insinuar, com alguma maldade, reconheço, que iria fazer uma pergunta, mas que era melhor não me atrever a fazer, mas que acabei por fazer, perguntando sobre custos com flores, grupos corais a propósito ou despropósito, fotógrafos, boda e similares. É que às vezes parece que a cerimónia do casamento, que é o centro da festa, é apenas o irmão menor da mesma.
O jovem noivo acabou por perceber e pagou. Penso eu. De facto pagou. Mas para ser sincero, eu gostava de não ter tido aquele tipo de conversa. Não gostei de lhe pedir dinheiro. Não gostei de sentir a tal má vontade, que me pareceu desajustada. Não gostei de ter feito a insinuação que fiz. Gostava que o mundo, a Igreja e as pessoas fossem diferentes, e que estas coisas não fossem sequer assunto.
quinta-feira, setembro 26, 2013
Cristãos de funerais que não acreditam
Andavam na vindima, e nas vindimas há tempo para todas as conversas. Uma senhora querida, que vai sempre à missa e até faz parte do grupo dos cantores, aproveitou a ocasião para evangelizar, que é assim que os cristãos autênticos deveriam fazer. São palavras dela, que eu assumo, mas para as quais prefiro usar a expressão Testemunhar a Fé. Mas foi em vão, contou-me ela. Só faltou enxovalharem-me. Estava lá um senhor de bigode, aqui da terra, que nunca vem à missa, e que me disse assim. Vossemecê julga que por ir à missa e cantar na missa vai para o céu? Vai tanto como eu, porque não há céu. E ela que lhe respondeu com outra pergunta. Então se não há céu, que foste fazer à missa do funeral do teu irmão? E o senhor, com uma mão nos cachos e outra a alisar o bigode, não tardou com a resposta na ponta da língua. Tem razão, e olhe que não fui lá fazer nada. E depois é o que se vê, senhor padre, disse-me ela no final da missa. Eu contei as pessoas que cá vieram, e só estávamos oito pessoas na missa.
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sexta-feira, setembro 20, 2013
As três formas de lidar com ela, a morte
A morte batera-lhe à porta, prematura, por entre um cancro. Não chegara ainda aos quarenta anos e deixara uma esposa com uma barriga do tamanho de uma criança. O tamanho de uma vida por outra. A vida que passa por nós e nos afronta quando deixa de passar.
A esposa e a barriga encontravam-se ao ombro de um padre amigo que não eu. De pouco serviriam as palavras, que nestes momentos só ouvimos a saudade. Porém, voltado o seu rosto para o lado onde me encontrou, sorri e disse-lhe. Perante a morte, temos três formas de lhe espreitar a porta.
Ou deixamos que a revolta se apodere de nós, azedando aquilo que é a beleza da nossa vida que permanece. Ou usamos de indiferença, como se nada tivesse acontecido, apagando da memória tudo o que a beleza da vida que parte e a beleza da vida que permanece nos trouxe, tornando-nos sombra da nossa própria vida. Ou encaramos a força do caminho de rosto descoberto, com a naturalidade que brota da fé, e que nos faz viver ainda mais a beleza desta vida que passa e desta vida que permanece.
Ou deixamos que a revolta se apodere de nós, azedando aquilo que é a beleza da nossa vida que permanece. Ou usamos de indiferença, como se nada tivesse acontecido, apagando da memória tudo o que a beleza da vida que parte e a beleza da vida que permanece nos trouxe, tornando-nos sombra da nossa própria vida. Ou encaramos a força do caminho de rosto descoberto, com a naturalidade que brota da fé, e que nos faz viver ainda mais a beleza desta vida que passa e desta vida que permanece.
A esposa abriu os olhos e esboçou uma lágrima. Logo vi que, mais que para ela, estava a falar para mim. E apanhei-lhe a lágrima com o dedo, como se fosse a única palavra que ela me conseguia responder.
Escrevi este texto por uma situação de há uns meses, mas hoje partilho-a, juntamente com uma pequenina lágrima, para a oferecer a uma outra família amiga que, hoje mesmo, de novo nas minhas paróquias, está a passar por provação idêntica.
Escrevi este texto por uma situação de há uns meses, mas hoje partilho-a, juntamente com uma pequenina lágrima, para a oferecer a uma outra família amiga que, hoje mesmo, de novo nas minhas paróquias, está a passar por provação idêntica.
quinta-feira, setembro 12, 2013
Lá mais para a Páscoa
A comunidade é pequenina, é certo. Tem poucas mais pessoas que os dedos das mãos. Vou lá poucas vezes por ano, mais ou menos as mesmas que os dedos das mãos. Vou, mas vejo-me lá numa confusão interior de tamanho que não tenho palavras para dizer, dado que ninguém comunga naquela missa, porque, dizem, é melhor só la para a Páscoa. Havia pouca gente, é certo. Mas fazemos um banquete com o Senhor e dizem-nos Lá para a Páscoa, senhor padre. Como se Deus tivesse querido que só uma vez houvesse Páscoa. Como se o sacrifício que é a Eucaristia acontecesse só na Páscoa. Eu bem lhes perguntei como ficariam se, convidado para as suas casas numa festa, onde, como é tradição em Portugal, há sempre uma boa mesa, repleta, um bom presunto, um bom queijo e um bom naco de pão, e eu dissesse que só comeria na Páscoa. Encolheram os ombros e repetiram Lá para a Páscoa, senhor padre. Sabe, não estamos confessados. Então vamos lá confessar-nos. Dispus-me a fazê-lo logo ali e no momento. Porém, insistiram Lá mais para a Páscoa, senhor padre. Passei toda a celebração a pensar que só devia voltar àquela terra para a Páscoa.
sexta-feira, setembro 06, 2013
pequenina oração
Faltava uma hora para o dia dar lugar a outro dia quando me sentei nos bancos do santuário, do lado oposto à vitrina onde a imagem de Nossa Senhora se destaca. Olhei ao meu redor e contei doze pessoas espalhadas, cada uma por si e em seu canto, tantas quantas o número dos apóstolos. Curioso, disse para os meus botões. O silêncio da noite, iluminado por uns quantos focos, contrastava com o ruído do dia e o vai e vem dos peregrinos, uns a pé e outros de joelhos ou de vela na mão. Permaneci naquele banco cerca de meia hora e meia. Havia terços que eram quase devorados pelas mãos dos doze peregrinos. Iam desaparecendo e tornavam a aparecer por entre os seus dedos. Uma conta atrás de outra nas mãos e nos dedos em ritmo certo, mas calmo, como se um metrónomo estivesse na oração daquele gente. Dei por mim a rezar com a forma de estar daquelas pessoas. Contemplando-as, encantado pelas que não temiam rezar de joelhos. Mulheres e homens, sem distinção.
No banco fui arrastado pela sensação de pequenez diante dos outros doze. Pequenino padre. Pequenina oração. Não há hora melhor para se estar nos bancos daquele capelinha, em Fátima.
sexta-feira, agosto 30, 2013
Hoje em dia
Os jovens que nos pedem o casamento, na sua maioria, já estão juntos há muito tempo. Os pais ou mães que nos pedem o batismo, muitos deles estão juntos e não casados, ou em situação irregular perante a Igreja. As Eucaristias estão vazias de gente nova, e cheias de gente que se habituou a ir à missa. A Catequese passou a ser apenas a preparação de umas festas engalanadas. O Crisma tornou-se a forma de poder ser padrinho. As confissões diminuíram. Culpa em parte dos padres que reduziram o tempo que lhe dedicavam, mas igualmente porque as pessoas deixaram de sentir essa necessidade ou a consciência do pecado. A forma de entender a sexualidade mudou completamente. A família desestruturou-se. Há diversas formas de existir em família. Monoparentais imensas vezes. Mais de metade dos filhos experimentam o peso do divórcio. Há cada vez mais cristãos recasados. Bem como divorciados. Parece que a sociedade perdeu a noção ou diferença entre bem e mal. O mal passou a ser aquilo que me incomoda e o bem aquilo que me agrada. Vivemos mais para os nossos interesses que para os melhores interesses. Não existem muitas vocações à consagração. Ser padre às vezes parece que é apenas mais uma profissão entre tantas. Hoje as pessoas sabem mais coisas, mas sabem viver menos. Deus tornou-se uma ideia e deixou de ser resposta. É o mesmo, mas mudou a forma de se entender. O mundo muda tão rápido que não conseguimos acompanhá-lo. Passa rápido e depressa morremos sem vontade, sem certezas, sem fé.
Por tudo isso, hoje gostava de perguntar a Deus como se sente. Como se encontra. E aproveitava para lhe perguntar também onde está ou deveria estar a Sua Igreja. Porque não sei ou não sei como saber, ou não sei como viver sem saber.
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sábado, agosto 17, 2013
Como consideras a tua relacção de proximidade com o teu pároco?
A última sondagem proposta questionava-nos sobre a opinião que hoje a sociedade em geral tem sobre a Igreja em particular. A partir das respostas obtidas, podemos constatar que na opinião dos penitentes deste espaço, a maioria das pessoas é muito pouco favorável à Igreja. Se somarmos as respostas que abonam como favoráveis, obtemos um resultado de 13%, o que é muito pouco. As conclusões estão em baixo, mas cada um pode fazer as suas próprias conclusões.
Hoje propomos nova sondagem com uma pergunta que nos questiona sobre a relação de proximidade que temos ou não com o nosso pároco: Como consideras a tua relacção de proximidade com o teu pároco?
Já sabem que podem deixar aqui a justificação das vossas opções.
quinta-feira, agosto 08, 2013
Qual é o limite para amar a Deus?
O João é um homem atarefado. Um homem dos tempos modernos que fala com pressa de dizer tudo, com pressa de ir para outro lado ter outra conversa ou tarefa. Tem uma vontade enorme de absorver o que a vida tem para lhe dar. E assim procede nas coisas de Deus. Quer Deus em todos os minutos da sua vida, mas não sabe como ajustá-lo à vida preenchida que tem. Por isso, à saída de uma daquelas missas que o tinha feito reflectir, fez-me uma série de perguntas que afinal eram a mesma. Qual é o limite para amar a Deus? Em termos emocionais qual é o limite razoável para não perdermos o equilíbrio e mantermos uma dedicação a Deus e aos outros? Como é que noventa por cento dos crentes podem amar a Deus acima de todas as coisas e ao mesmo tempo trabalhar para ganhar a vida, dar atenção à mulher, aos filhos, ao carro, aos estudos para ter aquela promoção, ao grupo coral, aos colegas, aos outros? Sim, sei que tudo isto é ou pode ser amor a Deus. Mas estou a falar do sentimento, daquele que nos faz sentir pequeninos, de nos tirar a respiração, de sentir como se nos furassem o peito com uma lança.
Fiquei encantado com a pergunta e com a vontade de ouvir a resposta. E ela veio-me com o mesmo ímpeto. Amar a Deus não deve ter limites, como amar uma pessoa no mais íntimo não deve ter limites. Mas tudo deve ser feito no equilíbrio, porque o amor verdadeiro é equilibrado, livre, desinteressado, aberto. Se não for desta forma, deixa de ser amor para se tornar uma obcessão ou fanatismo. O verdadeiro amor não nos oprime ou prende. Não ocupa espaço ou tempo. O verdadeiro amor acontece para além da distância, das horas ou do espaço. Para além da presença. É uma entrega nem sempre revelada, mas que nos faz agir em quase tudo conformes a esse sentimento. Além disso, uma das mais claras formas de amar a Deus é exactamente amar os outros todos e tudo no máximo de nós. A família, o trabalho, os colegas de trabalho, os jovens do grupo, da escola, a casa, o que acontece, o que nos rodeia. Em tudo podemos amar a Deus sem limites. Em tudo podemos ver o Deus que amamos. Em tudo podemos sentir o amor de Deus a agir em nós. A nossa vida pode ser um constante amar a Deus. Se for autentico, o nosso amor a Deus não tem espaço, tempo ou limites.
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segunda-feira, agosto 05, 2013
Os padres também se confessam
Quando entrei no confessionário, penso que no número cinco da fileira de confessionários do Santuário de Fátima, não sabia o que esperar. Há sempre aquela expectativa. Que rosto estará do outro lado do confessionário! Já me aconteceu aproveitar a passagem por Fátima para me confessar, e sair de lá com a sensação de que o colega foi mais juiz que instrumento do perdão, e com a nítida sensação de que me faltava ainda a graça de Deus. Numa dessas ocasiões fiz o meu exame de consciência de confessor e prometi a mim mesmo nunca julgar ninguém na confissão.
Ao abeirar-me do confessionário quero apenas pensar na misericórdia de Deus. Não quero pensar quem será o meu confessor. Mas penso. E creio que deve acontecer o mesmo com todos os que se abeiram de um padre para se confessarem. Como me vai acolher este padre. Como me vai olhar. Que irá pensar de mim, das minhas fragilidades, do peso dos meus pecados. Irá aliviar-me ou ainda me fará sentir mais pecador. Sairei de lá com a graça ou com a desgraça de Deus. E ocorrem-me também estas perguntas todas. Porque com o saco dos pecados aos ombros, não há sotaina ou batina que faça diferença. Ou que lhe retire peso.
Entrei e o colega recebeu-me com um português meio arranhado. Cheguei a pensar que estava safo. Informei que era padre. Abri o meu coração. O colega era muito acolhedor. Reparei no pormenor do terço na mão. Agarrava nele, sem o rezar. Ouviu-me, e afinal entendeu-me. O que conta na confissão somos nós e Deus. O padre é apenas a ponte de misericórdia de Deus. Mas este colega surpreendeu-me. Não me julgou nunca. Já há bastante tempo que não me confessava. Às vezes, nós padres, deixamo-nos andar. Também para nós nem sempre é fácil encontrar o colega que nos ouça em confissão. Aqueles que nos estão mais próximos e que nos conhecem e que até nos ouvem nos nossos desabafos, nem sempre são aqueles que escolhemos para entregar o saco dos pecados. E o meu colega confessor lembrou-me aquela frase do Papa Francisco que dizia algo mais ou menos do tipo “Deus nunca se cansa de nos perdoar; nós é que nos cansamos de lhe pedir perdão”. Quantas vezes eu não lera já essa frase. Mas dita naquele momento e por aquele colega confessor, abriu em mim algo que não consigo explicar. Falo tantas vezes do perdão de Deus para os que me escutam, que acabo por esquecer de perceber o perdão de Deus em e para mim. No final da confissão, saí mais vazio e mais cheio, na certeza e vontade de me confessar mais vezes.
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