O Manuel, que é meu ajudante na paróquia e na missa, pelos vistos, faz parte da geração que não sabe calar o telemóvel ou usar a tecla de silêncio. Posta esta informação, vamos à missa que está na hora dela. Ou melhor, vamos ao final da missa que está quase a acabar. Faltam a oração post-comunio, os avisos e a bênção final. Levantamo-nos ou erguemo-nos para lhes dar lugar ou para acabar com elas. Dou início à referida oração e nisto ouve-se ali ao lado, a uns dois metros de distância, um porco a berrinchar de uma forma que achei assustadora. Calou-se tudo, menos o porco. Todos olhámos em redor. A matança do porco chegara à Igreja e à missa. Era o telemóvel do senhor Manuel. Fez-se ouvir até à porta de saída com o senhor Manuel a correr. Porco e senhor Manuel a fugir, e toda a assembleia a segui-los com a mão na boca para evitar os sons das gargalhadas. Bem quis dar avisos e a bênção final. Mas foi tudo a correr como o porco do telemóvel e o senhor Manuel. Terminada a missa, em vez do cântico final, a assembleia em coro, padre incluído, não conseguiu evitar fazer ouvir as suas gargalhadas. Pelo menos saiu tudo bem disposto da missa.
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quinta-feira, janeiro 09, 2014
segunda-feira, dezembro 30, 2013
Amar com a vontade de Jesus
Num dia destes em que Jesus nos disse no Evangelho Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros, no final da missa tomei a liberdade ou decisão, que alguns deverão ter ajuizado como tola, de sugerir que não tivéssemos receio ou pejo em dizer uns aos outros que nos amamos. Fi-lo porque acho que ainda temos muito medo desta palavra. E também para ser exemplo, algo que me saiu de uma vontade estranha, assim como um apetite que surge e não se explica, disse em cada paróquia como gostava deles. Na paróquia maior fui mais longe e acrescentei-lhe uma introdução. Apesar de, às vezes, não gostar de algumas coisitas, gosto muito de vós. Nem sei bem porque fiz tal acrescento, mas ele estava-me no inconsciente. Vieram depois à sacristia algumas pessoas dizer-me que também gostavam muito de mim. Foi muito bom, e espero que a comunidade seja cada vez mais autêntica no legado que recebemos de Jesus. Mas uma Lúcia mais atrevida perguntou porque é que eu tinha dito que não gostava de algumas coisas, mas gostava deles, como se isso não fizesse sentido. Eu respondi, de forma consciente, com a medida do amor de Jesus, pois que Ele também amava as pessoas não porque fossem boas, mas porque Ele tinha vontade de as amar.
E assim me despeço deste ano 2013, na expectativa de que o novo ano traga novidades neste nosso espaço: O Confessionário dum Padre
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quarta-feira, julho 24, 2013
Sem título
Ontem recebi duas cartas registadas, com o peso que têm as cartas registadas. Uma falava das dívidas da paróquia. Outra de uma questão de Segurança Social. Depois de abertas recebi um telefonema da senhora tal que queria uma coisa que não faz parte dos esquemas normativos dos sacramentos. Digamos desta forma discreta o pedido da senhora. A empregada falou do assunto que outra senhora fizera assunto sobre uma tal coisa que enfim, nem valia a pena falar. E ainda tenho de preparar a homilia da missa que vem a seguir. Sobra-me pouco tempo para Deus. Ou para mim. E porque penso que sou capaz, e porque tem de ser, e porque assim seja, e porque não tenho tempo para pensar que Deus é que é capaz, deixo-me arrastar para algo a quem um amigo chamaria de auto-projecção em Deus. Como se fosse eu o Deus que tudo pode. E depois vem em mim uma ansiedade que me impede de ter tempo, outra vez, para Deus. Porque tenho de conseguir. E outra vez porque tenho de ser capaz. E zango-me interiormente com as pessoas, porque elas é que me causam estas dores e estas necessidades de ser capaz, e ainda por cima parece que não me entendem, como se o problema fosse delas. E a partir do momento em que eu penso assim, a verdade é que o problema é meu. Só meu. Como ouvi alguém em tempos. Parece que te estás a levar muito a sério. E depois perdemos a liberdade. Acabamos por fazer aquilo que tem de ser feito apenas porque tem de ser feito e não porque Deus aja em nós ou porque de dentro de nós haja esta vontade de fazer assim. E aquilo que eu achava que era confiança em mim, afinal não é bem confiança. E aquilo que era eu deixar Deus ser em mim, acaba por ser um eu agir em mim. Ou se quiserdes, um deixar de ser Deus em mim, para ser eu como deus em mim. A ver se não me esqueço mais disto.
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segunda-feira, julho 15, 2013
As missas ou missinhas
Um colega ligou. Estava aflito. Ia ter um funeral e já tinha missas marcadas. Não tinha como fazer tudo. E era mais uma missa. Perguntei-lhe porque não pensava na hipótese de fazer uma celebração sem missa. E ele respondeu que demorava o mesmo tempo. E já tinha arranjado um colega mais livre. Também mais velho. Também mais reformado. E assim sossegava. Na altura não pensei muito no assunto. Desligámos o telefone e eu desliguei o assunto. Mas agora, noite dentro, ocorreu-me que nós, padres se calhar, andamos a banalizar a missa. Corremos a celebrar missas como quem vai e toma um café para se recompor ou angariar mais cafeína. Quantas missas, afinal, somos capazes de celebrar por dia ou por semana ou no tempo? Celebrar missas será a nossa missão? Depois de corrermos de um lado para o outro a celebrar missas para uma meia dúzia de pessoas, ou como alguém lhe chamava em tempos de missinhas, não estaremos a banalizar a missa?
quinta-feira, junho 06, 2013
Os ordenados dos padres
Um jovem de idade mais parecida com a minha do que com a dos jovens no vigor da idade, dizia-me em conversa, com uma certa admiração para comigo e que me deixou admirado com ele, que eu devia receber muito dinheiro. Não o disse como quem perguntasse ou desdenhasse, mas para afirmar que eu merecia um enorme ordenado, dado que o que fazia dava sempre algum fruto, ou de outra forma, onde tocava, algo de bom acontecia. Foi esta a explicação que me deu. Claro que fui para casa preenchido, como se não houvesse um cantinho em mim onde pudessem caber outras coisas, sobretudo as minhas fragilidades. Umas horas mais tarde, em conversa telefónica com um colega, assim como quem não quer a coisa, mas até quer, contei-lhe o sucedido. Este respondeu-me da seguinte forma, que me deixou com um espaço enorme para preencher com as minhas fragilidades. O que fazes, fazes a pensar em ti ou para ti, ou em Deus e para Deus? Eu esclareci-lhe que era em Deus, ou que às vezes era o que tinha de ser feito. E ele acrescentou. É que se fazes as coisas a pensar em ti, deverias receber muito mais dinheiro. Mas se as fazes a pensar em Deus, até o que recebes é demais.
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terça-feira, maio 21, 2013
Fui buscar ao baú das recordações com uma lágrima
Fui ao baú das recordações buscar uma lágrima. Vieram duas. Depois três, mas mais pequeninas. São pequenos sinais que desenham as faces, e me recordaram aqueles que o Senhor tinha para mim já lá vão dois anos. Recordei muitos dos seus rostos e a primeira lágrima veio do baú para mim, não porque esses rostos estivessem longe ou se tivessem perdido já no meu esquecimento. As segundas vieram apressadas para me recordar que as saudades são apenas formas de amar quem não está aqui ao lado, mas pode estar por dentro. As outras três vieram para me fazer sorrir, e dizer que ainda não houve um adeus, e que os que estão hoje connosco são os que amamos tanto como os que tivemos outrora. São aqueles que Deus nos deu para amar, ontem e hoje. Mas como fui ao baú, reescrevi, quase a papel químico, o que escrevera e deixara por lá, debaixo de umas mantas:
Uma, duas, três lágrimas. Perco-lhes o conto. Tenho os olhos fechados, mas olho para trás. Olho para o tempo. E prefiro pensar que este partir não é senão um até já. Prefiro dar mais valor ao tempo que foi do que ao tempo em que acaba. Se me perguntassem se era o que eu queria ou desejava, eu teria sempre de honestamente responder que não, porque afectivamente o meu coração iria sempre pedir para ficar com aqueles que amo. Mas é assim a vontade de Deus. E deve ser essa a vontade que os padres devem seguir. Foi para isto que me ordenei. Para dizer Sim a Deus quando e onde Ele quisesse. Foi assim há muitos anos e espero ter forças para o fazer todos os anos da minha vida. Mas o coração aperta tanto. E queria dizer Não. Queria que as lágrimas não se soltassem. Queria recuar no tempo e fazer de conta que ainda falta um ano ou que estamos noutro tempo, noutro ano. E mesmo assim, olho o tempo e dou graças a Deus. Aliás, é esta a forma mais cristã, mais altruísta e mais honesta de ver as coisas. Mais do que ver esta situação como um fim, uma partida, é olhar para estes anos e vê-los como uma graça que Deus nos concedeu a todos, a mim e a vós. Afinal um dia em que se diz adeus não pode apagar os tantos anos em que se construiu tanta coisa bela.
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quarta-feira, fevereiro 06, 2013
O padre que decidira deixar a comunidade sem padre
Hoje acordei com um sonho. Acordei quase num salto e fiquei na dúvida se não seria antes um pesadelo. Dizem que os sonhos são coisas do nosso subconsciente, coisas do dia-a-dia que levamos apenas para a noite de forma que não pareça realidade. Ou fruto da realidade que queríamos agendar. Não lembro as personagens do sonho. Tenho a sensação que conhecia alguns rostos. Mas a história desenvolvia-se à volta da figura de um padre que decidira deixar tudo para trás. Não sei se era por causa de uma mulher. Não sei se era por causa do bispo. Não sei se era por causa da paróquia. Não sei se era por causa de Deus. Não sei se era eu o padre. Só sei que o padre decidira deixar a comunidade sem padre. A mesma comunidade que o fizera sofrer quando não o tinham compreendido na sua fragilidade, quando não o tinham aceitado na sua pouca disponibilidade, quando conversavam desconfiadamente sobre ele no café, na fábrica ou na vindima, quando diziam mal dele nas costas, quando criavam uns piropos ao padre para apimentar conversas, quando evitavam os olhares com o padre, quando diziam que o padre só via dinheiro, embora não pagassem a Côngrua, quando não queriam saber se o padre estava bem ou mal, e só queriam saber se tinham padre para o que precisavam, quando o padre não era tido nem achado, quando o padre era só mais um padre.
O padre decidira abandonar a comunidade. Decidira deixar a comunidade sem padre. Acordei quando me surgiu a pergunta. E agora que vai ser da comunidade? Por isso é que acordei num salto.
terça-feira, janeiro 29, 2013
O casarão atrás e a casa em frente
O colega que está agora nas minhas antigas paróquias há dias fez-me o convite para entrar em sua casa, aquela que outrora foi minha, aquela que foi construída com a imagem que eu fazia dela. Morei lá quatro anos, os suficientes para me apegar à cor dos sofás que tanto gostava, aos azulejos pequeninos que havia escolhido de propósito, ao cheiro das madeiras e do aquecimento aceso. Não acedi ao convite. Aquela casa não é mais a minha casa, apesar de ter espaço suficiente para mais de uma dúzia de pessoas. Era o meu casarão. Por isso, talvez por lhe lembrar o cheiro e o gosto, eu não acedi ao convite.
Na altura em que as decisões de mudar de paróquias ficaram feitas, pensei várias vezes no meu habitat natural dos últimos anos. Não pensei apenas na casa que ajudei a construir com a minha imaginação. Pensei também na organização, nas estruturas que deixava, nas minhas formas de agir que já encaixavam naturalmente com as das pessoas, com os caminhos que trilhámos em comunidade. Recordo que na altura tive um pensamento que não quis reprovar: Os problemas que tinha nas paróquias já não eram os problemas que as pessoas criavam, mas os problemas que as pessoas tinham. Estava, portanto, com uma certa estabilidade pessoal, difícil de apagar. Muito difícil.
O meu Sim não tinha sido um Está Bem, nem tinha sido um Não ao que vivia. Tinha sido um Sim à vida e ao chamamento de Deus. Não era um Sim conformado. Era um Sim inconformado, porque a nossa missão deve estar sempre inconformada, desformatada, desacomodada. E parti. Parti com a certeza de que naquele momento o meu sacerdócio saía reforçado. Estar desprendido da minha casa, do meu habitat, das minhas coisas, das paredes com quem tantas horas falei, das minhas organizações, dos meu ganhos de onze anos, das minhas conquistas, até dos que amava, só me fez pensar que o meu sacerdócio não é meu, mas de Deus. Que a minha vida não é minha, mas de Deus. E isso fez-me bem. Muito bem, agora que vejo tudo a uma certa distância. A Casa que tenho hoje é pequena, fria ou quente consoante é Inverno ou Verão para não dizer mais, embora ajeitadinha. Tenho muito que tratar e organizar. Tenho muito que fazer e compor. Tenho muitas amizades por fazer. Tenho muito que amar. Não é bem deixar tudo para trás. Mas é deixar a vida que tinha, em troca de uma vida por ajeitar. E isso só fez crescer em mim o meu sacerdócio.
Mas já agora, ó Senhor, o que disse até aqui é verdade, mas a ver se não te lembras de passar a vida a tentar fazer crescer em mim o meu sacerdócio desta forma, que um padre não é de ferro.
segunda-feira, dezembro 03, 2012
O padre dos funerais
O padre António, chamemos-lhe assim, dado que tal como há muitas Marias, também há muitos Antónios no mundo, está a paroquiar seis terrinhas do interior, daquelas que só enchem as casas vazias por altura do verão com os emigrantes que regressam às suas paredes. O padre António diz, com pouco orgulho disso, que é o padre dos funerais, como se isso lhe estivesse colado à pele. No ano passado fiz oitenta funerais e zero baptizados. Acrescentou para explicar o atributo. Não sei o futuro daquelas terras. Não sei o futuro da nossa terra. Nem sei o futuro da Igreja, pois que sem nascimentos também não podem haver vocações ou cristãos jovens. Acenei que sim para concordar e que não para demonstrar desagrado.
Um senhor que está ligado a essas coisas, dizia-me há dias, em números, a situação do concelho onde moro agora. Desde o início do ano, já lá vão portanto cerca de seis meses ou meio ano, morreram mais de cento e vinte pessoas, o que dá quase um funeral por dia, e nasceram doze crianças, o que dá cerca de duas crianças por mês. Números à parte, o que quererão os homens desta terra? Considerações à parte, o que vai fazer Deus com esta terra?
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quinta-feira, julho 26, 2012
Corda bamba
Quando era pequeno, experimentei uma vez o trapézio. Ou parecido. Não foi no circo, pois foi à porta de casa, numa corda suspensa e presa a duas varandas que ficavam no primeiro andar. A ideia era caminhar de peito erguido, como os artistas, numa corda suspensa. Foi uma tentativa apenas. Não podia passar de uma tentativa. E bastou para fazer um rasgão na cabeça que teve de levar pontos. É aquilo que chamaria de corda bamba.
E hoje lembrei-me desta corda e desta experiência circense dos meus, para aí, sete anos. É que na minha vida de padre sinto-me muitas vezes desta forma, numa corda bamba. Mais parece um circo. Tocamos uma pessoa ou uma comunidade numa bela experiência de fé e sentimos que podemos avançar. Não só podemos, como é bom e dá vontade de avançar. São aqueles momentos em que alguém cresce para Deus com a nossa ajuda. E depois vêm outros momentos em que apenas nos sentimos a funcionar. Nos sentimos como funcionários e a fazer coisas. Uma festa de primeira comunhão que pode ser também a última ou apenas uma das muitas que podiam ser. Uma festa de baptismo para as fotografias e a refeição que vem a seguir. Um casamento para que conste que agora estamos mais juntos do que o que estávamos. Uma missa para não contrariar o ritual de ir à missa. Uma procissão que é tradição na terra. Um crisma que é para ser padrinho de outro crisma ou de preferência um baptizado. Uma burocracia na administração da paróquia que é mais uma empresa sem empregados. Uma papelada para constar que sabemos assinar. Não fazia assim Jesus. Não é isto ser padre. Isto mais parece um circo. E assim me sinto muitas vezes numa corda bamba e acabo por ter medo de, como outrora, fazer um rasgão na cabeça.
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sexta-feira, julho 13, 2012
Santo Anás
O texto da Oração dos Fieis, a determinada altura, dizia qualquer coisa como Deus nos livre das tentações de Satanás. Ora, Satanás toda a gente sabe que é uma das formas de tratamento para o Demónio ou Diabo. Mas quando se fala neste ser, só de o imaginar, a nossa espinha recebe um arrepio e peras. Porém, o arrepio que me percorreu a espinha no outro dia, durante a missa de uma das paróquias, não se deveu ao ser em causa, mas a outro que, à partida, faria parte dos bons e do reino celestial mais celestial que se pode imaginar. Conto. A Carlita deve ter uns quinze anos e é uma moça cinco estrelas. Quando vai à missa, participa nos cânticos e nas leituras. Lá estava ela preparadinha da silva, como se costuma dizer, para ler a oração dos fiéis. E tudo correu na perfeição até ao exacto momento em que surge a palavra “satanás” e a Carlita se desconcentra e acaba por apelar a Deus para que nos livre das tentações do santo Anás. E foi por este motivo que um arrepio me percorreu a espinha e me fez meter mão à boca para que ninguém visse a minha vontade de me espalhar em gargalhas. Todavia, aprendi duas coisas. Primeiro, que ninguém na assembleia devia estar atento, porque ninguém fez gestos parecidos com o meu. Segundo, para que peçamos que nos livre das tentações, este santo só pode ser o padroeiro das altas farras. Ora toma lá, santo Anás.
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sábado, julho 07, 2012
Reze, padre, reze. Mas não reze muito
O colega estava em casa de uma família amiga da paróquia. Acabado o jantar, o filho mais novo, um petiz de 11 anos, para meter conversa com o padre, revelou que a sua tia, uma senhora consagrada que mora num instituto religioso, diz que reza muito para que ele seja padre. A reação do padre não se fez esperar e aproveitou a deixa para mostrar que era uma óptima ideia. Ora ficas tu a saber, Afonso, que também eu tenho rezado muito para que tu sejas padre, para que Deus te chame e tu lhe respondas que sim. Nisto o pai do miúdo, bom homem, homem de missa que até, se for preciso, dá uma mãozinha ao padre, diz em tom de quase brincadeira. Reze, padre, reze. Mas não reze muito. O colega não contou o que se passou a seguir. Mas, para terminar a sua história, bateu-me no ombro e disse. São assim as famílias de hoje. Mesmo as famílias que vão à missa. Os filhos são poucos e é melhor que não sejam padres. E repetiu. Reze, padre, reze. Mas não reze muito.
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terça-feira, julho 03, 2012
O padre é uma loja aberta
A senhora chegou à hora que lhe deu jeito. Ainda não seriam dez horas. Queria falar com o padre. É só com ele. A funcionária informou que o padre não devia estar disponível. A senhora insistiu. Os padres devem estar sempre disponíveis. Foi desta maneira soft que a funcionária, com os olhos a olhar o chão, contou o que a senhora respondera. A sua forma de olhar para o chão deu-me a entender que não deveriam ter sido bem estas as palavras utilizadas pela senhora. Eu já tinha explicado à funcionária que preciso de tempo para mim, para as minhas coisas, para me preparar, para meditar, para organizar a paróquia e as coisas da paróquia, para fazer as homilias, para rezar. Por isso marquei horas e dias de atendimento, a não ser que hajam casos urgentes. A minha funcionária respeita muito este meu desejo. Mas muitas pessoas não. E é verdade que os padres devem ser pessoas disponíveis. Mas não têm de ser lojas abertas. Aliás, mesmo as lojas abertas têm horários de funcionamento. Para mim a disponibilidade do padre deve ser acima de tudo uma disponibilidade de coração. As pessoas vão ao médico quando este tem o consultório aberto. Vão às repartições quando estas estão abertas. Vão ao supermercado quando este está aberto. Mas vão ao padre quando lhes dá jeito e o padre, seja a que horas for, tem de ser a loja aberta.
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segunda-feira, junho 25, 2012
É aqui que se tem de estar
A Helena ligou-me ontem. Era minha paroquiana. Às vezes os meus antigos paroquianos ligam-me. Ou enviam mensagem. Anda bem, senhor padre? Que tal se dá por aí? Eu respondo que bem. De vez em quando, digo-o entre os dentes. Outras vezes digo-o com o coração. Outras apenas com a resposta. Outras digo sem pensar. Outras para despachar. Outras ainda porque apetece. Mas digo-o sempre com consciência de dizer uma grande verdade. É que temos de estar na vida como ela é. Não adianta fazer de conta que não é nossa esta vida ou este estar na vida. Costumo dizer que Deus me quer aqui e é aqui que tenho de estar e ser feliz.
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sexta-feira, junho 15, 2012
Não passamos o tempo na estrada, mas passamo-lo a correr
Depois das voltas e mais voltas de hoje, cheguei a casa com o carro cansado e na reserva. Tenho ao meu cuidado mais de uma dezena de terras. Algumas delas com uma ou duas dezenas de pessoas. E canso-me a andar de um lado para o outro. Gosto de estar com os meus paroquianos. Mas os dias e os fins-de-semana não chegam para chegar a todos, as vezes que gostaria de os ver, de estar com eles, de viver com eles. Queria fazer caminhada de fé com eles. Mas não posso ir sempre. Umas vezes têm Celebração Dominical com o diácono. Outras com o Ministro Extraordinário da Comunhão que está lá na terra. As que têm esse ministério a funcionar. Mesmo assim dou comigo a celebrar repetidamente para vinte pessoas que estão distantes, com poucos recursos e quase obrigado a tratar de coisas que deveriam ser da responsabilidade dos leigos e não dos sacerdotes. E canso-me a fazer estas coisas. Estas correrias. Quero levar Deus a todos. E depois zango-me comigo porque Deus, afinal, já lá está, e depois de mim há-de continuar a estar. E imagino-me em países ditos de Missão a percorrer caminhos sem estradas, para chegar a terras longínquas. A diferença é que quando lá se chega por fim, o padre tem dois dias para celebrar uma grande missa de três horas e um sem número de baptizados, e umas reuniões com os anciãos ou animadores da terra. Aqui corremos com o carro a carregar no acelerador, para quando chegarmos por fim, termos uma hora no máximo para celebrar uma missa quase a correr e voltarmos para outra terra a fim de repetir a coisa e a missa. Não passamos o tempo na estrada, mas passamo-lo a correr. Como levar Deus a terras que estão distantes, a dez ou quinze pessoas, repetidamente, sem que isso nos faça perder Deus pelo caminho?
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quarta-feira, fevereiro 29, 2012
a entidade máxima desta terra
A discussão fora acesa por alguém que dizia Não, desfavorável a alguém que dizia Sim, numa reunião de gente nomeada para decidir alguns rumos da paróquia. Várias vezes deitei água na fervura, pois ambos tinham a sua razão, que não estava longe do equilíbrio da minha. Mas às páginas tantas, um deles fala que nós, a paróquia, precisávamos de todas as instituições, em especial da Câmara, que era a entidade máxima da terra. Não querendo retirar qualquer mérito à observação da necessidade em si, nem à entidade referida, pois que lhe reconheço um papel enorme na terra, não hesitei, nem um mero segundo, e disse nuns decibéis acima do normal, mas sem exagero. Para fazer uma afirmação clara. Eu não me subjugo nem me subjugarei a nenhuma entidade, a não ser a máxima entidade que conheço e que é Deus. Todos precisamos uns dos outros, umas entidades das outras, e precisamos aprender a fazer comunidades integradas, se assim lhe quiserem chamar. Mas Deus é que é a minha entidade máxima desta terra. E de todas as terras. E da Terra
sábado, janeiro 28, 2012
Nunca vos esqueçais de Deus que Ele também não se esquece de vós
A Capela fica no meio de uma terra que tem uns vinte habitantes, não muito mais. É uma capela simples. Tem uns bancos e um altar. Tem um retábulo que não parece antigo. Fui até lá celebrar a missa com aquela minha gentinha. A maioria de xaile preto aos ombros. Gente que está para ali e que trata dos rebanhos ou do quintal. Há um ou dois que vão à freguesia trabalhar. Esta terra é uma das minhas muitas anexas. Gosto da forma como as pessoas falam comigo dentro da igreja que à porta está frio. Gosto delas por serem como são. Mas não posso ir lá muitas vezes celebrar a missa. É impossível correr a todas e a toda a hora. A distância também não ajuda. E a maior parte mora ali e não tem transporte fácil para ir à missa da paróquia. Cantam como podem, ou deixam que eu cante. Cantam, arrastados, atrás de mim. Para ler as leituras tenho de insistir que, mesmo que leiam devagar, conseguimos perceber. No final da Eucaristia disse-lhes como Deus gostava deles. E que eu ia lá celebrar uma vez por mês num dia de semana. E mais disse assim. Nunca vos esqueçais de Deus que Ele também não se esquece de vós. Já sabem agora porque quero lá ir celebrar com eles.
sexta-feira, novembro 11, 2011
Queria uma missa no dia tal
Entrou despachada com uma amiga. Na sala de atendimento da nova paróquia estava uma funcionária que perguntou o que desejava. Eu entrei entretanto. Ela queria uma missa no dia tal. E a amiga três dias depois. A funcionária informou que ainda não sabia que missas havia por essas datas, porque o senhor padre entrara há pouco na paróquia e ainda estava a organizar as coisas e as datas. Ela insistiu que queria uma missa no dia tal e que a amiga queria três dias depois, dado que fazia anos que alguém importante para elas tinha falecido. Interrompi para explicar que já não era possível celebrar em todas as datas que as pessoas quisessem porque os padres eram cada vez menos e as vidas paroquiais tinham de se organizar. Mais ainda, que teria de marcar em data aproximada na qual houvesse missa na paróquia. A funcionária apresentou-me dizendo que era o novo pároco. Não conhecia ainda. Não sabia. Não imaginava. Olhou para mim com espanto e com ar desconfiado. Não discutiu muito, embora torcesse o nariz. De qualquer maneira perguntou como é que poderia ela saber a data da celebração da missa. Expliquei, com alguma matreirice, que essas informações eram dadas na Missa da paróquia. E tão pronto como expliquei, ela explicou também. Eu não vou à missa e reticências, que não quis dizer mais nada que isso. Sorriu engasgada com a minha matreirice, mas não ficou incomodada. Pronto, está bem, disse. E saiu, tão despachada como entrou.
segunda-feira, novembro 07, 2011
cinco Instante: o Víctor
Veio dar-me um abraço. O último abraço. O senhor Víctor é um reformado que já experimentou a vida. É um homem que, quando fala, diz o que a vida lhe ensinou. É estudado. Tem património. Tem uma vida preenchida. E aprendeu a ser cristão, disse-me, com a minha presença. A face encheu-se de um rubor que parecia timidez. Mas não. Era a face de quem gostaria de vociferar ao mundo. O senhor libertou a nossa paróquia de pecados que não cometemos. Olhei para ele com ar espantado, e perguntei que queria dizer. Quero dizer o que disse. O senhor libertou-nos. O senhor mostrou-nos quem era verdadeiramente Deus. Mostrou que Deus nos ama como somos. Que não nos oprime. O senhor mostrou-nos que a fé não se vive com proibições, mas com caminhos. Que a fé não se vive com medos ou com coisas negativas, mas com a alegria de pertencer a Deus. Até hoje os padres ensinavam-nos um Deus que julga e que manda, um Deus que está à espreita para nos levar para o inferno. E o senhor ensinou-nos que Deus, que é pai, tudo faz para nos levar para o céu. Obrigado, senhor padre. Dê cá um outro último abraço.
quinta-feira, novembro 03, 2011
quatro Instante: a Helena
Ligou-me a medo. Não quero incomodar, senhor padre. A Helena nunca faltava à missa, mesmo da semana, porque entrava na missa com olhos tristes e saía com os olhos a sorrir. Ao longo destes anos não teve para comigo grandes manifestações do que quer que fosse. Apenas sorria quando a olhava por entre os bancos da Igreja. Recordo-me de um dia me dizer que me devia a força de vontade de continuar a vida com a sua doença e os seus problemas. Mas era discreta. Tão discreta que no dia da despedida, não se despediu. Andava já há dias para ligar-lhe, senhor padre, mas não queria incomodar. E se agora estou a incomodar, diga que eu ligo outra hora. Respondi que todas as horas eram boas para receber telefonemas e mensagens daqueles que aprendi a amar nas paróquias e que isso até me dava ânimo para a nova missão. Sossegou então. E foi dizendo que tinha saudades. Que a sua vida não mais era a mesma. Que a vida da paróquia não mais era a mesma, embora o novo padre até fosse bom padre. E que gostava de me ver, mas que, dada a idade avançada, isso não devia acontecer. Mas enfim, é a vida. E fomos assim dialogando sobre tudo e nada. Já no final do telefonema, disse porque ligara. Senhor padre, eu só liguei mesmo porque não tive nem tempo nem coragem para o fazer antes. E queria agradecer-lhe pela fé que me ensinou. Hoje sei que tenho fé. Antes não sabia. A chamada caiu, porque desligámos o telefone. Eu caí em mim, e disse. Estes telefonemas fazem-me ter vontade de ser padre onde Deus quiser que o seja.
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