Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final.
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim.
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.