sexta-feira, junho 29, 2007

Quem é que Deus quer salvar?

Um dos malfeitores que fora crucificado ao lado de Jesus dizia: “Senhor, lembra-Te de mim quando estiveres no teu reino”. E a resposta veio pronta: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. Mas ele não tinha sido um criminoso?! Um pecador?! O que ele não deve ter feito durante a sua vida!!! Mas a resposta é rápida. Não tem hesitações. “Hoje hás-de estar lá”. Pufa, suspirei. Ele quer mesmo salvar todos. Não exclui ninguém.
E ouço uma voz ao meu lado. Já tinha chegado uma penitente ao confessionário. Ainda teve tempo de se arrepender. Que lindo! Resmungo dizendo que não é disso que se trata. Este raciocínio é redutor. Senão teríamos a gentinha toda fazer o que apetece e depois a pedir perdão na hora H. Ou então, não sabendo da hora H, vivendo com o medo próprio de quem pode ser apanhado nas suas tramóias.
O meu raciocínio é outro. O de Deus também.
Basta que abramos as portas do nosso coração a Deus. Quando as abrimos estamos a mostrar que sabemos quem Ele é: “Senhor, lembra-Te de mim”. Quando o abrimos, estamos já a amá-l’O. E está sempre na hora de o abrirmos. Amar é mais importante que tudo. Mesmo quando erramos ou somos pecadores. Jesus não afastou nunca os pecadores. Até disse que veio para eles. Mas condenou os hipócritas. Os que parecem os mais santos, bondosos, certinhos, mas por dentro não têm espaço para o amor. É engraçado que, geralmente, os mais frágeis, os que se reconhecem mais pecadores, costumam ter o coração mais simples e disponível para amar! Porém, que isto não seja desculpa para as nossa falhas e pecados, tipo: estou descansado porque amanhã o gajo perdoa-me.
Por mais pecadores ou frágeis que sejamos, há sempre uma esperança… se O soubermos amar.
O que conta não é a quantidade de pecados, mas a quantidade de amor!

quarta-feira, junho 20, 2007

Porque ontem sim e hoje não?

A Gina faz parte do grupo de cristãos que se baptizaram tarde. Tarde perceberam a importância de Deus nas suas vidas. Mas perceberam. O que nem sempre acontece com aqueles que se baptizam cedo. E um dia cinzento, confidenciou-me as suas dúvidas. Acho que não tenho o direito de questionar Deus. Mas hoje apetece-me. Tudo muito lindo quando me recordo dos dias em que Deus se fez presente na minha Vida. Ou fui eu que me fiz presente em Deus?! Acho que a última é mais correcta. Mas anular a primeira sinto Deus como um ser distante. Não sei. Sabe, começo a imaginar um Deus sentado numa poltrona, em que tu é que tens que te aproximar. Já não sou capaz de imaginar aquele Deus que sentia sempre ao meu lado, nas horas boas e más. Nas horas boas caminhava ao meu lado e nas horas más agarrava minha mão para me dar forças para caminhar. Que se passa agora, padre? Porque sinto isto? Hoje parece-me pura criancice pensar num Deus assim. E apetece-me perguntar se Deus existe mesmo ou será apenas uma pura psicologia?! E rezar será uma maneira de falar com Deus ou apenas uma maneira de nos convencermos que Ele existe mesmo? Se tem dias que sinto que Deus me guia e me leva por bons caminhos, porque existem dias que me deixa ao abandono? Porque ontem sim e hoje não? E afinal quem sou eu? Se eu acho que Deus me ajuda ou ajudou, porque não ajuda Ele outros que precisam muito mais do que eu? Apetece-me concluir que isto tudo não passa de pura imaginação de cada um.
Deixei que ela falasse tudo, pensasse para fora, sentisse para mim. Não interrompi sequer, porque assim ela deitava tudo para fora sem que eu a obrigasse a fazê-lo. Fazia-o como se escrevesse uma carta a Deus. Isso percebi, embora ela não o tenha percebido. Sorri sem ela dar conta também. É que questionar a nossa fé é dar passos na fé. Questionar Deus na nossa vida é sentir que Ele existe, embora possa não ser como queremos. Questionar-nos e questioná-lo é bom. Nunca questionar pode ser apenas a prova de que Ele não nos incomoda, nem para o bem nem para o mal. A prova de que Ele não conta para nós. Para a Gina conta, senão não estava ali a falar comigo e com Ele, através de mim. Estive até para deixar que a resposta viesse de dentro dela mesma. Mas achei que podia ajudá-la a procurar essa mesma resposta dentro de si.
Sabes, Gina, Deus existe, muito embora nos apeteça, muitas vezes, que Ele não exista para justificar muitas outras coisas. Ele não precisa que acreditemos que Ele existe. Porque existe mesmo sem isso. A resposta às tuas perguntas, ou dúvidas, busca-as na melhor imagem que conheço. Uma relação de amor. Imagina as tuas relações de amor. Têm os seus momentos. Bons, menos bons, maus. Mas nunca deixas, se fores verdadeira no teu amor, de amar essa pessoa. O que precisamos é de alimentar essa relação. Umas vezes a pessoa que amamos parece estar longe, ocupada, distante, estranha. Mas continua no nosso coração. Continua a dar-nos vontade de viver para a amar. O que precisamos é de alimentar essa relação. Nem sempre está como gostaríamos ou age como pretenderíamos. Mas continua sendo a mesma pessoa que amamos. Podemos não a compreender bem ou não a conhecer como gostaríamos. Mas continua sendo a pessoa que dá sentido à nossa vida, à nossa felicidade. O que precisamos é de alimentar essa relação. Imagina que Deus é essa pessoa que amas, e descobre as respostas por ti...

quarta-feira, junho 13, 2007

Vejo um padre como alguém que manda na paróquia

Sentámo-nos lado a lado nos bancos da Igreja. Olhando em frente não nos víamos. Por isso estávamos ligeiramente inclinados. Os olhos dela procuravam os meus para me entenderem melhor. Gosto muito das pessoas que conseguem olhar nos olhos, procurar os olhos. Não é fácil. É preciso ter bastante segurança daquilo que se pretende. É preciso estar livre para poder olhar sem pensar que os olhos podem trair. Se os quatro conseguem procurar-se, a sedução da procura recíproca pode ser desgastante e tornar-se uma competição. Era mais ou menos assim o nosso inclinar de olhos. Por isso atirou. Padre, não consigo perceber como o senhor pode ser assim. Assim como, perguntei. Era um jogo de pergunta e resposta e mais perguntas por detrás das perguntas e respostas e dos olhares. De um lado e do outro. Como consegue reagir de forma tão calma e fazer de conta que as coisas não se passam como de facto se passam! Como pode deixar que as coisas se arrastem! Como não faz alguma coisa e põe esta gente na linha! Não consigo perceber. E zango-me. Zango-me porque eu não consigo ser como o senhor. Zango-me porque queria que o senhor agisse de forma mais violenta, mais directa, menos dissimulada. Eu sabia do que ela falava. Falava de outras pessoas que dificultam a vida comunitária da paróquia e que tentam a todo o custo mandar, impor-se aos outros, insinuar, cortar casacas, mostrar-se. E embora sejam úteis à paróquia, ainda gastam o padre como podem, mas só pelas costas. Não deixam de ter qualidades boas e úteis à comunidade, mas utilizam-nas de forma errada. Eu sabia do que ela falava. E sabia da verdade que ela falava. Mas agia de forma a que o tempo, a oportunidade e Deus fizessem por mim. O senhor para mim é um totó. Será que não é capaz? Tem medo? É assim tão fraco? O senhor tem obrigação, como pároco, de por ordem na paróquia. Dizia-me isto procurando os meus olhos e eu fugindo dos dela. Sei que não o dizia para chatear, mas para me espevitar. Para que eu fizesse algo. Ou para perceber em mim que Deus faria da mesma forma que eu. Eu sei que Ele agia assim, sem violência, sem se irritar. Ele dominava-se e dominava a situação. Mas isso irrita-me em si. Vejo um padre como alguém que manda na paróquia, que a põe em ordem. Respondi que o via mais como aquele que conduz a paróquia. Mas eu não permitia que me fizessem de parva. Repetia. E mais calma ia dizendo que gostava de perceber. Disse-lhe que Deus também não afastava ninguém. Lembro que acabei a conversa com o desviar os olhos e com palavras que repetiam a minha forma de reagir aos problemas da paróquia.
Já em casa, a conversa continuou na minha cabeça para perceber também. Se a minha forma de agir era fragilidade ou impotência ou calma, ou antes a tentativa de fazer da melhor forma e de forma bem pensada. Como agiria Jesus em situação idêntica?

quarta-feira, junho 06, 2007

No funeral, uma oração de resmungar

Primeiro uma explicação. Depois a acção. Após vários funerais, deixei de rezar publicamente, isto é, com voz de mega-fone, durante o acompanhamento do féretro até ao cemitério. Decidi assim, contra a minha vontade intelectual e espiritual, porque era dos poucos acompanhantes que rezava. Ao meu redor pelo menos. Ora, se assim acontecia, bem podia rezar no meu interior. Continuava a rezar sozinho. Bem sei que a oração comunitária é mais… digamos, de Cristo.”Onde dois ou três estiverem em meu nome, Eu estarei no meio deles”. Se calhar também foi comodismo. Mas o argumento é válido. Digo eu para mim. Expliquei.
Num dos últimos acompanhamentos, aconteceu. Encontrava-me na minha oração, como disse, interior. Um homem da frente falava alto qualquer coisa que não percebia. Foi-se aproximando. Parou a um palmo de mim. Isto é uma vergonha: Reze lá ao menos um Pai-nosso. Eu já tinha rezado vários. E disse-lhe que estava a rezar. Que ele também o podia. Devia fazer. Isto é uma vergonha. O nosso padre nem um pai-nosso sabe. Na paróquia de… (não interessa o nome! Mas é de um colega) o padre reza. Estive para perguntar-lhe se os paroquianos rezavam. Mas não fiz. Calei-me. No fundo ele tinha a sua razão. Continuava. Só na nossa paróquia. É uma vergonha, não acham?... Nem um pai-nosso! Repeti-lhe que rezasse também. Não ouviu. Não me conseguia ouvir.
Eu continuei na minha oração… pessoal e comunitária, pelos outros, mas interior. Ele também. Uma oração de resmungos. Foi até ao cemitério nestas orações. Ouvia-o de longe. Eram sentidas, porque muito repetidas. Em mega-fone, como desejava. Contaram-me mais tarde que já não devia estar sozinho. Alguns graus a mais falavam com ele.
Porém, fiquei na dúvida se agradou mais a Deus e à honra do falecido a minha oração silenciosa, se a oração sonora e reivindicativa deste amigo…

sexta-feira, junho 01, 2007

Um champô pode ser três coisas numa só

Tenho um colega ateu militante, dizia. Militante mesmo, pois aproveita tudo para uma conversa militar. Não perde a oportunidade. Dispara com cada pergunta mais difícil, padre. Nos momentos em que menos espero. Gaguejo muitas vezes. Muito. É que ainda por cima esta gente lê muito e tem constantemente maneira de argumentar. Ia escutando e pensando que estes são quase sempre gente que busca. Por isso lê. Coisa que muito cristão não faz, porque não busca. Mas da última vez calei-o, confessou. E deu-me um certo gozo. Não para gozar com ele, mas para gozar interiormente. Visitávamos uma catedral. Num altar estava escrito em latim "Vem, Espírito Santo." E sai a pergunta disparada. O que é o Espírito Santo? Engoli em seco, pensei “Pronto já cá faltava”, mas respondi que era a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Retorquiu secamente que ficara na mesma. Como sempre. Isso é o que está escrito no catecismo da Igreja católica. Por que é que vocês respondem sempre todos da mesma maneira? Ele lê o catecismo, padre. Bolas. Se respondi, mais depressa perguntou. E o que é a Santíssima Trindade? Eu queria parar por ali a conversa, mas não queria dar parte de fraco cristão. O mistério da Santíssima Trindade é um dos dogmas da Igreja. É Deus, Pai, Cristo, Filho e o Espírito Santo. São três pessoas distintas numa só. Deus enviou-nos o Seu Filho, Jesus, e esteve e continuará a estar sempre presente entre nós através do Espírito Santo. É que resmungou! Como é que eu podia acreditar num coisa impingida pelo catecismo e pela igreja! Lembrei-me então de uma coisa, padre. Olhei-o fixamente e: Olha, vou-te explicar o mistério da maneira mais simples que me explicaram até hoje. Vou-te explicar com o champô. Um champô pode ser três coisas numa só. O champô que é o constituinte maioritário e é o que lava. O amaciador que aperfeiçoa o trabalho do champô. E as vitaminas que te dão vitalidade e beleza. O mistério da Trindade é o mesmo. Deus é o champô, Cristo o amaciador e o Espírito Santo são as vitaminas. São três coisas distintas mas uma só ao mesmo tempo. Primeiro ficou sério, depois riu-se, e depois. Ah, agora já começo a entender melhor. Porque é que não falaste logo assim?! E calou-se! Pelo menos por cinco minutos. Ó padre, será que eu fiz bem e não cometi nenhuma heresia?
Primeiro fiquei sério, depois ri-me, e depois. Como é que eu nunca me tinha lembrado desta?

terça-feira, maio 29, 2007

Foi um colega que contou

Hoje venho aqui, às escondidas, para esboçar umas palavras de desconforto. Bem baixinho. Para ninguém ouvir a minha confusão. E conto, porque o colega não contou em confissão.
Um destes dias um colega. Um padre, claro. Outro. Nem sei bem a que propósito. Falava de um outro colega. Outro ainda. Que tinha viajado aos Estados Unidos. Visitava um amigo. Outro colega mais. E numa visita às paróquias encontrou uma criança. Como é normal e hábito aqui em Portugal, sorriu para ela. Com certeza concentrado nas palavras de Jesus: “Deixai vir a mim as criancinhas”. Ou então por pura exterioridade de simpatia. Que também nos é próprio. Aos portugueses. O colega deu-lhe um encontrão. Repeliu-o. Afastou-o da criança. Não entendeu. Mais tarde, em casa, explicou: não se pode olhar uma criança aqui nos Estados Unidos. Muito menos sorrir-lhe. Pode levar a outras interpretações. Todos desconfiam. Os padres são o alvo preferido. Lembras aquelas notícias? Há até quem desista de se abeirar do sacerdócio. Os jovens não querem ser conotados com nada.
E o colega que visitara os Estados Unidos não mais sorriu durante a sua estadia.

terça-feira, maio 22, 2007

O que é preciso para ser santa?

Sentou-se ao meu lado, quase com as mãos postas e com a cabeça inclinada levemente para o lado direito. É muito importante o pormenor do lado direito. Senhor padre, andei tão entusiasmada com aquilo da irmã Lúcia. Olhe. E olhei. Posso fazer uma pergunta? Já fez, mas nem lho digo, senão tinha de explicar-lhe a teologia toda. Senhor padre, o que é preciso para ser santa? Recordei automaticamente o jovem rico que chega junto de Jesus e faz uma pergunta idêntica. Não que ela fosse jovem ou rica. Eu também não sou propriamente Jesus. Mas é a situação. E digo. Pois, minha amiga, é preciso fazer o bem. Ah, mas isso eu já faço. Dou esmola aos pobrezinhos, vou a todas as missas, visito os doentinhos, a minha vizinha que tá c’uma trombose. Pois, digo. Digo sempre pois quando não sei que dizer a seguir. E pergunto-me baixinho, bem lá dentro, o que será fazer o bem. Depois, falando sério e em poucas palavras, é estar atento ao próximo, ao outro, às suas necessidades, com todo o amor desinteressado e gratuito que possamos utilizar. Claro que explico à senhora por outras palavras. Ela responde-me que isso já o faz. Na sua simplicidade, que por ser simplicidade é sempre linda, ela diz que cumpre já. Bom. Digo eu. Então só falta saber como vive. E continuo o raciocínio sem esperar que perceba. Não está em causa apenas o que fazemos, mas como vivemos o que fazemos. Podemos dar, fazer muito e não vivermos nada! Não interessa aquilo que se faz, mas a intensidade com que se faz. Há dias alguém pesava na balança a irmã Lúcia e a Madre Teresa de Calcutá. Ela riu e disse que deviam ser ambas magritas. Sorri também, mas continuei a comparação. Uma fechada no convento. Outra, de mãos, boca e coração abertos e libertos. Quem será a mais santa? Não respondeu. Pessoalmente, também gosto mais daquela parte de Jesus que investe claramente no irmão. Mas a resposta não pode ser dada desta ou daquela forma pelo modo pessoal como se gosta. As duas podem ser santas, imensamente santas, sem comparações possíveis. Porque o mais importante não é tanto o que fizeram mas como o fizeram. O que mais interessa é a forma como, no contexto social, político e religioso em que viveram, elas se tornaram verdades de fé e de amor, de entrega e de intimidade com o Senhor. E posso ser santa como elas? Faça bem esse bem. Faça-o com verdade.

quinta-feira, maio 17, 2007

O terço das vinte e uma e tal

Estavam assim habituadas. O terço das vinte e uma horas era cerca das vinte e uma e quinze, ou mais. Vinte e uma e tal. Esperavam-se. Enquanto a Igreja não estivesse composta, pelo menos uma ou duas pessoas em cada banco, não começavam. Hábitos antigos. Recordo os primeiros anos da minha paroquialidade. Sempre fui amigo da pontualidade. Quase casei com ela, o que não é exclusivamente bom, porque os carros e as viagens e os acidentes não perdoam. Podia chegar à porta da Igreja a faltar cinco minutos para a missa, ou até dois, mas à hora programada estava ao altar, paramentado e com um sorriso nos lábios. Acabava por ser engraçado, dado que iam pedir-me à sacristia para esperar as pessoas, que a Igreja ainda não estava composta. Como não conseguiam, tentavam empatar-me com conversa. Altruísmo, descobri. Um altruísmo estranho, mas altruísmo. Estavam preocupados com os outros. No entanto, nem que fosse só com cinco pessoas, eu começava. Assim os fui desabituando.
Entretanto, como não tenho ido rezar o terço com eles senão no dia em que lá vou celebrar a missa, o terço é rezado em comunidade na hora em que a Igreja se compõe. A missa fora marcada para as vinte horas e trinta minutos. Não demorou meia hora, que durante a semana não demoro muito. Como combinado, iniciámos o terço logo a seguir. Nem fazia sentido de outra forma. Eles estavam ali. Não iam a casa para voltar em vinte minutos. Aliás, a Igreja estava composta. Rezei com eles. A meio do terço dei conta de uns barulhos na rua. Não liguei senão mais tarde, quando a Maria me contou duma pequena discussão na rua. Umas poucas zangadas com o terço ter começado sem elas. Que não era costume, esbracejavam. Pela história, desta vez não estavam contra o padre. Também não estavam contra a hora da missa. Nem se lembraram dela. Pelo menos a discussão não a aflorou, pois que elas queriam era o terço. Não era a missinha. Na minha opinião elas não sabiam sequer contra o que estava a sua conversa a falar. Só não compreendiam como é que o terço foi mais cedo e não foi como é hábito. Porque elas estavam habituadas.

sexta-feira, maio 11, 2007

Só se for a fingir

Fora convidado para um almoço ao ar livre, depois de uma longa caminhada. Eu vestia normal, mas arejado. O meu normal arejado. Sentei-me na pedra. Encolhido, que não éramos poucos, mas uns poucos na mesma pedra. Comi no prato de plástico. Garfo apenas. Dava mais jeito para segurar o prato. Estava entre amigos. À vontade. Umas graçolas. Conversas banais. Rimos. Outras mesas vizinhas olhavam para as nossas gargalhadas. Quase todos nos conhecíamos. A minha excepção era constituída por dois casais, pai e mãe, filho e filha, ela de três anos e ele de quatro. Não hesitei em brincar com eles. Estavam já os meus braços a servir de trampolim quando alguém chamou o miúdo para levar, nem lembro, seria uma peça de fruta, ao senhor padre. Onde está? Perguntou. É esse senhor. Não é nada. Eu acrescento. Sou. Sou. Sou. Não é nada. Pergunto porque não. A cara de envergonhado e desiludido encosta-se ao pai, ao seu colo. A sério, filho, é padre. Não é como o da nossa terra. É mais moderno, mas é. Não é. Não pode ser. Pausou. Assim vestido? Acreditem que eu trazia roupa que bastasse. Não estava rota nem descosida. Eram apenas umas calças de ganga e uma t’shirt branca e vermelha nas mangas. Óculos de sol, que estava sol. Aproximei-me dele para lhe dizer que também havia de ir para o Seminário. Não, não vou. E já chega de brincadeira. Ó filho, não vês que é amigo da tia! A tia tem um amigo padre. Virou-se para mim de lado, não deixou desenvolver mais o assunto, e sentenciou. Só se for a fingir!
O pior é que as crianças não sabem mentir. O que dizem, no mínimo, é a verdade delas. Mas que verdades faziam parte do seu mundo? Eu garanto que não fiz nada de outro, de outro mundo. E não sei que parte de mim poderia estar a fingir. Ou que não estava a parecer real. Ou se outros fingem na sua realidade. Ou se fingem nas vidas que conhece. Ou em que mundo vivem os padres que ele conhece. Ou como devem viver os padres…

terça-feira, maio 08, 2007

Esta é a minha arma

Cheguei, como sempre, mais cedo. Estava diante do sacrário com o terço nas mãos. Admirei-me. Não o fazia tão devoto. De cinquenta e poucos anos, este amigo costuma usar quase todas as circunstâncias e situações para a brincadeira. Por isso nos damos tão bem. A amizade estende-se até às palavras medidas, mas sempre a roçar a gargalhada. Há quem ache exagero ou falta de respeito. Eu não. Eu gosto de viver assim com palavras fora de sítio no sítio certo, no limite do significado das palavras que podem ter ou ser usadas noutros sentidos, bem mais divertidos. Há quem o julgue homem de não se levar a sério. Eu levo das duas maneiras. A sério e a brincar. Admito que mais a brincar. No final da missa ficámos a sós com uma que outra piada. No momento da despedida realcei a sua postura com o terço dedilhado. Dizia-lhe que tinha subido mais uns pontos na minha consideração. Como se isso fosse importante. Era mais uma daquelas. Colocou-se então entre mim e a porta. Estancou-me, e olhou-me como ainda não tinha dado conta. Sabe, este terço anda sempre comigo há mais de trinta anos. Ganhei-o como prémio. Quando era miúdo acompanhava sempre o meu avô que era o sacristão. O padre, na altura, para nos fazer ir ao terço, lançava um concurso. Cartões. Por cada ida ao terço recebíamos um. No final do mês de Maio quem tivesse mais recebia um prémio. Eu nunca faltava. A bem ou a mal, nunca faltava. Era ainda uma oportunidade para estar fora de casa. Torci um pouco o nariz às últimas palavras e ao concurso, mas cocei-o na esperança desconfiada. Nunca tinha pensado numa assim. Não me parece de inculturar nos dias de hoje. Claro que o ganhei eu, padre. Nunca mais me abandonou. E mostrava-o. Andou comigo por Angola. Garanto-lhe que o rezo todos os dias. Nunca em trinta e tal anos, desde que o recebi, ficou por rezar. Em Angola juntava-me a um colega e, numa hora mais leve, rezávamos por aqui. O terço ia mexendo-se de um dedo para o outro na sua mão. Eu acompanhava o terço, os dedos, as palavras, os olhos molhados. Posso ser um doidivanas, mas com Deus nunca brinquei. Esta é a minha arma. Sempre foi. Todos os dias, padre. Caramba, respondi. E acrescentei que não tinha mais pontos para subir na minha consideração. A minha boca admirada perdera os pontos. Recordei a minha mãe que também rezava três terços todos os dias. Lembrei quanto gostava e gosto dela. Este amigo, o Zé, ensinou-me a gostar ainda mais dele. Fiz-lhe continência.