Quando a Maria me veio contar o que a filha fizera, que insinuara bater-lhe, que berrara para que meio mundo ouvisse, que fugira de casa, que partira para parte incerta com a certeza de que não voltaria, deixando a mãe com a sensação de que o cordão umbilical já não seria mais usado e que teria de guardar no esquecimento tudo o que à filha dissesse respeito, inclusive os seus erros e opções mais que erradas, não soube dizer mais do que as respostas que tinha prontas, na minha língua.
Depois cheguei a casa e bati a porta três vezes. Abri a primeira e achei que batera com a força certa. Abri segunda, e a força fora suficiente. Mas bati terceira para ter a certeza de que era essa a força que queria utilizar. Sentei-me na cama, de cócoras, com as mãos a segurar a raiva. E perguntei a Deus que há-de fazer um padre que as pessoas procuram a horas e desoras porque esperam que o padre fale a solução certa, porque estão habituados a ouvir as certezas que o padre tem habitualmente prontas, na ponta da língua e do Espírito Santo, porque sabem que ele é um homem de Deus e Deus há-de soprar-lhe ao ouvido, porque o padre é padre e é para isso que o padre serve. Porque padre é padre e ponto final.
Estou cansado de abrir constantemente aquela porta, que bati três vezes com força, para responder as coisas certas às pessoas, quando eu procuro mais que a resposta certa e não a encontro. Que dizer quando já não se sabe o que fazer, Senhor?