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quarta-feira, janeiro 03, 2018

Uma confissão banal

Confesso que faço demasiadas vezes a pergunta a Deus sobre o que ele quer de mim. Imagino-o a assobiar para o lado, cansado de ouvir insistentemente a mesma pergunta deste pobre padreco. Com tantos assuntos com que tem de preocupar-se, porque cargas de água havia de prestar atenção a uma pergunta tão banal e que, afinal já respondera uma que outra vez. Talvez o padreco estivesse distraído com os seus muitos afazeres. Talvez já não recorde mais, por entre as teias de aranha do tempo, o que lhe disse naquele famoso retiro de há décadas, quando lhe respondeu directamente Quero-te a ti, e ponto final. 
Confesso que também eu estou cansado de fazer a pergunta. Parece que ela já me sai dos lábios sem que dê conta. Como quando se vai ao dentista, se leva uma anestesia e não se consegue controlar verdadeiramente os lábios. Já me tenho mordido, sem querer, à custa dessas anestesias. Talvez devesse morder de novo os lábios e calar o que me vai no coração. Talvez a resposta que um dia Deus me deu bastasse para viver ao comando de uma série de paróquias, de uma outra série de serviços e prestações à Igreja. Mas eu imagino sempre os meus diálogos com Deus como se fosse um namoro. Gosto tanto desta forma de pensar a minha relação com Deus que às vezes até me parece uma veleidade. Ou soberba. Mas é por essa razão que eu faço insistentemente a pergunta e espero constantemente a resposta. Sim, tal como no namoro não basta dizer uma vez Eu amo-te, também a mim não me basta que Deus me diga uma vez que quer de mim. 
Confesso que no fundo, assim, lá naquele cantinho que só existe quando estamos sozinhos e a falar connosco mesmos, eu até consigo esboçar a sua resposta. Tenho umas quantas pistas dela. Mas eu queria ouvir. Ouvir para me assegurar que as pistas são, afinal, mapas. Queria ouvir, porque apesar de saber que fui escolhido para ser sacerdote, eu não sei sempre como sê-lo. Era tão bom que, de vez em quando, pelo menos uma vez por semana, o Senhor Deus se distraísse um pouco dos seus mil afazeres para me dizer Agora faz assim. Mas não diz. Espera por mim, pela minha descoberta, pela minha resposta. Diz ele que essa é a sua resposta. Que a minha resposta é a sua resposta.

terça-feira, junho 20, 2017

Uma profissão de fé com pouca fé

Eu sei que isto parece mais uma das minhas queixas. Mas queixo-me só para ti, Senhor, baixinho, para que ninguém ouça o meu coração de padre a palpitar. Entrego-te estes miúdos que andam na catequese e que vão fazer a festa da profissão de fé. Entrego-te em especial aqueles que não voltaram a confessar-se desde a primeira comunhão, há três anos. E aqueles que não sabiam o acto de contrição para se confessar. E aqueles que pouco mais voltaram à missa e que, envergonhados, diziam que costumavam ir algumas vezes, que é o mesmo que dizer poucas, ou muito poucas. E aqueles que já nem sabem a oração do Pai-Nosso. Sim, essa oração que cada cristão deveria ter na ponta da língua, e que, pelo menos, este miudos tinham aprendido há quatro anos quando, na catequese, fizeram a festa do Pai-Nosso. 
Senhor, peço-te por eles, e pela Igreja dos tempos actuais que vive desta forma desprendida daquela que é a verdade da fé. Peço-te, em último lugar, por mim, para que não esmoreça a vontade de ser um verdadeiro modelo de fé, um verdadeiro testemunho do Evangelho, e não deixe de cumprir, em cada tarefa eclesial ou sacerdotal, o mandato que deixaste aos teus apóstolos de anunciar a Boa Nova, isto é, evangelizar.

sexta-feira, abril 21, 2017

Abandonar-me

Agora que estou aqui nas minhas meditações, acho curioso que Deus nunca me tenha abandonado. Mesmo nas ocasiões em que bati com a porta ou lhe virei costas porque já não aguentava a sua conversa. Sim. Sinto que nunca fui abandonado por Deus, ainda que às vezes não lhe tenha sentido a presença. Não porque Ele não estivesse lá, mas porque eu teimava em vê-lo como queria e a fazer-me as vontades como eu imaginava que necessitava. 
Agora que estou aqui nas minhas meditações, quero agradecer-te por teres uma forma de amar que ultrapassa todas as formas de amar que conheço, por estares sempre lá, naquele local que não sei dizer o nome, mas que é meu e muito mais teu.

quarta-feira, março 08, 2017

Ficar horas por ali

Já deve ter dado para perceber, pelas vezes que escrevo diante do Senhor exposto, que gosto imenso desse espaço de oração. Ficaria horas por ali. Gosto de estar sozinho com Ele. De preferência com mais gente à volta, mas que não me distraia. Gente que me faça sentir Igreja e comunidade naquela hora de intimidade com o Senhor. Gosto e pronto. Mas isso não significa que o tempo passe sempre sem que se dê conta. Também dou por mim a olhar o relógio, a distrair-me com uma mosca, com a beleza do espaço. Além disso falo bastante. Entrego-lhe muitas coisas. E entre estas distrações e palavras, custa-me o verdadeiro silêncio. Estar assim. Sem dizer nada e à escuta. 
Em tempos li que um determinado asceta gastava horas a respirar e em silêncio até descobrir Deus nesse tudo. Mas que foram meses e anos de trabalho interior. Gostava de também ser asceta, mas em muito menos tempo, que eu sou fruto desta época de imediatismo. Gostava de um dia poder dizer, como aquele camponês que passava horas na Igreja do Cura D’Ars, quando este último lhe perguntou o que fazia nesse tempo. Eu olho-o e ele olha-me.

domingo, outubro 23, 2016

Marquito, um exemplo de oração

O Marquito anda no quarto ano. É bom moço. Vive com a mãe, que tem um emprego precário. Por isso não são de muitas posses, nem podem gastar dinheiro em coisas prescindíveis. 
No outro dia o Marquito, ao passar numa loja da worten viu um tablet que estava em promoção e que lhe arregalou os olhos. Imaginem o que seria de bom poder receber uma dessas coisas que quase todos os coleguinhas da turma têm. Por isso, sabendo das dificuldades lá de casa, em vez de pedir à mãe, decidiu pedir directamente a Jesus, esse Amigo com letra grande de quem tem ouvido falar maravilhas na Catequese. E assim, contou a mãe, todos os dias à noite, antes de adormecer, dirigia um pedido a Jesus para que no dia do seu aniversário tivesse a alegria de receber um tablet daqueles que são fixes e estavam em promoção. 
A mãe não sabia que fazer, mas sabia que quase de certeza não conseguiria juntar poupanças até ao seu aniversário para esse efeito. Como de facto. E no dia em que o Marquito cumpriu mais um ano de vida, o desejado tablet não apareceu lá por casa. Por isso, à noite, antes de deitar, a mãe decidiu ter uma pequena conversa com o seu filho para lhe diminuir a tristeza. Então, meu filho, estás triste porque Jesus não te respondeu? E para espanto da mãe, o Marquito respondeu que só estava um bocadinho triste e que Jesus lhe tinha respondido. E sem que a mãe interviesse de novo, ele acrescentou. Ele respondeu, mãe. Ele disse-me que não.

sexta-feira, agosto 12, 2016

As famílias que não rezam

Numa reunião de pais de meninos que iam fazer a festa da Oração do Pai Nosso, estivemos a reflectir sobre o valor e importância da oração. Começámos por fazer um pequeno inquérito anónimo sobre aqueles que tinham por hábito rezar com os filhos em casa, fosse muito ou pouco. Constatou-se, no final do escrutínio, que mais de 50% não rezavam praticamente nada, e uns 20% rezavam muito pouco. Foram honestos os pais daqueles meninos, e chegámos juntos à conclusão de que a oração está ausente nas famílias de hoje, mesmo as famílias que se dizem cristãs ou que têm filhos na catequese. Alguns concluíram que tinham de alterar a percentagem. Outros, não sei. O que sei é que, como imaginava, as famílias dedicam muito pouco tempo das suas vidas a falar com Deus.

terça-feira, março 01, 2016

Temos medo do silêncio

Temos medo do silêncio. Na nossa sociedade ruidosa temos medo de fazer silêncio. Por isso, mesmo quando não se fala ou não se tem com quem falar, como é o caso de andar de metro, comboio, autocarro, ou simplesmente a pé, ali vai toda a gente com auscultadores nos ouvidos a passar música. Temos medo do silêncio exterior e interior, que nos faça dar conta de nós próprios e daquilo que somos na verdade: um pequenino corpo da criação de Deus. 
Temos medo do silêncio e falamos mais que escutamos. Ora, se não conseguimos escutar o outro, como conseguiremos escutar Deus? Temos medo do silêncio e não fazemos silêncio para ouvir Deus. Por isso a oração que fazemos é mais a falar que a escutar. Falamos mais que ouvimos. Por isso não damos conta de que Ele fala. Por isso nos queixamos que Ele não nos fala. 
Por isso fugimos do silêncio e achamos que Deus está em silêncio.

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

A caipirinha

Estava diante do Santíssimo com um colega ao lado. Outro sacerdote. Outro cristão. Outra forma talvez de viver a fé. Ele ajoelhara-se para falar ou escutar o Senhor. Eu colocara uma perna em cima da outra, traçadas, esticado para trás, confortavelmente em posição habitual em mim. Em tom de brincadeira, o colega levantou o rosto, olhou para mim de alto a baixo medindo a posição em que me colocara diante do Senhor, e insinuando que aparentava estar num bar, disse. Queres que te vá buscar uma caipirinha? 
Baseado na chamada oração corporal, e em toda a demonstração orante que o nosso corpo faz, tem razão o meu colega. Tratava-se de estar diante do inefável, do Deus que se ama com respeito. Mas eu só estava a falar com um amigo, o Senhor, e com os amigos eu falo assim.

sábado, dezembro 19, 2015

Não falo não falo e não falo

Hoje não me apetece olhar-te. Estás aí na Sagrada Custódia e estás bem. Deixa-te estar quietinho. Teimo que não me apetece, mas procuro-te de soslaio, para que nem eu dê conta que te estou a olhar. Baixo a cabeça. Olhar o chão é-me mais fácil. Conto as pregas da madeira e assim não penso em nada. Queres falar, fala para aí sozinho. Hoje não me apetece escutar-te. A vida está meio estranha. Não me canso dela. Gosto da vida que me deste e gosto da missão que me deste. Mas hoje apetece-me ficar sozinho. Não me procures. Lá estas tu a tentar-me. Não estou sozinho nesta capela diante do altar e de ti que estás exposto à adoração, senão assobiava para o lado. Ó pá, não compreendo porque há tanta coisa na vida que não me deixas compreender. Por isso hoje fico aqui sem te falar e sem te olhar. Talvez assim faças alguma coisa à minha maneira. Queres fazer à tua maneira? Não estás cansado que assim seja? A tua maneira já passou de moda. Não falo não falo e não falo, já disse. Sossega que eu também fico aqui sossegado. Não te incomodo. Por isso também não me incomodes. 
Levanto enfim a cabeça com vontade de assobiar para o lado, e olho-te. Não queria falar, mas já falei tanto contigo hoje! Não queria olhar-te, mas não deixava de te ver nos meus pensamentos! Ele há cada uma!

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Senhor, toma o meu pecado

Como um amigo me dizia um dia e eu fixei no mais íntimo da memória, Para Deus sempre o melhor. E tenho-me esforçado para que o que lhe dou seja sempre o melhor de mim. O melhor que lhe possa dar. Hoje descobri, por isso, que não me tenho entregado por inteiro, pois nunca me lembrara de lhe entregar o meu pecado. Já falei com Ele várias vezes disso. Mas guardei o pecado para mim, como uma coisa que só se diz. E faz. Não é algo que se entregue a Deus. Que falta de gosto em oferecer a Deus pecados! Que faria com eles? Não os necessita nem faz parte da sua condição divina. Mas preciso eu de lhos entregar para que nada de mim fique por entregar-lhe. 
Não o faço para me aliviar deles. Não o faço para que mos perdoe. É estranho dizer isto, porque bem preciso que mos perdoe. Mas hoje quero fazê-lo a pensar no sentido que faz entregar-lhe todo o meu pecado, para que ao fazê-lo, me entregue deveras com tudo o que sou. Aceita-me, Senhor, como sou, e toma o meu pecado.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Rezamos pouco

Rezamos pouco. Esta é a realidade. A nossa Igreja reza pouco. Dedica pouco tempo à oração. Mesmo quando celebra a Eucaristia ou outros sacramentos. Mesmo quando usa a piedade popular, o rosário, as jaculatórias, as orações dos postalinhos. Mesmo quando afirma, para sossegar a consciência, que a vida é toda ela uma oração. Pelo menos aquela vida de entrega a Deus. Nós, os padres, somos peritos em usar este argumento falacio. Eu também rezo pouco. Rezo muito pouco. Ou rezo poucas vezes.
Os momentos de oração são aqueles momentos em que entramos na intimidade com Deus, na intimidade de Deus, ou deixamos que Ele entre na nossa humanidade. É aquele espaço de encontro de amor que faz entrar em nós um entusiasmo sem explicação. Aquele entusiasmo que a criança sente ao colo da mãe. Aquele entusiasmo que o amor sente ao ver a amada. A oração não é para ter paz ou estar bem. A oração traz-nos essa paz e esse bem-estar, porque nela estamos em Deus. A oração é aquele não sei quê que não conseguimos explicar, porque entramos num mistério tal que só nos apetece estar ali. Ali com Deus e em Deus.
Por isso rezamos pouco. Porque poucas vezes fazemos autêntica oração.

sexta-feira, maio 15, 2015

Falar de Deus e com Deus

Parece-me que as nossas liturgias, as nossas pregações, as nossas orações estão cheias de palavras tão feitas, tão clericais, tão eruditas, tão bem compostas, mas tão pouco nossas. Falamos de Deus e com Deus como se não estivesse ao nosso lado como estamos ao lado uns dos outros. Usamos as palavras sem as tornar nossas. Falamos com a boca, às vezes com a inteligência, mas pouco deixamos que fale o coração, que é quem melhor sabe usar as palavras.

terça-feira, abril 14, 2015

rezar à mãe diante do Filho

O Senhor estava em cima do altar, envolvido em rosas brancas e rodeado de velas. O Senhor estava, como se diz na minha terra, exposto à adoração. Estaria ali todo o dia, exposto a todos os que quisessem contemplá-lo, meditá-lo, olhá-lo, estar com Ele.
Ali estavam duas dezenas de pessoas quando cheguei. Um terço delas a rezar o terço, isto é, a rezar à mãe diante do Filho. Inclinei, ajoelhei, sentei.
De facto falar com a mãe diante do filho não é mau. Só não é falar com o filho. De facto o terço é a oração dos simples, mas também pode tornar-se a oração dos que não conseguem fazer silêncio, dos que não conseguem dialogar cara a cara com Ele, dos que não conseguem ir para além de palavras, dos que preferem falar do que escutar.
Não fiquei triste, pois cada oração é sempre oração, e cada pessoa é uma pessoa que Deus ama e que eu também devo amar. Mas eu gosto mais de estar calado em frente ao Senhor envolvido em rosas, seja de que cor, a tentar escutá-lo.

terça-feira, agosto 12, 2014

Oração dos fieis super especial

Numa das minhas mais pequenas comunidades, daquelas que quase não precisam do sino para se avisar que o padre chegou, pois as casas são contíguas à Igreja, o insólito que já não é assim tão insólito, aconteceu. Estava a minha pessoa a verbalizar a homilia quando o telemóvel do António tocou. Este, que se encontrava numa das pontas de um dos bancos, retirou o dito som do bolso e, sem o desligar, atravessou o banco de uma ponta à outra, atrapalhado e atropelando os que lá estavam sentados, esquecendo-se que teria sido mais fácil sair pela ponta do banco onde se encontrava. As cabeças da comunidade voltaram-se para ele e não tardaram em ser abanadas para a direita e para a esquerda. Ainda o António não se encontrava na rua e já se ouvia o habitual Estou, sim, Estou. Interrompi a homilia o suficiente para que o António não fosse interrompido. O à vontade numa comunidade cristã familiar dá para estas coisas, assim como para outras que vieram a seguir. Até final da homilia, mantive-me o mais possível contido. Mas já na Oração dos Fieis, estando o António no seu lugar do banco, não resisti a fazer a seguinte petição. Nós te pedimos, Senhor, por aqueles que não sabem ou se esquecem de desligar o telemóvel antes de entrar na missa, e por aqueles que saem a correr da Igreja para o atender e ainda antes de saírem já o estão a atender. Oremos irmãos. E a pequena comunidade em coro, a sorrir, devolveu um Ouvi-nos, Senhor. O António virou-se para o lado correspondente à sua ponta do banco e recusou-se a dizer, como os outros, Ouvi-nos, Senhor. Ainda agora estou a ver a cara do António e a imaginar a cara do Senhor.

quinta-feira, julho 17, 2014

Como se põe toda a gente a rezar

Não há palavras como as que são ditas em oração. Não há diálogo mais cheio de amor do que aquele que é feito com Aquele que mais nos ama, Deus. Por isso a força da oração é das maiores forças do mundo, porque é a força do amor presente nas palavras. Assim sendo, um padre deve arranjar o maior número de estratagemas, salvo seja, para colocar os seus paroquianos a rezar. Claro que a oração para ser genuína tem de brotar do nosso coração e ser nossa, mas não custa nada dar-lhe um empurrão.
Ora, na semana passada saí uns dias para descansar e para fazer uma viagem fora de Portugal. No final da missa da paróquia ocorreu-me por toda a minha gente a rezar. Como sabeis, o vosso pároco vai sair uns dias em viagem. Queria pedir encarecida e carinhosamente a vossa oração. Assim, aqueles que querem que eu regresse, que rezem para que eu volte são e salvo. Aqueles que, porventura não desejem que eu regresse, que rezem também para que o Senhor Deus lhes faça o favor almejado. Não vos vou contar nem os que se riram nem as risadas que se ouviram. Vou apenas contar-vos que fiquei convencido que convencera toda a minha gente a rezar. Ou que pelo menos lhes ensinara que se pode rezar para pedir algo bom ou algo muito bom, entendam-me. Vá, verdade verdadinha, há muita gente por aí a rezar para que a vida da vizinha tenha muitos acidentes de percurso. Eu sei. Mas agora quero apenas rir-me. Ainda hoje à tarde me ri quando uma senhora me veio assegurar que rezara por mim e eu não resisti a perguntar-lhe se rezara para que eu regressasse ou para que não regressasse.

quarta-feira, março 05, 2014

Rezar é falar com Deus

Sentada à minha beira para me sussurrar e não ser ouvida senão por mim e por Deus, dizia que rezava pouco e que gostava mais de falar com Deus. Que gostava de falar com Ele, pedir-lhe coisas, contar-lhe coisas, agradecer-lhe coisas, falar-lhe como se falasse com a vizinha Amélia. Às vezes o meu marido diz que eu não estou boa da cabeça. Insistia que não rezava muito, pois gostava mais de falar com Deus. Interrompi-a duas ou três vezes para lhe dizer que isso era rezar. E como me parecia que ela não entendia o que eu queria dizer, enchi um pouquinho mais a boca e o tom de voz para dizer. Reza mais quem fala com Deus como se estivesse a falar com a vizinha Amélia do que quem diz orações sem falar com Ele.

sexta-feira, setembro 06, 2013

pequenina oração

Faltava uma hora para o dia dar lugar a outro dia quando me sentei nos bancos do santuário, do lado oposto à vitrina onde a imagem de Nossa Senhora se destaca. Olhei ao meu redor e contei doze pessoas espalhadas, cada uma por si e em seu canto, tantas quantas o número dos apóstolos. Curioso, disse para os meus botões. O silêncio da noite, iluminado por uns quantos focos, contrastava com o ruído do dia e o vai e vem dos peregrinos, uns a pé e outros de joelhos ou de vela na mão. Permaneci naquele banco cerca de meia hora e meia. Havia terços que eram quase devorados pelas mãos dos doze peregrinos. Iam desaparecendo e tornavam a aparecer por entre os seus dedos. Uma conta atrás de outra nas mãos e nos dedos em ritmo certo, mas calmo, como se um metrónomo estivesse na oração daquele gente. Dei por mim a rezar com a forma de estar daquelas pessoas. Contemplando-as, encantado pelas que não temiam rezar de joelhos. Mulheres e homens, sem distinção.
No banco fui arrastado pela sensação de pequenez diante dos outros doze. Pequenino padre. Pequenina oração. Não há hora melhor para se estar nos bancos daquele capelinha, em Fátima.

sexta-feira, março 29, 2013

Ser padre como um cireneu

Gostava de começar este texto com o blá blá blá fácil, embora sentido, que vem a propósito da quaresma, ou até da semana santa, ou até da Páscoa. Dizer coisas que são bonitas e tocam o coração. Falar da Paixão ou da morte, ou até da Ressurreição. Mas, com o avançado do cansaço, subiram-me os azeites à tona do sabor da boca, e apetece-me começar o texto com Esta é a minha cruz. Por isso dou asas à minha vontade e começo. Esta é a minha cruz. Depois digo que a minha cruz é ser padre. Imagino-me no meio de uma enorme multidão de pessoas que me acusam, que me insultam, que me açoitam, que me escarnecem, que me comparam ou à Igreja a um criminoso, que me fazem carregar com o fardo da cruz e me fazem subir montanhas mostrando a minha cruz. Aqui está ela. Para quem não conseguir avistar ao longe, que venham as televisões. E os jornais. Embora o papel esteja caro, que venham a voar com o vento, pois leves, chegam cá depressa. Sim. Esta é a minha cruz. Sou padre, digo. E depois de subir os montes, subo a cruz. Estou já com os braços abertos. Alguns querem abraçar-me e dizer que precisam dos meus braços, das minhas pernas, da minha voz, que precisam que eu desça da cruz, me torne vivo e lhes indique caminhos. Afinal o padre é isso. Mas outros olham-me com vontade de me darem vinagre a beber. Toma, que o teu sangue há-de jorrar todo pelos sulcos desta terra. Bem que eu queria ser padre doutra época. Padre doutra história. Pode ser da Tua, Senhor. Mas Ele não responde. Está também cansado e com o rosto sobre o madeiro. Afinal estamos ali os dois. Eu queria ser padre da Sua história, mas Ele diz-me que Ele é que está na minha história. Cansado disto, destas correrias que me trouxeram ao cimo deste calvário, as correrias de um lado para o outro, de uma missa para outra, de uma paróquia para outra, de umas vidas para outras, vou gritar. Vou gritar Pai, perdoa-lhes que não sabem o que fazem. Mas hesito. Porque eu também preciso do Seu perdão. E porque está ali Jesus na outra cruz e envergonho-me de usar as Suas palavras. Já sei. Vou dizer Meu Deus meu Deus porque me abandonaste. Vem a propósito. Tem tudo a ver. Porque a cruz era pesada e não a senti mais leve. Porém, não consigo. A voz ficou-me embargada nas duas primeiras palavras. Meu Deus. Fiquei com a boca aberta e de boca aberta. Voltamos então ao início. Vou só dizer que esta é a minha cruz. Ser padre. E do outro lado ouço uma voz conhecida. Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso. É Ele. Só pode. Foi Ele que mo disse do alto da Sua cruz. Já não o vejo bem. Estou com os olhos sem forças. Mas reconheço-lhe a voz. Ouvi-a muitas vezes ao longo da minha vida de padre. Ouvia na boca de muitos que vieram ter comigo e precisavam de um padre. Ou de mim somente. Como eu estava de braços abertos e Ele também, ocorreu-me dar um salto à Sua cruz para nos abraçarmos. Mas já não tinha forças. Não tinha forças para descer e subir de novo à cruz. Mas ainda conseguia falar. E tinha a certeza de que Ele era capaz de ler os meus pensamentos. Olha, Mestre, estás a ouvir o que eu estou a pensar? Esta aqui é a minha cruz. E acrescentava. Sou padre. Ser padre é a minha cruz. Sou um dos que gostaria de ser dos Teus. Se quiseres eu vou ai e dou-te um abraço. Imaginei-O a sorrir. Vou ai e tiro-te dessa cruz. Tiro-te a cruz. Atiro com ela para bem longe. Imaginei-O às gargalhadas. Como se fosse possível atirar a Sua cruz quando eu nem conseguia descer da minha. Mas estávamos ali os dois. A Sua cruz era maior. Era do tamanho Dele. E já ninguém quer saber de mim. Pressinto que estão todos a olhar para lá, para Ele na cruz. Foi um alívio. Ainda bem que Ele estava por perto na Sua cruz. Já posso descansar. Afinal a minha cruz é bem mais pequena. Sou padre. É pequena, mas pesa-me mais que a dos outros. Dessas não sei o peso. Se pudesse, atirava com ela. E no momento em que me apetecia dizer Afasta de mim este pequeno cálice, ouvi do cimo do calvário, daquela cruz gigante, uma voz conhecida que me disse Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.
 
Aproveito para desejar a todos uma Santa Páscoa. Que a nossa cruz seja um braço da Sua cruz que aponte sempre o Paraíso na Vida Eterna.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Aos berros com Deus

Desci as escadas zangado. Antes de pisar o primeiro degrau estivera a dizer umas quantas coisas ao lá de cima. Acabado de descer o último degrau, deparei-me com uma paroquiana de rosto fechado. Esbocei um sorriso largo e ela também. Olhei-a nos olhos e ela fez-me o mesmo. Sorrimos ambos como se quiséssemos fazer de conta que nada se passava. E o padre foi o primeiro a quebrar o sorriso. Então, dona Teresa, que se passa? Não sabia que fazer da vida e não entendia porque Deus não agia na vida dela como ela precisava. Nem a propósito, disse eu. Ainda agora estive a ajustar umas contas com Ele. A dona Teresa abriu o rosto de admiração, e disse, Olhe que às vezes apetecia-me berrar com Deus. Sosseguei-a respondendo que não havia mal nisso, e que eu berrava com Ele muitas vezes. Mais vale dizermos aquilo que pensamos. Afinal Ele já sabe e nós ficamos aliviados. Eu acho até que pode ser uma interessante forma de oração.

quinta-feira, julho 19, 2012

A oração da minha noite

Ontem à noite, antes de deitar-me, fui à janela, como de costume, olhar a noite, o céu escuro e pensar na vida. É um momento em que, embora não fazendo o exame de consciência, passo os meus pensamentos pelo declinar do dia que passou. E geralmente paraliso no tempo, considerando o meu tempo de vida, o que vivo e como vivo. Fico ali parado a pensar e a olhar. Quase sempre concluo que o meu dia não me satisfez. Há sempre um turbilhão de coisas que não estão bem, que não me trazem a paz, que não me fazem sentir realizado. E por isso rezei. Falei com Ele deste sentir. E neste rezar não me senti melhor. Passaram uns largos minutos, estava já a fechar a janela, quando me vieram estas perguntas à mente. Quem procuro na oração? Procuro-me a mim ou a Deus? E descobri que tinha estado à minha procura e não de Deus. Não deve ser assim a oração. E se ela nos traz paz é porque o estar com Ele faz isso. A oração não deve ser egoísmo. Não devemos rezar para nos sentirmos melhor connosco. Devemos rezar para nos sentirmos melhor com Deus.