quarta-feira, janeiro 23, 2013

Ser padre é um bom emprego

Conversa entre padres, numa daquelas refeições opíparas que se fazem num dia de folga. Ó pá, estou a pensar deixar de ser padre. Disse-o em tom de brincadeira, no meio do palavreado do colega que desabafava um problema da paróquia. Ai, e tal, tenho este problema, é uma chatice, estou cansado destas coisas, e vai que o tal padre, com os lábios a sorrir, num tom de galhofa, solta um Ó pá, vou deixar de ser padre. E um terceiro colega, assim de chofre e para completar o esgar galhofento do outro, acrescentou Não te aconselho, pá. Da maneira como estão as coisas, é melhor deixares tudo como está. Com a falta de emprego que por aí vai... e fez reticências a rir. Todos se riram e concordaram. Eu também. Na verdade, enquanto o comum das pessoas vai perdendo o seu emprego, nós vamos aumentando o emprego, isto é, aumentando o número de paróquias e trabalhos. E claro, não escondamos a peneira, pode não aumentar a generosidade das pessoas, mas aumentam o número das pessoas que são generosas. Ainda me lembro do outro seminarista a quem em tempos ouvi dizer que ia para padre porque tinha emprego garantido! E por mais que a gente diga que este não deve ser o motivo das nossas opções vocacionais, e por mais que se recorde que as ovelhas não são todas viçosas, a verdade é que a realidade é assim. E agora digo eu no meio de uma enorme gargalhada. Vale mais continuar como estou.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Um medo meu

As coisas nas novas paróquias estão a correr bem, escrevia eu há uns meses no meu caderno de ideias ou apontamentos só meus. Relativamente bem, escrevi a seguir. E refiz a frase. O padre é novo. Sabe sorrir. Dizem que sabe falar. Dizem que é dinâmico. Que a paróquia agora não pára. A comunidade parece viva, a viver. Um novo produto vende. A imagem também e a do padre não é má. Quero pensar que sim. Mas a verdade é que a imagem que queremos passar aos outros tem muito a ver com os medos que temos. Um dos maiores medos do mundo, senão o maior, é o medo do que os outros pensam de nós. E paralisa-nos. Chega a atrofiar o que somos, a apagar o que de melhor temos, ou ainda a apagar-nos. Criam em nós um outro eu. Tiram-nos a possibilidade de sermos livres. De sermos autênticos. De sermos. E por isso tenho medo de estar a preservar mais a minha imagem que a imagem de Deus. Tenho medo de não ser imagem de Deus.

sábado, janeiro 12, 2013

Os funerais fazem-me dor de estômago

Fico sempre com o coração aos pulos quando vem um funeral. Desarranja-me a vida e às vezes os intestinos. E não há funeral em que o meu coração não pule repetidamente, em tic-tac, e em acelerando. Porque é estranho ver as pessoas de luto, de escuro. Ver as pessoas com lágrimas nos olhos. Muitas vezes aos gritos ou gemidos. Fazermos o trajecto do cemitério. Darmos conta que alguns dos presentes só fazem acompanhamento, mais nada. Antes do funeral olho para baixo, para o trajecto que faço, para ver se me concentro em fazer o que tem de ser feito, dando algum ânimo às pessoas e muita esperança que vem da fé. Tremo quando penso que vem aí um funeral. Basta ver no ecran do telemóvel o número de uma funerária e já estou assim. Só tenho algum alívio quando deixo as pessoas no cemitério e corro para não estar mais lá. Dizem que os médicos, com o tempo, lidam com a doença e as pessoas doentes como se fossem apenas mais uma ou algo que manejam como o agricultor maneja a enxada. Mas eu não sinto que as centenas de funerais que já fiz deixem de pesar e deixem de me fazer sentir aflito. Ainda por cimo acredito na Ressurreição. Às vezes até me parece que acredito mais na Ressurreição que no próprio Deus. Podia dizer a mim próprio que é uma boa ocasião para pregar a Vida Eterna. Mas quer-me parecer que andarei aqui a vida eternamente com dor de estômago cada vez que tenho de fazer um funeral.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

A dona Olímpia e o menino Jesus da cabeleira

A dona Olímpia é tão boa, tão boa, que vê bem em tudo, porque vê com o coração dela que é bom. Já tinha reparado, mas há dias desfizeram-se-me todas as dúvidas. O que vou contar aconteceu numa destas tardes de inverno, depois de ter passado aqui pela paróquia um senhor especialista que veio investigar umas imagens de vestir que andam, ou melhor, estão aqui pelas capelas da paróquia. Uma dessas imagens era um menino Jesus que o meu sacristão deixou de cima de uma arca. Tratava-se de um menino Jesus com roupinha feita pelas senhoras da terra e uma cabeleira comprida, que ele merece. Aliás, não se põe cabelo ao menino se não for para se ver bem ao longe. Por isso que seja comprido. Era uma cabeleira que eu diria mais apropriada para um Senhor Jesus de barba rija, com carreiro ao meio e tudo. Mas pronto. Era, enfim, uma senhora cabeleira. Ora o malvado do padre, que sou eu, resolveu brincar com a cabeleira revirando ou remexendo o cabelo para o lado, isto é, deixando o carreiro ao lado, e fazendo com que a imagem parecesse mais um roqueiro dos modernos que outra coisa. E assim cada vez que alguém passava, o padre perguntava o que achava daquele Jesus moderno. As senhoras com a boca a tapar o riso, compunham de novo a cabeleira. Só que o padre teimava na brincadeira, até que apareceu a dona Olímpia. Vinha para me dar um pequeno recado, mas não se livrou da malvadez do padre e da cabeleira ao lado. Dona Olímpia, como vai a senhora, perguntou o padre sem a deixar dar o recado. E ainda sem receber a resposta foi logo indagando. O que acha deste menino Jesus com este penteado moderno, dona Olímpia. E a dona Olímpia foi logo dizendo. Ai tão lindo que ele está. Foi o senhor padre. Só podia. O senhor padre só faz coisas lindas. Disse-o de forma convicta, que eu sei e já falámos disso. Deu o recado. Saiu. E eu, envergonhado, compus a cabeleira, e pensei para comigo. Aqueles que tudo vêm com um coração sem maldade, não vêm a maldade das coisas.

sábado, dezembro 29, 2012

Pede um desejo para 2013

No início do ano 2009 eu postava aqui uma sondagem que proporcionava a oportunidade de pedir um desejo para esse ano. Passados que vão quatro anos, julgo interessante postar a mesma sondagem para verificar o que mudou. É certo que os "penitentes" podem não ser os mesmos. Porém, a conjuntura social é tão diferente, que poderemos tirar conclusões interessantes, mesmo fazendo comparações à anterior sondagem.
A proposta é: "Pede um desejo para 2013"
Como habitualmente, podem e devem justificar as vossas opções nos comentários.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

A Maria, o burro e a vaca

A Maria, que não é a mãe de Jesus mas é muito brincalhona, estava à minha espera no final da missa para me fazer uma pergunta importante e a propósito deste Natal. Ó senhor padre, diga-me lá uma coisa ou diga o que tem a dizer da proibição que o senhor Papa fez, aquela de que não podemos por o burro e a vaca no presépio. Não consegui conter a gargalhada e ela também não. Olha uma coisa destas, continuava. Então hei-de deitar o burro e vaca que lá tenho em casa para o lixo! Era gargalhada atrás de gargalhada, e não resisti a contar uma história verosímil que li algures e que, segundo consta, há uma qualquer referência dela no tal livro do Papa, “ A infância de Jesus”. Sabe, senhora Maria, na Bíblia não aparecem nenhum burro ou vaca nas passagens em que se fala do nascimento de Jesus. Nem uma referenciazinha sequer. Porém, a dada altura, a Igreja não quis deixar o menino sozinho com a mãe e o pai. Aliás, queriam que no presépio toda a humanidade estivesse representada. Vai daí que as melhores figuras que encontraram foi o burro e a vaca. E assim, a partir daquela altura, tanto eu como a senhora já estamos representados no presépio. Foi rir até mais não. Confesso que ainda não li o livro do papa, mas já li o suficiente para perceber que o Papa, tal como eu, aconselha a que nos centremos no essencial do Natal e da Vida. Não proíbe nada. Não bane o burro e a vaca do presépio. Mais, diz que nenhum presépio vai prescindir deles. Agora quem não quer que se queixe. Eu prefiro rir-me disto tudo e pensar que afinal nem estou nada mal representado no presépio. O que importa é estar por lá.
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Aproveito para desejar a todos um Natal cheio da presença de Deus!

quinta-feira, dezembro 13, 2012

É assim o braço de Deus

A senhora tem problemas de bronquite. Arfa ao falar. Veio ter comigo porque quer ir para o céu. A história da sua vida não tem sequer muitos erros ou pecados. Mas vive ensombrada pela ideia de não ir para o céu. Vive, como a bronquite, aos soluços. Tenho medo de não ir para o céu, senhor padre. A questão é recorrente, nela e em muitos mais com boa intenção de viver ou de morrer. Lembrei-me logo da Rosária, que nas minhas antigas paróquias, vivia abafada pelo medo de não ir para o céu. Ocorreu-me perguntar se ela sabia que Deus era amor. E se confiava no seu amor. Ela respondeu-me que sim, claro que sim. Então confie que o Amor Dele há-de ser maior que o seu medo. Há-de ser muito maior que as suas faltas. Perguntei-lhe se confiava no seu marido, e ela respondeu prontamente que sim, embora, às vezes, fosse muito rabugento. Acrescentei mais uma série de perguntas. Se o marido a visse caída no chão, que lhe faria? Deixava-a lá caída? Virava-lhe as costas? A cada pergunta ela respondia prontamente que o seu marido nunca faria uma coisa dessas porque a amava muito. Ora se o seu marido, porque a ama muito, não a deixaria caída no chão, imagine o que faz Deus cada vez que nos vê no chão! Se confia em Deus, confie também que sempre que a vir caída, Ele a ajudará a levantar-se. Quando se confia em alguém que nos ama, sabemos que por maior que seja a nossa queda, essa pessoa vai lá estar para nos dar o braço e levantar-nos. É assim o braço do Deus que nos ama infinitamente.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Mais uma estrela no presépio deste Natal

Neste preciso momento as lágrimas correm-me pela face sem dó nem piedade, donas de mim e donas deste momento só meu. Estou confuso e elas não estão a limpar nada. Correm-me pela pele sem caminho. Limpo uma, mas depois vem outra, como duas amigas que para onde vai uma vai também a outra. Uma atrás de outra, porque querem contar uma história e não lhe querem dar um fim ou colocar-lhe um ponto final. Estou aqui sozinho com as minhas amigas lágrimas, porque hoje faleceu um grande amigo e não sei como lhe dizer que não queria. E não sei como lhe pedir que volte um dia atrás e me diga a certeza de que o Pai o queria chamar porque neste Natal precisava de mais uma estrela no presépio. Tinha sido meu aluno no Seminário. Tinha sido meu companheiro de lides pastorais. Tinha vinte e sete anos e nada fazia prever que seriam só vinte e sete. Não tinha doença aparente. Só tinha vinte e sete anos. Tão poucos anos para serem, apesar disso, uma grande vida. Muito mais novo que eu. Mas com uma vida muito mais bela que a minha. E digo-o envergonhado, às escondidas, porque um dia me disse que me devia muito da sua vida. Disse-o repetidamente, em várias ocasiões, como se quisesse dizer-me que, acontecesse o que acontecesse, a sua vida foi um pouco da minha. E agora não consigo sequer gritar. As lágrimas não deixam. Tenho as veias por cima das faces a rebentar porque não consigo perceber o que o Senhor me quer dizer desta vez. Andei todo o dia como se não estivesse nem lá nem cá, até que me sentei depois da comunhão, na missa da minha paróquia, e me lembrei do que ele me disse tantas vezes e que agora não entendo, porque não sei o que é dever muito numa vida que só teve vinte e sete anos e que ainda tinha tanto para partilhar, mesmo na Igreja e para Deus. Ou o que significa ajudar alguém a ser como é para que isso dure muito menos que a minha vida. Ou se o Senhor me quer recordar que não devo correr na vida, de trás para a frente, porque ela é que corre. Ou se me quer ensinar a valorizar cada segundo e cada amigo da minha vida. Ou se me quer dizer que os meus são mais dele que meus. E apesar de toda a minha fé e da certeza que tenho na vida eterna, não consigo limpar todas as lágrimas, pois são muitas. Quero pensar que o meu amigo de vinte e sete anos está no céu a rir-se comigo e para mim. Porque ele era assim. Um jovem que dava importância a cada coisa bela da sua vida na certeza de que Deus estava por detrás delas. Porém, neste ponto desta história, não consigo senão chorar e querer que não tivesse sido assim.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

O padre dos funerais

O padre António, chamemos-lhe assim, dado que tal como há muitas Marias, também há muitos Antónios no mundo, está a paroquiar seis terrinhas do interior, daquelas que só enchem as casas vazias por altura do verão com os emigrantes que regressam às suas paredes. O padre António diz, com pouco orgulho disso, que é o padre dos funerais, como se isso lhe estivesse colado à pele. No ano passado fiz oitenta funerais e zero baptizados. Acrescentou para explicar o atributo. Não sei o futuro daquelas terras. Não sei o futuro da nossa terra. Nem sei o futuro da Igreja, pois que sem nascimentos também não podem haver vocações ou cristãos jovens. Acenei que sim para concordar e que não para demonstrar desagrado. Um senhor que está ligado a essas coisas, dizia-me há dias, em números, a situação do concelho onde moro agora. Desde o início do ano, já lá vão portanto cerca de seis meses ou meio ano, morreram mais de cento e vinte pessoas, o que dá quase um funeral por dia, e nasceram doze crianças, o que dá cerca de duas crianças por mês. Números à parte, o que quererão os homens desta terra? Considerações à parte, o que vai fazer Deus com esta terra?

quarta-feira, novembro 28, 2012

O Henrique e os tamanhos a mais de algumas pregações

O Henrique mora nas minhas paróquias, perto da casa da mãe onde costumo ir comer de vez em quando. São gente que se nota ao longe a sua beleza. Gente que não olha a muitos meios para amar à maneira de Deus. E por isso ali vou quase todas as semanas partilhar do seu comer. O Henrique é filho desta gente e irmão da Luísa. O Henrique, que andou num colégio de padres, deixou de ir à missa. Deixou-se destas coisas, embora ache que gosta muito de Deus. A Luísa vai à missa, e deixou-se deslumbrar por este padre que lhe está a mostrar um rosto diferente de Deus, diz ela. Que a está a encantar com as suas palavras na homilia, com os seus gestos fora da missa, com as coisas que vai criando ou incentivando, com a forma como acaba por ser, de certo modo, exigente à maneira de Cristo. Enfim, pela boca dela, poderia enumerar uma série de coisas do padre novo que está nesta paróquia que é minha. Tem contado ao irmão este seu sentir. O Henrique, apesar de ser gentil, faz cara de desconfiado. Mas há dias teve, por força da proximidade, de ir à missa onde se baptizava um sobrinho. Até aqui tudo normal. Quando o vi, e por saber da sua mais ou menos renitência em ir à missa, achei que estava na hora de lhe pregar um “susto”, entre aspas. E pelos vistos, consegui. Umas horas depois da missa tivemos oportunidade de conversar, eu o Henrique, ao que ele me disse que estava assim como que de boca aberta. Já tinha visto e conhecido muitos padres, mas a irmã afinal tinha razão. Era um comunicador excelente. Não só falava claro, como quase obrigava a que se estivesse muito atento. Criava um suspense no que dizia. Tinha um raciocínio lógico. Numa palavra, ficara deslumbrado. Eu ouvi com uma certa alegria. Vá, na verdade foi mais um certo gozo. E como se não bastasse, mostrei-me muito de acordo com ele. E no meio de um discretíssimo Mas o mais importante não é o como disse, mas o que disse, ainda me dei ao desplante de acrescentar mais uns atributos à minha homilia. Não a mim, não. Repito que foi à minha homilia! Que ela tinha um princípio, meio e fim, que me saía com naturalidade, que gostava de estar a falar com as pessoas e não para as pessoas, e até certo ponto eu poderia ter razão. Só que a perdi completamente, quando, de um momento para o outro, se deu o inesperado. De cerca de um metro e setenta, passei a ter seis metros e setenta. Fiquei a um palmo do teto da casa. O meu tamanho deveras não cabia em mim. Não lhe disse, mas informei-me, para o caso de eu não ter reparado, que assim é que valia a pena ser padre. Mas quando cheguei a casa, com tanto inchar, com tanto metro a mais, ia-me espalhando ao comprido na entrada da minha humilde casa porque tive de me debruçar para entrar. E de repente, aquele que tinha seis metros e setenta, ficou com pouco mais que seis centímetros. Que vergonha ter caído na tentação de me colocar à frente de Deus, de ter ousado querer um prémio em troca da pregação da Palavra e do Reino de Deus. Como se o importante não fosse aquilo que pregava, mas aquele que estava a pregar, o pregador. Deixai-me ao menos terminar com o meu tamanho normal. Cerca de um metro e setenta.