O assunto era padres. Padres para aqui, padres para ali. Aquele padre assim, aquele padre assado. A mesa era de madeira e não era muito grande. Albergava-nos uns cinco. A senhora Cecília era a convidada de honra. Morava numa casa grande numa vila próxima que não lembro o nome. Só lhe recordo o nome e o rosto arranjado. Pareceu-me uma mulher simples. Mas não daquelas mulheres simples do campo. Uma mulher simples no trato, na compostura, na forma de lidar com os assuntos. Os filhos eram doutores na capital. O marido já tinha morrido. Quando falava, todos se calavam, porque usava poucas palavras, e a maior parte delas faziam pensar. Estava sentada ao meu lado. Eu também fora convidado. Lado a lado a atenção das conversas. A do padre e a da Cecília. O padre, que era eu, porque tinha sempre na ponta da língua uma graçola ou uma forma engraçada de clarificar as coisas, ou então porque era o padre e o assunto eram os padres. A Cecília porque, como disse, falava para dar que pensar. Não falávamos propriamente mal dos padres, mas do que era ser padre, porque se ia para padre, a ideia que as pessoas tinham dos padres. A determinada altura a Cecília não esteve com meias medidas, deixou-se de poucas palavras, e arrematou. É uma das profissões mais fáceis de serem exercidas actualmente. Casa grande. Carro do ano. Empregada diariamente. Mestrados e doutorados pagos e com acesso facilitado. Estatuto social e religioso. Não há quase ninguém para atender, pois atendem mal. Em zonas pobres, sacerdócio é sempre uma excelente oportunidade para se livrarem das dificuldades financeiras, da lavoura, do trabalho duro. Infelizmente, mas verdadeiro. Pelas minhas bandas, não se vêem padres com espiritualidade. Muito menos com real vontade de atender aqueles que os procuram. Na minha opinião, não devem ter entrado no Seminário por vocação, mas por fuga. Todos se calaram, e fez-se um silêncio durante uns segundos que pareceram mais que sessenta. Eu disse que não era bem uma profissão. Que se tratava de uma vocação. Disse que a casa grande onde morava não era minha. Era da paróquia. Mas ia dar ao mesmo. Que o meu carro tinha quatro anos. Que tinha uma senhora que ia lá a casa fazer a limpeza mais ou menos de quinze em quinze dias, e que era eu que lhe pagava. Que não tinha nem mestrado nem doutoramento. Que o meu estatuto era o do meu trabalho. Que vinha de famílias da classe média. Tentava, a todo o custo, justificar cada frase da Cecília. Cada expressão. Mas a verdade é que este assunto me pôs a pensar. É que a Cecília falava sempre para dar que pensar.