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quinta-feira, janeiro 17, 2008

De rabo a abanar

Quando entrei na igreja matriz também quis entrar. É uma criatura de Deus este cão, pensei. E embora pudesse ter melhores ouvidos à Palavra de Deus que muitos dos nossos cristãos, não fazia propriamente parte da comunidade. Esbocei um gesto para o afastar. Ou com medo ou com respeito, afastou-se. Dois acólitos que entravam comigo falaram-me da sua amizade. Que eram muito amigos. Aproveitei a ocasião para lhes falar das criaturas de Deus que merecem o nosso carinho. E assim demos início à Eucaristia.
Lá estavam os acólitos nas suas alvas brancas, de velas na mão, em frente ao ambão e eu a proclamar o Evangelho quando, por entre a multidão surge o nosso amigo cão. Algumas pessoas tentaram afastá-lo da ideia de se passear pela coxia. Em vão. Por entre calcanhares e pernas, foge e intenta chegar junto dos seus carinhosos amigos, os acólitos. Eu vou assistindo do canto do olho. Um no livro e outro no desenrolar da situação. Uma jovem mais decidida encaminha-se na sua direcção. Ele foge insistentemente e ela insistentemente corre atrás dele. Desiste depois. Era impossível. Para mim começava a tornar-se impossível também a compostura. Em pequenos trejeitos o meu sorriso ia crescendo. Tentava controlar-me. Por fim o cão chegou junto dos meus acólitos, mesmo à minha frente. Estancou e toca de abanar o rabo. De um lado para o outro. À espera. Parecia querer ouvir melhor a Palavra de Deus. Não teve medo, como muitos cristãos, de ir para a frente da Igreja. Impossível alhear-me da situação. Ainda por cima tinha presente o “de rabo para o ar”.
Um dos acólitos é obrigado a largar a vela e sair da Igreja para que o seu cão amigo o seguisse. Eu assisto. Resisto. Acabo a leitura e não resisto. Lá vai uma Palavra da Salvação que mais saiu como de exaltação. Paaa-lahaha-vrrraa da Salvahahaçã…

sexta-feira, setembro 07, 2007

De rabo para o ar

Fazia-se silêncio. Uns para me ouvir e outros para descansar da noite mal dormida. Os olhos na direcção do ambão, na minha direcção. Eu falava, falava, pregava. Já lá iam uns bons cinco minutos. A coxia estava desimpedida, como é normal. O fundo da Igreja repleto. Os bancos cheios. Mas tudo em silêncio. Agora imaginem o que é avistar, no meio deste cenário e deste silêncio, uma senhora dos seus setenta anos ajoelhar-se a meio e no meio da coxia depois de descalçar o chinelo para tentar acertar numa lagartixa que teimava em ouvir a homilia e que não sossegava, ao contrário das pessoas, percorrendo os espaços livres que lhe deixavam! E vai uma chinelada. E vai outra. Como a lagartixa insistia em fugir, a senhora coloca-se de gatas, rabo para o ar, e toca de gatinhar atrás da lagartixa batendo e batendo com o chinelo nas pedras da coxia. Do meio da coxia quase chegava ao cimo, nunca se perturbando com o aparato da situação. Parei. Poisei os olhos sobre ela. Poisámos todos. O silêncio trocou-se pelas gargalhadas. Tapei a boca para controlar as minhas. Não era possível. A lagartixa havia escapado. Entretanto, a senhora levanta a cabeça para mim à espera que eu aprove, compreenda e perdoe a posição de rabo para o ar. Pedi-lhe para acalmar. Pedi a todos. Mas foi difícil prosseguir a homilia, pois no meio da Palavra de Deus teimava em aparecer-me aquele rabo virado para o ar. São aquelas situações que nos fazem recordar o humor de Deus!
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Voltei, amigos, depois das férias e de ter estado a meio gás. Não resisti a contar esta situação caricata que me aconteceu nesse período. Obrigado pelas visitas e pela amizade.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Uma história dos fundos

Adoro ver as criancinhas como acólitos. Adoro ser rodeado por elas. Mesmo no meio de algumas confusões, no meio da eucaristia, em que tenho de repetir como se faz. Não que não estejam organizados. Não que não tenham alguma formação. Mas há paróquias em que o dito fica por dizer ou ensinar, por mais que seja dito ou ensinado. Mesmo assim, gosto de os ter à volta do altar.
Estava eu há dias no meio de uma eucaristia quando fugi, inconscientemente, para este pensamento. Como era bom ser rodeado por estes meus acólitos! Aturo-os, apesar das tropelias e tropeços. Faz-se por amor. De repente, sem ruído, do fundo, e no meio da consagração, o cheiro chegou-me, e cresceu de forma progressiva. Tentei não respirar e pensar que a suposta criança, que nem consegui adivinhar qual delas seria, estava precisada. Mas a situação era constrangedora. Consagrar sem respirar é difícil, descobri. Sorrir era delatar o infractor. Que fazer, então, com acólitos assim?! Ó Cristo, é que nem tu me ajudaste nesta!

quinta-feira, novembro 23, 2006

A chamada de Deus

Engalanados, como se costuma ir à missa, que é Domingo. Olhos e ouvidos atentos, pelo menos daqueles que não soçobravam do sono da noite anterior mal dormido. Estava no meio da homilia. Procurava que as minhas fossem as palavras de Deus. Ia já nos cinco minutos quando do meio dos engalanados se ouve um barulho estranho. Um telemóvel. Além desse, ouvem-se uns murmúrios, um cochichar. Olham-se uns aos outros. Eu não paro, que estava concentrado naquilo que afirmava. O telefone é desligado. Porém, não passou muito tempo para tocar de novo. Queria abstrair-me, mas não conseguia. Parei. Olhei para o nunca e pensei. Estarei a dizer alguma inconveniência e Deus quer-me prevenir?! Respirei fundo e falei com calma. Olhe, se é para mim, diga que agora não posso, que estou ocupado a fazer uma homilia. Só respondo se for Deus, e mesmo se for Ele, só atendo se for uma coisa urgente.
Gargalhada geral, e a minha foi a primeira, apesar de, com estas coisas de Deus não se brincar. Espero que não tenha sido Ele a ligar. Se foi, pelo menos ficou com medo e desistiu.

quarta-feira, março 01, 2006

Uma daquelas...

Início da Quaresma, como todos os anos, com a Quarta-feira de Cinzas. Cerimónia obrigatória da Imposição das Cinzas nas paróquias. Bastante gente, que aqui ainda há gente. Cerimónia simples e interessante. Explico. Benzem-se as cinzas feitas com os ramos de Domingo de Ramos do ano anterior. Benzem-se. Depois impõem-se sobre a cabeça de cada pessoa, dizendo “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. Ainda se podem dizer outras coisas. Mas digo esta enquanto coloco sobre a cabeça um pedaço de cinza. Explica-se a cerimónia depois da homilia. Aí vem o pessoal todo. Nem uma pessoa só fica sem vir até ao padre ou até ao ministro receber a dita imposição. O senhor António também. Até é dos que pratica. De vez em quando comunga. Avistei-o ainda ao longe, umas três ou quatro pessoas atrás. Geralmente baixam a cabeça para a imposição. Ele levantou-a bem. “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. Eu disse, e dispus-me a deixar cair a cinza sobre a sua cabeça. Mas não. Ele não se mostrava interessado. Língua de fora e Ámen. Era a sua hora da Comunhão. Esboço um sorriso. Pisco-lhe o olho. Para dizer que não tinha mal o hábito ou distracção. E impus-lhe as cinzas.