quarta-feira, outubro 27, 2010

Um grande padre

Há tempos escreveu-me falando sobre a sua atracção pelo padre da paróquia e sobre a dúvida em contar-lhe tudo. E a minha opinião foi que não contasse. Que tentasse ultrapassar sem nada revelar. Dizia que talvez fosse melhor para ambos. Que talvez fosse mais fácil para ele não perceber. Que talvez e outro talvez e outro, nas certezas ou dúvidas que tinha no que estava a dizer-lhe. A certeza do que seria melhor para a Igreja, para o sacerdote, e a dúvida do que seria melhor para a mulher e para o homem. Mas disse o que se me ofereceu dizer no momento. Ela deu-me, depois a razão, e agradeceu. De facto não tinha sequer coragem para enfrentar as consequências desse amor.
Ontem escreveu-me assim e eu copio quase na íntegra e com autorização.
Hoje vou revelar como o tempo passou e o sentimento não passou. Antes cresceu ao ponto de não conseguir contê-lo. Por e-mail contei-lhe tudo. Ao que ele me respondeu. Não é pecado se apaixonar. É uma coisa que não se pode evitar. Pecado é ir contra a vontade de Deus. Por isso, temos de perguntar a Deus para que suscita estas coisas, e estar atentos para não escolher o caminho errado, que não faria nenhum dos dois felizes. Por isso acho que a distância pode ser útil. Com o tempo, tudo ficará claro. Depois voltaremos a falar. Cuida-te. Um beijo. Deus te abençoe.
Perguntava no final o que eu achava. Eu não achei muitas palavras para dizer. E escrevi-lhe com poucas. Esse padre é um grande padre!

quinta-feira, outubro 21, 2010

As desavenças entre a Senhora de Fátima e a Imaculada

Trazia o avental à cintura. Entrara pela porta lateral, porque estava entreaberta. Cuido que se estivesse aberta, não entraria, pois o mistério da porta aberta não se compara com o mistério da porta entreaberta. Entrou, disse Bom dia, viu e retorquiu. Olhe que Nossa Senhora de Fátima não pode ficar ao lado da Imaculada Conceição.
A capela tinha estado em obras e tínhamos decidido recompor algumas das coisas, nomeadamente a posição e localização das imagens. As obras são sempre ocasião para recompor coisas.
Intrigado e, digamos, aborrecido pela intromissão de quem só tem opiniões para dar mas não para fazer, perguntei. Porquê, senhora Ascensão? Ao que me respondeu Porque elas não podem uma com a outra. Não se dão bem. Se dissesse que não ficam esteticamente bem uma ao lado da outra, até poderia aceitar. Mas que não se dão bem!
O senhor João, que estava ao meu lado, e por seu lado, soltou-se, no meio de uma gargalhada, Então o padre não sabia que a Nossa Senhora de Fátima não quer nada com as outras, porque ela é portuguesa e as outras não? E contou-me que as desavenças eram antigas e não se resumiam a estas duas, mas a uma série de nossas senhoras. Ao raciocínio acrescentei aquela de que a Senhora do O não podia estar ao lado da Senhora do Ai porque ainda estavam uma série de letras do alfabeto no meio. Rimos despregadamente.
A senhora Ascensão não entendia. Por isso acrescentou. Olhe que já no tempo de minha avó já diziam que colocando uma ao lado da outra, alguma poderia cair do trono e era certo e garantido um ano de desgraças.
Não coube mais em mim, e entendi donde vinham as desavenças antigas. Vinham da cabeça de alguns cristãos que mais nada sabem do que viver a fé com superstição.
Expliquei-lhe que eram a mesma e que por isso não se iam zangar consigo próprias. Mas ela não entendeu e saiu deixando a porta aberta. Quando estamos zangados, ou batemos a porta ou a deixamos aberta. Nunca a deixamos como estava.
É por estas e por outras que não deveríamos dar tantos nomes a Nossa Senhora.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Procissão da conversa

Estava em Fátima, num daqueles dias em que a procissão das velas não se faz no recinto, mas a caminho dos Valinhos. A procissão demorou bem umas duas horas. Diga-se àqueles que gostam de procissões que aquilo é que é uma festa rija. Não há filas, porque as pessoas são muitas. Vão umas atrás das outras, com a sua vela na mão e, presumo, o terço na outra.
Fiquei para trás mais um colega. Rezava-se o rosário. Bastou sair do Santuário para não mais se perceber o que se estava a fazer. O ruído era tanto, as conversas paralelas eram tantas, que tivemos de avançar para a frente. De novo o mesmo. E de novo, repetida a movimentação, o mesmo. Por mais que quisesse rezar, encontrava sempre alguém a importunar. Por fim, já no grupo que seguia o altifalante, era eu que me importunava de pensamentos.
Que veio esta gente fazer aqui? Centenas de pessoas a seguir as palavras do terço, a imagem de Nossa senhora, e apenas se faz aquilo que apetece fazer, conversar. Bem dizem as sondagens. Somos cristãos porque sempre seguimos esta fé. O que eles não sabem é que a fé não se segue, mas vive-se.

quarta-feira, outubro 13, 2010

A maior dificuldade da Catequese hoje é...

No início de um novo ano pastoral, e enquanto os párocos, no meio de tantas dificuldades, tentam organizar a Catequese na Paróquia, veio-me à cabeça uma questão de todo pertinente. Gostava, pois, de saber a vossa opinião indicando qual a maior dificuldade que enfrenta a Catequese dos nossos dias. Refiro-me em concreto à Catequese da Infância e Adolescência, que vai do 1º ao 10º ano. Se acaso a tua resposta não se encontra assinalada nas opções, deixa aqui a tua opinião. Mais, poderás explicar aqui o motivo ou motivos para essa opção.
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deixei algumas pequenas observações às sondagens anteriores que agora estão aqui

quarta-feira, outubro 06, 2010

As dicas e tricas de uma paróquia

Vem uma, e faz queixinhas da outra. Vem a outra e faz queixinhas de outra. Temos de medir todas as palavras, porque senão justificam-se que o padre disse aquilo. Mesmo quando não disse, sujeita-se a que se convençam que disse. Quando não gostam da pessoa A, não se coíbem de inventar que disse ou fez. Derrubam-se uns aos outros com as verdades que sonham. E cruzam dados. E cruzam ses e pois e claros e já desconfiava. Quanto menos têm que fazer, mais têm que imaginar e dizer. Se trabalham numa fábrica e não têm com que ocupar a boca, usam a língua o mais afiado que podem. Se vêm à rua e encontram a vizinha, dão largas à amizade com uns dedos de conversa a apontar para onde calhar. Se passam o tempo no café e não têm dinheiro para mais uma bica ou uma cerveja, têm de arranjar um trago de maldizer para que a garganta não seque. Os cafés são geralmente os antros de maior maldizer. Qualquer pessoa fica sujeita a estas dicas. Porque hoje são uns e amanhã outros. Todos passam pelo crivo das tricas. Mesmo os que têm a língua maior. No final da missa trocam cumprimentos. Parece que a missa cumpriu o seu papel de comunhão. Mas nesse mesmo abraço vai muitas vezes o Se te apanho. Ou então o Já viste aquele ou aquela. E assim vive uma comunidade. Seja paroquial ou não. Quanto mais pequena, mais sujeita fica às dicas e tricas. Em cada semana aparece novo assunto. Assim se alimentam as dicas e tricas. A paróquia, o paroquiano tal e o padre são sempre alvos para as setas afiadas das dicas e tricas. Temos de ser fortes. Digo aos mais atingidos. Temos de pensar em Deus e que a Ele temos de agradar. Temos de ter compaixão pelos que falam. Rezar por eles. Porém, às vezes, até essas palavras têm de ser medidas, porque o padre disse aquilo que eu agora quero dizer.
Um dia Jesus disse que um profeta não era bem-vindo na sua terra, e na ocasião, conta o Evangelho, deixou de fazer muitos dos milagres que queria, porque não era bem interpretado. Às vezes os nossos padres e muitos dos nossos leigos deixam de fazer muita coisa porque não querem alimentar as dicas e tricas de uma paróquia.

sexta-feira, outubro 01, 2010

A minha tarefa

(IN)COMPLETA 1
autoria Alexandra
Bateu à porta dez vezes seguidas. Ou por falta de respeito, ou por pressa, ou por acumulação de nervos. Abri a porta de rompante. Não conhecia o rapaz. Teria os seus dezoito anos. Cabelo desgrenhado, à moda. Calças rasgadas no joelho, à moda. Piercing na sobrancelha, à moda. O suor aparentava a corrida. Preciso falar, padre. Preciso que alguém me ouça. Ao primeiro olhar, apeteceu-me dizer que estava ocupado. Não era pela apresentação, mas pelo tom da voz. E foi o mesmo tom que o deixou entrar para o escritório. Imaginei tudo e mais alguma coisa. Álcool. Droga. Sexo. Fuga de casa. Falta de dinheiro. Mas o tom da voz fez-me pensar naquele Cristo que nós queremos ser. Entra em minha casa. Procurai e abrir-se-vos-á. Sentou-se logo, sem pedir licença. Sentei-me também. E disse para mim. Confia em Deus. Disse-lhe o mesmo. Confia em Deus. Sabe, vim agora de estar com outro padre que me fechou a porta. Não me deixou entrar em sua casa. Quis esquecer o tom de voz, mas ela ecoava nos meus ouvidos. Por momentos fechei os olhos... Pensei no outro. Na porta fechada. Estremeci e abri os olhos. Continuava ali sentado. O seu rosto tornava-se inexpressivo. Apenas umas lágrimas silenciosas iam caindo. Olhei-o sem o ver. Hesitei e duvidei. Fiquei parado, impotente. Aquela expressão de infinita solidão, de abandono, fez-me lembrar Ele. Lentamente levantei-me. Ele assustou-se. Não me mande embora. Não, só te quero abraçar. Estendi os meus braços fortes para aquele corpo frágil. Compreendi que aquela também era a minha tarefa: a mesma que escolheste para Ti. Dar a vida pelos outros. Os minutos passaram. Não ouve palavras... fiquei ali parado simplesmente a abraça-lo. Fiquei no mesmo lugar depois de ele sair. As minhas pernas quebraram, lentamente os meus joelhos tocaram o chão. Uma lágrima desceu pelo meu rosto. Uma lágrima de gratidão. Obrigado por me fazeres semelhante a Ti.
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E aqui está a minha escolha. Foi difícil efectuá-la, dada a diversidade de assuntos, conlusões, reflexões e escritas que aqui colocastes. Escolhi a da Alexandra (A Minha Tarefa) pela identidade e personalidade do confessionário captadas. Gostei que me colocasse assim. Tomara ter sido verdade.
Gostaria de mencionar honrosamente a TiAna (Corda Bamba) e a Joana (Nossa Igreja). Não escolhi a Joana porque assumi que apenas escolheria um texto. Não escolhi a TiAna por uma questão de escrita, pois eu não costumo usar muitas reticências. Além disso falta um final que seja resposta.
Acrescento ainda que alguns dos textos necessitariam, a meu ver, deste tipo de final que fosse resposta ou que obrigasse a uma reflexão mais profunda ainda. Porém, gostei muito do que li. Espero que o resto dos meus "penitentes" também tenha gostado. Há por aí muita gente a pensar parecido comigo, a sentir parecido comigo, a escrever parecido comigo. E foi muito interessante perceber como é possível conduzir um texto para muitos sentidos e sensações. Obrigado a todos. Qualquer dia repetimos a experiência.
Abraço amigo a todos os que contribuiram para a (In)completa 1

sábado, setembro 04, 2010

(in)completa 1

Bateu à porta dez vezes seguidas. Ou por falta de respeito, ou por pressa, ou por acumulação de nervos. Abri a porta de rompante. Não conhecia o rapaz. Teria os seus dezoito anos. Cabelo desgrenhado, à moda. Calças rasgadas no joelho, à moda. Piercing na sobrancelha, à moda. O suor aparentava a corrida. Preciso falar, padre. Preciso que alguém me ouça. Ao primeiro olhar, apeteceu-me dizer que estava ocupado. Não era pela apresentação, mas pelo tom da voz. E foi o mesmo tom que o deixou entrar para o escritório. Imaginei tudo e mais alguma coisa. Álcool. Droga. Sexo. Fuga de casa. Falta de dinheiro. Mas o tom da voz fez-me pensar naquele Cristo que nós queremos ser. Entra em minha casa. Procurai e abrir-se-vos-á. Sentou-se logo, sem pedir licença. Sentei-me também. E disse para mim. Confia em Deus. Disse-lhe o mesmo. Confia em Deus. Sabe, vim agora de estar com outro padre que me fechou a porta. Não me deixou entrar em sua casa. Quis esquecer o tom de voz, mas (...)
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Se queres ser tu a decidir o rumo das histórias e textos deste "Confessionário", então o "(in)completa" é para ti. Terás oportunidade de imaginar o final do texto e seres o seu autor. Aliás, o melhor final será publicado como post. Considero que esta é uma nova etapa do Confessionário, pois o "(in)completa", como lhe vou chamar, pretende ser um novo espaço para uma participação mais activa de cada "penitente". Ao mesmo tempo, servirá as ocasiões ou épocas em que a minha disponibilidade for menor, como é agora o caso, dado que vou estar de férias.
As regras são simples:
  1. Para participar, deves enviar o teu texto como "coment"
  2. deves dar um nome ao texto (com maiúsculas)
  3. deves repetir a última frase na íntegra, retirando as reticências.
  4. deves assinar no final, mesmo que seja com pseudónimo
  5. deves esforçar-te por não alongar muito o texto (no máximo 600 caracteres, isto é, cerca de 125 palavras)
  6. deves respeitar o espírito e personalidade do "Confessionário dum Padre"
  7. se o texto for, de alguma forma, abusivo, não será publicado
  8. podes participar com o máximo de 3 textos

N.B. Também poderás comentar nos coments os textos dos participantes; se achares necessária mais alguma regra, informa-me!

Obrigado, amigos. E boas férias!

sábado, agosto 14, 2010

Que dizer quando apetece berrar ou calar?

Caminho a passos largos, desconcertados e rápidos. Vou ao confessionário falar com o padre. Entro e bato a porta. Não é com força, mas ouve-se bem a inquietação. Estou dum lado para falar. Estou do outro para ouvir. Dirijo-me a mim próprio e digo como é isso? Que dizer daqueles que vão acompanhar o falecido no funeral, mas que ficam do lado de fora da Igreja, acompanham o caminho até ao cemitério em amenas cavaqueiras com os parceiros que se colocarem ao lado e que precisam por as conversas em dia. Ou as mexeriquices. Chegam ao cemitério. Encostam às boxes. Do lado de fora do muro. Continuam a cavaqueira. Acabam as exéquias e regressam com a consciência tranquila para casa. Que dizer?! Que dizer daqueles que enchem as igrejas na bênção dos ramos, mas são capazes de sair após a bênção. Ou vão naquele dia e não aparecem em outro. Que dizer daqueles que querem e exigem baptizar os seus filhinhos queridos, de preferência quantos antes. O antes que aconteça algo. E não colocam sequer a hipótese de casar com a bênção matrimonial de Deus. Que dizer daqueles que enchem a praça para ver a procissão passar, porque tem de passar, e eu tenho de estar para ela passar. Tão só isto, que eu não preciso caminhar na procissão e muito menos ir à missa. Gosto mais dos santinhos a passear do que Deus lá na missa. Que dizer daqueles que batem no peito porque têm um peito do tamanho da religião, mas depois vivem apontando os dedos, atirando nos outros com os seus murmúrios e comentários?
Como é isso?! E como é aquilo?! E aqueloutro ou aqueloutra coisa?! Que cristãos são?! Que amigos são?! Que gente é?! Que respeito possuem?! Que rituais cumprem?! Que orações cumprem?! Que enganos professam? Que vida vivem?! Que fé é essa?!
Acho que a palavra Fé soou mais alto porque do lado de dentro dei um salto na cadeira. E, do lado de fora, esperei pela minha resposta. O que obtive? Um longo silêncio.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Estou a ficar velho

Olho para o meu pai e penso. Estou a ficar velho. E depois penso na vida que não tem tempo. Ou tem um tempo que se vive, mas que não é a vida. Engraçado que fazemos tudo para medi-lo como se fosse a vida. Medimo-lo com segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, mas ele é sempre um algo que está a passar. Ainda agora era e já não é. Por isso apenas dou conta que deve existir um tempo, mas que a vida não anda com ele. A vida é mais do que o tempo. Está para além do tempo. Depende mais de nós do que do tempo. Depende mais de Deus do que do tempo. Depende mais da intensidade que da longevidade.
Estou a ficar velho. Aliás, estamos sempre a ficar velhos. E ponto final. Mas até aqui não pensava nisso e agora penso. Essa é que a é a diferença. Aqui há uns anos atrás, sentia que ainda tinha muito para viver e não pensava senão em viver. Ou melhor, nem pensava que tinha muito para viver. Simplesmente vivia. Agora começo a pensar que rapidamente a vida corre e nós somos apenas quem a vive neste tempo que, constantemente, ainda agora era e já não é.
Não tenho medo de morrer. Já há muito que tenho a certeza de que esse momento é a plenitude da vida e do amor. A plenitude do encontro com Deus. Mas existe algum temor dentro de mim perante aquilo que posso perder entretanto. As forças, as capacidades, as energias, a memória, a elegância, a sensatez. Resta-me a certeza de que as virtudes não se perdem. Porém, quando estiver reduzido às virtudes e àquilo que os outros podem fazer por mim, que será desta missão que Deus me entregou? Que será da minha vida? Como me poderei ainda gastar nela? Que me pedirá Ele que eu faça ou seja nessa ocasião? Que tempo será o meu?
Olho para mim e penso. Estou a ficar velho.

sábado, julho 31, 2010

O caso descaso!

Dirijo-me à conservatória do registo civil. Vou apressado porque é o último dia para entregar a acta do casamento de sábado. Temos três dias úteis para o fazer. Esqueci de retirar os óculos de sol. Está um calor insuportável. Entro e tudo se faz escuro. Continua, porém o calor. Estavam várias pessoas na fila de espera. Os padres já são conhecidos por tantas actas que entregam. Apesar de ser uma entrega simples e rápida, não quis ultrapassar ninguém da fila. Porém, de entre o escuro reconheço uma paroquiana. Olhamos um para o outro. Por aqui, padre? E tu também por aqui, Sofia? São as perguntas óbvias, como se não tivéssemos percebido que estávamos lá. Eu tinha a desculpa dos óculos escuros. Ela tinha a desculpa de estar de costas. Mas fizemos a aproximação normal das pessoas que se conhecem bem. Então que faz? Perguntou. Trago uma acta de casamento. Por acaso é do casamento deste sábado na paróquia. E tu? Trabalha num escritório de advogados e trazia um pedido de divórcio. Fiquei incomodado. Mas está a tornar-se normal e, sem querer, tentamos que seja normal para nós. Conheço? Tornei. São o José e a São, padre. Os do supermercado. Os meus olhos estavam cobertos pelos óculos e foi o que valeu. Mas fez-se ainda mais escuro e mais calor. Enquanto acrescentava um casal ao número dos casados, na mesma hora ela acrescentava um casal ao número dos divorciados. Não era propriamente novidade que as coisas não andavam bem, pois já os tinha escutado a ambos. Mas não pensei que as minhas palavras e orações não tivessem o efeito desejado. O diálogo gerou-se a partir do caso e descaso das pessoas. O caso hoje e descaso amanhã. A admiração dos que duram mais de dez anos. A admiração pelos que duram dezenas de anos. O conservador explicava que ganhava mais com os divórcios. E eu disse que as famílias, os filhos, a sociedade perdiam. Olhe que se calhar temos mais divórcios por ano que casamentos, padre. Acrescentou. A conversa prolongou-se. Mas fugi dali assim que consegui. Pena que não deixei lá a conversa. Entrei no carro. Continuava muito escuro e muito calor.