Eu estava à porta do Retiro a receber as pessoas quando chegou a Alice, uma senhora bem-posta de cerca de setenta anos, que amadrinhou um sobrinho de cerca de cinquenta anos que perdeu os pais e não tinha recursos humanos, físicos e mentais para se bastar a si próprio. Os nossos beijos tiniram nas faces, e perguntei-lhe pelo sobrinho. A Alice respondeu que ele bem queria ir ao retiro, mas que ela lhe dissera, num tom de reprovação, que aquelas coisas eram de mulheres. Fiquei danado, mas sorri e respondi-lhe que entrasse e que reparasse nos homens que estavam na sala. Ela engoliu em seco quando entrou, pois havia vários. Mas não voltou atrás, nem com o corpo nem com as palavras. E eu pensei como, às vezes, são as mulheres que distinguem o seu lugar na Igreja, como se houvesse uma forma de se ser homem cristão, e outra de se ser mulher cristã. Como se houvesse coisas que são só para as mulheres e coisas só para os homens. E assim não sei se não serão as mulheres, que tanto querem a emancipação na Igreja, quem mais impede que isso aconteça. Tal como não sei se aquela Igreja que mais parece querer mudar, não continua a ser aquela que mais agarrada fica ao lugar que sempre ocupou. Ora bolas.
terça-feira, maio 14, 2013
quinta-feira, maio 09, 2013
A lenha do Carlos, que é meu sacristão
O Carlos, que é meu sacristão, como já havia dito, andou a trabalhar comigo numa destas manhãs frias de vento e chuva miudinha. Depois foi à vida dele, e encontrámo-nos de novo ao final da tarde que manteve o frio, o vento e a chuva miudinha. Encontrámo-nos na igreja para a missa. Cumprimentos para aqui e acolá, conversas sobre o tempo, e saiu-me sem querer a pergunta sobre o que tinha feito desde a manhã. O Carlos respondeu-me que tinha ido à lenha, pois o frio aperta e não tinha em casa. Pois muito bem, disse eu, então já tem o lume aceso para mais logo. Acenou que não e sorriu. Sabe, padre, quando vinha para casa, com o carro de mão carregado, encontrei uma senhora, daquelas que precisam sempre de uma mãozinha de ajuda, e perguntei-lhe se tinha o lume aceso. Ela respondeu-me que não, e eu ofereci-me para lho acender. Lá fui e lá lhe deixei o molho de lenha. Levara-lhe a lenha que tinha no carro, acendera-lhe o lume e fora em paz para casa. Como há coisas que não cabem facilmente no entendimento da nossa humanidade, e eu faço parte desse grupo que habita o mundo inteiro e que se vai esquecendo que ainda há Deus em muitas pessoas, perguntei-lhe, basicamente, Então e agora? Fora à lenha porque fazia frio, e agora não tinha lenha para emendar o frio. E o senhor Carlos encolheu os ombros e repetiu o Então e agora sem exclamações e interrogações. Agora é o que é. É o que se pode. E um dia se há-de ver no céu, que aí, sim, é que importa. E fez-me três perguntas. Primeira, Não é, senhor padre? Segunda, Então não é assim que temos de ser? Terceira, Somos cristãos ou não? E Mais uma vez o Carlos, que é meu sacristão, me deixou de boca e coração abertos.
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domingo, maio 05, 2013
a minha mãe está viva
Hoje apoderou-se de mim uma vontade de ti. Não era uma vontade dos teus beijos ou dos teus abraços. Nem do teu colo. Era uma vontade de ti. Na primeira missa do dia lembrei-me vagamente do teu dia, que não é exclusivamente teu, mas de todas as mães. Na segunda missa, depois de uma oração que uma jovem mãe leu durante o momento da acção de graças, valeu-me que estava sentado e pude contrair-te toda em mim, atrás do altar. Na terceira, escapaste-me numa lágrima, quase ao final da missa. Hoje fui obrigado, entre aspas, a celebrar uma quarta missa de festa. E foi nesta que mais se apoderou de mim uma vontade de ti, mãe do meu coração e da minha alma, da minha vida e do meu ser, da minha vocação e da minha fé. Foi como se uma saudade me tivesse apertado contra ti. Busquei as palavras da oração das oblatas, mas elas teimavam em desaparecer do livro em cima do altar. Teimavam em desviar-se do lugar que deviam ocupar, de tão nubladas que se encontravam. Dei por mim sem conseguir olhar o meu povo na festa, engasgado nas palavras e no gesto de pegar no lenço de papel para me limpar. Todos na assembleia daquela missa sabiam que a minha mãe partiu já lá vão vários anos. Quando a força me chegou à voz, esclareci da minha fé, que se me perguntassem se eu queria a minha mãe junto de Deus ou longe de Deus, escolheria sempre a primeira opção. Por isso estava feliz por ela já lá estar, agarrada pela mão mais carinhosa do Deus que amo, aquela mão que está sempre aberta. Por isso dava graças, embargadas de lágrimas, a Deus. Um crente deseja que os que mais ama estejam o mais próximo de Deus. Por isso dava graças, embargadas de lágrimas, ao Deus que quis a minha mãe.
Naquela missa de festa uma outra jovem mãe ousara ler uma frase que tiniu em mim e ainda não saiu. Uma mãe nunca morre. E agora ouso acrescentar que enquanto houverem filhos, uma mãe nunca morre. Só morre quando os filhos morrem. E eu não quero que morras nunca.
Obrigado, Senhor, neste dia da mãe, porque a minha mãe está viva.
Obrigado, Senhor, neste dia da mãe, porque a minha mãe está viva.
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terça-feira, abril 30, 2013
A franja em pé
A franja do cabelo tapava-lhe o olho direito, e pendurava-se no esquerdo a querer tapar-lhe os dois. Assim falava-me sem correr o risco de me olhar nos olhos. Sentámo-nos à mesa do café. Para um simples café e troca de palavras. Aos aromas do café juntámos o novelo da sua vida, que desfiou devagar e com paragens, pois estava cheio de nós. Tinha-se divorciado. O marido não fora violento, nem nada que pareça. Não havia razões daquelas que os noticiários parecem adorar. Ela queria ser mais feliz do que era, e separou-se. Depois disso já teve vários namorados, com quem sonhara ser feliz. Nunca fora propriamente depravada. Nem propriamente feliz. E perguntava-me. Será que é mal ou pecado ter sentimentos e procurar ser feliz? Eu achei que esse era o anseio de todos. Não julguei. Não quis. Já chega o que os outros devem julgá-la. E embora não queira aligeirar o tema, digo que fiquei incomodado. De franja em pé. E às vezes penso que a Igreja tem de se sentir incomodada.
sexta-feira, abril 26, 2013
Gostava de fechar a minha igreja.
Gostava de fechar a minha igreja. Ela tem umas portas tão bonitas. Servem para entrar e sair, entrar e sair. As pedras de granito estão expostas umas em cima das outras. Pois que assim é que se colocam as pedras da igreja. Os antigos percebiam de construção e não precisavam de cursos. A minha igreja tem retábulos tão bonitos que dá gosto entrar só para apreciar. Aos Domingos ela fica engalanada. Cheia de flores, luzes e pessoas. Toda a gente olha a minha igreja com vaidade ou inveja. Fica-se com uma vontade mórbida de a fechar para ser só nossa. A minha igreja engalanada. Mas não é por egoísmo que eu gostava de fechar a minha igreja. Na verdade eu sei que ela não é só minha. Ela é a Igreja.
Apetecia-me fechá-la para que fosse difícil entrar nela e, os que entrassem, em vez de a apreciarem, reparassem nela. Talvez sem pedras ou retábulos, sem flores ou adornos, até sem portas, as pessoas percebessem, de facto, o que ela é, para que ela é, quem ela é.
sábado, abril 20, 2013
A geração do telemóvel
Não falo da geração que passa o tempo a tocar nas teclas do telemóvel, ou a ver as horas, ou a mandar uns toques. Essa geração que é ainda nova e que vai ter doenças nos dedos de tanto mexer e remexer nessa invenção que foi o telemóvel. Falo antes da geração que tem mais idade e que também faz do telemóvel o uso diário que está no bolso das calças ou na carteira e que toca a qualquer hora. São aqueles que só sabem usar o telemóvel para ligar uns determinados números previamente marcados em teclas especiais, e que sabem atender cada vez que toca aquele som que, digamos, já o ouvimos um centenar de vezes e não conseguimos gostar. A geração que ainda é nova sabe usar o botão que diz silêncio e raramente ouvimos um telemóvel desta geração tocar durante a Eucaristia. A geração mais velha, como não sabe sequer que tem a possibilidade de deixar o telemóvel funcionar em silêncio, passa a vida a atender telefonemas em qualquer lado. Ou se não atende, deixa tocar indefinidamente até ele próprio se calar. É comum uma vez que outra um telemóvel destes tocar durante a missa e do meio da multidão ver-se alguém incomodado e tentar passar a bola para canto. E olhem que isto está a ser cada vez mais comum. Por isso não apontem sem dó o dedo aos mais novos, porque os mais velhos já aprenderam a ser geração do telemóvel sem aprender todas as suas funcionalidades. Que façam como eu, que nunca levo o telemóvel para a Igreja. Mas não. O telemóvel, que antigamente não existia, agora tem de ir connosco para todo o lado. Bom, e depois desta tão grande introdução, deixem-me contar o que esta tarde aconteceu apenas em duas Igrejas, em duas missas. Na primeira, um destes telemóveis tocou e a senhora salta do banco a meio da homilia, corre desenfreada para a porta e enquanto chega lá e não, já se ouve Tá lá, sim, tá. Na segunda Igreja, depois de um ou dois telemóveis se ouvirem esquecidos, há um outro que toca da carteira de uma outra senhora. Esta levanta-se com o telemóvel a tocar na mão, estávamos numa leitura, sai com passo calmo e sereno, como se nada estivesse a acontecer, e do lado de lá da porta da Igreja faz o seu diálogo que só não se ouviu distintamente, porque a leitora também estava a usar da palavra. Nisto veio o Aleluia, estávamos a preparar-nos para o Evangelho, e toca um terceiro telemóvel, pois não há duas sem três, e o seu dono não esteve com meias medidas, atende logo ali, meio acocorado, e diz Liga mais tarde que agora estou na missa. Ora, pois nós também estávamos na missa. Eu só acho é que qualquer dia quem sai da missa é Deus.
quarta-feira, abril 17, 2013
Tens gostado da atitude ou atitudes do Papa Francisco?
Já lá vai mais de um mês que o Cardeal Bergoglio foi eleito Papa, o actual Papa Francisco. Desde o dia 13 de Março que as televisões, radios, jornais e redes sociais não se cansam de falar que ele fez isto e aquilo, que fez assim e assado, que disse isto e assim. Tem crescido um entusiasmo grande em volta da sua figura, mas, ao mesmo tempo, têm surgido críticas duras, sobretudo de uma certa ala mais liturgista e legalista no seio da hierarquia da Igreja. Tem deixado muita gente estupefacta, quer pela positiva, quer pela negativa. Algo está a mexer no seio da Igreja com este Papa. E tu, "Tens gostado da atitude ou atitudes do Papa Francisco?".
Convido-vos a darem razões da vossa escolha nos comentários.
sexta-feira, abril 12, 2013
Três perguntas e muitas mais
Num dia destes, numa homilia destas, a pensar numa sondagem que li algures, sobre coisas destas como a ressurreição, fiz três perguntas. Primeiro perguntei se acreditavam em Deus, e quase toda a gente, senão mesmo toda, levantou o braço cheio de certezas. Claro que supostamente quem está na missa acredita em Deus, mas nunca se sabe, dadas as tradições que temos coladas a nós. Baixados os braços, perguntei-lhes se acreditavam na Ressurreição de Jesus. E o mesmo número de pessoas, ou quase o mesmo, levantaram o braço com algumas incertezas, pois o ânimo da resposta pareceu, aos meus olhos, menor. Além disso, baixaram os braços muito depressa, como se fosse melhor assim. Fiz então a terceira e última pergunta, que era se acreditavam na nossa ressurreição. E o levantar de braços tornou-se lento. Medido ou incerto. Como se os braços não tivessem forças para se levantar sozinhos, seguros. O número de braços levantado também diminuíra. Quis convencer-me que foram os meus olhos que viram desta maneira. Porém, uns dias mais tarde, alguém me confirmou com os seus olhos. Senhor padre, levantei o braço nas duas primeiras e na última não. Outra pessoa, inclusive, disse que não levantara em nenhuma, pois eu levantara-lhe mais questões que aquelas que fizera. O assunto chegou aos cafés. Quero crer que os meus paroquianos ficaram a pensar, tanto quanto eu. Porque a Ressurreição é a razão principal da nossa fé que dá sentido à nossa Vida. E isso deve fazer pensar. Mas o que mais me intrigou foi a quarta pergunta, que só fiz a mim mesmo, e que se relacionava com aqueles que tinham levantado o braço na segunda pergunta e na terceira não o tinham feito. Porque havia de Jesus ter ressuscitado? E a esta pergunta respondi com outra. Apenas para mostrar o Seu poder?
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terça-feira, abril 09, 2013
é assim que me apetece ser padre
Começou por pequenos desabafos. Continuou num grande desabafo. Prolongou-se por vários meses em inúmeros desabafos ou inúmeras vezes o mesmo desabafo. Todos os dias procurava em mim uma resposta, uma palavra, uma atenção, um refúgio. Algumas vezes era maçadora, cansativa, exigente. Eu respondia à medida da minha disponibilidade. Mas respondia. Penso que até correspondia. Já lá vão vários meses, e há dias a pessoa que me contactava por email perguntou porque é que eu não a abandonava. Porque é que eu ainda lhe respondia às canseiras e desabafos. Se e porque é que eu precisava dela. E eu respondi de coração. Não te abandono porque Deus não te abandona. Quero precisar de ti porque Deus quer precisar de ti. Depois perguntou porque motivo eu era assim e dizia aquelas coisas. E eu respondi. Porque sou padre e é assim que me apetece ser padre.
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quarta-feira, abril 03, 2013
O leite que seca no cemitério
A barriga da Carla ainda não está proeminente, mas nota-se. A forma da barriga, para o vestido que a dona veste, parece dizer que está lá a pulsar mais alguma vida. Veio falar comigo à saída do carro, apressada, quando me deslocava para celebrar missa numa Capela que está ladeada pelo cemitério. Não nevava, mas fazia frio de neve. Por isso lhe sugeri que entrássemos na Capela para falar. Esta não tem Sacrário nem Santíssimo exposto, e com facilidade lhe fiz a proposta. Mas a Carla não podia. Não podia passar dos umbrais da porta que dão para a capela e para o cemitério. Umas senhoras de xaile na cabeça que ouviam a conversa piscavam os olhares entre elas e acenavam que era melhor não entrar mesmo. Não ouvi nenhum miar, mas achei que ali havia gato. Não seriam remorsos de falar na Capela, pois é habito fazerem-no, até ao exagero, como já assisti. Porque seria então? E no mesmo então fiz a pergunta. Diz-me lá, Carla, o que te impede de entrar. Meio corada, meio a olhar para as senhoras mais idosas, respondeu-me. Dizem que uma grávida não pode entrar no cemitério senão seca-se-lhe o leite. O gato fez-se sapato, e abri a boca num espasmo de admiração. Não conhecia o dito. Não conhecia a lição. Mas aprendi alguma coisa. Que a nossa vida está cheia de ditos que nos afastam ou podem afastar de Deus. Que uma grávida deve ter cuidados não só com a saúde, mas com a fé. A brincar a brincar ocorreu-me que as vaquinhas, coitadas, não podem nunca entrar num cemitério, correndo sérios riscos de deixarem de ser aquilo que são. Claro que ninguém as está a imaginar por lá a dar cabo dos arranjos das campas. Mais me ocorreu que faltava lembrarem-se de que uma grávida não deve entrar no cemitério, pois poderia ser prenúncio ou anúncio de morte ao nascituro. Não comentei nada disso. Seria um despropósito grande, que ainda agora acho que é. Mas a Carla acabou por entrar comigo através dos umbrais da Capela e do cemitério sem a anuência das senhoras de xaile. Fazia frio de neve e não queríamos gelar a conversa. Entrámos e ao que sei, até ao momento, àquela mulher ainda se lhe não secou o leite. Mas nunca se sabe.
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