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terça-feira, fevereiro 13, 2018

É carnaval, ninguém leva a mal

Não sei para onde vão estas linhas que começo a escrever. O dia de hoje é conhecido por um dia de excessos desculpados pela própria data. Ninguém leva a mal. Ninguém pode levar a mal. Haja, ao menos, um dia no ano em que ninguém leva a mal o que acontece. Eu não levo a mal que haja um dia assim. Um dia em que se faz de conta que nada é a sério. Mesmo quando a vida continua a acenar com pesos, dificuldades, problemas. Isto é mesmo a brincar, dizem. E parece. A vida parece uma brincadeira. Dá a sensação de que é carnaval todo o ano. Ou que já ninguém brinca aos carnavais. Porque estes são a sério. 
Não saí de casa, hoje, para variar. Fiquei a ler textos e notícias sobre a Igreja, sobre o cardeal patriarca de Lisboa, sobre o Papa que fez assim e é assim, mas tem uns cardeais ao seu lado que o olham de lado. E mais uma cambada de vozes que se atiram ao Papa para dizer que este está a estragar dois mil anos de história e de Igreja. Mais uma cambada idêntica que ataca, assanhadamente, a Igreja, ou melhor, a ICAR, como teimam em chamar-lhe, para reivindicar ou para demonstrar que é baseada numa mentira. E mais uma ou outra notícia que dava conta de umas corrupçõezinhas aqui e ali, mais umas mortes na estrada, ao volante, ou em casa, por uma familiar a quem a depressão causa um distúrbio que dá nisto. 
Afinal está a chover lá fora. Eu bem disse que não sabia o rumo do que estava a escrever. Estava aqui a pensar que apetece fazer de conta que está sol e que tudo não passa de uma brincadeira de carnaval.

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Esta dor que não me consome

Hoje não quero saber se me dói alguma parte do corpo ou da alma. Enquanto fumo o último cigarro da noite, à janela que dá para as luzes da igreja, deixo que o tempo apenas passe por mim como o vento numa manhã de praia que avizinha o sol. Geralmente o tabaco ocupa aquela parte da meditação que faço, rabugento com o tempo, para me entregar a ele. Mas hoje quero que ele passe por mim, me cumprimente e se despeça no mesmo instante. É que, às vezes, damos tanta importância ao tempo que nos sobra que não damos conta do sol que desponta cada dia ao amanhecer. Sei que há algo de mim, neste corpo entregue a Deus, que precisa de algo mais do que o tempo. Mas hoje não quero mais pensar nisso. Vou apagar o cigarro, e deixar que as cinzas voem para longe. Lá, onde só eu e Deus daremos as mãos. Sorrio e digo. Bem-haja, Senhor meu Deus, que és tão generoso em mim, mesmo quando permites que uma dor perturbe a nossa amizade. Eu sei que há algo em nós que não se prova mas se sabe, como o sal que não se vê, mas que tempera o que comemos.

sábado, janeiro 06, 2018

A menina que eu chamaria de Felicidade

Já não se usa muito o termo “menina”, mas eu ouso usá-lo para falar da menina Felicidade. É uma senhora com idade para ser um pouco mais que minha mãe. Enviuvou há muito. Não vive sozinha, mas vive com as suas maleitas como se existisse sozinha nesse mundo. A única filha morreu há duas dezenas de anos com a doença que é redobrada constantemente nos sinos das nossas igrejas, o cancro. Ela própria sobreviveu a esse maldito pesar na própria pele. Foi, ao que me dizem, uma força da natureza ou uma força de Deus nos muitos embates que a sua vida tem tido. É verdade que se queixa muito do que vai sofrendo. Mas não se queixa da vida. Eu diria que se resigna, e vive a lamentação própria de quem sabe cada minuto da vida. Que sabe que vivemos enquanto estamos vivos, e que é a Deus que devemos tão grande dom. Apesar de viver nesse mundo das queixas e apesar de desfalecer constantemente com os achaques das doenças que lhe aparecem, eu descubro nela constantemente o dom da vida. Aceita que a vida é isto. Entrega-se nas mãos de Deus como se fossem a melhor almofada para adormecer. Possui um misto de azar e sorte. Um misto de tristeza e de felicidade. Aguenta-se nas canelas, dizendo que o dia está a chegar. Sorri para mim e beija-me fora da barba, que não gosta dela e que perturba a sua face limpa e viçosa. Chego a pensar que a vida da menina Felicidade é um misto de muitas coisas que parecem não ser boas, mas com as quais se vive. 
Um beijinho do tamanho da tua vida, minha menina Felicidade.

terça-feira, dezembro 26, 2017

A minha cadeira de rodas

Só me faltou a gargalhada. Foi um sorriso que só eu dei conta. Veio, mais ou menos, na hora em que me pareceu que o mundo estava distante. Que agora era só eu e mais quem me quisesse acompanhar na invisibilidade. Ganhei ânimo ao pensar que vida é muito mais que o que temos de fazer. A vida é estar ou ser. É muito pouco o que fazer. 
Sou padre, é certo. Não tenho a menor dúvida disso. Como também não tenho grandes dúvidas sobre o convite que Deus me fez há tantos anos. O convite que fez a uma pobre criança, meio reguila, meio inconforme. Tantas vezes pensei no porquê de Deus me ter escolhido. Ainda por cima, quando me apercebo das minhas milhentas fragilidades ou vulnerabilidades. 
Estava a ler o livro “Senhor bispo, o pároco fugiu”, uma versão portuguesa do original francês “Monsier, le curé fait sa crise”. As primeiras impressões, sobretudo quando se trata o assunto da canseira administrativa das paróquias, era uma luva em mim. Assentava em cada dedo das minhas mãos. O protagonista, de nome Benjamim, queria refundar o seu sacerdócio, e para isso fugiu de tudo. Creio que fugiu até de si mesmo. Ia lendo e ia pensando que também era um sentimento que vinha a mim muitas vezes. A ideia que formulamos em nós quando decidimos seguir esta vocação anda muito próximo da divinização do sacerdócio. Imaginamo-nos a construir o reino de Deus só com a Palavra de Deus. Ela tem uma força que não cabe em nós, de facto. Mas é na nossa humanidade que ela actua. Não há como fugir disso. Nós padres, é que nos esquecemos, muitas vezes, dessa realidade. A vida não é como imaginamos, mas é um desafio permanente a descobrir como viver.
O padre Benjamim no final do livro foi convidado a ser bispo, apesar de estar sobre uma cadeira de rodas. O que eu me ri das coisas que Deus pode, em verdade, lembrar-se. Ou pelo menos que o autor deste livro colocou na sua vontade. A minha cadeira de rodas é outra. É esta vida sobre a qual me tenho sentado, na esperança de que o mundo gire à minha volta. Mas o mundo não gira. Sou eu que tenho de ir em busca, mesmo em cadeira de rodas. Sou eu que tenho de andar, mesmo que seja dentro de mim, para que cada minuto da minha vida, mesmo a sacerdotal, valha a pena. Por isso me ri tanto, comigo e de mim. Talvez amanhã me levante com o mesmo rosto sombrio de muitos dos meus dias. Mas, pelo menos, agora rio e, como um rio, quero deixar-me levar até ao mar, com um sorriso nos lábios.

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Ser padre ou ser Igreja?

Há muito que ando com esta pergunta aos tombos. Há já tanto tempo, como desde que comecei a sentir o que era deveras ser padre. Os primeiros anos do sacerdócio são os anos fantásticos dos sonhos, das esperanças, da vontade de oferecer ou vender a salvação por meia tuta de missas, confissões ou outros sacramentos. Muitas actividades para promover o espírito da comunidade cristã. Muitas conversas entusiásticas sobre um Deus que nos ama. Mas depois, com o tempo, vem a sabedoria da vida, a sabedoria de uma vida que se mantém igual, com pequenas nuances ou pequenos degraus. Esse tempo já la vai um pouco perdido pelo tédio ou pela rotina do nosso sacerdócio. Evito ser pessimista. Vejo ou quero ver tudo como oportunidades e desafios. Mas a pergunta vem e vai, bailando como sereia por um mar desconhecido. São muitos anos contados a fazer uma pergunta que é mais uma questão. Ou uma questão que se desenrola em muitas perguntas. Que Igreja quer Deus? Porque Deus fez assim as coisas? Para que enviou realmente o Seu Filho ao mundo? O que Ele pretende de nós? O que fazemos nós com Deus? E com estas vêm muitas outras perguntas similares, parecidas, mais retocadas ou mais embrulhadas. E todas elas se podem resumir neste desejo que trago em perceber como devo ser Igreja e como posso cumprir a vocação para a qual Deus me convidou. Repito a mim mesmo que não estou a ser pessimista e que, no meu mais íntimo, algo sei da resposta que busco. Talvez recluir-me em mim mesmo fosse a maneira para não me desperdiçar em tanta superficialidade. Mas também sei que não é isso que Deus me quer. É na vida que Ele pretende que eu seja padre e seja Igreja. Talvez o que eu queria era uma Igreja mais fácil, mais simples, mais verdadeira, na qual me pudesse sentir sempre como sou. Talvez consiga responder com mais claridade quando um dia for capaz de desprender-me do meu sacerdócio eu o encontre verdadeiramente. Ou por outras palavras, talvez quando um dia deixe de querer ser tão padre, eu consiga ser mais discípulo e mais Igreja como imagino que Deus sonhou.

terça-feira, novembro 21, 2017

Relações pré-matrimoniais e o pecado

Não interessa propriamente o teor da conversa, que ocorreu ao telefone. Mas interessa referir que, entre outras coisas, falámos sobre as relações pré-matrimoniais. Como se sabe, grande parte dos jovens que decidem casar pela Igreja, hoje, já vivem uma vida em comum e possuem uma vida sexual activa. Por muito que possa custar, é um dado adquirido, perante o qual nem sempre se sabe que pensar. Neste sentido, ouvi do lado de cá da linha de telefone, o que a pessoa do lado de lá disse sem constrangimentos. A relação sexual de quem se ama, mesmo antes do casamento, é menos pecado que andarmos zangados uns com os outros. Porque a primeira, em princípio, é feita com amor, e o segundo é feito sem amor. Eu não sei se concordo com uma afirmação assim tão arriscada. Mas é inegável que o pecado é uma ausência de amor, e o que é feito com amor, em princípio, não é pecado.
A conversa deixou-me a pensar. Deixou-me a pensar sobretudo numa Igreja que, às vezes, concentra demasiadas energias nas questões morais ou sexuais. Para mim, a Igreja não é um conjunto de regras, mas uma forma de viver, tal como a fé não é um mero assentimento a determinados dogmas ou virtudes, mas uma configuração com uma pessoa, Cristo. É preciso humanizar mais a Igreja. Não no sentido de que seja mais mundana, mas no sentido de que seja mais de Deus. O Reino de Deus não é uma construção religiosa para uma conduta religiosa, mas uma dinâmica para um mundo mais humano. Creio que precisamos de uma pastoral humanizadora, não tanto no sentido filosófico, antropológico ou sociológico, mas no sentido cristão da palavra, isto é, uma pastoral que humanize a vida para a levar à plenitude de sentido e de felicidade que o Pai nos concede. Talvez assim, comecemos a olhar-nos uns aos outros com menos olhares reprovadores e com o olhar misericordioso de Deus. Talvez assim a Igreja pudesse explicar aos jovens que as melhores relações são aquelas que, por amor, conseguem trazer mais felicidade à nossa vida.

quinta-feira, setembro 14, 2017

A vida a arder

Estou triste. E não encontro outra palavra para dizer o que sinto. Estou triste porque não entendo como é possível ver arder um país e ver arder as vidas das pessoas que nele habitam. Sim, não é só a vida em si, mas a forma de viver que arde sem que as pessoas, com todas as mãos que conseguem usar, consigam fazer desaparecer esse flagelo. 
Hoje estou triste porque uma das minhas comunidades esteve cercada pelo fogo, sem poder sair nem entrar. Sem poder senão esperar e entregar-se nas mãos de Deus. Vou revê-los em breve. Não sei muito bem o que lhes posso ou devo dizer. Eu sei que a natureza se encarregará de dar a volta por cima. Sei também que todos os meus paroquianos saberão dar a volta por cima. Mas dói. Dói por tanta coisa, e porque a vida arde e não sabemos que fazer!

sexta-feira, maio 05, 2017

Esta é para ti, Dina, parte XII, já lá vão cinco anos

Faz hoje cinco anos que faleceu a Di(a)na. Apetece-me dizer que ela faleceu, mas a sua história não, porque os santos permanecem na vida de outras vidas. Eles regressam a todo o momento, não por causa da saudade, mas por nos terem marcado na parte interior do coração. Por teimarem em palpitar dentro do nosso coração. 
Tenho uma foto da Dina, junto com outros nossos amigos, na parede do quarto. Foi ela que ma ofereceu. Está colocada na parede à altura do olhar quando estou para me deitar e adormecer. Está, portanto, à altura de todos os dias a olhar. Eu não sou muito saudosista. Não é meu costume magicar com o passado. Mas hoje, sem explicação aparente ou verificação de datas, estando diante do computador a escrever coisas que cuido serem de Deus, abri este espaço na Internet e, sem pensar ou saber porquê, premi no menu o “Especial D(i)ana”. Li tudo de novo. Vivi tudo de novo. Só depois me apercebi da data. Verti de novo umas lágrimas. Respirei fundo de novo, aquele mais fundo de nós mesmos. E comecei a escrever este texto para te dizer, Dina, que ainda estás viva. Pelo menos no coração de muitos que te amaram e amam. Para te dizer que a tua história não acabará senão quando acabar a vida dos que te conheceram, real ou virtualmente. Bem-hajas mais uma vez, porque hoje senti de novo aquele arrepio de Deus que não se explica!

sábado, dezembro 31, 2016

O tempo passa e a vida vai atrás dele

O tempo passa e a vida vai atrás dele. São dois grandes parceiros. Contudo, um deles permanece aqui e o outro só permanecerá além. Não é bem um matrimónio até que a morte nos separe. Mas quase. São dois parceiros que caminham lado a lado, irmanados. 
Faltam, nesta hora, algumas horas para que um novo ano aconteça. Todos estamos atarefados com aquele momento em que se passa de um ano a outro. Essa meia-noite que se prolonga em copos, saltos, diversões, e beijos e abraços como se não houvesse amanhã. 
Teimamos em fazer desse segundo uma noite inteira. Teimamos em fazer parar o relógio. Como teimaríamos, se a varinha mágica existisse, em parar o tempo para que a nossa vida ficasse ali. Creio que vivemos uma vida a correr, convencidos de que ela está parada. Convencidos de que não há amanhã. Nem há depois de amanhã. Creio que vivemos ensimesmados em nós próprios. Fechados em sensações de que não existe dor, nem morremos. Que tudo é uma maquilhação do divino. 
Mas o tempo passa e as vidas vão atrás dele. Termina uma e começa outra. Não é a nossa que recomeça. E cada dia que passa é menos um dia de vida neste tempo que não termina. 
Não estou melancólico, minha gente. Estou somente a pensar que estamos prestes a entrar em novo ano, e continuamos a viver uma vida como sobreviventes de qualquer coisa. Parece que não a vivemos. Parece que a deixamos andar. Parece que nos preocupamos mais com os embrulhos e com os laços que lhe pomos, que com a prenda que ela é. A vida é para viver como quem no-la deu. A vida é um dom gratuito que vai muito para além de nós. A vida é tão boa, mas tão boa, que devíamos viver em constante estado de agradecimento, em constante estado de alegria, em constante Viver. Deixem passar o tempo e verão como a vida vai atrás dele. 

Aproveito para desejar a todos os que visitam este espaço e lêem estas palavras que vou soltando, um ano de 2017 cheio de Deus!

quinta-feira, novembro 17, 2016

Dia de padre é assim

Este dia que passou foi um dia atípico. Quando o relógio despertou já eu tinha despertado sem saber qual era o lado da cama onde estava. Erguido da noite, com as olheiras de quem ainda precisa mais tempo para ver o dia, abri, como sempre, as persianas das várias janelas por onde o sol costuma entrar. Carreguei também no botão do computador que diz On. É um exercício matinal para quem quer exercitar os seus neurónios dando umas voltas pelo correio electrónico, pelas últimas do face ou do blogue, ou então para ver os últimos documentos elaborados ou por terminar. Só depois deste exercício corro, porque já não aguento mais, para a casa de banho. Depois aquece-se um pedaço de água na chaleira, mistura-se-lhe chá, pão, manteiga e o que houver nas prateleiras do frigorífico, e come-se. Neste entretanto já tomei banho ou estou para tomar. Fazem-se umas orações, a maioria das vezes, a correr, porque algo me espera, nem que seja somente uma ideia que tenho da vida. Que algo sempre me espera. Começa a manhã de trabalho com milhentas coisas da paróquia e dos outros serviços onde faço algo. Deixo espaço para almoço, em casa ou com alguém que se lembre de me fazer companhia. Segue-se uma tarde que em pouco difere da manhã, a não ser que na manhã o sol está a pôr-se e na tarde o sol está a ir-se. Jantar depois de uma ou duas missas. É costume atender várias vezes o telefone e pessoas que aparecem na paróquia. Passo nalgumas catequeses ou nem por isso. Reúno-me para tratar assuntos. A noite termina já avançada. E é óbvio que não contei tim tim por tim o que aconteceu neste dia de padre atípico. Atenção que o dia é que é atípico e não o padre. Ou então não. Talvez o padre também seja atípico. Foi assim o dia de hoje. Tal como a maior parte dos dias da minha vida de padre. E dirá alguém dos mais atentos que não tem nada de atípico. Mas foi. Foi atípico, porque ao deitar-me, veio-me esta frase ao pensamento: a vida neste mundo é mesmo muito efémera!

segunda-feira, setembro 05, 2016

cancro da mãe à porta

Ligou-me para dizer que o cancro da mãe estava com pressa. Se não reagir ao plasma que lhe vão injectar não terá muitas semanas de vida. Dizia ainda que a médica lhe mandara juntar um núcleo de apoio psicológico, caso precisasse. Cresceu sem pai, e fora a mãe quem a fizera crescer. Agora está a partir e não sabe que fazer. Tem o coração pequenino e pesado. Utilizava expressões que me fizeram pensar num daqueles grandes escritores com alma de sábios. Gostava que ela desse um pontapé no cancro, que escolhesse outra porta, que me acompanhasse mais uns tempos. Mas não dá. Claro que não dá. A vida aceita-se. A chamada telefónica fez-me pensar muito no último mês da minha mãe. Um mês de inquietação cada segundo desse mês. Um mês muito doloroso, mas muito especial. Porque foi o último mês que aproveitei da vida da minha mãe. 
Por isso lhe respondi, como sentia, que com tudo na vida aprendemos a viver, e não propriamente a deixar-nos viver ou a sobreviver. A vida e sofrimento da minha mãe ensinou-me coisas que não aprendia de outra forma. E assim respondi. Eu sei pelo que estás a passar e vai doer. Esta é a realidade. Mas não significa que a dor seja maior que tu!

nota: Escrevi este texto pouco depois da notícia que recebeu do cancro da mãe. 
Hoje publico porque faleceu ontem mesmo! A vida é para se viver!

segunda-feira, agosto 15, 2016

tolices de padres... ou casa cheia, talvez seja melhor

O calor encheu tanto a casa, que não tenho lugar nela. Moro alto. Num sítio alto. Para desculpar o lugar que encontraram para mim na paróquia, digo que estou mais perto do céu. Não sei se estou. Mas queria estar. 
Quando o sol chega, não há roupa que resista no sítio onde habito. Acontece quase igual em sentido inverso quando vem o Inverno. Não há aquecedor que resista. Não tem mal. Assim sabemos que a casa está sempre cheia e não moramos sozinhos. 
Hoje escrevo com pouca roupa e parece uma tolice um padre dizer estas coisas. Nem sequer vem a propósito de nada. Mas apetece-me escrever. E não estou a queixar-me. É assim que apetece. 
Ah, recordo agora que isto poderia ter a ver com Deus. 
Quando uma casa se enche de Deus, ocupa tanto espaço, o espaço todo, que parece que nem moramos nela. Parece que é Deus que lá mora.

sábado, julho 23, 2016

Cristo ou Igreja pokémon

Um colega português descobriu que a sua igreja paroquial, afinal, é um ginásio de pokémons, e já fez um cartaz a convidar para visitarem o treinador que lá está dentro, o verdadeiro treinador da vida, Cristo. Não sei se aplauda a ideia, mas ela aí está. 
O exército livre sírio lançou uma campanha, apelando para o resgate das crianças em zona de conflito, com o slogan “Há muitos pokémons na Síria, vem salvar-me”. Não sei se aplauda a ideia, mas ela aí está. 
Junto à Igreja paroquial da minha comunidade maior as noites têm sido animadas com jovens que, de carro ou a pé, andam com telemóvel na mão à procura dos pokémons. Confesso que há uns dias atrás não sabia o que era isso dos pokémons. Nem agora sei ao certo. O que sei é que milhares e milhares de pessoas em todo o mundo descarregaram para o telemóvel essa aplicação, esse jogo, e agora, de forma um pouco obcecada, andam em busca de pokémons a toda a hora. 
Estava aqui a lembrar-me, e é só uma ideia: se há gente no mundo com capacidade criativa para suscitar o desejo de encontrar um boneco num jogo, não haveria na Igreja a mesma capacidade, criatividade ou entusiasmo para que do mesmo modo milhares de pessoas desejassem encontrar-se com Cristo? 
Não. Não quero que se invente ou fabrique um jogo, pois aqui o que está em jogo é a própria vida. Também não quero confundir Jesus com algo tão efémero como um Pokémon. Nem a Igreja com um jogo para brincar às apanhadas. Não quero que o anúncio de Cristo se confunda com uma brincadeira. Contudo, num mundo tão “líquido”, tão “light”, tão “de modas”, gostava tanto que Jesus fosse procurado como são procurados hoje os pokémons!

sábado, junho 25, 2016

A justiça de Deus

Estava em pausa para um delicioso café com uns paroquianos quando da mesa ao lado e em tom de meter-se com o padre, se ouviu um Deus devia ser mais justo. O senhor que proferira a frase explicou depois, dirigindo-se na minha direcção, que achava que Deus deveria ser igual para todos. E que deveria fomentar na terra a igualdade de oportunidades. Porque é que alguns tinham tanto e outros tão pouco! E porque é que os maus eram os que mais sorte tinham na vida! 
A ocasião deu-me a oportunidade de abordar o assunto da forma como o tenho pensado muitas vezes e que agora resumo. Nós estamos embrenhados na justiça dos homens, num tipo de justiça que trata ou quer tratar todos por igual. Basta imaginar o que numa empresa fabril é considerado como igualdade de direitos e de remunerações. Deus não funciona assim. A justiça dos homens também é costume traduzir-se no tratamento por merecimentos, isto é, uma justiça que opera segundo se merece. Deus não funciona assim. A justiça de Deus não é como a justiça dos homens. 
A justiça de Deus não é fazer igual aquilo que não o é, porque completamente distinto e único, nem fazer como se merece. A justiça de Deus é fazer como se precisa. Como cada um precisa. Nem sequer é como cada um quer. É como Deus entende e sabe que cada um precisa. Não é tratar por igual, mas com o mesmo amor. A justiça de Deus é a justiça que ama.

quarta-feira, maio 11, 2016

como uma porta

Bater à porta é ter a certeza que alguém pode estar do outro lado, que alguém nos pode atender ou, pelo menos, escutar o ruído do bater da porta. Ninguém pode teimar em dizer que a porta é só uma porta. Se é porta é porque pode abrir-se e trazer o outro lado de lá, dele mesmo, ou levar-nos até esse lado que desconhecemos porventura, mas que ansiamos, senão não bateríamos à porta. Se é porta é porque possibilita encontrar esses dois mundos, o de lá e o de cá. Se é porta, é porque está na minha mão poder abrir-se, e à minha mão de poder tocar-se. Se é porta é porque tem paredes ao seu redor. E se tem paredes pode ser casa, e se é casa é lugar para habitar. 
A porta não fecha somente a casa em si, mas abre-a. Dá a possibilidade de deixar entrar na casa quem vem e quem bate. Mesmo quando a porta tem uma fechadura, que serve o significado do que fecha, ela podia definir-se como abertura. Afinal o que se fecha é porque antes estava aberto e pode voltar a abrir-se. 
Perguntar por Deus é como uma porta.

quinta-feira, abril 28, 2016

Tanto e tão pouco

Senhor, porque me deste tanto e esperas que nesse tanto te veja somente a ti? 
Desculpa, meu amigo e Senhor, mas é nesse tanto que me deste, porque quiseste, que me deixo cair na auto-estima em desmesura. É nesse tanto que me regozijo centrado em mim. É nesse tanto que me esqueço de ti porque estou ocupado comigo. É nesse tanto que me afasto tantas vezes de ti porque não me dou conta que te necessito em mim. É nesse tanto, que é tão bom e me deste com amor, que eu me perco tantas vezes… Quando é quase sempre no meu tão pouco que te encontro e sou feliz!

sexta-feira, abril 01, 2016

Tão claro como ser dia 1 de Abril

Pelo menos em Portugal, que eu saiba, o dia 1 de Abril é um dia em que se pode mentir. É um dia em que não se levam a mal determinadas mentiras. É um dia em que uma verdade pode ser interpretada como mentira. E apetece-me dizer que é apenas mais um dia. Se calhar mais um dia de mentiras e verdades misturadas num saco a que chamamos azul, de luvas brancas, de batom nos lábios e manicura escondida. É um dia como tantos outros, em que a humanidade vive o seu mundo centrada sobre o seu ego, sobre os seus interesses, sobre o seu desejo de dominar. Uma humanidade alicerçada num antropocentrismo deísta, numa individualidade excluente, numa sociedade pluralista que tudo aceita mas que nada tolera. Uma certa forma globalizada de viver sem Deus. 
Claro que tudo isto é mentira e eu estou a brincar ao dia 1 de Abril. Claro que não me identifico com esta sociedade ou humanidade. Nem a Igreja se identifica. Nada se identifica aqui e agora desta forma. Claro que só precisamos viver um dia de cada vez e que todos sejam dia 1 de Abril. E isto é tão claro como ser dia 1 de Abril.

terça-feira, março 22, 2016

Mais do que ser bons

Um colega, padre e amigo meu, disse um dia algo que já citei algumas vezes, referindo-se ao resumo de cada uma e de todas as homilias. Dizia que quase bastaria dizer um “Sede bons”. E reafirmava que isso bastaria. Tenho este colega em sincera admiração. As homilias dele nunca se resumiam a um “Sede bons”. Aprendi imenso com ele a actualizar a Palavra de Deus na homilia. 
Mas há dias, quando uma mãe sofrida pelo facto de os seus filhos não lhe seguirem os passos da fé, e perante a indicação que eu dera a propósito do melhor meio de evangelização que constituía o testemunho, ela respondeu-me simplesmente que tentava ser boa a todo o custo. Essa resposta deixou-me em aberto as possibilidades reais da evangelização. 
Na verdade não me parece que baste ser bom. Isso qualquer um pode e deve ser, independentemente da sua fé ou do seu credo. Um não cristão pode ser muito melhor pessoa que um cristão. A fé é mais que isso. Trata-se da configuração com uma pessoa que é Cristo. É um modo de vida a que nem sempre o “ser bom” bastará. É toda uma forma de viver, de amar, de sofrer e de pensar cada coisa para além de si mesma, centrado no caminho para Deus. Um caminho, que afinal, vai para além da bondade.

sexta-feira, março 04, 2016

Sair da ideologia do sistema

O Papa tem falado muito na “Igreja em saída”. E como está de moda, imaginamo-nos e imaginamos a nossa igreja em bairros pobres, bares escuros de vidas marginais, submundos fora de horas a fim de evangelizar ou fazer o bem. Mas não vamos, nem nos imaginamos a ir. E não é por falta de sabermos que algo deveríamos fazer para mudar a sociedade pluralista e desequilibrada em que vivemos.
Perdoem a ousadia, mas parece-me que não estamos a perceber o Papa. A mim estas insistências do Papa sugerem-me a necessidade de deixar o cristianismo burguês, palavras do teólogo Metz, um cristianismo que está assimilado no sistema, envolvido por uma ideologia cristã altamente fundada em séculos passados. O que o Papa diz da Igreja em saída devemos entendê-lo noutra das suas repetições e que se refere a deixarmos de ser uma Igreja autorreferencial, uma Igreja metida para dentro, isto é, o sistema. O que o Papa diz é que a Igreja precisa mais da práctica que da ideologia. Afinal a fé não é um conjunto de ideias ou uma doutrina. A fé é vida. O ano da misericórdia não é outra coisa senão a tentativa de sair da ideologia do sistema.

domingo, fevereiro 21, 2016

Deus resolve-nos a vida

Hoje não quero dar nome à pessoa que, em conversa, me disse que não entendia como Deus não nos resolvia os problemas que tínhamos e permitia que houvesse tanto sofrimento, mesmo de pessoas inocentes. Não quero dar-lhe nome, para que cada um possa ali colocar o seu. Porque sei que na nossa vida estas dúvidas aparecem apanhando-nos desprevenidos. A essas pessoas sem nome para dizer, eu hoje quero dizer. 
Deus resolve-nos a vida. Não no-la resolve por fora, por acções exteriores. Tudo o que é de Deus acontece no interior, mesmo as coisas exteriores. Por isso Ele não resolve as catástrofes. Dá-nos o entendimento e a oportunidade de as resolver. Não nos resolve a doença, mas dá-nos a capacidade de a viver. Não nos resolve as relações, mas indica-nos como lidar com elas. Não nos resolve o sofrimento ou a dor, mas inspira-nos o seu sentido. Deixa-nos morrer, mas até isso Ele ressuscita para a intimidade do seu ser. 
Deus afinal resolve-nos toda a nossa vida, mas interiormente. Basta tão só que O deixemos habitar em nós. Lá dentro Ele dará sentido a todo o nosso exterior.