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terça-feira, novembro 28, 2017

Será o padre um homem como os outros?

É hábito que, sobretudo em ambiente de café, quando aparece um padre e se senta numa mesa tal como os outros circunstantes desse espaço, se façam afirmações do tipo O padre é um homem como os outros. É a frase típica quando se quer dizer que o padre também pode cometer excessos, beber uns copos, participar numas farras, bailar ou divertir-se. É curioso que, em muitas destas ocasiões, o padre é, como se costuma dizer, mirado e remirado com desconfiança. Mas mesmo assim dá origem à famosa expressão que serve como justificação para dizer que o padre também pode ter os seus deslizes ou fragilidades. Preferia pensá-la como se fosse o mesmo que dizer O padre é cá dos nossos. Mas até isso é excessivo, se for para exprimir que faz parte do grupo dos boémios. Melhor seria que fosse para dizer que é um dos nossos no sentido em que é o nosso padre. 
Na minha modesta opinião, um padre não é propriamente um homem como os outros. É homem como os outros. O que é substancialmente diferente. Aliás, ninguém é igual a outro. Não queremos que o padre seja igual a qualquer outra pessoa, e se o fosse, que essa pessoa fosse Cristo. Mas até isso poderia também ser excessivo, porque não há outro Cristo que não o próprio Cristo. A nossa almejada configuração a Ele nunca poderá ser uma transformação na sua pessoa. Isso mesmo me diz que é arriscado dizer que o padre deveria ser um outro Cristo, ou como alguns documentos da Igreja referem, um alter Cristo. A configuração com Ele, une-nos a Ele, coloca-nos no seu íntimo, tal como o colocamos a Ele no nosso íntimo, mas nunca nos transformará n’Ele. Bom, mas parece que me estou a distanciar do que queria dizer sobre O padre é homem como os outros. Dizia eu que não me parece uma afirmação acertada. Não significa que eu não queira que os padres sejam homens. Mal deles, se fossem anjos ou um outro ser divino que não tivesse os pés na terra. Não são seres sobre-humanos ou dotados de uma qualquer forma que não seja humana. São seres humanos, que, tal como todos os seres humanos, têm debilidades. Do mesmo modo, têm gostos, pensamentos, sentimentos, opiniões, formas de viver como toda a gente. Mas um padre não tem de ser igual aos outros, tanto como não tem de ser diferente. Tem de ser tão só um padre que é homem como os outros.

sábado, setembro 23, 2017

O papa e os padres

Há um ou dois dias li, numa das redes sociais da moda, uma crítica ao Papa Francisco pelo facto de estar sempre a criticar os padres. Pelas palavras usadas e pelas entrelinhas dessas palavras, aquilo pareceu-me mais um ataque que uma crítica. Para o autor do artigo, pelos vistos um colega, cada vez que o Papa falava dos padres, mesmo quando dizia o que deviam ser e não propriamente o que não deviam ser, entrevia nele palavras de ataque aos padres. E acrescentava, ou teimava, que era obrigação do Papa acarinhar e proteger mais os seus. Como se o restante povo de Deus não fizesse parte dos seus. Todo o texto era voltado para dentro, para a Igreja formada pelo “clero”, na génese do que significava essa palavra na Grécia Antiga, a “herança ou parte escolhida”. Ou o que se documentou no concílio Vaticano I que falava da Igreja, referindo-se à hierarquia, como a sociedade perfeita. Ou o que podemos recordar dessa época medieval com um clero que vivia à custa do poder.
O Papa mais não faz do que aquilo que fazia Jesus chamando a atenção dos anciãos, dos apóstolos e dos fariseus quando estes, convencidos de que eram os mais sabedores, os mais perfeitos e os mais cumpridores, viviam uma religião de méritos ou de puros. 
Tem razão, na minha opinião, o Papa. Os que coordenamos ou dirigimos a barca da Igreja deveríamos ser mais Cristo e deixarmos de insistir que somos um alter Cristo¸ como dizem alguns documentos. 
Às vezes estamos tão convencidos daquilo que somos, que vivemos a defendê-lo, em vez de defender a Cristo. Vivemos a tentar demonstrar a nossa bondade em vez de mostrar a bondade de Deus. Tem razão o Papa. Enquanto nos mantivermos assim, autorreferenciais, convencidos da nossa dignidade, provavelmente não cumprimos a missão que temos nas mãos... e que devíamos ter em todo o nosso ser.

sexta-feira, setembro 01, 2017

Fiquei sem as minhas irmãs

Fiquei sem elas. Aliás, não fui só eu quem ficou sem elas. Foi toda uma comunidade paroquial. Ficámos sem as irmãs consagradas que há várias décadas aqui haviam construído uma comunidade religiosa, uma presença espiritual. Sim, muito mais espiritual que pastoral, embora se notasse particularmente a sua presença na pastoral da paróquia. Como não têm tido vocações, a sua provincial vê-se obrigada a fechar, pouco a pouco, algumas casas onde estão pequenas comunidades religiosas. Quando anunciámos o encerramento desta casa e desta pequena comunidade de três irmãs, embora com umas lágrimas a deslizar pelo sulco da face, a voz do agradecimento foi mais forte. Nesta hora, dizia eu ao microfone da Igreja paroquial, não podemos prender-nos à lamentação da perda, mas ao agradecimento dos vários dons que cada um recebeu com a sua presença. É isso mesmo que penso. Mais do que lamentar-nos da sua ausência, devemos agradecer a sua presença. 
Foi tudo rápido e agora já cá não estão. Não quero desistir de procurar uma outra congregação ou Instituto de vida Consagrada para aqui estabelecer uma comunidade religiosa. Mas a coisa não está fácil. As respostas ao nosso convite vão chegando com a descrição de dificuldades similares. A maioria delas diz que também estão a fechar casas e comunidades. 
A realidade está ao alcance dos nossos olhos. E nós teimamos em fazer como se nada estivesse ocorrendo na Igreja. Vamos fazendo o mesmo de sempre, com menos vocações consagradas, menos cristãos, menos recursos, numa pastoral de manutenção que não tem mais lugar num mundo em que a fé conta cada vez menos.

segunda-feira, maio 22, 2017

Oração especial

Venho aqui, hoje, rezar por um colega que decidiu fazer um ponto de interrogação à sua vida sacerdotal. O que ele não sabe é que esse ponto de interrogação se pode transformar em ponto final num ápice. Ele disse-me que se tratavam de reticências. Eu percebi o que ele queria dizer, mas também pensei em muitas vírgulas. E que se calhar perdera o entusiasmo próprio dos pontos de exclamação constantes da nossa missão sacerdotal. 
Às vezes é preciso enfrentar-nos e não enfrentarmos apenas a nossa vida. Estou com ele, no que está e no que vier, nas decisões que tomar ou que ficarem por tomar. Como creio em Deus, mais do que nos homens, estou seguro que Deus vai guiar cada um dos seus passos e reforçar o seu sacerdócio neste tempo solitário.
E rezarei, rezarei para que não seja um ponto final. Para que sejam apenas dois pontos.

domingo, março 19, 2017

O sorriso da minha mãe

Hoje lembrei-me do sorriso da minha mãe. Era um sorriso rasgado. Quase se notava mais o seu sorriso que o seu rosto. Ou melhor, quase se notava mais o seu rosto sorridente que a dor sofrida da sua enfermidade. 
Também chorava. Vi-lhe algumas lágrimas correr pelos sulcos cansados do rosto. Mas eram poucas, e misturavam-se com a alegria de um rosto feliz. A minha mãe era feliz. Também se afrontava com as afrontas da vida. Como mãe que era, pesavam-lhe sobretudo as afrontas dos filhos, onde me incluo especialmente. Mas era feliz. Tinha uma vida cumprida. Não uma daquelas vidas gastas sem saber bem como e para quê. Era uma vida entregue aos outros e a Deus. 
Talvez eu esteja a exagerar, porque a minha mãe é simplesmente a “mãe”. O cordão umbilical que me alimentou ainda não se desligou nem vai desligar. Talvez eu exagere ao afirmar que a vida da minha mãe era uma vida com “V” grande, à maneira do “D” grande de Deus. Mas como lhe devo tanto da minha vida e do meu sacerdócio, deixai-me recordar esse sorriso que tantas vezes me dá vontade de continuara a viver e a ser sacerdote.

Parece que este texto não vem a propósito, mas vem. Hoje, dia do pai, aproveito para enviar um grande abraço a todos os pais e um abraço muito apertado ao meu.

sexta-feira, março 03, 2017

Os seres perfeitos dos padres

Sinceramente, e não levem a mal, às vezes tenho alguma pena das pessoas que fazem uma imagem dos padres como se fossem seres perfeitos, sem dúvidas, sem questões, com tudo já sabido da parte de Deus, como se tivessem o privilégio de saber as coisas de Deus antes dos outros. Ou daquelas que olham para os padres como alguém que vive acima do mundo, na estratosfera dos seres angelicais. Ou ainda daquelas que só querem saber dos padres quando querem saber de si mesmas, e lhes exigem os sins todos, como se eles tudo pudessem fazer. 
Tenho pena delas e mais pena tenho de mim. Pois queria ser apenas eu, sem mais, e ser apenas mais um padre que tem de esforçar-se... como todos os cristãos.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

Eu na periferia

Estou triste comigo. Com uma daquelas tristezas que se transpiram pelos poros e que, por mais que se use um perfume ou um desodorizante, cheiram a bafio. Fiquei triste comigo há cerca de uns quinze minutos, lá pelas vinte e uma horas da noite, quando bati à porta de um pobre daqui da terra. Com a agravante de que para saber a morada, tive de pedir a alguém que me ajudasse. Sinto agora que isso era uma agravante porque estou a pensar nela. Os meus motivos eram bons. Não posso dizer que não eram bons! Mas depois que a senhora me abriu a porta, dei conta que esta não me conhecia. Sabia que eu era o padre porque alguém a avisara que eu daria por lá um salto. Claro que me posso desculpar dizendo que ela não me conhecia porque não vai à missa. No entanto, não posso por o acento da situação nela. Tenho de o por em mim. E se ela não me conhece é porque nunca me dera a conhecer. Porque nunca batera à sua porta. Porque não fora ao seu encontro. Ao encontro da sua pobreza. Da sua periferia. E agora estou triste porque, afinal, não sou o padre que deveria ser.

terça-feira, janeiro 24, 2017

Os quatro primeiros apóstolos

Os quatro primeiros apóstolos, chamados e convidados por Jesus, eram pescadores. Alguns dirão que escolheu estes pescadores pela analogia dos pescadores de homens. É bonita a analogia, e é piedoso o argumento. Mas eu prefiro pensar que escolheu pescadores porque não queria escolher doutores. Que escolheu pescadores, gente rude por excelência, porque não possuíam eloquência ou ciência para confundir seu anúncio. Que escolheu pescadores, gente do povo por excelência, porque queria transformar a humanidade e não elaborar uma doutrina. E se começou por dois pares de irmãos, foi porque queria que a sua Igreja fosse uma Igreja de irmãos. E se escolheu dois a dois foi porque a riqueza está em não se ser Igreja sozinho. 
Com os pescadores escreveu o início da Igreja. Uma igreja que agora parece assentar em centenas, senão milhares, de doutores. Uma Igreja que agora parece encerrada em gabinetes.

domingo, janeiro 15, 2017

Os jovens que olham os padres

Que observam em nós, padres, os jovens que cruzam connosco nas ruas, nas escolas, nos bares ou até nas igrejas? Que observam em nós, padres, esses jovens, com jeans ou outras calças de marca, mais interessados no que parece do que no que se é ou se tem? Que observam em nós, padres, esses jovens que Deus ama como são e que se cansaram de uma Igreja que parece dizer-lhes pouco? Que observam em nós, padres, esses jovens que não sabem ainda como Deus os ama?
Às vezes, quando olho os jovens que se cruzam comigo na rua, fico a pensar no que pensarão de nós, os padres. Se calhar não pensam nada. Se calhar não perdem tempo com isso. Não perdem tempo com coisas que não lhes dizem absolutamente nada. Ou se calhar olham para nós com a comiseração própria de quem acha que esta coisa de ser padre é algo raro, estranho, meio do outro mundo, coisas da pré-história ou de outros planetas.
Cuido que se me pusesse na sua pele, olhava para mim, ou para nós, como aquele tipo de atletas que fazem da sua vida uma corrida. Correm para fazer sacramentos e sacramentais. Correm para cumprir um série de coisas estabelecidas pela Igreja. Correm para celebrar uma missa que, ainda por cima, é uma seca. Não se faz lá nada. Estamos ali a aguentar palavras sem contexto. Simbologias que ficam no mundo das simbologias. Cerimónias e mais cerimónias sem alegria e sem rostos.
Cuido que se me pusesse na sua pele, veria que os nossos rostos são rostos de gente sacrificada sem alegria. Gente que busca as mesmas coisas que todos buscam na sociedade enganadora de hoje. Rostos feitos de fraquezas dissimuladas e identidades arrastadas. Descobriria que afinal também estamos fragmentados, somos voláteis e andamos a correr em busca de um algo que parece não sabermos o que é. 
Cuido que se me pusesse na sua pele, não me daria, ou não nos daria, muitos ouvidos. Talvez eles até nos ouçam. Mas quando são obrigados a ouvir-nos. Ou não têm nada melhor para fazer. Ouvem-nos, mas como um zumbido que incomoda ao ouvido. Ouvem-nos como uma grafonola antiga e desajeitada. 
Não me quero meter na sua pele. Não quero pensar que se fosse um deles, seria este o meu modo de pensar. Realmente seria preferível não pensar em nada. Mas temo que os jovens de hoje não enxerguem em nós, padres, a alegria do encontro com Cristo, ou as maravilhas que Deus opera em nós, porque nem uma coisa nem outra são bem contadas ou nítidas. Ou que não nos enxerguem a rezar na intimidade com Ele. Ou que não nos sintam felizes por sermos padres, mesmo quando sofremos. Ou que não percebam em nós quanto Deus no ama, ao ponto de darmos a nossa vida por Ele. Ou que não dêem conta, por nosso intermédio, que Deus os ama também. E que os pode chamar... a ser padre.

quinta-feira, novembro 10, 2016

Perguntou quais eram os motivos para ser padre

No local onde em tempo de estudos resido tenho a oportunidade de me juntar com mais colegas sacerdotes e discutir sobre tudo e nada, a propósito e a despropósito. Como sou um dos que possui mais anos de sacerdócio, um deles decidiu perguntar-me qual ou quais eram os motivos para ser padre, o que é que ainda me mantinha após estes anos todos. E por acaso, como era um assunto que já pensara muitas vezes e em especial nesta semana dos Seminários, respondi que só tenho um motivo para ser padre, embora às vezes, ou muitas vezes, busque outros. 
É difícil dar razões do nosso sacerdócio, buscá-las, dizê-las. Se calhar deveria haver milhares de razões e motivos. São esses que às vezes procuro para me justificar ou para me sentir um padre com razões para sê-lo. São, quase sempre, humanos e mundanos, mesmo que bons e altamente positivos. Contudo, e sinceramente, penso que só vale a pena ser sacerdote por um motivo: o Amor de Deus que nos chama e fala mais alto.

quinta-feira, setembro 15, 2016

Padres habituados a ser clericais

Nós, os padres, habituámo-nos a ser padres clericais em vez de eclesiais. Habituámo-nos a servir, servindo-nos. Habituámo-nos a um modelo de padre que se coloca no centro da comunidade em vez de colocar Jesus no centro dela. Custa sair deste modelo para seguir o modelo de Cristo. Criámos uma estrutura humana que, embora sendo necessária, se tornou a necessidade a defender e não caminho para a Verdade. 
Habituámo-nos. Habituei-me. Todos gostamos de louvores, atenções, pequenos nadas. Habituámo-nos a ser padres assim.

quinta-feira, setembro 01, 2016

Padres que não sabem que caminham

Nós, os padres, às vezes esquecemos que precisamos de fazer caminho. Que caminhar também é para nós. Pensamos que chegada a nossa ordenação sacerdotal, já está o caminho feito. Que tudo nos tem de estar claro a partir daí. Que nada nem ninguém se vai atravessar no nosso caminho. Esquecemos que as estradas têm muitos buracos e que se não os taparmos, pelo menos temos de passar-lhes ao lado, saltá-los, ou cair neles para depois tornar a levantar-nos. 
Chegamos a pensar que a fé que pregamos para os outros é a palavra-chave da nossa vida, quando é uma entre muitas outras. Não há fé de chumbo, como diz um escritor que tenho andado a ler, Tomás Halik. Ou melhor, essa fé de chumbo é uma falácia que nos traz certezas que não o são. Que nos traz seguranças que não existem. 
Não somos mais nem menos que ninguém. Somos apenas caminhantes que caminham como sacerdotes. E como diz o povinho, o caminho faz-se caminhando.

quinta-feira, junho 30, 2016

Cumpre-se hoje parte de uma vida

O tempo passa vorazmente. Os segundos não param, e arrastam os minutos, as horas, os dias e os anos. Não param porque assim é a vida. Não pára. É quase como um jogo em que lançamos os dados constantemente para chegar à meta. 
Hoje cumpro duas dezenas de anos do meu sacerdócio. Faço por recordar a frescura do meu sim jovem, seguro, cheio de ânimo. Faço presente, neste momento, diante do altar, a promessa que quis fazer na minha primeira missa solene. Que todos os dias acordasse sacerdote e que todos os dias desejasse ser sacerdote com a mesma vontade. 
Já lá vai muito tempo. O tempo suficiente para necessitar de um esforço de modo a recordar. Houveram dias que, confesso, esqueci ou quis esquecer meu sacerdócio. Mas também houveram dias que fizeram valer cada segundo destes vinte anos de sacerdócio. 
A esta altura da vida já se vai olhando menos para a frente. Parece que as horas passaram a ser segundos. O ânimo de outrora cimentou-se. Já não é ânimo. É apenas querer viver. A missão e vocação ganharam maturidade. Já não são paixão. São vida em forma de entrega. São entrega em forma de amor. Os que nos foram sendo entregues para cuidar eclesialmente já não são somente os que Deus nos deu para cuidar. São agora aqueles com quem caminhamos. Já não conseguimos ser donos de sonhos e aventuras. Fazemos parte deles e delas. Já não somos propriamente jovens que vão mudar o mundo e Igreja. Somos apenas Igreja e fazemos parte, muito pequenina por sinal, deste mundo. 
Não quero pensar mais em mim. Hoje não é dia de pensar em mim. Hoje não é dia de pensar na minha vida. Se aqui cheguei e aqui estou, não é por mim, mas pelo Senhor. Por isso hoje é dia de pensar tão somente Nele. Todos estes anos só fazem sentido por causa de quem me chamou e me amou como sou. Graças por ti, senhor, por existires e me amares. 

29 de Junho de 2016

quarta-feira, maio 11, 2016

como uma porta

Bater à porta é ter a certeza que alguém pode estar do outro lado, que alguém nos pode atender ou, pelo menos, escutar o ruído do bater da porta. Ninguém pode teimar em dizer que a porta é só uma porta. Se é porta é porque pode abrir-se e trazer o outro lado de lá, dele mesmo, ou levar-nos até esse lado que desconhecemos porventura, mas que ansiamos, senão não bateríamos à porta. Se é porta é porque possibilita encontrar esses dois mundos, o de lá e o de cá. Se é porta, é porque está na minha mão poder abrir-se, e à minha mão de poder tocar-se. Se é porta é porque tem paredes ao seu redor. E se tem paredes pode ser casa, e se é casa é lugar para habitar. 
A porta não fecha somente a casa em si, mas abre-a. Dá a possibilidade de deixar entrar na casa quem vem e quem bate. Mesmo quando a porta tem uma fechadura, que serve o significado do que fecha, ela podia definir-se como abertura. Afinal o que se fecha é porque antes estava aberto e pode voltar a abrir-se. 
Perguntar por Deus é como uma porta.

terça-feira, maio 03, 2016

Falar de Deus

Para se falar de Deus há tanto para dizer. Fica sempre tanto por dizer. Parece que duas centenas de mãos cheias nunca chegariam. Quanto mais duas mãos meio vazías. Porém, quando se abre a boca, que é como quem diz, a vontade de falar de Deus, parece que algo nos cala ou nos força a emudecer. Verdade seja dita que não há palavras suficientes para falar de Deus. E será por isso que muitas vezes usamos as palavras formatadas. Ditas de cor e salteado, rapidamente, para não se esquecer ou não se enganar. Já me aconteceu não saber que falar de Deus, que é mais acertado dizer apetecer falar de Deus, e depois de começar há um sem fim de palavras que não me deixam acabar o que digo. Eu diria que são palavras arrastadas de emoções. Não sei se já te aconteceu sentires que devias falar das coisas de Deus a propósito ou a despropósito. A mim já. Muitas vezes. Quase sempre que encaro um rosto que olha para mim como padre. E depois tolhem-se-me as palavras. Tinha vontade de dizer qualquer coisinha, nem que fosse apenas um piscar de palavras. Mas saem formatadas porque me obrigo a dizer qualquer coisa. Quem é que porventura tem dificuldade em falar de Deus? Escondo-me atrás da cortina da janela, que quase não tapa nada, mas enfim, e digo baixinho para ninguém ouvir. Eu. O eu sai-me mais rápido e fácil do que o Deus. Espero não ser o único, porque senão isto descamba. 
E desculpem, amigos, este deambular de palavras. Estava aqui a querer escrever algo que tivesse a ver com Deus e só me saiu isto. Para falar da dificuldade que é forçarmo-nos a falar de Deus. Vale mais deixarmos Deus falar por nós.

sexta-feira, abril 22, 2016

“Amor amado a corpo inteiro”

Li nos meus devaneios poéticos um verso de Pedro Casaldáliga a propósito da vocação ao sacerdócio que dizia mais ou menos assim: “amor amado a corpo inteiro”. A frase estremeceu em mim e na minha vocação. Arrancou de mim, do meu corpo, a certeza de que não sou digno de tal sentir. Digo-o. Afirmo-o. Raramente amo a corpo inteiro. Digo-lhe muitas vezes expressões como “toma as minhas mãos”, ou “toma meus pés e meu andar”, ou “toma minha boca e minhas palavras”, ou “toma meu coração”, ou “toma meu pensar”, ou “toma meu sofrer” e por aí fora. Na verdade tenho-lhe oferecido partes de mim, mas não o corpo inteiro. 
Perdoa-me, Senhor, pelas vezes que só te entrego parte de mim.

terça-feira, abril 05, 2016

Não estar agarrado ao meu sacerdócio

Tem dias que me penso sem ser padre. Como se fosse um simples leigo. Penso que nos acontece a todos pensarmo-nos, de vez em quando, como não sendo aquilo que somos, ou não fazendo aquilo que fazemos. 
E é altamente curioso que durante esses dias e pensamentos a sensação seja de uma certa paz. Digamos uma paz estranha, para assinalar que se trata de uma forma de estar que não sei muito bem dizer, mas que não me desassossega. Uma forma de pensar que não me faz desejar não pensar. 
Imagino-me sentado nos bancos da Igreja como qualquer leigo, e dou por mim a rezar como rezo, a caminhar como caminho, a viver a fé como vivo. Talvez não me fosse dispensado tanto tempo para o Senhor ou não fosse obrigado a ter tempo para o Senhor. Ou fosse um tempo de Deus que não precisasse dizê-lo ou pensá-lo. Mas eu seria na mesma Dele. Porventura até seria mais capaz Dele, porque mais livre de me obrigar a coisas Dele. 
Imagino-me a dar catequese como os meus catequistas, pois gosto muito de ensinar e partilhar, e a cantar no coro, pois gosto muito de cantar. Imagino-me a animar um grupo de jovens, pois gosto muito de vê-los crescer para Deus. Imagino-me ministro a levar a comunhão aos doentes, a visitar quem precisasse, a participar nos retiros ou nas formações da paróquia. Pode parecer pretensioso da minha parte, mas quase me imagino melhor leigo que padre. 
Penso agora que isso me pode ajudar a falar aos outros como eles, a partir de Deus e não a partir de mim. Falando e pregando a pensar neles. Naqueles que não são padres mas podem ser tão ou mais crentes que eles. E fico em paz, porque todos estes pensamentos me trazem a certeza de que não precisava ser padre para ser de Deus. Isso dá-me a certeza de que Deus é mais importante que o meu sacerdócio. Isso dá-me consciência de que não devo estar agarrado ao meu sacerdócio, mas a Deus.

sábado, novembro 14, 2015

Quando é que sentiu mesmo que tinha de ser padre?

Para quem não sabe, está a decorrer aqui em Portugal a Semana dos Seminários. É uma semana que pede aos cristãos mais consciência da necessidade de vocações ao sacerdócio, mais oração e partilha para com os Seminários. Aqui na minha paróquia maior, os catequistas têm-se esforçado junto dos miúdos para essa tomada de consciência.
Ora ontem um miúdo do quinto ano veio ter comigo à sacristia antes da missa. Saíra da catequese com o propósito de tirar algumas coisas a limpo. A catequista propusera-lhes averiguar das razões pelas quais alguém vai para o Seminário ou para o Sacerdócio. De caderno e lápis na mão, como o melhor jornalista da paróquia, explicou ao que vinha, e começou a fazer perguntas. Senhor padre, diga-me quando é que sentiu que a sua vocação era ser padre. Informei-o que entrei no Seminário com menos idade que ele. Que entrara com muitas vontades e certezas, e que as fora alimentando ao longo dos anos, junto com muitas dúvidas, sacrifício, dificuldades. Era normal, porque o Seminário existe para se fazer discernimento vocacional. Não é para fabricar padres. É para ajudar os seminaristas a crescer nas tais vontades e certezas dentro de um discernimento são.
Escreveu duas ou três linhas, e voltou à carga. Mas quando é que sentiu mesmo que tinha de ser padre? Com esta pergunta relembrei aquele momento da minha vida que não mais vou esquecer e que recordo sempre que preciso de força para a vocação que Deus me deu. Aquele dia em que, diante do sacrário, me questionava sobre as razões para ser padre e descobri que Deus me amava de uma forma que não conseguia explicar. O miúdo parou de escrever. Não compreendera bem. Então o senhor padre foi para padre por causa de amar muito a Deus? Olhei-o, toquei-lhe no ombro, e disse. Não. Não fui para padre por amar muito a Deus, mas porque Deus me ama muito.

quinta-feira, novembro 12, 2015

Uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo

Um padre passa e é olhado de forma estranha. Como se fosse algo estranho. Respondem ao seu cumprimento, mas não deixam de murmurar Ali vai o padre. Como se um padre fosse um espécimen raro de ser humano. E se há quem olhe para os padres com admiração, é maior o número daqueles que os olham com pena ou indiferença. Há muita gente que não entende como um homem deixa tanta coisa que o mundo lhe oferece para se tornar padre. São capazes de o associar a Deus, mas a um deus que também é uma coisa rara, uma coisa inventada por uns homens que se intitulam a si próprios de padres. Um padre, à partida, não é bem humano. É uma coisa híbrida entre anjo sem asas e homem sem sexo. 
E deste modo, como poderá o padre ser dos nossos? Como poderá ser aquela pessoa com quem eu quero estar porque é também uma daquelas pessoas que caminha comigo, ao meu lado?! 
Confesso que sou meio estranho. Não gosto de pensar como essas pessoas que pensam nos padres como um ser estranho. 

No final de mais uma semana dos Seminários, valerá a pena pensar nisto?

quinta-feira, outubro 29, 2015

A Instituição do padre Zé

O padre Zé, chamemos-lhe assim para pensar que é cá dos nossos, está um pouco desanimado com o seu sacerdócio. Quase tudo o que o rodeia na paróquia onde é pároco lhe soa a desilusão ou lhe cheira a bafio. A sua paróquia é habitada por gente com idade avançada. Não tem catequese organizada. Tem muitas tradições ritualistas e culturais que, diz, não têm um mínimo de fé. O padre Zé veio da Polónia, de um país que ainda é maioritariamente católico, mas católico de cristandade, onde o padre é o quase centro e as pessoas vivem à volta da paróquia, como se aí estivesse quase toda a sua identidade. Não vou dizer o que penso deste tipo de igreja, pois não a admiro muito. De qualquer forma, hoje preocupei-me com o padre Zé e é dele que quero falar. 
É que agora está num país claramente laico e avesso à Igreja. Um país que não quer muito com a fé, e só vai querendo alguma coisa com a Igreja em termos de instituição. Desabafava ele há dias que um par de noivos queria falar com ele. O padre Zé imaginou que pretendiam casar, e tinha razão. Mas não vinham propriamente marcar o casamento. Vinham falar com ele para saber o que era necessário para alugar a Igreja. O padre Zé não teve coragem de perguntar-lhes se era ou não com padre incluído. Mas saiu a chorar da pequena reunião, cansado de estar numa Igreja que apenas é mais uma instituição.