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sábado, fevereiro 16, 2013

A Igreja que não é de um Papa

Pensava eu que a resignação do Papa passara ao lado dos meus paroquianos, quando ontem alguém desabafava dizendo que se sentia um pouco órfã por causa da renúncia do Papa. Que se sentia sem terra debaixo dos pés. E agora, senhor padre, como vai ser? Como se o mundo acabasse com esta renúncia. Ou como se a Igreja acabasse com esta atitude. E já estou como aquele meu colega que se perguntava. Mas as pessoas seguem o Papa ou seguem Jesus Cristo? Que Igreja é esta que depende de um Papa, ou dos bispos ou dos padres, e não de Cristo? Vou-vos afirmar que fiquei muito contente com esta forma de se manifestar a Igreja, onde os homens passam e fica o mais importante, Deus. Vou ainda confidenciar-vos que, quando João Paulo II, que muito estimei sempre, completou os seus setenta e cinco anos, eu encontrava-me ansioso por perceber se ele iria ou não resignar, como propõe o Código de Direito Canónico, dando assim um exemplo que seria único. Mas não. E na altura fiquei, digamos, algo frustrado. Mais tarde, quando os seus ensinamentos já lhe não saiam das palavras, mas de um rosto cheio de dor, eu percebi. Percebi aquilo que toda a gente comentava na época. A força do sofrimento que não se resigna e que se manifesta ao lado de cada um que sofre. Vi nele o rosto de um Deus que não se cansa de estar com todos, sem excepção de dor, de saúde, de sofrimento. Quando surgiu o nome de Bento XVI na pessoa do cardeal da Doutrina da Fé, frustrei-me igualmente, pois desejava um Papa que renovasse a Igreja. Não passaram muitos anos e percebi. Percebi que a renovação da Igreja passava pela sua autenticidade. Nestes dias, quando ouvi a notícia da sua resignação, não quis frustrar-me de novo. Já tinha aprendido a lição com as anteriores frustrações. Antecipei-me. E percebi. Percebi que a Igreja precisa de força e de homens que sabem aceitar a sua condição de fragilidade e que, humildes, corajosos e cheios de lucidez, sabem dar estes passos. Para que a Igreja de Cristo continue. Para que outros possam fazer ainda melhor que eu, porque eu não sou o dono do saber, da vida e da Igreja. Claro que não falei desta forma com a senhora órfã. Recordei-lhe apenas o que em muitas paróquias acontece quando o padre envelhece. Quando não tem forças senão para manter a calmia e comodidade da comunidade. Quando não consegue senão celebrar umas missas com falhas aqui e acolá. Quando já não consegue ser o condutor da comunidade porque o carro engripou. Quando já não consegue ir à frente da comunidade e vai atrás, arrastando-se. Por muito bom que seja. Por muito lúcido. Por muito que tenha vontade. Nessas ocasiões facilmente as pessoas gritam por mudança, por um padre mais novo ou mais capaz. Ora, a Igreja, que é de Deus e todo o Povo de Deus, continua. Há-de sempre continuar. A Igreja não é de um Bento XVI ou de um João Paulo II. Nem é nossa. Nós é que somos dela. Nós é que somos ela. Os homens passam. Só Deus não passa.

terça-feira, janeiro 29, 2013

O casarão atrás e a casa em frente

O colega que está agora nas minhas antigas paróquias há dias fez-me o convite para entrar em sua casa, aquela que outrora foi minha, aquela que foi construída com a imagem que eu fazia dela. Morei lá quatro anos, os suficientes para me apegar à cor dos sofás que tanto gostava, aos azulejos pequeninos que havia escolhido de propósito, ao cheiro das madeiras e do aquecimento aceso. Não acedi ao convite. Aquela casa não é mais a minha casa, apesar de ter espaço suficiente para mais de uma dúzia de pessoas. Era o meu casarão. Por isso, talvez por lhe lembrar o cheiro e o gosto, eu não acedi ao convite. Na altura em que as decisões de mudar de paróquias ficaram feitas, pensei várias vezes no meu habitat natural dos últimos anos. Não pensei apenas na casa que ajudei a construir com a minha imaginação. Pensei também na organização, nas estruturas que deixava, nas minhas formas de agir que já encaixavam naturalmente com as das pessoas, com os caminhos que trilhámos em comunidade. Recordo que na altura tive um pensamento que não quis reprovar: Os problemas que tinha nas paróquias já não eram os problemas que as pessoas criavam, mas os problemas que as pessoas tinham. Estava, portanto, com uma certa estabilidade pessoal, difícil de apagar. Muito difícil. O meu Sim não tinha sido um Está Bem, nem tinha sido um Não ao que vivia. Tinha sido um Sim à vida e ao chamamento de Deus. Não era um Sim conformado. Era um Sim inconformado, porque a nossa missão deve estar sempre inconformada, desformatada, desacomodada. E parti. Parti com a certeza de que naquele momento o meu sacerdócio saía reforçado. Estar desprendido da minha casa, do meu habitat, das minhas coisas, das paredes com quem tantas horas falei, das minhas organizações, dos meu ganhos de onze anos, das minhas conquistas, até dos que amava, só me fez pensar que o meu sacerdócio não é meu, mas de Deus. Que a minha vida não é minha, mas de Deus. E isso fez-me bem. Muito bem, agora que vejo tudo a uma certa distância. A Casa que tenho hoje é pequena, fria ou quente consoante é Inverno ou Verão para não dizer mais, embora ajeitadinha. Tenho muito que tratar e organizar. Tenho muito que fazer e compor. Tenho muitas amizades por fazer. Tenho muito que amar. Não é bem deixar tudo para trás. Mas é deixar a vida que tinha, em troca de uma vida por ajeitar. E isso só fez crescer em mim o meu sacerdócio. Mas já agora, ó Senhor, o que disse até aqui é verdade, mas a ver se não te lembras de passar a vida a tentar fazer crescer em mim o meu sacerdócio desta forma, que um padre não é de ferro.

sábado, janeiro 12, 2013

Os funerais fazem-me dor de estômago

Fico sempre com o coração aos pulos quando vem um funeral. Desarranja-me a vida e às vezes os intestinos. E não há funeral em que o meu coração não pule repetidamente, em tic-tac, e em acelerando. Porque é estranho ver as pessoas de luto, de escuro. Ver as pessoas com lágrimas nos olhos. Muitas vezes aos gritos ou gemidos. Fazermos o trajecto do cemitério. Darmos conta que alguns dos presentes só fazem acompanhamento, mais nada. Antes do funeral olho para baixo, para o trajecto que faço, para ver se me concentro em fazer o que tem de ser feito, dando algum ânimo às pessoas e muita esperança que vem da fé. Tremo quando penso que vem aí um funeral. Basta ver no ecran do telemóvel o número de uma funerária e já estou assim. Só tenho algum alívio quando deixo as pessoas no cemitério e corro para não estar mais lá. Dizem que os médicos, com o tempo, lidam com a doença e as pessoas doentes como se fossem apenas mais uma ou algo que manejam como o agricultor maneja a enxada. Mas eu não sinto que as centenas de funerais que já fiz deixem de pesar e deixem de me fazer sentir aflito. Ainda por cimo acredito na Ressurreição. Às vezes até me parece que acredito mais na Ressurreição que no próprio Deus. Podia dizer a mim próprio que é uma boa ocasião para pregar a Vida Eterna. Mas quer-me parecer que andarei aqui a vida eternamente com dor de estômago cada vez que tenho de fazer um funeral.

terça-feira, julho 03, 2012

O padre é uma loja aberta

A senhora chegou à hora que lhe deu jeito. Ainda não seriam dez horas. Queria falar com o padre. É só com ele. A funcionária informou que o padre não devia estar disponível. A senhora insistiu. Os padres devem estar sempre disponíveis. Foi desta maneira soft que a funcionária, com os olhos a olhar o chão, contou o que a senhora respondera. A sua forma de olhar para o chão deu-me a entender que não deveriam ter sido bem estas as palavras utilizadas pela senhora. Eu já tinha explicado à funcionária que preciso de tempo para mim, para as minhas coisas, para me preparar, para meditar, para organizar a paróquia e as coisas da paróquia, para fazer as homilias, para rezar. Por isso marquei horas e dias de atendimento, a não ser que hajam casos urgentes. A minha funcionária respeita muito este meu desejo. Mas muitas pessoas não. E é verdade que os padres devem ser pessoas disponíveis. Mas não têm de ser lojas abertas. Aliás, mesmo as lojas abertas têm horários de funcionamento. Para mim a disponibilidade do padre deve ser acima de tudo uma disponibilidade de coração. As pessoas vão ao médico quando este tem o consultório aberto. Vão às repartições quando estas estão abertas. Vão ao supermercado quando este está aberto. Mas vão ao padre quando lhes dá jeito e o padre, seja a que horas for, tem de ser a loja aberta.

terça-feira, setembro 27, 2011

um Instante

Uma lágrima. Duas lágrimas. Três lágrimas. Conto-as enchendo os olhos. Deixo de as contar enchendo o coração. Enchem-me todo por dentro. Prendem-me. E solto-as em liberdade. Deixo-as ir, rua abaixo. As ruas das minhas paróquias e dos que amo. As ruas dos que me fizeram feliz e dos que me fizeram sentir que vale a pena ser padre. Em dois meses percebi o que foram onze anos. Tudo passa num instante. Mas é o instante de Deus. É a Ele que agradeço tudo. É a Ele que devo tudo. E àqueles que aprendi a amar e a nunca esquecer.
(...)

sábado, julho 16, 2011

A dona Silvina tem agora mais uma razão para viver

A dona Silvina tem oitenta e nove anos e vive com a irmã que tem menos que ela uns seis. Foram toda a vida o amparo uma da outra. Ambas vestem preto. Mas a Silvina cuida-se, arranja-se mais. Terá, porventura, uma perspectiva da vida mais convicta e interessada. Tem oitenta e nove anos e ainda cuida da irmã que caiu e partiu a perna. Mesmo sem grandes forças, não desiste de oferecer o melhor à irmã. Porém, começou a faltar-lhe a paciência e ontem queixou-se. Que hei-de fazer, senhor padre?
Para esta gente e estas idades que podem cair na resignação da vida, é necessário encontrar sempre o lado positivo das coisas. Ó dona Silvina, a senhora em vez de desanimar deve dar graças a Deus porque ainda está e é capaz de ser útil a alguém. Ela ergueu o tronco, retocou ao de leve o cabelo branco com a mão direita, e sorriu como há muito eu não a via sorrir. A nossa dona Silvina tem agora mais uma razão para viver.

quinta-feira, junho 30, 2011

O assunto era padres

O assunto era padres. Padres para aqui, padres para ali. Aquele padre assim, aquele padre assado. A mesa era de madeira e não era muito grande. Albergava-nos uns cinco. A senhora Cecília era a convidada de honra. Morava numa casa grande numa vila próxima que não lembro o nome. Só lhe recordo o nome e o rosto arranjado. Pareceu-me uma mulher simples. Mas não daquelas mulheres simples do campo. Uma mulher simples no trato, na compostura, na forma de lidar com os assuntos. Os filhos eram doutores na capital. O marido já tinha morrido. Quando falava, todos se calavam, porque usava poucas palavras, e a maior parte delas faziam pensar. Estava sentada ao meu lado. Eu também fora convidado. Lado a lado a atenção das conversas. A do padre e a da Cecília. O padre, que era eu, porque tinha sempre na ponta da língua uma graçola ou uma forma engraçada de clarificar as coisas, ou então porque era o padre e o assunto eram os padres. A Cecília porque, como disse, falava para dar que pensar. Não falávamos propriamente mal dos padres, mas do que era ser padre, porque se ia para padre, a ideia que as pessoas tinham dos padres. A determinada altura a Cecília não esteve com meias medidas, deixou-se de poucas palavras, e arrematou. É uma das profissões mais fáceis de serem exercidas actualmente. Casa grande. Carro do ano. Empregada diariamente. Mestrados e doutorados pagos e com acesso facilitado. Estatuto social e religioso. Não há quase ninguém para atender, pois atendem mal. Em zonas pobres, sacerdócio é sempre uma excelente oportunidade para se livrarem das dificuldades financeiras, da lavoura, do trabalho duro. Infelizmente, mas verdadeiro. Pelas minhas bandas, não se vêem padres com espiritualidade. Muito menos com real vontade de atender aqueles que os procuram. Na minha opinião, não devem ter entrado no Seminário por vocação, mas por fuga. Todos se calaram, e fez-se um silêncio durante uns segundos que pareceram mais que sessenta. Eu disse que não era bem uma profissão. Que se tratava de uma vocação. Disse que a casa grande onde morava não era minha. Era da paróquia. Mas ia dar ao mesmo. Que o meu carro tinha quatro anos. Que tinha uma senhora que ia lá a casa fazer a limpeza mais ou menos de quinze em quinze dias, e que era eu que lhe pagava. Que não tinha nem mestrado nem doutoramento. Que o meu estatuto era o do meu trabalho. Que vinha de famílias da classe média. Tentava, a todo o custo, justificar cada frase da Cecília. Cada expressão. Mas a verdade é que este assunto me pôs a pensar. É que a Cecília falava sempre para dar que pensar.

sábado, abril 02, 2011

Quem faz tudo

Ela tem uma discrição que é uma graça. É mais linda ainda por dentro que por fora. Nunca incomoda. Nunca implica. Nunca complica. Vinha com o sorriso habitual e cumprimentou-me, como faz sempre. Então, Senhor Padre, anda bem? Apanhara-me com dor de costas, daquelas dores que eu acho que partem do coração e se prolongam para todos os órgãos do corpo. Sentia-me, como dizem por aqui, apezinhado. Nem sei se existe a palavra, mas existe a sensação. E disse-lhe. Ela perguntou Então porquê, Senhor Padre? Repete sempre Senhor Padre, pelo respeito que me tem. Nunca se dirige a mim sem me tratar por Senhor Padre. E respondi-lhe que andava com muitas preocupações nos ombros. Estavam pesadas. Mas tem algum problema, Senhor Padre? Acrescentei que não eram meus. Eram daqueles que me procuravam. Mas que acabavam por se tornar meus. E por mais que lhes desse palavras de conforto ou de solução, para mim eram sempre insuficientes. Com um olhar ainda mais profundo e mais sorridente que o habitual, ela afirmou que eu já fazia muito pelas pessoas. De certa forma calou-me, sossegou-me, trouxe-me uma evidência que difícil ou raramente dou conta. Mas eu não queria só fazer muito. Queria fazer tudo. Ao que ela me respondeu que tudo é só Deus que faz, Senhor Padre.

segunda-feira, março 21, 2011

A língua dos padres tem obrigação de saber responder

A língua dos padres tem obrigação de saber responder. E há três respostas que estão sempre prontas. Sempre na pontinha. São as três respostas que mais facilmente ouvimos aos padres diante das nossas perguntas ou dificuldades. Primeira. Temos de conformar-nos. Segunda. Temos de nos colocar nas mãos de Deus. Terceira. Temos de rezar. São as três respostas mais comuns e certeiras quando o problema está complicado e não tem solução à vista. São verdade nos nossos lábios. São verdade de Deus. Porém, mais do que respostas, deveriam ser frases declarativas, afirmações, adjectivos dos cristãos. Esta é uma das verdades que quero fazer agora. Não precisa ser de Deus. Só minha. Uma verdade que também uso, muitas vezes, como respostas. E canso-me. Canso-me de responder desta forma. E quando o cansaço se torna mais forte que a força das palavras, estas deixam de ser frases nossas para se tornarem simplesmente frases da nossa língua. De tão polidas, de tão usadas, elas tornam-se respostas gastas.
Quando a Maria me veio contar o que a filha fizera, que insinuara bater-lhe, que berrara para que meio mundo ouvisse, que fugira de casa, que partira para parte incerta com a certeza de que não voltaria, deixando a mãe com a sensação de que o cordão umbilical já não seria mais usado e que teria de guardar no esquecimento tudo o que à filha dissesse respeito, inclusive os seus erros e opções mais que erradas, não soube dizer mais do que as respostas que tinha prontas, na minha língua.
Depois cheguei a casa e bati a porta três vezes. Abri a primeira e achei que batera com a força certa. Abri segunda, e a força fora suficiente. Mas bati terceira para ter a certeza de que era essa a força que queria utilizar. Sentei-me na cama, de cócoras, com as mãos a segurar a raiva. E perguntei a Deus que há-de fazer um padre que as pessoas procuram a horas e desoras porque esperam que o padre fale a solução certa, porque estão habituados a ouvir as certezas que o padre tem habitualmente prontas, na ponta da língua e do Espírito Santo, porque sabem que ele é um homem de Deus e Deus há-de soprar-lhe ao ouvido, porque o padre é padre e é para isso que o padre serve. Porque padre é padre e ponto final.
Estou cansado de abrir constantemente aquela porta, que bati três vezes com força, para responder as coisas certas às pessoas, quando eu procuro mais que a resposta certa e não a encontro. Que dizer quando já não se sabe o que fazer, Senhor?

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

O primeiro, segundo ou terceiro

Barba escanhoada. Óculos ao fundo do nariz. Ar de entendido, mas pouco aventureiro. Faz parte dos maiorais da Junta, mas não é o Presidente. O encontro era aberto. Era um encontro para nos encontrarmos. Isso. Havia paroquianos e fregueses, se assim se pode dizer. Um jantar marcado pela paróquia, mas que podia ser usado por outras entidades. O importante era mesmo a comunidade e o convívio. Mas a Junta tinha combinado dar umas palavrinhas e umas recordações aos miúdos da terra. O presidente não tinha podido comparecer. Por isso o Catarino de barba escanhoada queria pedir-me que desse eu as palavrinhas. Que ele não tinha jeito e o presidente não estava. Para justificar a necessidade, afirmou. Sabe, o presidente é o primeiro da terra e o senhor é o segundo. Por isso cabe-lhe a si. Ao que eu respondi. Ele é o primeiro da freguesia e eu o primeiro da paróquia. Claro que não se trata nem de posições, nem de lugares. Podíamos ser primeiro, segundo, terceiro ou último. Mas cada coisa no seu lugar. Não acham?

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A cama

Ontem levei para a cama a Arminda, uma empregada lá do Centro que tem problemas graves de saúde e dependência. Anteontem levei o João e a Alexandra que se zangaram e querem deixar de namorar sem isso acontecer. No dia anterior levara a Diana que continua com aquela doença e teve uma recaída. No outro dia foi aquela catequista que não quer mais dar catequese pois não se entende com a outra catequista. E no outro foi a zeladora que se insinuou para aqueloutra. Nesse mesmo dia também levei os mordomos da festa de Santa Eufémia que querem de uma maneira e eu preciso de outra. Já houve um ou dois dias que levei o Bispo comigo. Agora que penso, já o levei mais vezes. Porque não me ouviu. Porque me calou. Porque não me lembro agora. Não quero. Reconheço que também já levei Jesus. Porém levei-o não para me sossegar, mas para lhe perguntar coisas, desânimos, situações. Durmo só. Mas é raro o dia que não leve mais alguém comigo para a cama. Alguém que não me deixa dormir logo. Alguém que prolonga a minha vida de olhos fechados. Alguém que faz meu coração palpitar porque não sabe como resolver aquilo que precisava ser resolvido, mas não é fácil. Queria entregar tanta coisa a Deus. Leva-os Tu contigo. Leva-os para a Tua cama. E mesmo que leve, não dou conta, porque as pessoas continuam a ir comigo e a fazer com que me sinta um instrumento de Deus que não sabe como usar as suas forças. São quase duas horas. Vou-me deitar. Ainda não descobri quem levarei hoje. Mas pressinto que é outra vez a Arminda.

domingo, dezembro 12, 2010

Os padres também erram

Estou sentado, mas já remexi a cadeira umas poucas de vezes. Parece que não consigo estar nesta posição. Levantei-me três vezes e fui à janela. Fui procurar uma resposta para a minha atitude. Fui procurar a senhora no meio daquela nuvem escura que avisto daqui. Eu tinha o portão aberto. Estava com umas pessoas debaixo do telheiro, na entrada da porta que dá para o quintal. O quintal da casa paroquial é grande e rodeado por um muro alto. A altura que possa trazer alguma discrição ao padre. Não tenho nada semeado. Não tenho tempo nem jeito. A conversa estava interessante e, repito, o portão do quintal estava aberto. Seriam umas dezoito horas, as suficientes para que o escuro impedisse a boa visibilidade, mas permitisse que nos apercebêssemos do vulto que entrou pelo quintal adentro e estagnou diante das paredes do muro que ficavam no sentido inverso ao portão. Ninguém percebeu o que se passava, nem de quem se tratava. A conversa parou. Uma das pessoas ainda falou em receio ou medo. Não me lembro que termos utilizou e para quê. Recordo que pensei. Deve ter receio do que podem querer ali àquela hora. Mas agora penso que poderia querer referir-se a outra coisa. Ao receio do que podia acontecer ao vulto estranho do muro do quintal. Levantei a voz para que o vulto me ouvisse e nada. Não reagiu. Tive de aproximar-me. Era uma senhora de cabelo branco. Não consegui ver melhor e não a reconheci. Lembrei que podia ser do lar e estar perdida. Só podia. Lembro que me mostrou umas coisas e que disse que andava às flores. Àquela hora! Ela não estava boa. Agora é que penso nisso. Perguntei se estava no lar e disse que sim. Foi a única coisa que fez sentido na conversa. Por isso encaminhei-a para o portão e indiquei-lhe a direcção do lar que fica a uns vinte metros à direita. Tinha missa dali a instantes e tinha alguma pressa. Convenci-me que ela tomaria a direita. Nem confirmei a direcção. Fui à minha vida. Mas passada uma hora e meia soube que tinham encontrado uma senhora no cimo de vila, na estrada, perdida. Se porventura não a tivessem reconduzido ao lar, não se sabe o que teria sucedido. Pedi que me explicassem melhor a história e como era a senhora. E expliquei o que sucedera comigo. Bati no peito e contei repetidamente. Contei para as senhoras que estavam na sacristia. Mas acho que era sobretudo para eu me ouvir. Bati no peito. Ainda agora bato. Eu devia não penas tê-la conduzido ao portão, mas ao lar. Devia certificar-me de que ela lá chegava. Eu devia muitas coisas, mas não o fiz. E agora estou para aqui à procura da senhora e de mim. Os padres também erram. Se erram.

segunda-feira, junho 01, 2009

A música litúrgica

Aproveitou experimentar outra opinião, para justificar a dela. Lá na terra faz parte do grupo de jovens e cantam na missa. Tudo certinho e direitinho, porque o padre só gosta assim. Podemos dar notas ao lado, que o importante são os cânticos litúrgicos. Queríamos colocar guitarra. Grita impossível, e a gente sente o impossível bem no fundo de cada um de nós. Entretanto, quando há casamentos e nos pedem para os animar, a gente desforra-se um pouco. Até há uns dias atrás, em que ouvimos o que não queríamos. Estamos impedidos de cantar na missa. E agora diga-me o senhor o que havemos de fazer? Deixar de cantar? Deixar de ir à missa? Deixar de ser cristão? Na minha paróquia quem manda sou eu, disse. Eu não sabia que dizer, pois sou de opinião que a música litúrgica é aquela que se adapta à liturgia e não aquela que com sonoridades exclusivas e características, nos é proposto alindar a Eucaristia. Também não gosto de canções de ir à erva, um pouco apimbalhadas, imitações baratas de artistas conhecidos como os Abba ou por ai fora. Mas gosto de uma viola, de um bom ritmo, de uma canção que faça sorrir e faça festa, uma canção que incentive todos a cantarem. Para mim, a música litúrgica é aquela que acompanha, que sustenta a liturgia. Não pode ser um espectáculo, e deve servir para que toda a gente cante na assembleia. Recordo como o meu mestre no Seminário nos ensinava aqueles temas cheios de vozes e harmonias que ninguém cantava senão nós, e que depois dizia serem litúrgicos. Por tudo isto, pedi à jovem que encontrasse naquilo tudo um equilíbrio. Que falasse de novo com o pároco e que tentasse encontrar o tal equilíbrio juntos. Mas, ó padre, então eu para cantar a Deus não hei-de poder cantar com as minhas palavras e melodias? Sou obrigado a cantar o que não gosto? Então como posso gostar daquele a quem canto se não gosto do que canto?

terça-feira, maio 05, 2009

O Braço direito de um padre

O Braço direito de um padre é aquele que nos olha como homem, mas que sabe que temos uma missão a cumprir. Aquele que nos compreende como homem e como padre. Aquele que se preocupa connosco como homem. E que depois é capaz de dar uma ajuda ao padre e ao homem. Defendê-lo. Estar ao seu lado, como um anjo guardião. Sabe fazer aquilo que o padre não consegue fazer e prolonga o seu trabalho. Prolonga esse trabalho, mas sente que é um com o pároco e com a comunidade. Não se sente apenas um braço, mas um corpo do grande corpo que é a paróquia. É aquele que sabe respeitar os limites do padre e que os usa para o ajudar a crescer. Não concorda sempre. Mas aceita sempre. Ajuda sempre, mesmo que não concorde. Se o padre mostrar um rosto macerado, pergunta que tem aquele rosto. Se o padre tem vontade de sorrir, ampara-o com o mesmo sorriso. Não é perfeito. Não há ninguém perfeito. Mas sabe calar quando é necessário. Sabe guardar segredo. Sabe ser voz do padre quando os restantes paroquianos manifestam dar mais ouvidos aos iguais. Está comprometido, não com o padre, mas com Deus. Vive a fé sem fanatismos, porque consegue compreender a humanidade de cada um e como esta se resolve. Sabe que o padre é humano e precisa de resolver a sua humanidade. Não é um secretário, porque o secretário parece um apêndice do seu patrão. É antes aquele que age como uma missão, a sua missão. É aquele que, mesmo parecendo que não está lá, basta um olhar do padre para agir em conformidade, em cumplicidade. A cumplicidade dos que sabem o que Deus quer em cada momento.
Apetecia-me dizer uns quantos nomes. Mas vou apenas dizer obrigado.

quinta-feira, março 26, 2009

Deus não escolhe os preparados

Preciso de paroquianos empenhados num determinado serviço. Procuro. Penso. Reflicto. Rezo as possíveis escolhas. Não se encontram os perfeitos. Penso em mim e depressa concluo que não têm de ser especiais nem perfeitos. Eu também não sou. Têm apenas de ser escolhidos, chamados. É o que faço depois de vários meses nisto.
Iniciam-se as tarefas ou serviços pretendidos. Os tais paroquianos tornam-se alvo de comentários, uns bons outros maus, sobretudo na base do porque é que foram escolhidos. Porque sim ou porque não. Se são bons ou não. Se são as escolhas acertadas. Para mim são apenas as escolhas aceites. Mas há quem não pense assim, ou melhor, que pense contra. São as vozes daqueles que confundem a perfeição com a vida e transportam para os outros as suas inércias ou limitações ou recalcamentos. A voz de uma dessas senhoras confrontou-me directamente. Ao menos foi corajosa e não foi, como muitas outras vozes, apanágio do falar nas costas. Insistiu imenso que a pessoa tal tinha sido um tamanho erro sem perdão Respondi-lhe, como em tempos alguém me dizia. Para fazer do mundo um jardim, devemos concentrar-nos em fazer do nosso um belo jardim. Quando todos assim fizerem o mundo poderá tornar-se um belo jardim. Mas como teimamos em apontar erros aos jardins dos outros, sobra-nos pouco tempo para nos dedicarmos ao nosso. Ela firmou a sua posição com O senhor padre diz isso porque o erro da escolha foi seu. Com a mesma coragem e firmeza com que ela falou, eu respondi. Deus não escolhe os preparados. Prepara os escolhidos.

domingo, fevereiro 01, 2009

Nem uma palavrinha de agradecimento, parte III

A zeladora dos altares não demorou muito a vir ter comigo de novo. Estivera a meditar em casa. Queria perceber ainda mais. Pelo menos melhor. Contei então uma história. Os membros do corpo estavam cansados de trabalhar para que o estômago tivesse comida. Então decidiram fazer greve. Deixaram de exercer as suas funções. Não é difícil descobrir como em pouco tempo começaram a sentir-se fracos. A desfalecer. Depressa concluíram que todos os membros deviam cooperar se queriam sentir-se saudáveis, e o estômago reconheceu também que devia repartir com igualdade tudo o que chegasse a ele. Depois do final da história, que não alonguei nem adornei, repeti: Todo o cristão tem um lugar na comunidade, que não pode ser apenas o de mero espectador. Deve cumpri-lo não como um prolongamento do ministro ordenado, mas pela missão que Deus lhe tiver reservado. Aliás, o sacerdócio comum dos baptizados não faz inútil o sacerdócio ministerial, não o substitui. Um e outro participam do sacerdócio de Cristo. Vem na Lúmen Gentium. A organização da comunidade não se trata de mera eficácia administrativa. Tem a sua raiz numa consciência mais profunda do Povo de Deus. O grupo da comunidade cristã crescerá na corresponsabilidade tanto quanto mais houver partilha de responsabilidades. E, minha senhora, não deve haver motivo de invejas, ciúmes ou arrogâncias. É como numa família: cada um faz o que pode para contribuir para ela e assim cumpre o seu papel. Por detrás não podem estar subjacentes nem poder, prestígio social, remuneração económica ou elogios. Por detrás deve estar a nossa missão sacerdotal. O melhor lugar pode até ser o mais discreto! O melhor lugar, a meu ver, é aquele em que se pode servir o irmão mais e melhor.
Deu-me um abraço e passou a fazer arranjos de flores muito mais bonitos.
Se querem saber, há dias elogiei-lhe não só o arranjo de flores como o seu arranjo com o rímel. Porque sim, porque estavam mais bonitos e sinceros.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Nem uma palavrinha de agradecimento, parte II

A zeladora dos altares não concordou, embora o rímel continuasse a olhar na direcção das minhas palavras, isto é, da minha boca. E, já que não serviram, continuei. Na Casa de Deus há muito espaço, muitos lugares, muito que fazer. Há para todos. Todos têm para fazer. Funções, responsabilidades, serviços. Até ao Concílio Vaticano II os leigos não eram considerados membros activos da Igreja. Não participavam na eucaristia. Assistiam. Não celebravam os sacramentos. Recebiam-nos. Eram espectadores passivos da actividade da hierarquia. Depois as coisas foram mudando. Porém, na minha opinião, as mentalidades ainda não mudaram o que deviam, quer de padres quer de leigos. Todos têm opiniões sobre o assunto. Mas uns não querem abdicar do monopólio. Outros não querem assumir o trabalho.
Servir na Igreja, minha amiga, é um direito e dever de cada um. E o serviço deve ser só isso, serviço gratuito. Todo o cristão deve ser activo, e tem um “lugar” a cumprir na comunidade. Não peça agradecimentos. A mim. Aos outros. A Deus. Faça-o como verdadeiro serviço. Acho que não gostou da palavra serviço, porque saiu porta fora sem dizer sequer Vou-me embora.

domingo, janeiro 25, 2009

Nem uma palavrinha de agradecimento, parte I

Andava eu atarefado pelos corredores da Igreja. Dirigia-me ao confessionário, o meu local de eleição. Vem uma zeladora dos altares, borrifada de batom e aquilo dos olhos, o rímel, cuido eu: Vou desistir, senhor padre. Nem uma palavrinha de agradecimento! Sua ou dos outros! Fiquei boquiaberto com a frase e com o rímel. E atalhei quando fechei a boca e abri de novo: o melhor agradecimento é quando estamos em sintonia com a pessoa que merece o nosso agradecimento e apoio. Melhor do que falar na missa dos valores de cada servidor, é sintonizar com eles, partilhar, simplesmente estar com. Aprendi isso porque um dia o bispo louvou muito o nosso trabalho, meu e da equipa diocesana, durante a homilia. Mas depois da missa, ausentou-se para outras actividades, que nem eram bem diocesanas. E estavam lá mais de mil pessoas. Suas ovelhas. Fiquei, como há pouco, boquiaberto. E “olhiaberto”. O melhor agradecimento ou demonstração de valor era ter ficado connosco o resto do dia.