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segunda-feira, outubro 22, 2018

Um chamamento que não sei

Já lá vão muitos anos. Andava na escola primária quando escutei, pela primeira vez, que o Senhor chamava alguns a ser sacerdote. Na altura a palavra soava-me a algo estranho. Como poderia saber o que era o sacerdócio! Era mais fácil traduzi-la por “padre”. Recordo que ouvi, pela primeira vez, numa aula, um jovem seminarista que, por sinal, hoje é bispo, dizer que o Senhor podia chamar alguns de nós para padre. Continuo a lembrar que a palavra padre só me fazia lembrar o padre da minha paróquia. Aquele senhor de uma certa idade que celebrava as missas. Achei engraçada a ideia de poder ser chamado. E um dia achei que o Senhor me chamava mesmo. Era uma criança. O significado desse chamamento só uns anos mais tarde, depois de fazer muitas perguntas, me foi possível ir entendendo. Mas ainda hoje não sei porque o Senhor me chamou. O que viu em mim. O que vê em mim. Lembro alguns acontecimentos marcantes dessa época da minha meninice. Lembro quando o tal padre da minha paróquia me disse que eu bem podia ser padre. Lembro quando, um dia, corajosamente, me abeirei do altar e me deixei ficar ali, como se fosse esse o meu lugar. O lugar que o Senhor queria que eu ocupasse. Mas ainda hoje não sei porquê. Ainda hoje pergunto ao Senhor porquê. Porquê eu, de tantos outros meninos, a maioria muito melhores que eu. Se me perguntassem se eu gosto de ser padre, não sei bem se a resposta seria positiva. Há um misto e muitos paradoxos nas respostas que poderia dar. Só há uma coisa certa. Estou aqui. Como sou. E Ele está por aqui, por não sei bem donde. Vamos tratando-nos, cada vez, mais por tu. De vez em quando sinto que nos abraçamos. Outras vezes berramos um com o outro. Não me sinto digno do seu amor. Mas Ele teima em querer amar-me assim. Por isso, vou-me sentindo esse indigno amigo que é amado por Alguém que teima em me amar… assim.

sexta-feira, setembro 28, 2018

O que é fazer tudo

Está mais que provado que hoje as pessoas pouco querem com Deus, com a Igreja, com os padres ou com a fé. Contudo, persistem em querer realizar as festas do baptismo, primeira comunhão e Crisma. Sobretudo estas. Dizem que, tendo-as feito, fizeram “tudo”, como se esse tudo fosse a garantia de serem cristãos. Segundo estes, quem vai à missa são as beatas. E quando algum jovem vai à missa, é apontado como anjinho, santinho ou parecido. Não está na moda ir à missa. A Catequese serve, na generalidade, para que se habilitem as crianças e jovens e fazer estas festas. É comum ouvir pais afirmarem que, porque eles fizeram tudo, também querem que os filhos façam tudo. O tal “tudo”. É comum que, embora honestamente, alguns dos catequisandos respondam que o objectivo deles ao participar na Catequese, é poder fazer o Crisma. Depois dele, como se sabe, já não querem nada com Deus, ser do qual foram questionando a existência, mas não o expressaram para evitar não fazer o Crisma. Depois vêm os funerais e as festas populares, acções que manifestam, de forma clara, que a Igreja tem servido, quase exclusivamente, para cumprir sacramentos, sacramentais e festas religiosas populares. E a nós, padres, pedem-nos que sejamos funcionários destas coisas todas. Aquele tipo de empregado que deve estar ali no território que chamamos paróquia, para quando se precisa de alguma destas coisas. Nem formação, nem evangelização, nem entusiasmos, nem dinamismos ou estratégias, têm conseguido inverter a situação. Bem reflectem os peritos pastorais, mas a coisa teima em ser difícil. No meio disto tudo, valha-nos ao menos que, graças a Deus, ainda vai havendo quem não desista de Deus ou da Igreja e precise verdadeiramente da missão dos padres. Ainda assim, como podem resistir as vocações sacerdotais ou como podem surgir vocações ao sacerdócio?

quinta-feira, junho 14, 2018

Não é fácil encontrar vocações sacerdotais por aí

Nunca houve tão poucos jovens. As percentagens apontam para uma desproporção entre mortes e nacimentos. O nosso país, bem como toda a Europa, está a envelhecer. Também por isso não admira que a maioria das pessoas que frequenta as nossas Igrejas seja maioritariamente envelhecida. Nunca houve tão poucos jovens católicos praticantes. Digamos que a maioria recebeu o baptismo, mas não recebeu a fé. Nunca a juventude esteve tão indiferente e despreocupada com o seu futuro. Quando se lhes pergunta o que gostariam de fazer ou o que querem para o futuro, as respostas são similares ao Nim. Não sei bem, Ainda não pensei nisso, Isto não está fácil. Também é do senso comum que esta malta hoje está cada vez mais individualista, egoísta, descomprometida, sem capacidade de fazer sacrifício. Mesmo as famílias crentes não têm tempo ou formação suficiente para educar estes jovens ou fazê-los crescer na fé. Os religiosos são pouco visíveis, pouco conhecidos, convive-se pouco com eles. É fácil perceber que o seu tempo para estar com as pessoas acaba por se tornar escasso. E muitas vezes quando se ouve falar deles não é por bons motivos Os meios de comunicação social são pródigos em falar dos elementos da hierarquia católica quando um deles se destaca pela negativa. A sociedade não valoriza, e até despreza, a vida religiosa. Vivemos numa época bastante pragmática, pouco idealista. Os jovens regem-se por experiências e por “coisas” efémeras, rápidas e sem consequências. Parece-me ainda que a vida que nós padres vamos levando não suscita grandes encantos. Vivemos a correr, com várias paróquias quase minúsculas, a cumprir preceitos, numa vivência solitária de vida humana, cheios de pequenos conflitos interiores e exteriores. E por tudo isto, e por muito mais que se poderia acrescentar, como será possível termos mais vocações sacerdotais?

quinta-feira, junho 07, 2018

A Igreja das mulheres

Na verdade era uma missa da semana, e como todas as missas da semana, os seus participantes são na maioria mulheres, sobretudo as que estão reformadas. Entrei na Igreja, como faço quase sempre, lançando gestos de saudação e murmurando olás, boas tardes, coisas assim. Quando cheguei junto do altar, ajoelhei. Conversei um pouco com o de lá de cima, e de repente dei por mim a constatar que as cerca de vinte pessoas que estavam na Igreja eram exclusivamente mulheres. O único homem ali era o padre que ia celebrar a missa. E isto levou a minha oração para outras bandas. De facto, olhamos para o grupo de catequistas e são, na maioria, mulheres. Olhamos para o grupo dos ministros extraordinários da Comunhão e são, na maioria, mulheres. Olhamos para os diversos serviços, eventos paroquiais, e constatamos mais do mesmo, que, na maioria, são sustentados por mulheres. Bem vistas as coisas, só a hierarquia da Igreja é que não é composta por mulheres. Bem vistas as coisas, são elas que fazem caminhar a Igreja. Ou então experimentem acabar com a sua participação ou deixar de contar com elas nas comunidades paroquiais e logo verão que acontece. Eu sei que não é fácil imaginar estas comunidades sem padres. Mas também não é fácil imaginá-las sem mulheres que, tão generosamente, as fazem caminhar.

terça-feira, abril 10, 2018

E se os padres fizessem greve?

Li há tempos que um pároco em Itália afixara um cartaz na porta da Igreja a dizer algo mais ou menos do tipo "A missa foi suspensa por falta de fiéis. Padre tal estará disponível quando for chamado". A informação foi publicada num jornal e alvo de muita conversa, sobretudo nas redes sociais. 
Pessoalmente não me parece que a sua opção tenha sido a mais indicada. Um padre, à partida e como servo de Deus, deveria também ter a disponibilidade de coração para qualquer necessidade do foro da fé, mesmo quando à sua frente está um número reduzido de fiéis. No entanto, com a carência de sacerdotes, com as notícias que nos vão dando conta da sua debandada, das depressões ou similares na vida de tantos sacerdotes, o assunto merece a atenção de todos aqueles que se interessam pela Igreja.
A paróquia é, desde tempos imemoráveis, o território por excelência da acção de um sacerdote a que se chama pároco. Mas o número de padres tem diminuído e o mesmo não ocorre com o número de paróquias, ainda que muitas delas tenham perdido parte dos requisitos básicos de uma comunidade paroquial. O mais comum é a diminuição drástica de paroquianos. Nunca me aconteceu colocar-me diante do altar sem fiéis para celebrar a missa. Mas já celebrei bastas vezes para menos que uma dezena de pessoas. Contudo, os bispos teimam em dividir os padres pelas paróquias como se fossem fatias de um bolo, as comunidades costumam tratar-se como consumidoras e os padres aqueles que estão do outro lado do balcão. Temos esquecido que é mais importante a transmissão da fé que a divisão de territórios por párocos. Estes têm cada vez mais a seu cargo lugares para cuidar, lugares para realizar sacramentos a correr, Igrejas a cair por dentro e por fora, sem tempo para a real missão que assumiram na sua ordenação. Na verdade, e embora possa ser apenas minha opinião, um padre não se ordena para ser pároco, mas para ser padre. A sua missão não se confina a um território. A sua missão é anunciar a Boa Nova. 
Qualquer dia é bem possível que também os padres comecem a fazer greve para exigir que a vocação que abraçaram volte a ser a vocação sacerdotal.

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Os padres impecáveis

Há tempos trocávamos aqui palavras sobre os seres perfeitos dos padres. Agora apetece-me falar dos mesmos, mas trocando os adjectivos. Falarei dos padres impecáveis, desses que, porventura, vivem para mostrar o Deus impecável que lhes dá poder, através da ordenação, de serem impecáveis. Esse Deus que não os habita, porque eles devem precisar pouco dele, dado que são impecáveis. 
Não sei quem são nem onde existem esses padres. Nem sei se existem. Por mim cá continuarei como S. Paulo, a professar que Deus entra na nossa fragilidade para lhe darmos espaço, a Ele e à sua força. E para que tudo o que façamos seja expressão dele e da sua força de amor, e não da nossa suposta impecabilidade. 
Como disse em tempos um grande amigo, uma coisa é fazer as coisas bem, e outras fazê-las brilhar!

quarta-feira, janeiro 03, 2018

Uma confissão banal

Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final. 
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim. 
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.

terça-feira, dezembro 26, 2017

A minha cadeira de rodas

Só me faltou a gargalhada. Foi um sorriso que só eu dei conta. Veio, mais ou menos, na hora em que me pareceu que o mundo estava distante. Que agora era só eu e mais quem me quisesse acompanhar na invisibilidade. Ganhei ânimo ao pensar que vida é muito mais que o que temos de fazer. A vida é estar ou ser. É muito pouco o que fazer. 
Sou padre, é certo. Não tenho a menor dúvida disso. Como também não tenho grandes dúvidas sobre o convite que Deus me fez há tantos anos. O convite que fez a uma pobre criança, meio reguila, meio inconforme. Tantas vezes pensei no porquê de Deus me ter escolhido. Ainda por cima, quando me apercebo das minhas milhentas fragilidades ou vulnerabilidades. 
Estava a ler o livro “Senhor bispo, o pároco fugiu”, uma versão portuguesa do original francês “Monsier, le curé fait sa crise”. As primeiras impressões, sobretudo quando se trata o assunto da canseira administrativa das paróquias, era uma luva em mim. Assentava em cada dedo das minhas mãos. O protagonista, de nome Benjamim, queria refundar o seu sacerdócio, e para isso fugiu de tudo. Creio que fugiu até de si mesmo. Ia lendo e ia pensando que também era um sentimento que vinha a mim muitas vezes. A ideia que formulamos em nós quando decidimos seguir esta vocação anda muito próximo da divinização do sacerdócio. Imaginamo-nos a construir o reino de Deus só com a Palavra de Deus. Ela tem uma força que não cabe em nós, de facto. Mas é na nossa humanidade que ela actua. Não há como fugir disso. Nós padres, é que nos esquecemos, muitas vezes, dessa realidade. A vida não é como imaginamos, mas é um desafio permanente a descobrir como viver.
O padre Benjamim no final do livro foi convidado a ser bispo, apesar de estar sobre uma cadeira de rodas. O que eu me ri das coisas que Deus pode, em verdade, lembrar-se. Ou pelo menos que o autor deste livro colocou na sua vontade. A minha cadeira de rodas é outra. É esta vida sobre a qual me tenho sentado, na esperança de que o mundo gire à minha volta. Mas o mundo não gira. Sou eu que tenho de ir em busca, mesmo em cadeira de rodas. Sou eu que tenho de andar, mesmo que seja dentro de mim, para que cada minuto da minha vida, mesmo a sacerdotal, valha a pena. Por isso me ri tanto, comigo e de mim. Talvez amanhã me levante com o mesmo rosto sombrio de muitos dos meus dias. Mas, pelo menos, agora rio e, como um rio, quero deixar-me levar até ao mar, com um sorriso nos lábios.

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Ser padre ou ser Igreja?

Há muito que ando com esta pergunta aos tombos. Há já tanto tempo, como desde que comecei a sentir o que era deveras ser padre. Os primeiros anos do sacerdócio são os anos fantásticos dos sonhos, das esperanças, da vontade de oferecer ou vender a salvação por meia tuta de missas, confissões ou outros sacramentos. Muitas actividades para promover o espírito da comunidade cristã. Muitas conversas entusiásticas sobre um Deus que nos ama. Mas depois, com o tempo, vem a sabedoria da vida, a sabedoria de uma vida que se mantém igual, com pequenas nuances ou pequenos degraus. Esse tempo já la vai um pouco perdido pelo tédio ou pela rotina do nosso sacerdócio. Evito ser pessimista. Vejo ou quero ver tudo como oportunidades e desafios. Mas a pergunta vem e vai, bailando como sereia por um mar desconhecido. São muitos anos contados a fazer uma pergunta que é mais uma questão. Ou uma questão que se desenrola em muitas perguntas. Que Igreja quer Deus? Porque Deus fez assim as coisas? Para que enviou realmente o Seu Filho ao mundo? O que Ele pretende de nós? O que fazemos nós com Deus? E com estas vêm muitas outras perguntas similares, parecidas, mais retocadas ou mais embrulhadas. E todas elas se podem resumir neste desejo que trago em perceber como devo ser Igreja e como posso cumprir a vocação para a qual Deus me convidou. Repito a mim mesmo que não estou a ser pessimista e que, no meu mais íntimo, algo sei da resposta que busco. Talvez recluir-me em mim mesmo fosse a maneira para não me desperdiçar em tanta superficialidade. Mas também sei que não é isso que Deus me quer. É na vida que Ele pretende que eu seja padre e seja Igreja. Talvez o que eu queria era uma Igreja mais fácil, mais simples, mais verdadeira, na qual me pudesse sentir sempre como sou. Talvez consiga responder com mais claridade quando um dia for capaz de desprender-me do meu sacerdócio eu o encontre verdadeiramente. Ou por outras palavras, talvez quando um dia deixe de querer ser tão padre, eu consiga ser mais discípulo e mais Igreja como imagino que Deus sonhou.

sábado, dezembro 02, 2017

Os nadas do padre João

O padre João tem, muitas vezes, a vontade de não fazer nada. Tem vontade de fugir para coisas que sejam iguais a nada, desinteressantes, desnecessárias. Tem aquela vontade de fazer o que apetece sem que uma obrigação moral, doutrinal, funcional e até espiritual lhe esteja colada como um cordão umbilical à sua progenitora. Gosto particularmente desta comparação para explicar o estado do Padre João. Sabe-se que a intimidade que o novo ser possui com a mãe lhe advém dessa religação de ser, o cordão umbilical. Mas também se sabe que se não se corta, nunca será o verdadeiro ser para o qual esse cordão serviu. A vontade do padre João fugir é, portanto, a vontade de ser, tal como a mãe natureza, a que eu ouso chamar de Deus, teve o ensejo de vocacionar. Ser verdadeiramente padre.
Não sei muito bem como falar do padre João. As palavras tornam-se tão confusas como a cabeça dele neste preciso momento que, afinal, já se vem arrastando há semanas. O padre João está cansado de ser e de viver à custa do que os outros esperam dele. Quando decidiu dar este rumo à sua vida, prometeu que iria dedicar a sua vida àquilo que Deus esperava dele. E agora sente que está a fazer, não o que Deus espera, mas o que os outros esperam, o que nem sempre, ou quase nunca, coincide. Por isso se vê tentado a não fazer nada, a fugir, a esconder-se para se sentir ele próprio, a desaparecer para poder ser. O padre João está com vontade de não fazer nada. Esse nada que, afinal, é tudo o que ele queria neste momento.

terça-feira, novembro 28, 2017

Será o padre um homem como os outros?

É hábito que, sobretudo em ambiente de café, quando aparece um padre e se senta numa mesa tal como os outros circunstantes desse espaço, se façam afirmações do tipo O padre é um homem como os outros. É a frase típica quando se quer dizer que o padre também pode cometer excessos, beber uns copos, participar numas farras, bailar ou divertir-se. É curioso que, em muitas destas ocasiões, o padre é, como se costuma dizer, mirado e remirado com desconfiança. Mas mesmo assim dá origem à famosa expressão que serve como justificação para dizer que o padre também pode ter os seus deslizes ou fragilidades. Preferia pensá-la como se fosse o mesmo que dizer O padre é cá dos nossos. Mas até isso é excessivo, se for para exprimir que faz parte do grupo dos boémios. Melhor seria que fosse para dizer que é um dos nossos no sentido em que é o nosso padre. 
Na minha modesta opinião, um padre não é propriamente um homem como os outros. É homem como os outros. O que é substancialmente diferente. Aliás, ninguém é igual a outro. Não queremos que o padre seja igual a qualquer outra pessoa, e se o fosse, que essa pessoa fosse Cristo. Mas até isso poderia também ser excessivo, porque não há outro Cristo que não o próprio Cristo. A nossa almejada configuração a Ele nunca poderá ser uma transformação na sua pessoa. Isso mesmo me diz que é arriscado dizer que o padre deveria ser um outro Cristo, ou como alguns documentos da Igreja referem, um alter Cristo. A configuração com Ele, une-nos a Ele, coloca-nos no seu íntimo, tal como o colocamos a Ele no nosso íntimo, mas nunca nos transformará n’Ele. Bom, mas parece que me estou a distanciar do que queria dizer sobre O padre é homem como os outros. Dizia eu que não me parece uma afirmação acertada. Não significa que eu não queira que os padres sejam homens. Mal deles, se fossem anjos ou um outro ser divino que não tivesse os pés na terra. Não são seres sobre-humanos ou dotados de uma qualquer forma que não seja humana. São seres humanos, que, tal como todos os seres humanos, têm debilidades. Do mesmo modo, têm gostos, pensamentos, sentimentos, opiniões, formas de viver como toda a gente. Mas um padre não tem de ser igual aos outros, tanto como não tem de ser diferente. Tem de ser tão só um padre que é homem como os outros.

sábado, setembro 23, 2017

O papa e os padres

Há um ou dois dias li, numa das redes sociais da moda, uma crítica ao Papa Francisco pelo facto de estar sempre a criticar os padres. Pelas palavras usadas e pelas entrelinhas dessas palavras, aquilo pareceu-me mais um ataque que uma crítica. Para o autor do artigo, pelos vistos um colega, cada vez que o Papa falava dos padres, mesmo quando dizia o que deviam ser e não propriamente o que não deviam ser, entrevia nele palavras de ataque aos padres. E acrescentava, ou teimava, que era obrigação do Papa acarinhar e proteger mais os seus. Como se o restante povo de Deus não fizesse parte dos seus. Todo o texto era voltado para dentro, para a Igreja formada pelo “clero”, na génese do que significava essa palavra na Grécia Antiga, a “herança ou parte escolhida”. Ou o que se documentou no concílio Vaticano I que falava da Igreja, referindo-se à hierarquia, como a sociedade perfeita. Ou o que podemos recordar dessa época medieval com um clero que vivia à custa do poder.
O Papa mais não faz do que aquilo que fazia Jesus chamando a atenção dos anciãos, dos apóstolos e dos fariseus quando estes, convencidos de que eram os mais sabedores, os mais perfeitos e os mais cumpridores, viviam uma religião de méritos ou de puros. 
Tem razão, na minha opinião, o Papa. Os que coordenamos ou dirigimos a barca da Igreja deveríamos ser mais Cristo e deixarmos de insistir que somos um alter Cristo¸ como dizem alguns documentos. 
Às vezes estamos tão convencidos daquilo que somos, que vivemos a defendê-lo, em vez de defender a Cristo. Vivemos a tentar demonstrar a nossa bondade em vez de mostrar a bondade de Deus. Tem razão o Papa. Enquanto nos mantivermos assim, autorreferenciais, convencidos da nossa dignidade, provavelmente não cumprimos a missão que temos nas mãos... e que devíamos ter em todo o nosso ser.

sexta-feira, setembro 01, 2017

Fiquei sem as minhas irmãs

Fiquei sem elas. Aliás, não fui só eu quem ficou sem elas. Foi toda uma comunidade paroquial. Ficámos sem as irmãs consagradas que há várias décadas aqui haviam construído uma comunidade religiosa, uma presença espiritual. Sim, muito mais espiritual que pastoral, embora se notasse particularmente a sua presença na pastoral da paróquia. Como não têm tido vocações, a sua provincial vê-se obrigada a fechar, pouco a pouco, algumas casas onde estão pequenas comunidades religiosas. Quando anunciámos o encerramento desta casa e desta pequena comunidade de três irmãs, embora com umas lágrimas a deslizar pelo sulco da face, a voz do agradecimento foi mais forte. Nesta hora, dizia eu ao microfone da Igreja paroquial, não podemos prender-nos à lamentação da perda, mas ao agradecimento dos vários dons que cada um recebeu com a sua presença. É isso mesmo que penso. Mais do que lamentar-nos da sua ausência, devemos agradecer a sua presença. 
Foi tudo rápido e agora já cá não estão. Não quero desistir de procurar uma outra congregação ou Instituto de vida Consagrada para aqui estabelecer uma comunidade religiosa. Mas a coisa não está fácil. As respostas ao nosso convite vão chegando com a descrição de dificuldades similares. A maioria delas diz que também estão a fechar casas e comunidades. 
A realidade está ao alcance dos nossos olhos. E nós teimamos em fazer como se nada estivesse ocorrendo na Igreja. Vamos fazendo o mesmo de sempre, com menos vocações consagradas, menos cristãos, menos recursos, numa pastoral de manutenção que não tem mais lugar num mundo em que a fé conta cada vez menos.

segunda-feira, maio 22, 2017

Oração especial

Venho aqui, hoje, rezar por um colega que decidiu fazer um ponto de interrogação à sua vida sacerdotal. O que ele não sabe é que esse ponto de interrogação se pode transformar em ponto final num ápice. Ele disse-me que se tratavam de reticências. Eu percebi o que ele queria dizer, mas também pensei em muitas vírgulas. E que se calhar perdera o entusiasmo próprio dos pontos de exclamação constantes da nossa missão sacerdotal. 
Às vezes é preciso enfrentar-nos e não enfrentarmos apenas a nossa vida. Estou com ele, no que está e no que vier, nas decisões que tomar ou que ficarem por tomar. Como creio em Deus, mais do que nos homens, estou seguro que Deus vai guiar cada um dos seus passos e reforçar o seu sacerdócio neste tempo solitário.
E rezarei, rezarei para que não seja um ponto final. Para que sejam apenas dois pontos.

domingo, março 19, 2017

O sorriso da minha mãe

Hoje lembrei-me do sorriso da minha mãe. Era um sorriso rasgado. Quase se notava mais o seu sorriso que o seu rosto. Ou melhor, quase se notava mais o seu rosto sorridente que a dor sofrida da sua enfermidade. 
Também chorava. Vi-lhe algumas lágrimas correr pelos sulcos cansados do rosto. Mas eram poucas, e misturavam-se com a alegria de um rosto feliz. A minha mãe era feliz. Também se afrontava com as afrontas da vida. Como mãe que era, pesavam-lhe sobretudo as afrontas dos filhos, onde me incluo especialmente. Mas era feliz. Tinha uma vida cumprida. Não uma daquelas vidas gastas sem saber bem como e para quê. Era uma vida entregue aos outros e a Deus. 
Talvez eu esteja a exagerar, porque a minha mãe é simplesmente a “mãe”. O cordão umbilical que me alimentou ainda não se desligou nem vai desligar. Talvez eu exagere ao afirmar que a vida da minha mãe era uma vida com “V” grande, à maneira do “D” grande de Deus. Mas como lhe devo tanto da minha vida e do meu sacerdócio, deixai-me recordar esse sorriso que tantas vezes me dá vontade de continuara a viver e a ser sacerdote.

Parece que este texto não vem a propósito, mas vem. Hoje, dia do pai, aproveito para enviar um grande abraço a todos os pais e um abraço muito apertado ao meu.

sexta-feira, março 03, 2017

Os seres perfeitos dos padres

Sinceramente, e não levem a mal, às vezes tenho alguma pena das pessoas que fazem uma imagem dos padres como se fossem seres perfeitos, sem dúvidas, sem questões, com tudo já sabido da parte de Deus, como se tivessem o privilégio de saber as coisas de Deus antes dos outros. Ou daquelas que olham para os padres como alguém que vive acima do mundo, na estratosfera dos seres angelicais. Ou ainda daquelas que só querem saber dos padres quando querem saber de si mesmas, e lhes exigem os sins todos, como se eles tudo pudessem fazer. 
Tenho pena delas e mais pena tenho de mim. Pois queria ser apenas eu, sem mais, e ser apenas mais um padre que tem de esforçar-se... como todos os cristãos.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Eu na periferia

Estou triste comigo. Com uma daquelas tristezas que se transpiram pelos poros e que, por mais que se use um perfume ou um desodorizante, cheiram a bafio. Fiquei triste comigo há cerca de uns quinze minutos, lá pelas vinte e uma horas da noite, quando bati à porta de um pobre daqui da terra. Com a agravante de que para saber a morada, tive de pedir a alguém que me ajudasse. Sinto agora que isso era uma agravante porque estou a pensar nela. Os meus motivos eram bons. Não posso dizer que não eram bons! Mas depois que a senhora me abriu a porta, dei conta que esta não me conhecia. Sabia que eu era o padre porque alguém a avisara que eu daria por lá um salto. Claro que me posso desculpar dizendo que ela não me conhecia porque não vai à missa. No entanto, não posso por o acento da situação nela. Tenho de o por em mim. E se ela não me conhece é porque nunca me dera a conhecer. Porque nunca batera à sua porta. Porque não fora ao seu encontro. Ao encontro da sua pobreza. Da sua periferia. E agora estou triste porque, afinal, não sou o padre que deveria ser.

terça-feira, janeiro 24, 2017

Os quatro primeiros apóstolos

Os quatro primeiros apóstolos, chamados e convidados por Jesus, eram pescadores. Alguns dirão que escolheu estes pescadores pela analogia dos pescadores de homens. É bonita a analogia, e é piedoso o argumento. Mas eu prefiro pensar que escolheu pescadores porque não queria escolher doutores. Que escolheu pescadores, gente rude por excelência, porque não possuíam eloquência ou ciência para confundir seu anúncio. Que escolheu pescadores, gente do povo por excelência, porque queria transformar a humanidade e não elaborar uma doutrina. E se começou por dois pares de irmãos, foi porque queria que a sua Igreja fosse uma Igreja de irmãos. E se escolheu dois a dois foi porque a riqueza está em não se ser Igreja sozinho. 
Com os pescadores escreveu o início da Igreja. Uma igreja que agora parece assentar em centenas, senão milhares, de doutores. Uma Igreja que agora parece encerrada em gabinetes.

domingo, janeiro 15, 2017

Os jovens que olham os padres

Que observam em nós, padres, os jovens que cruzam connosco nas ruas, nas escolas, nos bares ou até nas igrejas? Que observam em nós, padres, esses jovens, com jeans ou outras calças de marca, mais interessados no que parece do que no que se é ou se tem? Que observam em nós, padres, esses jovens que Deus ama como são e que se cansaram de uma Igreja que parece dizer-lhes pouco? Que observam em nós, padres, esses jovens que não sabem ainda como Deus os ama?
Às vezes, quando olho os jovens que se cruzam comigo na rua, fico a pensar no que pensarão de nós, os padres. Se calhar não pensam nada. Se calhar não perdem tempo com isso. Não perdem tempo com coisas que não lhes dizem absolutamente nada. Ou se calhar olham para nós com a comiseração própria de quem acha que esta coisa de ser padre é algo raro, estranho, meio do outro mundo, coisas da pré-história ou de outros planetas.
Cuido que se me pusesse na sua pele, olhava para mim, ou para nós, como aquele tipo de atletas que fazem da sua vida uma corrida. Correm para fazer sacramentos e sacramentais. Correm para cumprir um série de coisas estabelecidas pela Igreja. Correm para celebrar uma missa que, ainda por cima, é uma seca. Não se faz lá nada. Estamos ali a aguentar palavras sem contexto. Simbologias que ficam no mundo das simbologias. Cerimónias e mais cerimónias sem alegria e sem rostos.
Cuido que se me pusesse na sua pele, veria que os nossos rostos são rostos de gente sacrificada sem alegria. Gente que busca as mesmas coisas que todos buscam na sociedade enganadora de hoje. Rostos feitos de fraquezas dissimuladas e identidades arrastadas. Descobriria que afinal também estamos fragmentados, somos voláteis e andamos a correr em busca de um algo que parece não sabermos o que é. 
Cuido que se me pusesse na sua pele, não me daria, ou não nos daria, muitos ouvidos. Talvez eles até nos ouçam. Mas quando são obrigados a ouvir-nos. Ou não têm nada melhor para fazer. Ouvem-nos, mas como um zumbido que incomoda ao ouvido. Ouvem-nos como uma grafonola antiga e desajeitada. 
Não me quero meter na sua pele. Não quero pensar que se fosse um deles, seria este o meu modo de pensar. Realmente seria preferível não pensar em nada. Mas temo que os jovens de hoje não enxerguem em nós, padres, a alegria do encontro com Cristo, ou as maravilhas que Deus opera em nós, porque nem uma coisa nem outra são bem contadas ou nítidas. Ou que não nos enxerguem a rezar na intimidade com Ele. Ou que não nos sintam felizes por sermos padres, mesmo quando sofremos. Ou que não percebam em nós quanto Deus no ama, ao ponto de darmos a nossa vida por Ele. Ou que não dêem conta, por nosso intermédio, que Deus os ama também. E que os pode chamar... a ser padre.

quinta-feira, novembro 10, 2016

Perguntou quais eram os motivos para ser padre

No local onde em tempo de estudos resido tenho a oportunidade de me juntar com mais colegas sacerdotes e discutir sobre tudo e nada, a propósito e a despropósito. Como sou um dos que possui mais anos de sacerdócio, um deles decidiu perguntar-me qual ou quais eram os motivos para ser padre, o que é que ainda me mantinha após estes anos todos. E por acaso, como era um assunto que já pensara muitas vezes e em especial nesta semana dos Seminários, respondi que só tenho um motivo para ser padre, embora às vezes, ou muitas vezes, busque outros. 
É difícil dar razões do nosso sacerdócio, buscá-las, dizê-las. Se calhar deveria haver milhares de razões e motivos. São esses que às vezes procuro para me justificar ou para me sentir um padre com razões para sê-lo. São, quase sempre, humanos e mundanos, mesmo que bons e altamente positivos. Contudo, e sinceramente, penso que só vale a pena ser sacerdote por um motivo: o Amor de Deus que nos chama e fala mais alto.