Nunca houve tão poucos jovens. As percentagens apontam para uma desproporção entre mortes e nacimentos. O nosso país, bem como toda a Europa, está a envelhecer. Também por isso não admira que a maioria das pessoas que frequenta as nossas Igrejas seja maioritariamente envelhecida. Nunca houve tão poucos jovens católicos praticantes. Digamos que a maioria recebeu o baptismo, mas não recebeu a fé. Nunca a juventude esteve tão indiferente e despreocupada com o seu futuro. Quando se lhes pergunta o que gostariam de fazer ou o que querem para o futuro, as respostas são similares ao Nim. Não sei bem, Ainda não pensei nisso, Isto não está fácil. Também é do senso comum que esta malta hoje está cada vez mais individualista, egoísta, descomprometida, sem capacidade de fazer sacrifício. Mesmo as famílias crentes não têm tempo ou formação suficiente para educar estes jovens ou fazê-los crescer na fé. Os religiosos são pouco visíveis, pouco conhecidos, convive-se pouco com eles. É fácil perceber que o seu tempo para estar com as pessoas acaba por se tornar escasso. E muitas vezes quando se ouve falar deles não é por bons motivos Os meios de comunicação social são pródigos em falar dos elementos da hierarquia católica quando um deles se destaca pela negativa. A sociedade não valoriza, e até despreza, a vida religiosa. Vivemos numa época bastante pragmática, pouco idealista. Os jovens regem-se por experiências e por “coisas” efémeras, rápidas e sem consequências. Parece-me ainda que a vida que nós padres vamos levando não suscita grandes encantos. Vivemos a correr, com várias paróquias quase minúsculas, a cumprir preceitos, numa vivência solitária de vida humana, cheios de pequenos conflitos interiores e exteriores. E por tudo isto, e por muito mais que se poderia acrescentar, como será possível termos mais vocações sacerdotais?
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quinta-feira, junho 14, 2018
segunda-feira, maio 14, 2018
A síndrome de Burnout e os padres
Tenho andado a ler umas coisas sobre a síndrome de Burnout nos padres, porque me foi sugerida a leitura de uma notícia que dava conta do suicídio de alguns sacerdotes com esta síndrome. Os textos falavam que o grau de exigência da Igreja é muito grande. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade. Ora imaginem se isso fosse assim tão fácil, quantas canonizações de padres teríamos hora a hora.
Eu diria que mais do que esperar de um padre, se lhe exige. Exige-se-lhe a perfeição. Que esteja em todo o lado. Que tenha um sorriso constante, a amabilidade, o bom acolhimento, a pobreza e o desprendimento próprios da vocação, a sabedoria para todas as respostas, o celibato que é imensas vezes castrador, as certezas absolutas da fé. Que seja impecável. Que não peque nem seja frágil. Que não cometa erros. Ou seja, que tenha superpoderes.
Uma pesquisa de 2008 da Isma Brasil, organização de pesquisa e tratamento do stresse, apontou que a vida sacerdotal é uma das profissões mais stressantes. Naquele ano, quatrocentos e quarenta e oito entre mil e seiscentos padres e freiras entrevistados sentiam-se "emocionalmente exaustos". A psicóloga Ana Maria Rossi, que coordenou o estudo, afirmava que "um dos fatores mais stressantes da vida religiosa é a falta de privacidade. Não interessa se estão tristes, cansados ou doentes, os padres têm de estar à disposição dos fiéis vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana".
Vou continuar estas leituras.
terça-feira, abril 10, 2018
E se os padres fizessem greve?
Li há tempos que um pároco em Itália afixara um cartaz na porta da Igreja a dizer algo mais ou menos do tipo "A missa foi suspensa por falta de fiéis. Padre tal estará disponível quando for chamado". A informação foi publicada num jornal e alvo de muita conversa, sobretudo nas redes sociais.
Pessoalmente não me parece que a sua opção tenha sido a mais indicada. Um padre, à partida e como servo de Deus, deveria também ter a disponibilidade de coração para qualquer necessidade do foro da fé, mesmo quando à sua frente está um número reduzido de fiéis. No entanto, com a carência de sacerdotes, com as notícias que nos vão dando conta da sua debandada, das depressões ou similares na vida de tantos sacerdotes, o assunto merece a atenção de todos aqueles que se interessam pela Igreja.
A paróquia é, desde tempos imemoráveis, o território por excelência da acção de um sacerdote a que se chama pároco. Mas o número de padres tem diminuído e o mesmo não ocorre com o número de paróquias, ainda que muitas delas tenham perdido parte dos requisitos básicos de uma comunidade paroquial. O mais comum é a diminuição drástica de paroquianos. Nunca me aconteceu colocar-me diante do altar sem fiéis para celebrar a missa. Mas já celebrei bastas vezes para menos que uma dezena de pessoas. Contudo, os bispos teimam em dividir os padres pelas paróquias como se fossem fatias de um bolo, as comunidades costumam tratar-se como consumidoras e os padres aqueles que estão do outro lado do balcão. Temos esquecido que é mais importante a transmissão da fé que a divisão de territórios por párocos. Estes têm cada vez mais a seu cargo lugares para cuidar, lugares para realizar sacramentos a correr, Igrejas a cair por dentro e por fora, sem tempo para a real missão que assumiram na sua ordenação. Na verdade, e embora possa ser apenas minha opinião, um padre não se ordena para ser pároco, mas para ser padre. A sua missão não se confina a um território. A sua missão é anunciar a Boa Nova.
A paróquia é, desde tempos imemoráveis, o território por excelência da acção de um sacerdote a que se chama pároco. Mas o número de padres tem diminuído e o mesmo não ocorre com o número de paróquias, ainda que muitas delas tenham perdido parte dos requisitos básicos de uma comunidade paroquial. O mais comum é a diminuição drástica de paroquianos. Nunca me aconteceu colocar-me diante do altar sem fiéis para celebrar a missa. Mas já celebrei bastas vezes para menos que uma dezena de pessoas. Contudo, os bispos teimam em dividir os padres pelas paróquias como se fossem fatias de um bolo, as comunidades costumam tratar-se como consumidoras e os padres aqueles que estão do outro lado do balcão. Temos esquecido que é mais importante a transmissão da fé que a divisão de territórios por párocos. Estes têm cada vez mais a seu cargo lugares para cuidar, lugares para realizar sacramentos a correr, Igrejas a cair por dentro e por fora, sem tempo para a real missão que assumiram na sua ordenação. Na verdade, e embora possa ser apenas minha opinião, um padre não se ordena para ser pároco, mas para ser padre. A sua missão não se confina a um território. A sua missão é anunciar a Boa Nova.
Qualquer dia é bem possível que também os padres comecem a fazer greve para exigir que a vocação que abraçaram volte a ser a vocação sacerdotal.
terça-feira, janeiro 30, 2018
A Igreja precisa de padres?
Dava um bom título para um dos nossos pasquins mediáticos. Assim como dava um bom artigo de teologia numa revista especializada. Mas a pergunta surgiu numa reunião de padres que se queixavam a propósito de uma notícia badalada na comunicação social e que percorreu as redes sociais.
O padre ainda é preciso para fazer funerais, as festas bonitas de alguns sacramentos e as festas populares com procissões e romarias que terminam com bailaricos, cantores famosos e muita bebida. Nalgumas paróquias servem ainda para as reclamações de missas, sobretudo as de sétimo dia ou de notícia, aquelas missas com intenções, em determinados aniversários de defuntos.
São, a meu ver, necessidades autênticas e que a Igreja deve valorizar. Mas a pergunta, para mim, é muito mais profunda. A pergunta mexe com a razão verdadeira da existência dos sacerdotes, a própria existência da Igreja Católica, Apostólica e Romana, e que hoje já é costume chamar de ICAR (não gosto nada que lhe chamem assim, como se fosse o nome de uma instituição que se designa pelas suas iniciais e não pela sua razão de ser, o mandato de Cristo).
Precisa a Igreja dos padres, quando o seu número tem tendência a diminuir drasticamente e já não se conseguem manter as comunidades cristãs como no tempo da cristandade? O futuro dir-nos-á da necessidade dos padres, mas di-lo-á na procura daquilo que é a sua missão específica. Com o tempo creio que a Igreja assentará sobretudo no Povo de Deus que é constituído maioritariamente por leigos. Em breve serão eles a tomar conta das comunidades cristas, com um sacerdote que vai passando a celebrar missa de vez em quando. O próprio tempo fará com que deixemos de querer manter o de sempre. Talvez nessa altura descubramos que a Igreja é de Deus e não ao contrário, que a Igreja tem um deus. Na verdade, não é Cristo que precisa da Igreja, mas a Igreja que precisa de Cristo.
Talvez nesse tempo sejamos obrigados a dar conta que os padres só são necessários porque Cristo é necessário.
quinta-feira, janeiro 25, 2018
Os padres impecáveis
Há tempos trocávamos aqui palavras sobre os seres perfeitos dos padres. Agora apetece-me falar dos mesmos, mas trocando os adjectivos. Falarei dos padres impecáveis, desses que, porventura, vivem para mostrar o Deus impecável que lhes dá poder, através da ordenação, de serem impecáveis. Esse Deus que não os habita, porque eles devem precisar pouco dele, dado que são impecáveis.
Não sei quem são nem onde existem esses padres. Nem sei se existem. Por mim cá continuarei como S. Paulo, a professar que Deus entra na nossa fragilidade para lhe darmos espaço, a Ele e à sua força. E para que tudo o que façamos seja expressão dele e da sua força de amor, e não da nossa suposta impecabilidade.
Como disse em tempos um grande amigo, uma coisa é fazer as coisas bem, e outras fazê-las brilhar!
quarta-feira, janeiro 03, 2018
Uma confissão banal
Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final.
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim.
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.
terça-feira, dezembro 26, 2017
A minha cadeira de rodas
Só me faltou a gargalhada. Foi um sorriso que só eu dei conta. Veio, mais ou menos, na hora em que me pareceu que o mundo estava distante. Que agora era só eu e mais quem me quisesse acompanhar na invisibilidade. Ganhei ânimo ao pensar que vida é muito mais que o que temos de fazer. A vida é estar ou ser. É muito pouco o que fazer.
Sou padre, é certo. Não tenho a menor dúvida disso. Como também não tenho grandes dúvidas sobre o convite que Deus me fez há tantos anos. O convite que fez a uma pobre criança, meio reguila, meio inconforme. Tantas vezes pensei no porquê de Deus me ter escolhido. Ainda por cima, quando me apercebo das minhas milhentas fragilidades ou vulnerabilidades.
Estava a ler o livro “Senhor bispo, o pároco fugiu”, uma versão portuguesa do original francês “Monsier, le curé fait sa crise”. As primeiras impressões, sobretudo quando se trata o assunto da canseira administrativa das paróquias, era uma luva em mim. Assentava em cada dedo das minhas mãos. O protagonista, de nome Benjamim, queria refundar o seu sacerdócio, e para isso fugiu de tudo. Creio que fugiu até de si mesmo. Ia lendo e ia pensando que também era um sentimento que vinha a mim muitas vezes. A ideia que formulamos em nós quando decidimos seguir esta vocação anda muito próximo da divinização do sacerdócio. Imaginamo-nos a construir o reino de Deus só com a Palavra de Deus. Ela tem uma força que não cabe em nós, de facto. Mas é na nossa humanidade que ela actua. Não há como fugir disso. Nós padres, é que nos esquecemos, muitas vezes, dessa realidade. A vida não é como imaginamos, mas é um desafio permanente a descobrir como viver.
O padre Benjamim no final do livro foi convidado a ser bispo, apesar de estar sobre uma cadeira de rodas. O que eu me ri das coisas que Deus pode, em verdade, lembrar-se. Ou pelo menos que o autor deste livro colocou na sua vontade. A minha cadeira de rodas é outra. É esta vida sobre a qual me tenho sentado, na esperança de que o mundo gire à minha volta. Mas o mundo não gira. Sou eu que tenho de ir em busca, mesmo em cadeira de rodas. Sou eu que tenho de andar, mesmo que seja dentro de mim, para que cada minuto da minha vida, mesmo a sacerdotal, valha a pena. Por isso me ri tanto, comigo e de mim. Talvez amanhã me levante com o mesmo rosto sombrio de muitos dos meus dias. Mas, pelo menos, agora rio e, como um rio, quero deixar-me levar até ao mar, com um sorriso nos lábios.
O padre Benjamim no final do livro foi convidado a ser bispo, apesar de estar sobre uma cadeira de rodas. O que eu me ri das coisas que Deus pode, em verdade, lembrar-se. Ou pelo menos que o autor deste livro colocou na sua vontade. A minha cadeira de rodas é outra. É esta vida sobre a qual me tenho sentado, na esperança de que o mundo gire à minha volta. Mas o mundo não gira. Sou eu que tenho de ir em busca, mesmo em cadeira de rodas. Sou eu que tenho de andar, mesmo que seja dentro de mim, para que cada minuto da minha vida, mesmo a sacerdotal, valha a pena. Por isso me ri tanto, comigo e de mim. Talvez amanhã me levante com o mesmo rosto sombrio de muitos dos meus dias. Mas, pelo menos, agora rio e, como um rio, quero deixar-me levar até ao mar, com um sorriso nos lábios.
quarta-feira, dezembro 20, 2017
Ser padre ou ser Igreja?
Há muito que ando com esta pergunta aos tombos. Há já tanto tempo, como desde que comecei a sentir o que era deveras ser padre. Os primeiros anos do sacerdócio são os anos fantásticos dos sonhos, das esperanças, da vontade de oferecer ou vender a salvação por meia tuta de missas, confissões ou outros sacramentos. Muitas actividades para promover o espírito da comunidade cristã. Muitas conversas entusiásticas sobre um Deus que nos ama. Mas depois, com o tempo, vem a sabedoria da vida, a sabedoria de uma vida que se mantém igual, com pequenas nuances ou pequenos degraus. Esse tempo já la vai um pouco perdido pelo tédio ou pela rotina do nosso sacerdócio. Evito ser pessimista. Vejo ou quero ver tudo como oportunidades e desafios. Mas a pergunta vem e vai, bailando como sereia por um mar desconhecido. São muitos anos contados a fazer uma pergunta que é mais uma questão. Ou uma questão que se desenrola em muitas perguntas. Que Igreja quer Deus? Porque Deus fez assim as coisas? Para que enviou realmente o Seu Filho ao mundo? O que Ele pretende de nós? O que fazemos nós com Deus? E com estas vêm muitas outras perguntas similares, parecidas, mais retocadas ou mais embrulhadas. E todas elas se podem resumir neste desejo que trago em perceber como devo ser Igreja e como posso cumprir a vocação para a qual Deus me convidou. Repito a mim mesmo que não estou a ser pessimista e que, no meu mais íntimo, algo sei da resposta que busco. Talvez recluir-me em mim mesmo fosse a maneira para não me desperdiçar em tanta superficialidade. Mas também sei que não é isso que Deus me quer. É na vida que Ele pretende que eu seja padre e seja Igreja. Talvez o que eu queria era uma Igreja mais fácil, mais simples, mais verdadeira, na qual me pudesse sentir sempre como sou. Talvez consiga responder com mais claridade quando um dia for capaz de desprender-me do meu sacerdócio eu o encontre verdadeiramente. Ou por outras palavras, talvez quando um dia deixe de querer ser tão padre, eu consiga ser mais discípulo e mais Igreja como imagino que Deus sonhou.
sexta-feira, dezembro 15, 2017
As missas de Natal parte II
Há paróquias que só se enchem para a missa de Natal. Também ocorre o mesmo por ocasião da missa da bênção dos ramos, da missa de Páscoa, da missa da festa da aldeia, da missa quando se vai em romagem ao cemitério. E com menos pompa, também nas missas de funerais. Mas não todas, porque depende do morto a homenagear.
É uma graça, dirão alguns, termos tanta gente nas nossas Igrejas por estas ocasiões. E é mesmo uma bênção, nem sempre aproveitada, sobretudo para anunciar o Evangelho como ele merece. Que grande oportunidade para chegar ao coração de cada um dos que ainda não se encontraram com Cristo, mas estão ali. Também é de recordar que nessas ocasiões vem muita gente de fora. Familiares e amigos juntam-se, com o motivo da celebração festiva que nos junta numa Igreja ou numa capela lá da aldeia. Tudo são graças de Deus. Suas bênçãos.
Mas ainda ontem fui celebrar uma missa, a uma paróquia dessas, com 13 pessoas presentes, incluindo eu. Mesmo quando vou a paróquias que deixam a Igreja meio compostinha, pergunto-me sempre pelos outros vinte, trinta, quarenta, cinquenta por cento ou mais que não foram lá compô-la, mas que depois vão engalanados para a missa de Natal, e ai do padre se não tiver possibilidade de lá ir celebrar. Pois que, senão, dizem, o padre é que tira a fé e a religião já não é como dantes. Pudera. Claro que não é como dantes. E embora não pretenda questionar a fé herdada que existia como um modo cultural de viver, não posso deixar de me queixar que não é possível manter esse tipo de religiosidade num tempo em que as pessoas usam a religião como uma feira e o padre como um vendedor ambulante de sacramentos.
Neste Natal vou ter a coragem de pedir ao Menino Jesus que não ponha mais padres no sapatinho. Talvez quando o número de padres for exíguo e as terrinhas não consigam ter as suas missinhas de Natal, nos detenhamos a buscar o essencial do cristianismo, como um balbuciar de uma criança que vai crescer. Isso mesmo me lembra o Menino Jesus numas palhinhas deitado.
terça-feira, dezembro 05, 2017
Missas de Natal
Não sei como fazer para marcar tanta missa no dia de Natal, comentei com uma paroquiana de umas das minhas aldeias, no ensejo de que me aliviasse o peso de não saber que fazer. Como todos os cristãos compreendem que as coisas estão cada vez mais difíceis a este nível, também a Sandra compreende. A primeira coisa que disse foi um longo e pesado Pois. E acrescentou que as coisas estão a ficar complicadas. Mas decidiu dar uma ajudinha e perguntou porque não arranjava um padre.
Primeiro ri-me. Depois respondi que um padre já eu tinha arranjado. Eu mesmo. E por último pedi-lhe que arranjasse ela um. De facto parece que a nossa obrigação de padres, quando não podemos fazer certas celebrações, é a de arranjar padres. Outros padres que nos substituam. Mas poucos casais se preocupam em arranjar filhos padres.
A Sandra também sorriu porque entendeu. Mas depois foi citando, um a um, nomes de padres que ela pensava que estavam disponíveis, isto é, sem paróquias. Contudo, um a um, todos os nomes que referia são agora párocos. Em verdade, não é fácil encontrar um padre disponível para ajudar outro padre, porque todos, afinal, vão precisando de ajuda. Entre sete, oito e mais paróquias, não há como celebrar missa de Natal em todas. Além de ser humana e praticamente impossível, é esquecer que a verdadeira missão da Igreja está muito para além das missas. Elas são o centro da vida cristã, mas ainda é mais importante a vida cristã. Os padres têm-se gastado a celebrar missas, porque não há padres para celebrar tanta missa. E depois sobra pouco tempo para anunciar a Boa Nova da salvação, essa que Jesus nos trouxe quando nasceu. Além disso, deixem-me dizê-lo. O Natal é muito mais que a missa de Natal.
sábado, dezembro 02, 2017
Os nadas do padre João
O padre João tem, muitas vezes, a vontade de não fazer nada. Tem vontade de fugir para coisas que sejam iguais a nada, desinteressantes, desnecessárias. Tem aquela vontade de fazer o que apetece sem que uma obrigação moral, doutrinal, funcional e até espiritual lhe esteja colada como um cordão umbilical à sua progenitora. Gosto particularmente desta comparação para explicar o estado do Padre João. Sabe-se que a intimidade que o novo ser possui com a mãe lhe advém dessa religação de ser, o cordão umbilical. Mas também se sabe que se não se corta, nunca será o verdadeiro ser para o qual esse cordão serviu. A vontade do padre João fugir é, portanto, a vontade de ser, tal como a mãe natureza, a que eu ouso chamar de Deus, teve o ensejo de vocacionar. Ser verdadeiramente padre.
Não sei muito bem como falar do padre João. As palavras tornam-se tão confusas como a cabeça dele neste preciso momento que, afinal, já se vem arrastando há semanas. O padre João está cansado de ser e de viver à custa do que os outros esperam dele. Quando decidiu dar este rumo à sua vida, prometeu que iria dedicar a sua vida àquilo que Deus esperava dele. E agora sente que está a fazer, não o que Deus espera, mas o que os outros esperam, o que nem sempre, ou quase nunca, coincide. Por isso se vê tentado a não fazer nada, a fugir, a esconder-se para se sentir ele próprio, a desaparecer para poder ser. O padre João está com vontade de não fazer nada. Esse nada que, afinal, é tudo o que ele queria neste momento.
terça-feira, novembro 28, 2017
Será o padre um homem como os outros?
É hábito que, sobretudo em ambiente de café, quando aparece um padre e se senta numa mesa tal como os outros circunstantes desse espaço, se façam afirmações do tipo O padre é um homem como os outros. É a frase típica quando se quer dizer que o padre também pode cometer excessos, beber uns copos, participar numas farras, bailar ou divertir-se. É curioso que, em muitas destas ocasiões, o padre é, como se costuma dizer, mirado e remirado com desconfiança. Mas mesmo assim dá origem à famosa expressão que serve como justificação para dizer que o padre também pode ter os seus deslizes ou fragilidades. Preferia pensá-la como se fosse o mesmo que dizer O padre é cá dos nossos. Mas até isso é excessivo, se for para exprimir que faz parte do grupo dos boémios. Melhor seria que fosse para dizer que é um dos nossos no sentido em que é o nosso padre.
Na minha modesta opinião, um padre não é propriamente um homem como os outros. É homem como os outros. O que é substancialmente diferente. Aliás, ninguém é igual a outro. Não queremos que o padre seja igual a qualquer outra pessoa, e se o fosse, que essa pessoa fosse Cristo. Mas até isso poderia também ser excessivo, porque não há outro Cristo que não o próprio Cristo. A nossa almejada configuração a Ele nunca poderá ser uma transformação na sua pessoa. Isso mesmo me diz que é arriscado dizer que o padre deveria ser um outro Cristo, ou como alguns documentos da Igreja referem, um alter Cristo. A configuração com Ele, une-nos a Ele, coloca-nos no seu íntimo, tal como o colocamos a Ele no nosso íntimo, mas nunca nos transformará n’Ele. Bom, mas parece que me estou a distanciar do que queria dizer sobre O padre é homem como os outros. Dizia eu que não me parece uma afirmação acertada. Não significa que eu não queira que os padres sejam homens. Mal deles, se fossem anjos ou um outro ser divino que não tivesse os pés na terra. Não são seres sobre-humanos ou dotados de uma qualquer forma que não seja humana. São seres humanos, que, tal como todos os seres humanos, têm debilidades. Do mesmo modo, têm gostos, pensamentos, sentimentos, opiniões, formas de viver como toda a gente. Mas um padre não tem de ser igual aos outros, tanto como não tem de ser diferente. Tem de ser tão só um padre que é homem como os outros.
sábado, setembro 23, 2017
O papa e os padres
Há um ou dois dias li, numa das redes sociais da moda, uma crítica ao Papa Francisco pelo facto de estar sempre a criticar os padres. Pelas palavras usadas e pelas entrelinhas dessas palavras, aquilo pareceu-me mais um ataque que uma crítica. Para o autor do artigo, pelos vistos um colega, cada vez que o Papa falava dos padres, mesmo quando dizia o que deviam ser e não propriamente o que não deviam ser, entrevia nele palavras de ataque aos padres. E acrescentava, ou teimava, que era obrigação do Papa acarinhar e proteger mais os seus. Como se o restante povo de Deus não fizesse parte dos seus. Todo o texto era voltado para dentro, para a Igreja formada pelo “clero”, na génese do que significava essa palavra na Grécia Antiga, a “herança ou parte escolhida”. Ou o que se documentou no concílio Vaticano I que falava da Igreja, referindo-se à hierarquia, como a sociedade perfeita. Ou o que podemos recordar dessa época medieval com um clero que vivia à custa do poder.
O Papa mais não faz do que aquilo que fazia Jesus chamando a atenção dos anciãos, dos apóstolos e dos fariseus quando estes, convencidos de que eram os mais sabedores, os mais perfeitos e os mais cumpridores, viviam uma religião de méritos ou de puros.
Tem razão, na minha opinião, o Papa. Os que coordenamos ou dirigimos a barca da Igreja deveríamos ser mais Cristo e deixarmos de insistir que somos um alter Cristo¸ como dizem alguns documentos.
Às vezes estamos tão convencidos daquilo que somos, que vivemos a defendê-lo, em vez de defender a Cristo. Vivemos a tentar demonstrar a nossa bondade em vez de mostrar a bondade de Deus. Tem razão o Papa. Enquanto nos mantivermos assim, autorreferenciais, convencidos da nossa dignidade, provavelmente não cumprimos a missão que temos nas mãos... e que devíamos ter em todo o nosso ser.
domingo, agosto 27, 2017
Mais um colega sacerdote foi levado pelo Senhor
Mais um colega sacerdote foi levado pelo Senhor, como se costuma dizer, para junto de Si. Não gosto da frase, mas uso-a. É uma frase que na morte nos diz que somos levados por Deus, como se Ele nos tirasse algo. Não gosto de pensar que Deus nos leva como quem nos tira a vida, sobretudo quando estou convencido que é nesse momento que mais nos dá de Si. Também não vejo Deus como um egoísta que leva as pessoas para si. Gosto mais de pensar que somos nós que vamos. Somos nós que vamos para ao pé Dele. Mas o que eu penso também deve ser de pouca importância.
O meu colega tinha tanto a idade como a falta de saúde propícias para falecer. Fui ao funeral que o senhor bispo presidiu. Não lhe destapei o rosto. Não me apeteceu. Não tive vontade de satisfazer essa curiosidade. E ao longo da missa, que me perdoem, mas o meu pensamento não poisou sobre ele, sobre o caixão ou sobre as suas memórias. Andou por todo o lado a pensar em mim, neste sacerdócio que vivo ao lado dos poucos que vamos restando. Cada vez é mais desproporcional o número dos padres que morrem dos que vão sendo ordenados. Cada vez sobram mais paróquias e mais trabalho para os mesmos. A nostalgia veio a mim. Não porque tenha medo. É só mesmo porque gostava que as coisas fossem diferentes.
Por isso o meu pensamento andou pelo relógio do tempo, umas décadas ou anos à frente, a pensar que um dia destes, se não mudarmos o modo como servimos a Deus, é bem capaz de ter de ser Deus a mudar.
segunda-feira, maio 22, 2017
Oração especial
Venho aqui, hoje, rezar por um colega que decidiu fazer um ponto de interrogação à sua vida sacerdotal. O que ele não sabe é que esse ponto de interrogação se pode transformar em ponto final num ápice. Ele disse-me que se tratavam de reticências. Eu percebi o que ele queria dizer, mas também pensei em muitas vírgulas. E que se calhar perdera o entusiasmo próprio dos pontos de exclamação constantes da nossa missão sacerdotal.
Às vezes é preciso enfrentar-nos e não enfrentarmos apenas a nossa vida. Estou com ele, no que está e no que vier, nas decisões que tomar ou que ficarem por tomar. Como creio em Deus, mais do que nos homens, estou seguro que Deus vai guiar cada um dos seus passos e reforçar o seu sacerdócio neste tempo solitário.
E rezarei, rezarei para que não seja um ponto final. Para que sejam apenas dois pontos.
E rezarei, rezarei para que não seja um ponto final. Para que sejam apenas dois pontos.
quinta-feira, março 23, 2017
Padres exclusivamente espirituais
Não falo dos padres que se esforçam por ter uma grande espiritualidade. Refiro-me aos que vivem uma espiritualidade exclusiva. Uma espiritualidade que exclui. Uma espiritualidade que tranquiliza e sossega. Uma espiritualidade que se justifica para não ter mais nada que fazer. São aquele tipo de padres que gastam a sua vida na sacramentalidade das celebrações e não dedicam nada do seu tempo à sacralidade da vida. Padres que se esgotam a pregar e se desculpam com as mil pregações que têm de fazer. Padres que precisavam sentir na pele a pele de outra pessoa. Ou sentir na carne o peso de outra pessoa. Padres que entram na casa das pessoas para as abençoar, mas se esquecem de curar as suas feridas.
Eu sei que não dá de beber quem não tiver o copo cheio. Sei que a espiritualidade sacerdotal é uma das dimensões mais fundamentais do sacerdócio. Sei que muitas vezes é a sua ausência que faz um mau sacerdócio. Mas também sei que outras vezes é a desculpa certa para ficarmos por ali, por uma espiritualidade exclusiva, que exclui.
sexta-feira, março 03, 2017
Os seres perfeitos dos padres
Sinceramente, e não levem a mal, às vezes tenho alguma pena das pessoas que fazem uma imagem dos padres como se fossem seres perfeitos, sem dúvidas, sem questões, com tudo já sabido da parte de Deus, como se tivessem o privilégio de saber as coisas de Deus antes dos outros. Ou daquelas que olham para os padres como alguém que vive acima do mundo, na estratosfera dos seres angelicais. Ou ainda daquelas que só querem saber dos padres quando querem saber de si mesmas, e lhes exigem os sins todos, como se eles tudo pudessem fazer.
Tenho pena delas e mais pena tenho de mim. Pois queria ser apenas eu, sem mais, e ser apenas mais um padre que tem de esforçar-se... como todos os cristãos.
terça-feira, fevereiro 28, 2017
O que faz um padre quando faz um funeral II
Se há coisa que mexe comigo são os funerais. Quem me conhece sabe que um telefonema da funerária me desestabiliza e incomoda. Em tempos idos quis desculpar-me com o funeral da minha mãe. Mas isso não fazia sentido, porque foi algo muito especial e que recordo como uma marca da minha vida e da minha fé. A verdade é que os funerais não me deixam indiferente, e lido com eles a fugir deles. Não fujo da sua celebração, da sua realidade, daquilo que tenho e devo fazer. Mas interiormente é como se fugisse.
Há dias, numa das minha meditações e devaneios espirituais, encontrei três respostas à pergunta que me fazia a mim mesmo sobre o que fazia quando fazia um funeral. Recordo que uma era a de que o padre cumprisse o ritual secular da morte como um dever cívico, social e algumas vezes laico. A outra era que o usasse de forma meio proselitista. E a última era que no funeral o padre se deixasse usar por um Deus que habita o homem, sobretudo quando sofre.
Entretanto, chegaram à beira da minha meditação aquilo que poderia classificar como os auxiliares de um Deus que não me quer encerrado em poucas respostas, e a coisa fez-me bem.
Alguém me disse, e não sei se recordam, que o padre faz num funeral aquilo que é pago para fazer, isto é, fazer o funeral. A pessoa não soube o alcance da sua proposta, mas eu pensei que essa poderia ser a minha quarta resposta. De facto, pode haver quem faça o funeral por cumprir o tal dever cívico ou social, e pode haver, por outro lado, quem o faça ou cumpra pelo preço do seu trabalho.
Outro alguém, que muito prezo, esboçou uma resposta que bem poderia colocar ao lado da minha terceira resposta, a do padre que se deixa usar por um Deus que habita o homem. Dizia ele que o padre também poderia ver naquela urna a Cristo expirado, e tomasse aquele corpo sem vida como a própria Mãe o tomou depois de descido do madeiro. Que estremecesse com a dor e a revolta de Deus, como quando a terra tremeu, o véu do templo se rasgou e os túmulos se abriram. Que pressentisse no meio do silêncio e das lágrimas a madrugada de Páscoa.
Ó Senhor, afinal, eu ainda não sei tudo do que faço quando faço um funeral!
terça-feira, fevereiro 14, 2017
Eu na periferia
Estou triste comigo. Com uma daquelas tristezas que se transpiram pelos poros e que, por mais que se use um perfume ou um desodorizante, cheiram a bafio. Fiquei triste comigo há cerca de uns quinze minutos, lá pelas vinte e uma horas da noite, quando bati à porta de um pobre daqui da terra. Com a agravante de que para saber a morada, tive de pedir a alguém que me ajudasse. Sinto agora que isso era uma agravante porque estou a pensar nela. Os meus motivos eram bons. Não posso dizer que não eram bons! Mas depois que a senhora me abriu a porta, dei conta que esta não me conhecia. Sabia que eu era o padre porque alguém a avisara que eu daria por lá um salto. Claro que me posso desculpar dizendo que ela não me conhecia porque não vai à missa. No entanto, não posso por o acento da situação nela. Tenho de o por em mim. E se ela não me conhece é porque nunca me dera a conhecer. Porque nunca batera à sua porta. Porque não fora ao seu encontro. Ao encontro da sua pobreza. Da sua periferia. E agora estou triste porque, afinal, não sou o padre que deveria ser.
sábado, fevereiro 11, 2017
Fraquezas e forças
Sempre gostei da frase de S. Paulo que diz mais ou menos assim Quando me sinto fraco, então é que sou forte. Gosto dela e já está. Compreendia-a como justificação para as minhas fraquezas. Compreendia-a como a garantia de que as debilidades nos fazem procurar a necessidade de Deus. Sim, o que eu pensava era que quanto mais débil, menos focado estava em mim, e mais me podia focar no auxílio de Deus.
Hoje, quando repetia esta frase, descobri algo ligeiramente novo. Que é nas minhas debilidades que se manifesta a força de Deus. Pela sua graça, pelo seu poder, e porque tudo se deve a Ele e não a mim, quanto mais débil, mais a força de Deus é o que nos capacita para viver. Quanto menos fazemos, mais Ele faz em nós. Quanto menos eu estou, mais Ele está. Quando nós fraquejamos, tem de ser Ele a aguentar-nos, a viver-nos. De certeza que era isto que Paulo queria dizer.
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