Tenho um apetite enorme de dizer que se alguém tinha dúvidas da existência de Deus ou se alguém tinha dúvidas de que a Igreja era de Deus, apesar da chuva que cai, hoje tire o cavalinho da chuva. Através de homens, é certo, mas foi Ele que lá meteu o seu dedo de, não tanto um tudo pode, mas um pode com tudo, e escolheu um homem simples, com o mais simples das roupas a que é obrigado, com uma aparição que começa com uma inclinação perante todos os que estão à sua frente, com palavras de quem tem uma missão de ser bispo de uma Igreja e não o dono de um mundo, com palavras que todos entendem também ser suas, com um pedido de bênção e não com uma bênção pura e simples, com um pedido de oração não somente por ele mas por outros mais, com uma apresentação que nem é a sorrir que se farta nem é fria que se farta, pois que assim somos o comum dos mortais, com uma procedência longe dos habituais cumes do poder, lá de um continente que eu tinha escolhido interiormente se fosse eleitor, com um nome que lembra alguns dos que mais mostraram o rosto de Deus na História da Igreja, quer na vida desprendida quer na evangelização aos mais afastados, Francisco de Assis e Francisco Xavier.
Dizem coisas deste homem, e só saberemos com o tempo se são tão autênticas como queremos. Mas para já dá gosto saber delas. Que anda nos transportes como quase toda a gente. Que cozinha suas próprias refeições. Que deixou um palácio para morar num apartamento. Filho de gente humilde e trabalhadora. E por aí fora. Não quero saber tudo deste homem. Não sei bem sequer quem é. Sei que não era um papabile. Que não é uma escolha da comunicação social que tanto vaticinou, para o bem e para o mal, para os seus interesses e para os interesses de um mundo que não quer as coisas de Deus mas as dos homens. Sei apenas que ser alguém que não se contava, alguém que tem, segundo dizem, nem um para a frente nem um para trás, isto é, um sentido moderado das coisas, me faz pensar num Jesus que se preocupava mais com as pessoas que com as coisas das pessoas. Este saber faz-me bem. Faz-me bem pensar que Deus andou ali a trocar as voltas. Faz-me bem pensar que Deus vai na barca e não dorme, mesmo quando parece que o barco pode estar a afundar. É como se uma borboleta tivesse poisado no meu coração e continuasse a esvoaçar.
Repito que não sei bem quem é este homem e só daqui por bastante tempo saberei. Sei que tudo pode ser precipitado, como a chuva que está la fora, e que posso um dia ter vontade de levar de novo o cavalinho para a chuva. Sei que hão-de haver coisas, assuntos, resoluções que não me vão agradar. Sei que não se devem bater palmas ao santo, pois a procissão ainda vai no adro. Sei que este Papa continuará a ser um homem. Sei que a Igreja continuará feita de homens. Mas também sei que a Igreja é de Deus e não de um Papa ou dos homens.