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sábado, março 29, 2014

Nós não ressuscitamos

Por entre as colheres de sopa e os garfos das batatas cozidas, a conversa gerava-se à volta de tudo um pouco. À mesa do restaurante a comida entra-nos misturada com muito assunto à mistura. Para isso nos sentamos acompanhados. Às páginas tantas, veio à baila o livro de um colega com o título “Ressuscitarão os mortos?”. E disse Já li e aconselho vivamente, como se o advérbio acrescentasse à acção alguma coisa mais. Não recordo porque acrescentei Vivamente, mas agora que estou a escrever parece que faz uma conjugação interessante com o título do livro.
Ora uma jovem esposa que se encontrava em diagonal comigo, para fazer parte da conversa, anuiu com um Claro que sim, claro que ressuscitamos. E porque ninguém dizia mais nada, insistiu. Há alguma dúvida?! Chegou a usar o nome de Deus para validar as palavras. Pelo amor de Deus, fico com pena que alguém possa duvidar, pois que seria de nós se não ressuscitássemos?! A jovem esposa tinha uma fé genuína, mas o padre, que era eu, acenou que não. Ela parou de abrir a boca para comer e abriu-a para se admirar. No meio do meu acenar, fiz uma afirmação que fez parar talheres, pratos, copos, olhos e bocas das outras três pessoas que almoçavam connosco. Nós não ressuscitamos. E repeti. Nós não ressuscitamos. Depois de ter engolido em seco, a jovem esposa pôs os olhos nos outros e a pergunta em mim. Então, mas nós não ressuscitamos?
Com um ar o mais sério que possais imaginar, poisei o meu talher, mudei o tom de voz, aquele tom de voz mais cavernoso, e respondi. Não, minha amiga. Nós não ressuscitamos. Quem ressuscita são os mortos. A jovem estava tão desarmada, que não conseguia ainda chegar à compreensão e mantinha a posição de estátua que não come, não pensa nem sente. Por isso acrescentei. Olha lá, porque cargas de água é que nós, que estamos vivos, precisamos de ressuscitar? Só os mortos é que ressuscitam. Vou-vos dizer, este padre nunca mais toma juízo.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

A geração do telemóvel II e o porco do senhor Manuel

O Manuel, que é meu ajudante na paróquia e na missa, pelos vistos, faz parte da geração que não sabe calar o telemóvel ou usar a tecla de silêncio. Posta esta informação, vamos à missa que está na hora dela. Ou melhor, vamos ao final da missa que está quase a acabar. Faltam a oração post-comunio, os avisos e a bênção final. Levantamo-nos ou erguemo-nos para lhes dar lugar ou para acabar com elas. Dou início à referida oração e nisto ouve-se ali ao lado, a uns dois metros de distância, um porco a berrinchar de uma forma que achei assustadora. Calou-se tudo, menos o porco. Todos olhámos em redor. A matança do porco chegara à Igreja e à missa. Era o telemóvel do senhor Manuel. Fez-se ouvir até à porta de saída com o senhor Manuel a correr. Porco e senhor Manuel a fugir, e toda a assembleia a segui-los com a mão na boca para evitar os sons das gargalhadas. Bem quis dar avisos e a bênção final. Mas foi tudo a correr como o porco do telemóvel e o senhor Manuel. Terminada a missa, em vez do cântico final, a assembleia em coro, padre incluído, não conseguiu evitar fazer ouvir as suas gargalhadas. Pelo menos saiu tudo bem disposto da missa.

segunda-feira, novembro 11, 2013

O filho da Glória

A Glória tem um filho que a costuma acompanhar à missa, embora ainda esteja longe da idade escolar. Costuma estar sossegado e parece atento. O atento possível naquelas idades. No Domingo passado o refrão do salmo dizia “Senhor, ficarei saciado quando surgir a Vossa Glória” e, como é normal, as pessoas repetiram o refrão as vezes necessárias. No final da leitura do salmo, enquanto, no silêncio próprio da espera, a pessoa que ia ler a segunda leitura se dirigia ao ambão, o habitualmente sossegado do filho da Glória levanta-se, sobe para o banco onde estava sentado, vira-se para as pessoas que agora o viam perfeitamente, e pergunta numa voz fininha, ainda meio indefinida, mas compreensível. Porque é que hoje só dizem o nome da minha mãe e não dizem o nome das mães dos outros meninos? E sentou-se, com o sururu da assembleia a sorrir, e com a mãe a cruzar o dedo com os lábios, para fazer pouco barulho. Em casa a mãe explica, disse. E o senhor padre do altar repetiu. A mãe Glória em casa já explica.
Estou mesmo a ver qualquer dia o filho da Ressurreição a fazer o mesmo. Falamos tanto dela na Missa!

segunda-feira, março 04, 2013

O Papa Emérito

O hábito faz o monge e eu não sou superior ao hábito. Daí que este Domingo, na hora em que se intercede ou invoca o Papa, engasguei-me em quase todas as missas. Não veio mal ao mundo, nem à Igreja, digo eu. E cuido que os meus colegas, no geral, se devem ter engasgado também. Além do hábito, não se sabia o que pronunciar. Papa Bento XVI, pois que ainda é Papa. Papa emérito Bento XVI. Ou talvez unicamente Papa emérito. Ou nada mesmo nada. Investiguei as normas e umas coisas, mas não fiquei seguro. Escolhi, por isso, Papa emérito Bento XVI, decisão que não impediu nem o engasganço nem que fizesse um Papa emérito, pausa, Bento XVI. Ora depois da missa, corri para o café com alguns paroquianos. Fazia parte deste alguns a Adriana, que tem pouco mais de vinte anos. Qual não é o meu espanto, quando esta pergunta. Então já temos novo Papa? De onde é o senhor Emérito? Gargalhada geral incontida. A Adriana não sabia o significado da palavra emérito e convenceu-se que era o novo Papa. Valha-nos Deus, que os Papas pouco nos valem. Ainda estou engasgado de tanto rir. É o que dá termos Papa e não termos.

sexta-feira, dezembro 21, 2012

A Maria, o burro e a vaca

A Maria, que não é a mãe de Jesus mas é muito brincalhona, estava à minha espera no final da missa para me fazer uma pergunta importante e a propósito deste Natal. Ó senhor padre, diga-me lá uma coisa ou diga o que tem a dizer da proibição que o senhor Papa fez, aquela de que não podemos por o burro e a vaca no presépio. Não consegui conter a gargalhada e ela também não. Olha uma coisa destas, continuava. Então hei-de deitar o burro e vaca que lá tenho em casa para o lixo! Era gargalhada atrás de gargalhada, e não resisti a contar uma história verosímil que li algures e que, segundo consta, há uma qualquer referência dela no tal livro do Papa, “ A infância de Jesus”. Sabe, senhora Maria, na Bíblia não aparecem nenhum burro ou vaca nas passagens em que se fala do nascimento de Jesus. Nem uma referenciazinha sequer. Porém, a dada altura, a Igreja não quis deixar o menino sozinho com a mãe e o pai. Aliás, queriam que no presépio toda a humanidade estivesse representada. Vai daí que as melhores figuras que encontraram foi o burro e a vaca. E assim, a partir daquela altura, tanto eu como a senhora já estamos representados no presépio. Foi rir até mais não. Confesso que ainda não li o livro do papa, mas já li o suficiente para perceber que o Papa, tal como eu, aconselha a que nos centremos no essencial do Natal e da Vida. Não proíbe nada. Não bane o burro e a vaca do presépio. Mais, diz que nenhum presépio vai prescindir deles. Agora quem não quer que se queixe. Eu prefiro rir-me disto tudo e pensar que afinal nem estou nada mal representado no presépio. O que importa é estar por lá.
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Aproveito para desejar a todos um Natal cheio da presença de Deus!

domingo, novembro 04, 2012

Uma romagem animada

Tínhamos acabado de chegar ao cemitério para cumprir a nossa romagem, como é hábito nesta época. Já estavam todos à minha volta para darmos início à Celebração, quando dois cães decidiram penetrar no círculo, por entre as pessoas. Começa o enxotanço daqui e dali. Uns com um psit, não sei se apropriado mas sonoro. Outros com o pé, como se os pobres animais fossem duas bolas de futebol. Graças a Deus que ninguém lhes acertou. Mas talvez por isso os ditos animais teimaram em voltar ao centro da cerimónia. Todos nos distraíamos com a situação. Até que uma senhora chegou à fala com um deles, o que lhe havia passado mais perto. Psit, vai lá para a rua. Ó meus amigos, desculpai, mas não resisti. E no mesmo tom da senhora, embora entre os dentes e mais envergonhado que ela, eu acrescentei. Mas na rua já ele está. Pois claro que a senhora queria dizer Vai lá para fora do cemitério. E todos o havíamos entendido. Só que não resisti. E comigo, nenhum dos romeiros resistiu em soltar uns valentes sorrisos. E assim tivemos uma romagem ao cemitério mais animada. Não que tenham de ser necessariamente alegres, ou alegres desta forma. Mas, a meu ver, seriam mais verdadeiras as romagens que nos fizessem sentir a alegria da Vida Eterna. Ponto final, que ainda estou com vontade de me rir.

sexta-feira, setembro 07, 2012

Quem canta, seu mal espanta

A senhora Emília é a cantora mor numa das minhas comunidades. Inicia e orienta os cantos da liturgia. É muito prestável, mas já não é a primeira vez que na hora do pós-comunhão fica em silêncio. Pelos vistos estavam assim habituados. E não vem mal ao mundo que a acção de graças seja feita na intimidade própria do silêncio. Porém, como gosto de cantar, insisto que se cante. No último Sábado assim aconteceu. Como ela estava perto da cátedra onde me sento, insisti baixinho, mas de forma audível, para que cantassem. Nada. Fez-se ainda mais silêncio. Mas nisto alguém resolveu cantar do lado de fora da porta da capela. Estávamos nós no tal silêncio profundo quando se ouviu, como se fosse ali juntinho à porta, o senhor burro a zurrar. Gargalhada geral na capela. Mais sonora que o zurro do senhor burro. E o senhor padre não resistiu a comentar do altar. Ora, eu tenho dito para cantarem. Mas hoje alguém me ouviu, e já que não cantamos nós, que haja quem cante por nós. E saímos da eucaristia todos bem-dispostos, pois que, deixem passar a expressão, quem canta seu mal espanta.

sexta-feira, julho 13, 2012

Santo Anás

O texto da Oração dos Fieis, a determinada altura, dizia qualquer coisa como Deus nos livre das tentações de Satanás. Ora, Satanás toda a gente sabe que é uma das formas de tratamento para o Demónio ou Diabo. Mas quando se fala neste ser, só de o imaginar, a nossa espinha recebe um arrepio e peras. Porém, o arrepio que me percorreu a espinha no outro dia, durante a missa de uma das paróquias, não se deveu ao ser em causa, mas a outro que, à partida, faria parte dos bons e do reino celestial mais celestial que se pode imaginar. Conto. A Carlita deve ter uns quinze anos e é uma moça cinco estrelas. Quando vai à missa, participa nos cânticos e nas leituras. Lá estava ela preparadinha da silva, como se costuma dizer, para ler a oração dos fiéis. E tudo correu na perfeição até ao exacto momento em que surge a palavra “satanás” e a Carlita se desconcentra e acaba por apelar a Deus para que nos livre das tentações do santo Anás. E foi por este motivo que um arrepio me percorreu a espinha e me fez meter mão à boca para que ninguém visse a minha vontade de me espalhar em gargalhas. Todavia, aprendi duas coisas. Primeiro, que ninguém na assembleia devia estar atento, porque ninguém fez gestos parecidos com o meu. Segundo, para que peçamos que nos livre das tentações, este santo só pode ser o padroeiro das altas farras. Ora toma lá, santo Anás.

sexta-feira, março 25, 2011

Prego a fundo no Pai Nosso

Estava no ambão proclamando o Evangelho. Depois de umas duas frases ou versículos, por assim dizer, o Evangelho dizia algo como Quando rezardes não digais muitas palavras como os pagãos, porque o Senhor bem sabe o que precisais. Depois desta insinuação ou chamada de atenção, o Evangelho colocava o Senhor ensinando a oração do Pai Nosso. E ali estava eu com a leitura do Pai Nosso, esforçando-me por a tornar verdadeira leitura. Entretanto, pressenti que à minha volta havia gente acompanhando-me com os lábios. Diria que se ouviam os lábios mexer. Mas quando chegou a parte final da leitura da oração, naquela parte do Mas livrai-nos de todo o mal, ouviu-se, por toda a igreja, Amen. Eram umas três pessoas, ou cinco, ou seis. A mim pareceram-me centenas, porque ecoou fortemente no meio da minha leitura. A partir dali o Evangelho do Senhor meteu outra velocidade, passando directamente de uma primeira para uma quinta. Começou aos engulhos, aos soluços. Parei duas vezes, mas foi para acelerar ainda mais a seguir. O motor precisava arranjar força para acelerar. O prego ia a fundo e eu respirava de forma igual, fundo. Mas cada vez que recordava o Ámen, a minha vontade era largar os engulhos, os soluços, as respirações a fundo, e espalhar-me em gargalhadas. Não se tratava nem de distracção, nem de hábitos. Para mim trata-se do esvaziar das nossas orações, porque as gastamos em repetições que apenas nos saem da boca e não do coração. Logo hoje que o Senhor nos dizia que ao rezarmos não devíamos dizer muitas palavras.

sábado, maio 09, 2009

Quinze maçãs especiais

A ti Maria é uma figura ímpar. Usa, como bom costume, o preto. Lenço na cabeça. Rugas na face. Sobrolho em riste. Poucos dentes. Lembra um filme de Manoel de Oliveira, mas em género comédia. Tem atitudes engraçadas, que lhe são sempre perdoadas, pela figura. Trabalha imenso no campo, na sua horta de passatempo. Macieiras, oliveiras, couves, batatas, cenouras, tomates. Com as pitas e os recos. Passa por lá grande parte do tempo, que a vida está difícil e precisa estar ocupada para evitar pensamentos vãos ou pouco saudáveis. É generosa. Cultiva para si e para dar. Partilha o que tem e o que não tem. Por isso bateu-me à porta com um saco na mão. Não eram mais que umas quinze maçãs que o peso da idade não suporta facilmente o peso de muitas maças. Mas a generosidade suporta quinze maças. Digamos antes umas maçãzitas que, confirmei depois, possuíam uns sinais acastanhados da idade e do prazo. Senhor padre, trago-lhe este saquito. Não é muito, mas é de bom grado. Estava para as levar para os porcos, mas depois lembrei-me do senhor, e trago-lhas aqui com muita amizade. Aceitei-as com a mesma amizade, porque é importante para o cristão saber receber e aceitar. Mas fi-lo à pressa, para ter o tempo necessário de me conter. Contive-me até fechar a porta e depois desatei às gargalhadas sozinho. Sim senhora, a consideração era tão genuína como castiça. Estava para as levar para os porcos, mas depois lembrei-me do senhor.

quinta-feira, março 06, 2008

Trunfo é copas

Já tem muita idade este padre. Embora alguns teimem em não querer, os padres também envelhecem. Por isso os temos em funções com idade já de estar encostado às boxes. Um dois cavalos numa auto-estrada onde não ultrapassa os setenta, faz zigue-zague e complica a condução dos mais atrevidos, sobretudo os que gostam de fugir à bófia a mais de cento e sessenta. Peço umas tantas vezes a Deus que me livre de teimar em não querer. Mas como estou consciente de pensar igual em idade igual, já vou adiantando que me livre ao menos de chegar a essa idade.
Já tem muito jogo em cima este padre. Muitas horas de sueca. É um jogador nato. Passa os minutos sentado no café a jogar às cartas. Lá tem os comparsas da coisa. Se o querem ver na terra é na mesa do jogo. É lá o escritório deste amigo. Pelo menos não está a maior parte do tempo sozinho, está disponível, bem à mão de encontrar, e ninguém precisa de inventar coisas porque ele está constantemente à vista de toda a gente.
Porém, de tanto jogo, de tantas minutos e horas e dias é natural que aquilo esteja na cabeça e não saia. E também é natural uma pessoa de idade avançada adoecer com facilidade, ou pelo menos com mais facilidade. Vai daí que o padre adoece. Mas como expliquei atrás e como é natural, não desarmou. Pelo menos a missinha tinha de celebrar. Cansado, doente, com febre, faz a consagração. Segura entre dois dedos a sagrada hóstia, assim como quem pega numa carta, eleva-a, assim como quem vai jogar a última cartada, e depois solta-se porque afinal ali se concentra tudo, ali se joga a vida, e em vez de proclamar Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, deixa a cabeça traí-lo ou atraí-lo. Trunfo é copas.

domingo, fevereiro 10, 2008

O padre distraído

Isso acontece ao mais bem intencionado. Ao mais atento, desde que não seja picuinhas. Pelo menos, para mim, quero que sirva este argumento. E que Deus me perdoe.
Celebrava para umas cinco pessoas. Valha-nos ao menos isso que a quantidade não era muita. Mas a Missa tinha o mesmo valor. Pois, que ela é de valor infinito.
Prefácio. Sabem o que é? O senhor esteja convosco, ele está no meio de nós, corações ao alto, o nosso coração está em deus… e por aí fora. Escusado será recordar que o prefácio é exactamente antes da consagração. Por isso é pré-facio. Sabem também as palavras da bênção final da missa, não? O senhor esteja convosco, ele está no meio de nós, abençoe-vos deus todo-poderoso, pai, filho e espírito santo. Ide em paz e que o senhor vos acompanhe.
Façam de conta, agora, que são um dos cinco cristãos atentos. Estão atentos. Compenetrados. Imaginem o padre no altar tornando presente Jesus, o Seu corpo e Sangue. Solene. O mais solene possível para cinco pessoas. Recordo que estamos no prefácio. Eu estive apenas nas primeiras palavras. O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós. E lá vamos nós para a bênção final. Abençoe-vos Deus todo-poderoso, pai, filho e… e sou interrompido por uma senhora castiça e mais atenta que eu: Olhem que já nos está a mandar embora!
Deus me abençoe, penso eu. Distraído. Distraído. Repetia-me a mim. Não serei o primeiro nem o último, pensava a seguir para me sossegar. Não queria, mas aconteceu. Recordo que foi difícil voltar à Eucaristia. Os olhos lacrimejavam de tanto rir. Mas bem feitas as contas mentais, quem me mandou distrair?! Por isso, quando voltei ao meu espaço, a casa, não consegui deixar de pensar nas vezes em que, por hábito ou por distracção, repetimos as palavras sem as utilizar deveras!

quinta-feira, janeiro 17, 2008

De rabo a abanar

Quando entrei na igreja matriz também quis entrar. É uma criatura de Deus este cão, pensei. E embora pudesse ter melhores ouvidos à Palavra de Deus que muitos dos nossos cristãos, não fazia propriamente parte da comunidade. Esbocei um gesto para o afastar. Ou com medo ou com respeito, afastou-se. Dois acólitos que entravam comigo falaram-me da sua amizade. Que eram muito amigos. Aproveitei a ocasião para lhes falar das criaturas de Deus que merecem o nosso carinho. E assim demos início à Eucaristia.
Lá estavam os acólitos nas suas alvas brancas, de velas na mão, em frente ao ambão e eu a proclamar o Evangelho quando, por entre a multidão surge o nosso amigo cão. Algumas pessoas tentaram afastá-lo da ideia de se passear pela coxia. Em vão. Por entre calcanhares e pernas, foge e intenta chegar junto dos seus carinhosos amigos, os acólitos. Eu vou assistindo do canto do olho. Um no livro e outro no desenrolar da situação. Uma jovem mais decidida encaminha-se na sua direcção. Ele foge insistentemente e ela insistentemente corre atrás dele. Desiste depois. Era impossível. Para mim começava a tornar-se impossível também a compostura. Em pequenos trejeitos o meu sorriso ia crescendo. Tentava controlar-me. Por fim o cão chegou junto dos meus acólitos, mesmo à minha frente. Estancou e toca de abanar o rabo. De um lado para o outro. À espera. Parecia querer ouvir melhor a Palavra de Deus. Não teve medo, como muitos cristãos, de ir para a frente da Igreja. Impossível alhear-me da situação. Ainda por cima tinha presente o “de rabo para o ar”.
Um dos acólitos é obrigado a largar a vela e sair da Igreja para que o seu cão amigo o seguisse. Eu assisto. Resisto. Acabo a leitura e não resisto. Lá vai uma Palavra da Salvação que mais saiu como de exaltação. Paaa-lahaha-vrrraa da Salvahahaçã…

sexta-feira, setembro 07, 2007

De rabo para o ar

Fazia-se silêncio. Uns para me ouvir e outros para descansar da noite mal dormida. Os olhos na direcção do ambão, na minha direcção. Eu falava, falava, pregava. Já lá iam uns bons cinco minutos. A coxia estava desimpedida, como é normal. O fundo da Igreja repleto. Os bancos cheios. Mas tudo em silêncio. Agora imaginem o que é avistar, no meio deste cenário e deste silêncio, uma senhora dos seus setenta anos ajoelhar-se a meio e no meio da coxia depois de descalçar o chinelo para tentar acertar numa lagartixa que teimava em ouvir a homilia e que não sossegava, ao contrário das pessoas, percorrendo os espaços livres que lhe deixavam! E vai uma chinelada. E vai outra. Como a lagartixa insistia em fugir, a senhora coloca-se de gatas, rabo para o ar, e toca de gatinhar atrás da lagartixa batendo e batendo com o chinelo nas pedras da coxia. Do meio da coxia quase chegava ao cimo, nunca se perturbando com o aparato da situação. Parei. Poisei os olhos sobre ela. Poisámos todos. O silêncio trocou-se pelas gargalhadas. Tapei a boca para controlar as minhas. Não era possível. A lagartixa havia escapado. Entretanto, a senhora levanta a cabeça para mim à espera que eu aprove, compreenda e perdoe a posição de rabo para o ar. Pedi-lhe para acalmar. Pedi a todos. Mas foi difícil prosseguir a homilia, pois no meio da Palavra de Deus teimava em aparecer-me aquele rabo virado para o ar. São aquelas situações que nos fazem recordar o humor de Deus!
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Voltei, amigos, depois das férias e de ter estado a meio gás. Não resisti a contar esta situação caricata que me aconteceu nesse período. Obrigado pelas visitas e pela amizade.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Uma história dos fundos

Adoro ver as criancinhas como acólitos. Adoro ser rodeado por elas. Mesmo no meio de algumas confusões, no meio da eucaristia, em que tenho de repetir como se faz. Não que não estejam organizados. Não que não tenham alguma formação. Mas há paróquias em que o dito fica por dizer ou ensinar, por mais que seja dito ou ensinado. Mesmo assim, gosto de os ter à volta do altar.
Estava eu há dias no meio de uma eucaristia quando fugi, inconscientemente, para este pensamento. Como era bom ser rodeado por estes meus acólitos! Aturo-os, apesar das tropelias e tropeços. Faz-se por amor. De repente, sem ruído, do fundo, e no meio da consagração, o cheiro chegou-me, e cresceu de forma progressiva. Tentei não respirar e pensar que a suposta criança, que nem consegui adivinhar qual delas seria, estava precisada. Mas a situação era constrangedora. Consagrar sem respirar é difícil, descobri. Sorrir era delatar o infractor. Que fazer, então, com acólitos assim?! Ó Cristo, é que nem tu me ajudaste nesta!

quinta-feira, novembro 23, 2006

A chamada de Deus

Engalanados, como se costuma ir à missa, que é Domingo. Olhos e ouvidos atentos, pelo menos daqueles que não soçobravam do sono da noite anterior mal dormido. Estava no meio da homilia. Procurava que as minhas fossem as palavras de Deus. Ia já nos cinco minutos quando do meio dos engalanados se ouve um barulho estranho. Um telemóvel. Além desse, ouvem-se uns murmúrios, um cochichar. Olham-se uns aos outros. Eu não paro, que estava concentrado naquilo que afirmava. O telefone é desligado. Porém, não passou muito tempo para tocar de novo. Queria abstrair-me, mas não conseguia. Parei. Olhei para o nunca e pensei. Estarei a dizer alguma inconveniência e Deus quer-me prevenir?! Respirei fundo e falei com calma. Olhe, se é para mim, diga que agora não posso, que estou ocupado a fazer uma homilia. Só respondo se for Deus, e mesmo se for Ele, só atendo se for uma coisa urgente.
Gargalhada geral, e a minha foi a primeira, apesar de, com estas coisas de Deus não se brincar. Espero que não tenha sido Ele a ligar. Se foi, pelo menos ficou com medo e desistiu.

quarta-feira, março 01, 2006

Uma daquelas...

Início da Quaresma, como todos os anos, com a Quarta-feira de Cinzas. Cerimónia obrigatória da Imposição das Cinzas nas paróquias. Bastante gente, que aqui ainda há gente. Cerimónia simples e interessante. Explico. Benzem-se as cinzas feitas com os ramos de Domingo de Ramos do ano anterior. Benzem-se. Depois impõem-se sobre a cabeça de cada pessoa, dizendo “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. Ainda se podem dizer outras coisas. Mas digo esta enquanto coloco sobre a cabeça um pedaço de cinza. Explica-se a cerimónia depois da homilia. Aí vem o pessoal todo. Nem uma pessoa só fica sem vir até ao padre ou até ao ministro receber a dita imposição. O senhor António também. Até é dos que pratica. De vez em quando comunga. Avistei-o ainda ao longe, umas três ou quatro pessoas atrás. Geralmente baixam a cabeça para a imposição. Ele levantou-a bem. “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. Eu disse, e dispus-me a deixar cair a cinza sobre a sua cabeça. Mas não. Ele não se mostrava interessado. Língua de fora e Ámen. Era a sua hora da Comunhão. Esboço um sorriso. Pisco-lhe o olho. Para dizer que não tinha mal o hábito ou distracção. E impus-lhe as cinzas.