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sexta-feira, maio 29, 2015

Conversas com gente de idade

Conversas com gente a que costumamos designar de idade, como se as outras não tivessem qualquer tipo de idade. São aqueles a quem já perdoamos tudo, mas para com os quais temos algo próximo da comiseração, o que não pode ser bom. São aqueles que entregamos à noite da vida, como se já não tivessem luz para iluminar. Mas são esses os que mais sabem da vida, os que mais nos podem ensinar da vida. São os que já viveram.
Olhe, senhor padre, aqui estou sem forças. Olhe, senhor padre, que tenho esta doença. Já não vejo para ler. Já não ouço quase nada. Quando eu era jovem. Enquanto poder, não preciso que me ajudem. Era bem melhor estar na minha casinha. A vida é assim. Os meus filhos não me vêm ver. Vou-me entretendo a rezar. Já não sei que faço aqui. Era melhor o Senhor me chamar. Estas pernas não ajudam nada. Vou outra vez ao médico. Já fui operada oito vezes. Tomo nove comprimidos por dia. Não consigo comer sozinha. Aqui estou como Deus quer. Faça-se a vontade de Deus.
São aqueles que nos ensinam que a vida tem valor até ao fim, mesmo quando parece que já não há vida. São aqueles que vivem de forma diferente, sem correrias, sem pressas. São aqueles que gastam o tempo a viver. Que fazem tudo para viver, mesmo quando lhes apetece morrer. São aqueles que mais facilmente se entregam ao Senhor, porque são aqueles que dão conta que precisam Dele. São aqueles que um dia seremos nós, e com os quais deveríamos aprender a viver, mesmo que nos falte vida.

terça-feira, abril 21, 2015

O António caído

O António estava perdido. Perdera-se, e não conseguia encontrar-se. O António não era má pessoa. Era um de nós. Era um António que caíra. Era um de nós que em cada dia se deixa cair à beira do caminho. Era um António que deixara de caminhar porque não sabia como levantar-se. Era um de nós que no caminho tropeça e não tem forças para se levantar. Era um António que esquecera que o mal não está em cair, mas em não se levantar. Cair acontece mesmo quando não queremos, ou por distracção, pelas circunstâncias, por culpa dos outros, por via da nossa fragilidade. Era um António que esquecera que cair acontece, mas levantar-se depende de nós.

terça-feira, setembro 02, 2014

A burrita da Virgínia

A Virgínia tem idade suficiente para olhar a vida a agradecer tudo a Deus. O marido já faleceu há anos. Não tiveram filhos. Tiveram enteados e pessoas que adoptaram para auxiliar. Não daqueles verdadeiros adoptados do papel e assinaturas. Mas os adoptados que precisavam apenas de alguém por perto. A virgínia é uma pessoa culta, mas isso não lhe tira a solidão, e acha-se uma pessoa sozinha, meio abandonada. Porém, no meio disto tudo, tem um ar de graça. Tem uma forma de ser divertida. Há dias disse-me que pedia muitas vezes uma coisa a Deus. Para satisfazer a minha curiosidade, contou-me o pedido que fazia insistentemente a Deus. Pedia-lhe que a deixasse ser a burrita do presépio. O pedido e o segredo eram sérios, mas os dois rimos a bom rir. E continuou. Ó senhor padre, a burrita ainda carregou com a Nossa Senhora e com o Menino. Eu nem para isso sirvo. De facto, o pedido era mais sério do que parecia à partida. Mas para compor o momento, achei-me no dever de concordar com ela dizendo que se ela pedia para ser a burrita, eu poderia ou deveria pedir para ser a vaquita. Não, não era pelos cornos. Rimos. Era mais pela graça de ali estar ao lado da mãe e do Menino, e eu nem sempre conseguia estar com eles. A rir nos quedámos os dois, mas o assunto era sério.

sábado, agosto 23, 2014

A Laura e os desanimados da vida de hoje

Faz parte do grupo de desanimados da vida de hoje. Cuido que hoje o desânimo faz mais parte da vida das pessoas do que no tempo em que as contrariedades não eram mais que obstáculos da vida. Cuido que hoje as contrariedades da vida se transformam excessivamente em formas de viver sem vontade. A Laura é boa senhora, boa mãe, boa funcionária, boa cristã. Mas ultimamente entrou pela porta larga deste grupo, passou a fazer parte dele. Anda cansada de não ser fácil o emprego, a relação com os seus e com os que não são seus, e com mais uma série de coisas que nem soube enumerar. Ó Laura, quando estamos bem connosco, o problema pode ser grave, mas será sempre pequeno. Quando não estamos bem, o problema pode até ser pequeno, que será sempre grave. Por isso, Laura, antes de te debruçares sobre os teus problemas, debruça-te sobre ti. Encontra-te e encontrarás todas as respostas. Procura estar bem por dentro e tudo será mais fácil por fora. Na verdade os problemas têm sempre duas formas de se encararem. Ou com desânimo. Ou com ânimo. Em ambos os casos os problemas são o mesmo. Mas são vistos e sentidos de forma diferente, assim como têm peso diferente na nossa vida. Um, de tão pesado, deita-nos por terra. O outro tem o peso que tem, mas lança-nos em frente.

domingo, junho 15, 2014

Deus faz tudo perfeito

Um senhor, daqueles senhores carecas e castiços que gostam de dar um ar de graça, querendo meter-se com o senhor padre, contou-me uma pequena história sobre um bispo que fora fazer a visita pastoral a uma determinada paróquia e no meio do sermão repetira umas dez vezes que Deus fazia tudo perfeito. Ora um senhor corcunda que se encontrava no meio da assembleia, no final da missa resolveu ir dar um dedinho de conversa com o tal do senhor bispo que dizia umas coisas que na cabeça dele não faziam lá grande sentido. Era corcunda, mas não era parvo. Era corcunda, mas também era destemido. Por isso, chegado ao pé do tal senhor bispo, resolveu abordá-lo de chofre. O senhor disse umas quantas vezes que Deus fazia tudo perfeito. Interrompeu as palavras com o dedo na direcção da corcunda, e acrescentou. Acha que isto é perfeito? O senhor bispo, sem meias medidas, respondeu prontamente. Olhe que dos corcundas que eu já vi, o senhor é o mais perfeito.
O senhor careca e castiço metera-se comigo. Mas não soube que se metera também com os meus pensamentos. De facto não será uma corcunda que dita a nossa perfeição ou imperfeição. Como a perfeição é algo bastante relativo. A perfeição para a qual Deus nos cria foge muitas vezes ao homem ou ao seu conceito de perfeição. Além de que se nos permite ter algo que identifiquemos como uma deficiência, nos costuma conceder a força ou a capacidade de vivermos com ela ou de vivermos usando-a para alcançarmos a perfeição. Mais ainda, muitas das nossas chamadas imperfeições não são senão fruto das nossas opções em liberdade, a mesma liberdade que nos foi concedida por Deus. Mais ainda, aquilo que a nós nos parece imperfeição, a outro pode parecer uma forma de perfeição ou uma imperfeição que não chega aos calcanhares da sua. Mais ainda, aquilo que para muitos é um mundo imperfeito, para outros não é mais que o mundo perfeito, que foi assim feito com imperfeições para ser perfeito.
Gosto muito de pensar, e por isso o repito, que a perfeição com que Deus cria tudo vai muito para além do conceito de perfeição para o homem. Por isso é que nos faz olhar para além das nossas fragilidades. Por isso é que as Suas grandes obras foram e têm sido feitas no meio de tantas fragilidades.
Feitas as contas, o tal do senhor bispo tinha toda a razão quando disse que Deus faz tudo perfeito.

sexta-feira, maio 23, 2014

Ligou-me do lar

Ligou-me do lar para me dizer que estava no lar. Já lá vai mais de um mês e não gostava de lá estar. Achei piada quando me disse que eram só velhos e velhas, como se ela não se incluísse na designação. Mas a conversa não estava para piadas: A voz embargada da senhora Maria de Fátima não mo permitia. Entre umas palavras mais pronunciadas, surgia uma voz embargada. A filha levara-a para ao pé dela, mas para longe da sua casa e dos seus amigos. Se ao menos tivesse ido para perto do senhor padre, dizia a voz embargada. Já não vou à missa há um mês. Eu frisava-lhe os novos amigos e as pessoas que cuidavam dela. O descanso para a filha, pois que se lhe dava alguma coisa agora tinha quem a socorresse sem demora. Mas ela não gostava. Pertencia às minhas paróquias antigas e já antes ligava bastas vezes insinuando que lhe fazia bem ouvir a minha voz. Era a minha voz e a esperança que lhe infundia e com que lhe respondia. Os lares de terceira idade são o local para onde vão os que já nada têm para dar à sociedade, e quem para lá vai cai nessa realidade. Bem tentei que ela desse a volta ao texto. Que conseguisse descobrir as coisas boas que tinha no novo lar. Mas ela embargava a voz, transparecia o choro e dizia Peça a Deus que me leve. Disse-o duas vezes. O mesmo número de vezes que se me cortou deveras o coração. Prometi que um dia a iria ver. Pedi-lhe que se agarrasse a Deus, que Este não a abandonava. Mas quando desligou o telefone perguntei-me a mim próprio e a Deus porque têm de existir os lares. Porque tinha de ser assim?

quinta-feira, maio 01, 2014

A Maria do Céu

A Maria do Céu tem um nome bonito. É Maria e é do Céu. Tem um problema na coluna ou nas costas, que lhe tem afectado o cérebro e a cabeça, como explicou com duas lágrimas. É uma mulher sofrida. Esta doença está na moda, senhor padre. Como se as doenças também fizessem moda. Como se as doenças se vestissem de acordo com gostos ou estilistas. Elas vêm sem avisar e sem épocas, sem pedidos e sem gostos. Olhe que a gente não consegue estar sentada, deitada ou de pé. A única posição possível é a do sofrimento. A filha vai pelo mesmo caminho. Valha-me ao menos o meu nome, disse, e que este sofrimento nos traga a alegria do e no Céu. Seja o que Deus quiser, mas que me queira como o meu nome diz, Maria do Céu. Tenho um nome bonito, não tenho, senhor padre? Tem, de facto, um nome bonito e eu não disse mais nada porque ela já tinha dito o que eu teria para dizer.

sexta-feira, abril 18, 2014

Entrego-Te

Hoje entrego-Te, Senhor, os que me pesam. Entrego-Te as cruzes que carrego sem vontade. Entrego-Te a Odília que está com tanto cancro. A Maria que foi abandonada pelo marido. A Maria que está entrevada no andarilho. O José que sofre no matrimónio. O meu pai que está vivo. A minha família que tu sabes. Os jovens que cruzam comigo e não cruzam contigo e eu queria. Os pais dos meninos da catequese que não vão à missa. Os bancos vazios de tantas eucaristias a que presido. Os ventos que levam histórias que não são verdadeiras. Os padres que andam atarefados. Os colegas que eu queria compreender. O meu bispo que eu queria que fosse mais pastor. O cansaço do que tenho de fazer e não me apetece. Os sacramentos devolutos que não quero. A paróquia que parece não querer sê-lo. O conselho económico que quer deixar de o ser. Aquelas vinte e quatro pessoas que exigem que o meu dia seja de vinte e cinco horas, ou seja, todo para elas. O António que devia fazer o que lhe pedi e não fez. Aqueles com quem me apetecia tomar café. Aquelas pessoas que me apetecia amar sem medida. Aquela senhora divorciada. Aquela que não tem pão à mesa e mo revelou. Aqueles que não lembro agora. Aqueles que precisam. Aqueles que não sei lembrar.
Entrego-Te todo este peso que é enorme. Entrego-Te todo este peso para que seja dos dois. Para que, de partilhado, me seja mais leve. Diante da Tua cruz, nesta hora tão grande, os pesos dos que me pesam tornaram-se mais leves. Eu sabia que entregando-Tos, eles seriam mais leves. Obrigado, Senhor, por transformares estas minhas cruzes na Tua Cruz. Obrigado, Senhor, por transformares esta minha vida pesada naquela que é a Tua Vida.
 
Boa Páscoa, amigo
Ele quer ressuscitar em ti

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Há-de ser o que Deus quiser

Os oitenta e quatro anos da senhora Lucília usam lenço preto na cabeça coberto com um gorro da mesma cor. Bengala na mão. Botas até aos joelhos que o frio chega ao coração. Veio ao meu encontro falar por entre os poucos dentes. Os olhitos apagados falavam da doença. Custa muito, senhor padre. E no meio do que dizia, acrescentava e repetia. Há-de ser o que Deus quiser. Falava da dor que a solidão lhe trazia, e dizia Há-de ser o que Deus quiser. Contava-me da família que está longe, e dizia Há-de ser o que Deus quiser. Voltava sempre à doença num tom que misturava melancolia com doçura. E dizia Há-de ser o que Deus quiser. Dizia-o de uma maneira que entrava cá dentro como se fosse a certeza mais certa que alguém consegue afirmar. Por mais que a motivasse com palavras bonitas, ela repetia Há-de ser o que Deus quiser, e eu desarmava a beleza das minhas palavras para me encantar com as dela. Não eram palavras soltas ao vento. Não eram palavras ditas por dizer. Não eram palavras resignadas. Eram palavras de quem já se entregara no colo e no aconchego de Deus. A despedida dela foi Há-de ser o que Deus quiser. Retirei as minhas mãos das dela, uma foi-lhe no encalço do rosto e, com a mesma vontade com que ela repetia Há-de ser o que Deus quiser, eu chamei-a de Linda.

sexta-feira, maio 24, 2013

Uma senhora que precisava confessar-se

Não conheço a senhora que se sentou ao meu lado para se confessar, numa paróquia vizinha. Diria que tem mais de setenta anos e mora, ou vive sozinha. Depois de uns bons minutos a contar repetidamente as mesmas coisas, na confissão, ficou em silêncio. Julguei que já tinha exposto tudo o que sentia. Não me lembro de lhe ter ouvido pecados. Ficou em silêncio. Um silêncio de espera, meu e dela. Por isso achei que estava na hora da penitência e da bênção. Olhe, como penitência vai rezar… e fui interrompido pelo pedido. Fale comigo, senhor padre. O que ela precisava era ouvir alguém. Alguém que fizesse eco das suas palavras. Alguém que olhasse para ela e não resistisse a estar com ela. Já não tinha forças para mais diálogos. Por isso esperava que eu não acabasse ali a sua conversa e pudesse sentir que era capaz de se relacionar ainda, por mais idade, menos filhos e marido que tivesse. Sem os olhos no relógio, nos minutos que passavam, achei que devia falar-lhe do tempo, do sol, da vida com sol, mesmo quando chove e o sol está escondido ou noutro lugar do planeta a brilhar, à espera de voltar para as nossas vidas. E assim passou um tempo de confissão, que não foi confissão, mas uma conversa de um Deus que está ali, para nós e para dialogar connosco. As pessoas hoje em dia não têm com quem conversar, fechadas nos seus problemas, ou num ecran de computador, ou num qualquer quarto de uma qualquer casa desabitada. Vou aproveitar o sol para uns dedos de conversa fiada.

terça-feira, abril 30, 2013

A franja em pé

A franja do cabelo tapava-lhe o olho direito, e pendurava-se no esquerdo a querer tapar-lhe os dois. Assim falava-me sem correr o risco de me olhar nos olhos. Sentámo-nos à mesa do café. Para um simples café e troca de palavras. Aos aromas do café juntámos o novelo da sua vida, que desfiou devagar e com paragens, pois estava cheio de nós. Tinha-se divorciado. O marido não fora violento, nem nada que pareça. Não havia razões daquelas que os noticiários parecem adorar. Ela queria ser mais feliz do que era, e separou-se. Depois disso já teve vários namorados, com quem sonhara ser feliz. Nunca fora propriamente depravada. Nem propriamente feliz. E perguntava-me. Será que é mal ou pecado ter sentimentos e procurar ser feliz? Eu achei que esse era o anseio de todos. Não julguei. Não quis. Já chega o que os outros devem julgá-la. E embora não queira aligeirar o tema, digo que fiquei incomodado. De franja em pé. E às vezes penso que a Igreja tem de se sentir incomodada.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Aos berros com Deus

Desci as escadas zangado. Antes de pisar o primeiro degrau estivera a dizer umas quantas coisas ao lá de cima. Acabado de descer o último degrau, deparei-me com uma paroquiana de rosto fechado. Esbocei um sorriso largo e ela também. Olhei-a nos olhos e ela fez-me o mesmo. Sorrimos ambos como se quiséssemos fazer de conta que nada se passava. E o padre foi o primeiro a quebrar o sorriso. Então, dona Teresa, que se passa? Não sabia que fazer da vida e não entendia porque Deus não agia na vida dela como ela precisava. Nem a propósito, disse eu. Ainda agora estive a ajustar umas contas com Ele. A dona Teresa abriu o rosto de admiração, e disse, Olhe que às vezes apetecia-me berrar com Deus. Sosseguei-a respondendo que não havia mal nisso, e que eu berrava com Ele muitas vezes. Mais vale dizermos aquilo que pensamos. Afinal Ele já sabe e nós ficamos aliviados. Eu acho até que pode ser uma interessante forma de oração.

terça-feira, junho 05, 2012

A Diana que se chama Dina

A nossa Diana afinal chama-se Dina. E porque quero que a sua história seja mesmo sua, tenho de falar com ela tratando-a como sempre a tratei. Dina. Nos meus textos costumo fazer rodeios das histórias, dos pensamentos, dos sentimentos, dos factos, dos acontecimentos. Faço-o para proteger os casos reais que ficciono. Mas esta história é real e merece continuar real, com os nomes próprios que aparecem nela. Não quero que seja um conto de fadas. Quero que seja aquilo que é. Uma história real vivida por uma pessoa real que possui uma fé exemplar e que fez da sua vida uma identificação total com o Senhor. Uma pessoa igual a nós que viveu ao nosso lado uma linda história de amor com Deus. Alguém me perguntava há dias pela Diana. E não quero que me perguntem mais pela Diana, porque a Diana chama-se Dina. Hoje, que faz exactamente um mês que a Dina faleceu, quero dar a conhecer seu nome para que ele fique na memória de fé daqueles que querem ser de Deus. Para que o seu nome não se esqueça mais. Para que a sua santidade possa ser revelada com o nome verdadeiro. Para que eu sinta que estou a cumprir a minha promessa de dar a conhecer ao mundo a história da Dina.
Um amigo fez um filme com esta história. Um filme que torna esta história mais real, porque mostra imagens da verdade desta história. Por isso hoje, dia 5 de Junho, passado um mês que ela partiu para junto de Deus, permito-me deixar-vos com este filme da Dina do Rosário Sousa Simões, na esperança de que ele possa ser o corolário desta história que não é minha, que é da Dina e que quero que seja de todos.


sábado, junho 02, 2012

Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem

Passados três dias do lindo funeral da Diana, recebi uma chamada da funerária para marcar o funeral de um jovem de vinte e quatro anos que morrera subitamente com doença fulminante, exactamente no dia e na hora em que completava esses vinte e quatro anos. Estudava no último ano de enfermagem. Tinha muitos colegas e amigos. Dará, por isso, para imaginar a dor de tanta gente e a minha aflição. Os funerais são sempre imensamente dolorosos para os que amam quem parte e para aqueles que têm de presidir à cerimónia. Fiquei, portanto, numa grande aflição. Que dizer na homilia do funeral? É comum ficarmos sem saber que dizer, porque também a nós nos custa aceitar. Porém, no mesmo momento em que a aflição me veio, veio também a certeza de que o funeral da Diana seria o ponto de partida do funeral do jovem de vinte e quatro anos. E assim foi, na certeza de que o que conta não é o tempo que dura a nossa vida, mas o sentido com que a vivemos. A minha partilha da homilia foi um contar da história da Diana. E porque passei os olhos no facebook do jovem de vinte e quatro anos, onde os amigos repetiam que a vida era injusta, a determinada altura da homilia, fazendo referência ao que tinha lido no facebook, insisti, com a ajuda da Diana, que a vida não era injusta. Nós é que precisávamos de a aprender melhor, quase como que a querer dizer que nós é que, porventura, às vezes, éramos injustos com ela. Por causa desta homilia e desta história da Diana, passados uns dias, alguém me contou que a tia do jovem de vinte e quatro anos se sentiu confortada, muito confortada, aliás, no funeral do sobrinho. E a mãe agradeceu-me a homilia especial daquela ocasião. E contaram-me que algumas pessoas, sobretudo jovens, passaram aos amigos a história que tinham ouvido no funeral do jovem amigo de vinte e quatro anos. Lá está de novo a Diana.

terça-feira, maio 29, 2012

Esta é para ti, Diana, parte X, O pai da Diana

A Diana foi para o céu no dia cinco de Maio deste ano de dois mil e doze. Foi direitinha para lá porque ela sabia que o céu existe mesmo e que Deus a esperava mesmo, e que a vida é isto mesmo. Ela foi direitinha para o céu, porque o lugar dos santos é junto de Deus. Ela foi direitinha para o céu porque é no céu que se atinge a plenitude da felicidade e ela merece ser feliz. Ela foi direitinha para o céu porque o seu exemplo de fé e de santidade tem de ser conhecido no melhor tempo da nossa vida que é a juventude. E foi isso que aconteceu à Diana. Ela sabia-o e eu sei-o. Foi a sepultar no dia sete à tarde. O pároco que me substituiu nesta paróquia permitiu que eu fizesse a homilia. Tinha muita coisa a contar. Contei as nossas conversas. Ou melhor, as suas palavras, a sua vida. Senti-me muito feliz a contar a história da Diana. As cerimónias passaram por entre homenagens lindas e por manifestações de fé e amizade. Gostei muito da missa da Diana. Gostei muito da forma como a mãe foi corajosa depois de anos e anos sem descansar o coração. Gostei muito dos amigos da Diana, que também são meus, ali ao lado dela. Gostei de tanta coisa que nem dá para imaginar. Mas o que gostei mais foi do pai da Diana. Um homem que não tem aquilo que se chama fé. Um homem que várias vezes me mostrou como estava revoltado com Deus. Um homem que me disse que não podia acreditar assim num deus que permite estas coisas injustas. Um homem que poucas vezes acompanhou a filha à missa. Um homem que no final de tudo, ao cruzarmo-nos na rua, se agarrou a mim para me dizer. Não conhecia esta parte da minha filha, padre. Obrigado. Hoje recebi a resposta a muitas das minhas questões, padre. Obrigado. E apertou ainda mais o abraço, comovido e sereno. Que pena não a ter acompanhado mais nesta forma da sua vida. Fez-me bem saber tudo isto, padre. Obrigado. A mãe ouviu, olhou-me com um sorriso suave, e eu falei-lhe dizendo. Já é a Diana, no céu, a fazer das suas.

sábado, maio 26, 2012

Esta é para ti, Diana, parte IX, sexta-feira santa

A Diana entrou em coma induzido na sexta-feira santa, a sexta-feira da paixão do senhor. Curiosamente, nessa sexta-feira. Passaram outras, e no sábado passado, pela tarde, recebi novo telefonema do irmão. Quando vi o número do Bruno fiquei alarmado. Curiosamente – outra vez - estava a escrever umas coisas sobre a Diana. Estava com tempo naquela tarde e tinha-lhe prometido que, como ela já não conseguia contar a sua história, eu encarregar-me-ia de o fazer. Estava, portanto, a escrever e a pensar na Diana quando o irmão me ligou. Padre, vou já para Lisboa. As coisas estão como deve imaginar. Não precisamos de dizer mais nada. E não conseguem imaginar como fiquei paralisado a escrever e a escrever. Sabia que tinha de escrever tudo. Não podia parar. Só conseguia mexer os dedos no teclado. O resto ficara parado. Saí de casa porque tinha de sair. Às dezoito horas tinha de estar numa das paróquias para celebrar a missa e fazer um baptizado. O caminho durou uns vinte minutos de desassossego. Olhei por duas vezes o relógio. O coração apertava cada vez mais. Sabia que o melhor da Diana estava para vir. Mas estava perturbado, sem fôlego. Desta vez cheguei quase em cima da hora da missa. Contei a uma paroquiana amiga que estava muito perturbado. Expliquei os motivos e disse. Tenho a sensação que a minha amiga acabou de morrer. Não sei explicar. Algo me diz que é assim. Mas ninguém me ligou. Estava já à mesa de uns amigos para meter qualquer coisa à boca antes de uma outra missa quando tocou o telefone e eu corri para ele. Era o Bruno. Padre, era só para lhe dizer aquilo que já deve saber. Não digas mais nada, Bruno. Diz-me só a que horas foi. Tudo me caiu em cima quando ele disse que deviam faltar uns dez, doze minutos para as dezoito horas. E chorei. Não foi só porque a partida de um amigo dói. Chorei, emocionado, por causa dos desígnios de Deus que são tão grandes.

Esta é para ti, Diana, parte I

N.B. Vou atribuir acrescentos aos anteriores títulos, para ajudar a percepção dos textos.

quarta-feira, maio 23, 2012

Esta é para ti, Diana, parte VIII, preparada

As frases da Diana saíram do nada, que é como quem diz Saíram sem serem esperadas. Mas saíram desse nada, e para a Diana é tudo. E para mim acabou por ser tudo. Estou preparada. Sei para onde vou. Sei o que me espera. Não tenho medo de morrer amanhã. E a lágrima saiu como entrou, também do nada. Uma lágrima de emoção. Uma lágrima de tudo. E na dela colei a minha. Como colei o meu sorriso. E ela colou o dela no meu. Dois sorrisos e duas lágrimas bonitas a percorrerem um rosto bonito e um rosto de admiração. Olho-a e digo que é Deus que estou a olhar. E a nossa linguagem mistura-se, porque nos entendemos. Porque falamos a mesma linguagem. A linguagem de Deus. A visita que demorou quase três horas de mãos dadas e afagos de parte a parte, fixou a mais pura das nossas realidades humanas. Seres frágeis que são de Deus. Sabe, padre, já me apeteceu desistir. E eu disse-lhe que não podia. Deus não queria. Mas que se entregasse nas mãos Dele. Sabe, às vezes fico cansada de estar cansada. Sofro muito. E não é por deixar de sofrer que estou em paz para partir. É porque sei o que me espera. Deus.

domingo, maio 20, 2012

Esta é para ti, Diana, parte VII, o livro

A Diana nasceu em 1991 com uma doença hereditária que faz com que certas glândulas produzam certas secreções anormais, com sintomas que afectam sobretudo o tubo digestivo e os pulmões. Por isso está sempre magra, rejeita comida, não faz bem a digestão de alguns alimentos e não pode comer de tudo. Por isso tem dificuldades para respirar e já andou muito tempo com oxigênio às costas. Por isso foi transplantada. E por isso agora está agarrada a máquinas. Com a vida presa por tubos. O tempo ensinou-me a dar nome a esta doença. Fibrose Quística. Escrevo com letra maiúscula, porque sinto que é maior que a minha compreensão. Como a forma de viver da Diana ultrapassa a minha compreensão. Só a entendo à luz da fé e de Deus. Há uns meses, ainda antes de dar entrada no hospital para se agarrar aos tubos, A Diana foi visitar-me e levar-me uma prenda. O embrulho fazia adivinhar um livro. Padre, assim que comecei a ler este livro pensei em si. Acho que vai gostar. Na dedicatória deixou escrito Acredito que este livro seja uma de muitas formas de conseguir encontrar a Força e a Coragem que precisamos em alguns momentos da vida. Por algum motivo escreveu Força e Coragem com letra maiúscula. A seguir vinha um smile, que os jovens gostam destas coisas e a Diana tem apenas vinte anos. O livro tem a capa amarela com um toque de laranja. Pelos vistos foram vendidos dois milhões de exemplares em seis meses. Chama-se “O Céu existe mesmo”, e conta a história real de um menino que esteve no Céu e trouxe de lá uma mensagem. Antes da minha visita ao hospital já o tinha lido todo. Faz pensar. “O Céu existe mesmo”. E ela lembrou-se de mim ao lê-lo. Porque as nossas conversas sobre o céu são certezas nossas, dos dois. Também falámos disso na visita do hospital. Sorrimos e chorámos. Contámos as nossas vidas. Enfim, estivemos ali os dois, um ao lado do outro, como se fosse o momento para se estar vivo. Como se fosse o momento de ser feliz como Deus quer. Esquecemo-nos das horas. Da hora de comer. O importante, quando se está com quem se aumenta a intensidade e a vontade de viver, vale por tudo o resto. Pequena joia de Deus, o teu lugar é em todo o lado. De certeza o será também no Céu.

quinta-feira, maio 17, 2012

Esta é para ti, Diana, parte VI, a vida

Estávamos ali. Vivos. A falar como era nosso costume. Da vida. Tu sempre soubeste o que a vida vale, Diana. Sempre soubeste aproveitar cada minuto como se só existisse esse. Tu sim, sabes viver. As jovens da tua idade são, na maioria, fúteis. Porque não tiveram a graça que tu tiveste de sofrer desta forma. Eu sei, padre, e agradeço a Deus. Insisti que tinha mesmo muito a agradecer a Deus. Ela acenou que sim. Aquilo que pareceu, à partida, uma desgraça, acabou por te dar uma graça. Aquilo que nos parece a todos uma desgraça, acabou por te dar a graça de saberes viver e de saberes dar valor à vida que tens em cada segundo que ela exista. Eu sei, disse. E foi um Sei como se fosse o maior Sei. Tu és de Deus. Eu sei, disse. Para mim tu és santa. E apenas sorriu. Agradece o dom da tua vida a Deus. Faço-o todos os dias, respondeu. Na despedida perguntei-lhe como estava. Ela respondeu com os braços a fazer um círculo grande. Mais cheia, quis dizer. Obrigada, padre. Fez círculos grandes até eu sair pela porta de quarto dos paliativos. Voltei para trás e disse. Eu é que agradeço. Eu é que agradeço, repeti. Saí e depois disse baixinho. Obrigada, Senhor, por me teres posto esta tua joia na minha vida.

segunda-feira, maio 14, 2012

Esta é para ti, Diana, parte V, o brilho

A Diana estava do outro lado do vidro. A fisioterapeuta estava com ela. Já não consegue fazer muitos movimentos. Já não consegue fazer muitos movimentos, mas a boca e os dentes não param de sorrir. Enquanto me vestia com os apetrechos do hospital próprios para entrar em quartos com cuidados especiais, uma bata, umas touca, uma máscara, reparei como ela sorria para a fisioterapeuta. É normal nela aquele sorriso rasgado e que brota do interior. Faz-me lembrar o sorriso de um Cristo que uma vez vi num filme e não mais esqueci. Um daqueles clássicos antigos que passavam na Páscoa na televisão. Ao meu lado, estavam dois enfermeiros da Diana. Enquanto esperava que a fisioterapeuta acabasse, falei com eles. Todos gostavam dela. Olhe, às vezes andamos à disputa para tomar conta dela. Ela tem um brilho especial. A maioria dos doentes quase nos torna doentes. A Diana não. A Diana faz-nos ter vontade de viver e de ser enfermeiros. Ao pé dela sentimo-nos bem. A mãe da Diana já me dissera aqui há uns tempos que os médicos e os enfermeiros gostavam muito da Diana e andavam sempre de roda dela. Nas quase três horas em que estivemos juntos, lado a lado e ao lado da sua cama, assisti à prova destas coisas que os enfermeiros e a mãe da Diana me haviam dito. Os enfermeiros e as enfermeiras iam passando só para dizer Olá. Acho que não havia um único que não acenasse, pelo menos, do outro lado do vidro. Vês como és especial, Diana. Tens tanto a dar de Deus. Deus deu-te tanto para dar. E apesar do teu sofrimento, aqui estás ainda a dar de ti, da tua vida, da tua alegria, da tua simpatia, do teu brilho, da tua fé, do teu e do nosso Deus.