A aula estava, como sempre, em rebuliço. Eram miúdos complicados, mas gostavam de aprender a vida. Demoravam a sentar nas cadeiras. Demoravam a assentar o silêncio. Porém, passados que fossem cinco minutos, prestavam atenção ao que eu falava. Só que mais não fosse, para me poderem confrontar e questionar. Para me medir o pulso. Hoje em dia os jovens são muito assim. Dispersos, mas com sede de perceber a sua vida. E no meio de uma situação normalíssima de uma aula de EMRC o Luís soltou descaradamente a pergunta. Ó stor, não lhe custa essa coisa do celibato? Como é que o stor aguenta? Não tinha absolutamente nada a ver com o assunto da aula. Mas respondi no segundo seguinte, como resposta à sua pergunta, que ainda era novo. Todos franziram as orelhas. Pois, por isso mesmo, stor, disse outro. O stor ainda é novo. Quando for velho é que vai ser mais difícil, acrescentei. Ó stor, retornou o Luís. Atão mas agora, que é novo, não será mais difícil?! Os olhos estavam todos à espera que explicasse. Não tinha sentido algum a minha afirmação. De novo é que a gente tem as hormonas aos saltos! Deixei que a sala parasse. Virei costas e escrevi no quadro, enquanto perseguiam o barulho do giz: Quando tivermos menos forças, será mais difícil encontrá-las.
sábado, setembro 29, 2007
quinta-feira, setembro 20, 2007
A chaveira
Eu já disse que os santinhos têm de vir para aqui, refilava comigo. Era a chaveira, termo inventado por mim para quem têm as chaves das capelas para mais ou menos tomar conta delas, dar uma visitinha de vez em quando, fazer uma limpeza aqui e outra ali. Moram perto da mesma e quase sempre encontram afinidades com ela. O pior é quando a afinidade se transforma em posse. É a fronteira entre a responsabilidade e o poder, o serviço e o uso. Acontece muito. Quero aqui as imagens, já disse. Elas tinham sido retiradas por motivos óbvios. Primeiro porque havia sido indicação do especialista de arte sacra que tinha recuperado o altar e as imagens, insinuando que a morada destas era desadequada. Segundo porque o Conselho Económico decidira levá-las para um local mais adequado. Bastava esta, desde que sensata. Perguntei-lhe com que autoridade fazia aquela exigência. Ia sorrindo e tentando que as palavras não fossem ofensivas. As delas também, reconheço. A senhora esforçava-se para não fazer alarido. Perguntei-lhe se eram dela as imagens. Se sabia que antes de ali estarem haviam estado noutro local. Roubaram-mas, repetia. Olhe que eu deixo de tomar conta da capela. Depois da exigência vem a chantagem. Depois da chantagem, muitas vezes, a desistência para que os outros não pensem que somos fracos. Não entro nessa. Respondo que eu não funciono dessa forma. Apesar dos esforços, os decibéis iam subindo. Havia gente por perto. Tínhamos acabado a Eucaristia. Alguns davam-me os parabéns, pois fazia anos de sacerdócio. O ambiente estava estranho, bom e pouco bom. Num dos poucos segundos de silêncio, esbocei um desejo a Deus. Livra-me rápido desta. Estás distraído? Logo hoje. Nem hoje.
Uma pequenita, contaram-me depois, estava atenta, muito atenta, à batalha das palavras e dos gestos da senhora. Eu explicava o papel das chaveiras quando, às tantas, vi uma mão pequenita levantar-se quase acima das ancas da senhora, insinuar no rosto um gesto de força, e zás que já levaste uma palmada. Para que se calasse e deixasse o senhor padre em paz. Quem estava atento riu à brava. Rodearam-me com as gargalhadas. Até a senhora riu. Deixámo-nos a seguir. Afinal Deus não estava distraído.
Pena, ou talvez não, que duas semanas depois a senhora tenha entregue, através do marido, a chave da capela.
Uma pequenita, contaram-me depois, estava atenta, muito atenta, à batalha das palavras e dos gestos da senhora. Eu explicava o papel das chaveiras quando, às tantas, vi uma mão pequenita levantar-se quase acima das ancas da senhora, insinuar no rosto um gesto de força, e zás que já levaste uma palmada. Para que se calasse e deixasse o senhor padre em paz. Quem estava atento riu à brava. Rodearam-me com as gargalhadas. Até a senhora riu. Deixámo-nos a seguir. Afinal Deus não estava distraído.
Pena, ou talvez não, que duas semanas depois a senhora tenha entregue, através do marido, a chave da capela.
quarta-feira, setembro 12, 2007
A Rosária
É o que se chama um ponto no sentido mais cortês que lhe conheço. Basta-me olhá-la, o seu rosto desmazelado mas honesto, e a vontade de sorrir surge espontânea. A última aconteceu antes da missa da semana. Estava apressado pelo relógio da pontualidade. Mas insistia na oração que me queria ensinar. Ensina orações a toda a gente. Percorre a vila de lés a lés com orações ou jaculatórias nos lábios, contam-me. Para cada ocasião tem uma. Na sua ingenuidade e simplicidade, aquela forma de dizer orações é a forma de se encontrar com Deus. Não me repugna, porque é genuína. Porque é verdadeira nesta forma de ser cristã. Custa-me aceitar, mas a Deus não deve custar. É uma forma engraçada de O amar. Não é hipócrita. Só é genuína. Noutra pessoa acharia uma hipocrisia tamanhas peregrinações de orações ditas para serem ditas ou ouvidas. E tem de ser, senhor padre. Está bem, diga lá. E vai uma enxurrada de palavras lindas dirigidas à virgem Maria. Gostei. Já não é a primeira vez que lhe peço para as escrever para a posteridade. Mas o castiço foi quando no meio da referida oração surge a palavra “penhores”. Ups, pensei. E ups perguntei: Sabe o significado dessa palavra? Não, senhor padre. Ensine-me. É que foi rir. Ela também riu. Então nem sabe o que está a dizer!? Mas é tão linda, senhor padre. Lá está a beleza das suas orações. São lindas porque são para serem ditas de forma linda. Um vaso também não se torna bonito porque as flores são bonitas, perfumadas ou coloridas. Depende de quem e do como se faz o arranjo das flores e de quem e do como se olha o vaso.
Não avançámos mais na conversa, que estava na hora da missa e o pessoal estava à espera. Mas enquanto me paramentava ia rindo à brava por debaixo da casula. Um dos acólitos ainda me perguntou se não encontrava o buraco da casula. Eu não conseguia era esquecer o rosto da Rosaria. E mais me lembrei daquela ocasião em que, aqui na paróquia andaram a fazer umas filmagens para um filme. Um dos actores vestia a pele de padre e uma batina. A Rosaria não perdeu tempo. Irrompeu no meio das filmagens para pedir um favorzinho ao senhor. Olhe, já que aqui está, não me podia confessar?
Não avançámos mais na conversa, que estava na hora da missa e o pessoal estava à espera. Mas enquanto me paramentava ia rindo à brava por debaixo da casula. Um dos acólitos ainda me perguntou se não encontrava o buraco da casula. Eu não conseguia era esquecer o rosto da Rosaria. E mais me lembrei daquela ocasião em que, aqui na paróquia andaram a fazer umas filmagens para um filme. Um dos actores vestia a pele de padre e uma batina. A Rosaria não perdeu tempo. Irrompeu no meio das filmagens para pedir um favorzinho ao senhor. Olhe, já que aqui está, não me podia confessar?
sexta-feira, setembro 07, 2007
De rabo para o ar
Fazia-se silêncio. Uns para me ouvir e outros para descansar da noite mal dormida. Os olhos na direcção do ambão, na minha direcção. Eu falava, falava, pregava. Já lá iam uns bons cinco minutos. A coxia estava desimpedida, como é normal. O fundo da Igreja repleto. Os bancos cheios. Mas tudo em silêncio. Agora imaginem o que é avistar, no meio deste cenário e deste silêncio, uma senhora dos seus setenta anos ajoelhar-se a meio e no meio da coxia depois de descalçar o chinelo para tentar acertar numa lagartixa que teimava em ouvir a homilia e que não sossegava, ao contrário das pessoas, percorrendo os espaços livres que lhe deixavam! E vai uma chinelada. E vai outra. Como a lagartixa insistia em fugir, a senhora coloca-se de gatas, rabo para o ar, e toca de gatinhar atrás da lagartixa batendo e batendo com o chinelo nas pedras da coxia. Do meio da coxia quase chegava ao cimo, nunca se perturbando com o aparato da situação. Parei. Poisei os olhos sobre ela. Poisámos todos. O silêncio trocou-se pelas gargalhadas. Tapei a boca para controlar as minhas. Não era possível. A lagartixa havia escapado. Entretanto, a senhora levanta a cabeça para mim à espera que eu aprove, compreenda e perdoe a posição de rabo para o ar. Pedi-lhe para acalmar. Pedi a todos. Mas foi difícil prosseguir a homilia, pois no meio da Palavra de Deus teimava em aparecer-me aquele rabo virado para o ar. São aquelas situações que nos fazem recordar o humor de Deus!
___________________________________
Voltei, amigos, depois das férias e de ter estado a meio gás. Não resisti a contar esta situação caricata que me aconteceu nesse período. Obrigado pelas visitas e pela amizade.
quinta-feira, julho 26, 2007
Fui usado por Deus
Caros amigos:
Depois de um ano de labuta intensa, chegou a hora de fazer uma pausa. Ultimamente não poude vir como desejaria, bem o repararam. Estive ainda mais ocupado do que o hábito que já costuma trazer muita ocupação. Mas fez-me bem estar ocupado, pois neste momento, após um ano de canseiras, sinto missão cumprida. Sinto que fui usado por Deus para a Sua Messe. Cansado, mas bem usado por Ele. Obrigado Senhor. Vivam as férias! Até breve!
domingo, julho 15, 2007
Sinto-me uma pecadora
Veio numa hora sem movimento. Uma hora tardia. Não foi directa no assunto. Mas as palavras eram directas. Contidas, mas directas. Não sei por onde começar. Continuei em silêncio. Deixei que ela escolhesse as palavras. Se veio ao meu encontro, já tinha encontrado a força necessária. A mais difícil. Agora era uma questão de tempo e de palavras. E no meio de umas tantas deambulações, soltou quatro. Traí o meu marido. E não me sinto bem em relação a ele e em relação a Deus. Sinto-me uma pecadora. Quero ser forte. Mas o meu coração recorda a outra pessoa. Amas ainda o teu marido, perguntei. Respondeu que sim. Mas que não sabia como lidar com a situação. Ele perdoava, mas ela não se sentia capaz de se sentir perdoada. Até porque não esquecia os momentos com a outra pessoa. E eu encontrei-me a louvar a sua honestidade. Senti que isso era ainda mais importante que a traição. E desejei-lhe muita força. Nós, cristãos, somos tão santos como pecadores. Tão fortes como tão fracos. Sinceramente, penso que uma das nossas vitórias é podermos assumir que somos fracos. Como Jesus. Assumir as nossas fragilidades com humildade. Fui mais longe quando disse Não te envergonhes de ser frágil. Quanto à tua fragilidade, leva-a nos ombros apenas como isso, uma fragilidade. As paixões são muito descontroladoras e muito superficiais. São rápidas a consumir e a desaparecer. São fruto e consequência de desejos. O amor é mais profundo. Mais doloroso. Mais difícil. Complicado… mas mais interessante. A paixão resulta do desejo inato de prazer. O amor do desejo natural de ser feliz. Tens de fazer esta distinção. Se te sentires fraquejar, descobre a tua força interior e percebe à tua volta como o que tens neste momento é belo. Procura dar-lhe novo sabor. À tua relação com o marido. Procura dialogar. Demonstrar o que sentes e deixar que ele faça o mesmo. Deita-te nos braços dele e sente como é bom ter quem nos aconchegue com verdade. Ainda que com rotina. Não há nada melhor que termos com quem partilhar-nos totalmente... E não só sexualmente…
quarta-feira, julho 04, 2007
Afinal isto é Dele e não meu
Hoje é um daqueles dias em que se berra com Deus. Li há tempos que também era rezar. Mas não me apetece chamar-lhe assim. Busco dentro de mim respostas e forças para o que tem de ser, mas o cansaço não me permite encontrá-las. O estômago anda às voltas. Os berros surgem para os que me surgem. Ou se não surgem, surge o rosto desesperado que leva a perguntar que tenho. Não é costume. Amar não cansa. Cansa é amar desta forma. Ontem deitei-me já hoje, mas pouco depois da uma hora. Levantei-me passada outra hora, porque o sono que pesava não tinha força suficiente para lutar contra os pensamentos, os raciocínios, as imagens, as resoluções. Tem acontecido. Por isso tenho acordado mais cansado que quando me deito. Mas levanto que há muita coisa para ser feita. Com os amigos falo a correr ou corro com eles. Não há tempo. Por isso Lhe berrei de manhã, perguntando o motivo de me ter feito assim, padre, nesta época das correrias e dos stresses, assim, a cumprir com demasiado zelo o que acho que tenho de cumprir e que pode até nem ser o essencial. Mas é essencial para mim, ou para os outros, através de mim. Sosseguei um pouco mais à tarde já. Uma vez que Ele não parecia ter os ouvidos bem abertos aqui em casa, saí para a sua melhor casa cá no sítio, o Sacrário. Falei, falei, falei. De vez em quando parava para sentir a resposta. Não ouvi, mas pareceu-me que algo acontecia porque sossegava. Rezei-Lhe a minha vida, as minhas correrias, os meus cansaços. Pedi que não me deixasse ir abaixo que havia quem precisasse de mim. Pedi que fosse Ele a fazer através de mim. Agradeci o que me tem dado e as capacidades que me deu para aguentar e ainda fazer. Saí porque o telemóvel tocou como uma sirene para ir fazer o que tinha de ser feito. Pelo menos saí a sorrir. Afinal isto é Dele e não meu.
sexta-feira, junho 29, 2007
Quem é que Deus quer salvar?
Um dos malfeitores que fora crucificado ao lado de Jesus dizia: “Senhor, lembra-Te de mim quando estiveres no teu reino”. E a resposta veio pronta: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Mas ele não tinha sido um criminoso?! Um pecador?! O que ele não deve ter feito durante a sua vida!!! Mas a resposta é rápida. Não tem hesitações. “Hoje hás-de estar lá”. Pufa, suspirei. Ele quer mesmo salvar todos. Não exclui ninguém.
E ouço uma voz ao meu lado. Já tinha chegado uma penitente ao confessionário. Ainda teve tempo de se arrepender. Que lindo! Resmungo dizendo que não é disso que se trata. Este raciocínio é redutor. Senão teríamos a gentinha toda fazer o que apetece e depois a pedir perdão na hora H. Ou então, não sabendo da hora H, vivendo com o medo próprio de quem pode ser apanhado nas suas tramóias.
O meu raciocínio é outro. O de Deus também.
Basta que abramos as portas do nosso coração a Deus. Quando as abrimos estamos a mostrar que sabemos quem Ele é: “Senhor, lembra-Te de mim”. Quando o abrimos, estamos já a amá-l’O. E está sempre na hora de o abrirmos. Amar é mais importante que tudo. Mesmo quando erramos ou somos pecadores. Jesus não afastou nunca os pecadores. Até disse que veio para eles. Mas condenou os hipócritas. Os que parecem os mais santos, bondosos, certinhos, mas por dentro não têm espaço para o amor. É engraçado que, geralmente, os mais frágeis, os que se reconhecem mais pecadores, costumam ter o coração mais simples e disponível para amar! Porém, que isto não seja desculpa para as nossa falhas e pecados, tipo: estou descansado porque amanhã o gajo perdoa-me.
Por mais pecadores ou frágeis que sejamos, há sempre uma esperança… se O soubermos amar.
O que conta não é a quantidade de pecados, mas a quantidade de amor!
E ouço uma voz ao meu lado. Já tinha chegado uma penitente ao confessionário. Ainda teve tempo de se arrepender. Que lindo! Resmungo dizendo que não é disso que se trata. Este raciocínio é redutor. Senão teríamos a gentinha toda fazer o que apetece e depois a pedir perdão na hora H. Ou então, não sabendo da hora H, vivendo com o medo próprio de quem pode ser apanhado nas suas tramóias.
O meu raciocínio é outro. O de Deus também.
Basta que abramos as portas do nosso coração a Deus. Quando as abrimos estamos a mostrar que sabemos quem Ele é: “Senhor, lembra-Te de mim”. Quando o abrimos, estamos já a amá-l’O. E está sempre na hora de o abrirmos. Amar é mais importante que tudo. Mesmo quando erramos ou somos pecadores. Jesus não afastou nunca os pecadores. Até disse que veio para eles. Mas condenou os hipócritas. Os que parecem os mais santos, bondosos, certinhos, mas por dentro não têm espaço para o amor. É engraçado que, geralmente, os mais frágeis, os que se reconhecem mais pecadores, costumam ter o coração mais simples e disponível para amar! Porém, que isto não seja desculpa para as nossa falhas e pecados, tipo: estou descansado porque amanhã o gajo perdoa-me.
Por mais pecadores ou frágeis que sejamos, há sempre uma esperança… se O soubermos amar.
O que conta não é a quantidade de pecados, mas a quantidade de amor!
quarta-feira, junho 20, 2007
Porque ontem sim e hoje não?
A Gina faz parte do grupo de cristãos que se baptizaram tarde. Tarde perceberam a importância de Deus nas suas vidas. Mas perceberam. O que nem sempre acontece com aqueles que se baptizam cedo. E um dia cinzento, confidenciou-me as suas dúvidas. Acho que não tenho o direito de questionar Deus. Mas hoje apetece-me. Tudo muito lindo quando me recordo dos dias em que Deus se fez presente na minha Vida. Ou fui eu que me fiz presente em Deus?! Acho que a última é mais correcta. Mas anular a primeira sinto Deus como um ser distante. Não sei. Sabe, começo a imaginar um Deus sentado numa poltrona, em que tu é que tens que te aproximar. Já não sou capaz de imaginar aquele Deus que sentia sempre ao meu lado, nas horas boas e más. Nas horas boas caminhava ao meu lado e nas horas más agarrava minha mão para me dar forças para caminhar. Que se passa agora, padre? Porque sinto isto? Hoje parece-me pura criancice pensar num Deus assim. E apetece-me perguntar se Deus existe mesmo ou será apenas uma pura psicologia?! E rezar será uma maneira de falar com Deus ou apenas uma maneira de nos convencermos que Ele existe mesmo? Se tem dias que sinto que Deus me guia e me leva por bons caminhos, porque existem dias que me deixa ao abandono? Porque ontem sim e hoje não? E afinal quem sou eu? Se eu acho que Deus me ajuda ou ajudou, porque não ajuda Ele outros que precisam muito mais do que eu? Apetece-me concluir que isto tudo não passa de pura imaginação de cada um.
Deixei que ela falasse tudo, pensasse para fora, sentisse para mim. Não interrompi sequer, porque assim ela deitava tudo para fora sem que eu a obrigasse a fazê-lo. Fazia-o como se escrevesse uma carta a Deus. Isso percebi, embora ela não o tenha percebido. Sorri sem ela dar conta também. É que questionar a nossa fé é dar passos na fé. Questionar Deus na nossa vida é sentir que Ele existe, embora possa não ser como queremos. Questionar-nos e questioná-lo é bom. Nunca questionar pode ser apenas a prova de que Ele não nos incomoda, nem para o bem nem para o mal. A prova de que Ele não conta para nós. Para a Gina conta, senão não estava ali a falar comigo e com Ele, através de mim. Estive até para deixar que a resposta viesse de dentro dela mesma. Mas achei que podia ajudá-la a procurar essa mesma resposta dentro de si.
Sabes, Gina, Deus existe, muito embora nos apeteça, muitas vezes, que Ele não exista para justificar muitas outras coisas. Ele não precisa que acreditemos que Ele existe. Porque existe mesmo sem isso. A resposta às tuas perguntas, ou dúvidas, busca-as na melhor imagem que conheço. Uma relação de amor. Imagina as tuas relações de amor. Têm os seus momentos. Bons, menos bons, maus. Mas nunca deixas, se fores verdadeira no teu amor, de amar essa pessoa. O que precisamos é de alimentar essa relação. Umas vezes a pessoa que amamos parece estar longe, ocupada, distante, estranha. Mas continua no nosso coração. Continua a dar-nos vontade de viver para a amar. O que precisamos é de alimentar essa relação. Nem sempre está como gostaríamos ou age como pretenderíamos. Mas continua sendo a mesma pessoa que amamos. Podemos não a compreender bem ou não a conhecer como gostaríamos. Mas continua sendo a pessoa que dá sentido à nossa vida, à nossa felicidade. O que precisamos é de alimentar essa relação. Imagina que Deus é essa pessoa que amas, e descobre as respostas por ti...
Deixei que ela falasse tudo, pensasse para fora, sentisse para mim. Não interrompi sequer, porque assim ela deitava tudo para fora sem que eu a obrigasse a fazê-lo. Fazia-o como se escrevesse uma carta a Deus. Isso percebi, embora ela não o tenha percebido. Sorri sem ela dar conta também. É que questionar a nossa fé é dar passos na fé. Questionar Deus na nossa vida é sentir que Ele existe, embora possa não ser como queremos. Questionar-nos e questioná-lo é bom. Nunca questionar pode ser apenas a prova de que Ele não nos incomoda, nem para o bem nem para o mal. A prova de que Ele não conta para nós. Para a Gina conta, senão não estava ali a falar comigo e com Ele, através de mim. Estive até para deixar que a resposta viesse de dentro dela mesma. Mas achei que podia ajudá-la a procurar essa mesma resposta dentro de si.
Sabes, Gina, Deus existe, muito embora nos apeteça, muitas vezes, que Ele não exista para justificar muitas outras coisas. Ele não precisa que acreditemos que Ele existe. Porque existe mesmo sem isso. A resposta às tuas perguntas, ou dúvidas, busca-as na melhor imagem que conheço. Uma relação de amor. Imagina as tuas relações de amor. Têm os seus momentos. Bons, menos bons, maus. Mas nunca deixas, se fores verdadeira no teu amor, de amar essa pessoa. O que precisamos é de alimentar essa relação. Umas vezes a pessoa que amamos parece estar longe, ocupada, distante, estranha. Mas continua no nosso coração. Continua a dar-nos vontade de viver para a amar. O que precisamos é de alimentar essa relação. Nem sempre está como gostaríamos ou age como pretenderíamos. Mas continua sendo a mesma pessoa que amamos. Podemos não a compreender bem ou não a conhecer como gostaríamos. Mas continua sendo a pessoa que dá sentido à nossa vida, à nossa felicidade. O que precisamos é de alimentar essa relação. Imagina que Deus é essa pessoa que amas, e descobre as respostas por ti...
quarta-feira, junho 13, 2007
Vejo um padre como alguém que manda na paróquia
Sentámo-nos lado a lado nos bancos da Igreja. Olhando em frente não nos víamos. Por isso estávamos ligeiramente inclinados. Os olhos dela procuravam os meus para me entenderem melhor. Gosto muito das pessoas que conseguem olhar nos olhos, procurar os olhos. Não é fácil. É preciso ter bastante segurança daquilo que se pretende. É preciso estar livre para poder olhar sem pensar que os olhos podem trair. Se os quatro conseguem procurar-se, a sedução da procura recíproca pode ser desgastante e tornar-se uma competição. Era mais ou menos assim o nosso inclinar de olhos. Por isso atirou. Padre, não consigo perceber como o senhor pode ser assim. Assim como, perguntei. Era um jogo de pergunta e resposta e mais perguntas por detrás das perguntas e respostas e dos olhares. De um lado e do outro. Como consegue reagir de forma tão calma e fazer de conta que as coisas não se passam como de facto se passam! Como pode deixar que as coisas se arrastem! Como não faz alguma coisa e põe esta gente na linha! Não consigo perceber. E zango-me. Zango-me porque eu não consigo ser como o senhor. Zango-me porque queria que o senhor agisse de forma mais violenta, mais directa, menos dissimulada. Eu sabia do que ela falava. Falava de outras pessoas que dificultam a vida comunitária da paróquia e que tentam a todo o custo mandar, impor-se aos outros, insinuar, cortar casacas, mostrar-se. E embora sejam úteis à paróquia, ainda gastam o padre como podem, mas só pelas costas. Não deixam de ter qualidades boas e úteis à comunidade, mas utilizam-nas de forma errada. Eu sabia do que ela falava. E sabia da verdade que ela falava. Mas agia de forma a que o tempo, a oportunidade e Deus fizessem por mim. O senhor para mim é um totó. Será que não é capaz? Tem medo? É assim tão fraco? O senhor tem obrigação, como pároco, de por ordem na paróquia. Dizia-me isto procurando os meus olhos e eu fugindo dos dela. Sei que não o dizia para chatear, mas para me espevitar. Para que eu fizesse algo. Ou para perceber em mim que Deus faria da mesma forma que eu. Eu sei que Ele agia assim, sem violência, sem se irritar. Ele dominava-se e dominava a situação. Mas isso irrita-me em si. Vejo um padre como alguém que manda na paróquia, que a põe em ordem. Respondi que o via mais como aquele que conduz a paróquia. Mas eu não permitia que me fizessem de parva. Repetia. E mais calma ia dizendo que gostava de perceber. Disse-lhe que Deus também não afastava ninguém. Lembro que acabei a conversa com o desviar os olhos e com palavras que repetiam a minha forma de reagir aos problemas da paróquia.
Já em casa, a conversa continuou na minha cabeça para perceber também. Se a minha forma de agir era fragilidade ou impotência ou calma, ou antes a tentativa de fazer da melhor forma e de forma bem pensada. Como agiria Jesus em situação idêntica?
Já em casa, a conversa continuou na minha cabeça para perceber também. Se a minha forma de agir era fragilidade ou impotência ou calma, ou antes a tentativa de fazer da melhor forma e de forma bem pensada. Como agiria Jesus em situação idêntica?
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